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O Sexo e a Igreja


     O que sempre bloqueou e continua bloqueando a livre expressão da sexualidade humana é a oposição das religiões institucionalizadas (i.e., as Igrejas no sentido mais abrangente) a toda e qualquer forma não procriativa de relação e – muito hipocritamente – à ideia da importância do prazer sexual.

    Se é bem verdade que a hostilidade histórica de certas religiões face a outras tem causado um aumento alarmante da violência no mundo, a unanimidade entre elas se mantém sólida como rocha no que diz respeito à oposição às uniões não heterossexuais e à negação de que a busca do prazer é um fator integrante do relacionamento sexual humano. Qualquer tentativa de debate no sentido de amenizar o radicalismo dessas posições tem sido sistematicamente rejeitada por todas as Igrejas.

    Seria preciso, portanto, que os próprios fiéis fizessem um esforço para admitir a necessidade de avaliar por si mesmos a razoabilidade da "delegação" através da qual eles transferiram à Igreja que representa a sua religião um poder de decisão não só sobre a maneira pela qual se estabelece o contato entre o fiel e a divindade, mas sobre os comportamentos, hábitos, palavras, atos e até intenções do fiel, e isto em nome do(s) próprio(s) deus(es) específicos de cada religião.

    Por mais que as principais religiões monoteístas proclamem que, em última análise, todas adoram e cultuam um único e mesmo Deus, é óbvio que isso é pura retórica. Um Deus que preconiza o amor acima de tudo não pode ser o mesmo Deus que condena ao inferno todos os que não o sigam. Um Deus cujo filho morreu na cruz não pode ser o mesmo Deus que não tem filhos. Um Deus que preconiza a monogamia não pode ser o mesmo Deus que recomenda a poligamia.  Um Deus que promete eternidade, pureza e sabedoria ao espírito de todo aquele – homem ou mulher – que tenha vivido sob os seus preceitos não pode ser o mesmo Deus que promete prazer – inclusive o prazer carnal! – e riqueza material aos homens (e só aos homens) que tenham vivido sob seus preceitos.

    É mais do que tempo que os próprios fiéis entendam que essas contradições bastam para tornar indigna de confiança qualquer uma das religiões monoteístas. E quanto às religiões politeístas, essas contradições são nelas multiplicadas em proporção direta ao número de divindades.

    Eliminar as religiões institucionalizadas não implicaria eliminar a crença religiosa, que provém de uma necessidade existencial e não prejudica ninguém. Eliminá-las permitiria trazer de volta a nossa humanidade integral que as religiões institucionalizadas amputaram em favor da sua casta hipocrisia. Livres de profetas, igrejas, rituais, orações, preceitos e mandamentos, os homens e mulheres poderiam enfim ver-se diante da sua mais pura e verdadeira realidade humana.

    A religião institucionalizada é o último véu que nos impede de nos vermos como somos realmente. Não será este um motivo suficiente para abolí-la?

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