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O Gosto, Chave da Felicidade


    Quero aproveitar esse momento em que as ínfimas minorias estão com a palavra - para não dizer com o poder - para tentar "democratizar" um aspecto da experiência sexual humana. Eu já tratei disso em outros textos mais elaborados do blogue, mas o momento é propício à retomada do assunto. Minha esperança é, como sempre foi, a de que a exposição gere o debate, e a esperança é a última que morre!

    Quando jovens, toda nova experiência passa pelo nosso filtro do gosto. Por alguma razão ainda dificilmente explicável, talvez até de ordem genética, gostamos de algumas coisas que muitos desgostam e não gostamos de outras que muitos gostam. Alguns gostam mais do que é doce, outros do que é salgado; alguns se interessam de imediato pelas letras das canções, outros se apegam à música e quase ignoram a letra; alguns são afetuosos, outros não são muito "pele"; alguns adoram a velocidade, outros não; alguns gostam de formas arredondadas, outros de formas angulares; etc. O importante a reter é que o gosto se desenvolve através das experiências e a mesma experiência gera gostos diferentes em pessoas diferentes.

    O nosso assunto no Erotexto é o sexo, então vamos a ele. Todos hão de concordar que não há porque pensar que as experiências de ordem sexual recebam um tratamento diferente das demais experiências, em matéria de gosto. Nossas primeiras experiências sexuais foram imediatamente submetidas ao crivo do nosso julgamento. As experiências sexuais podem ser julgadas segundo, por exemplo, critérios estéticos; cada um de nós tem opiniões estéticas sobre as zonas genitais do homem e da mulher, a começar pelas nossas próprias zonas genitais. É mais do que natural que alguém, ao comparar seu sexo com o dos irmãos e irmãs tenha imediatamente uma preferência baseada na pura aparência. E não há porque afirmar, por exemplo, que o pênis é mais bonito que a vagina ou vice-versa. Cada um terá sua própria opinião pessoal baseada por critérios próprios e às vezes não explícitos do que as leva a preferir o aspecto do pênis ao da vagina ou vice-versa.

    Passemos agora à experiência sexual propriamente dita. Cada um de nós foi apresentado ao sexo de uma maneira e de acordo com uma circunstância bem específicas. Alguns tiveram um primeiro contato com o sexo oposto, outros com o mesmo sexo. Vamos deixar de lado a relação heterossexual; rios de tinta foram escritos sobre ela em todos os tempos, e a vocação do Erotexto, como se sabe, é defender a tese de uma natural bissexualidade humana.

    Quando um menino passa pela experiência do contato sexual com outro, uma quantidade enorme de sensações passa pelo crivo do seu julgamento de gosto: beleza do rosto e do corpo, odores, higiene, educação (grosseria ou delicadeza), sentimentos (afeição ou desprezo), para citar apenas algumas. Se sua primeira experiência for como "ativo" - um termo que deveria ser banido -, ele provavelmente lidará com a inegável dificuldade da penetração, que poderá causar-lhe desconforto e mesmo dor. Ora, se uma primeira experiência com alguém do mesmo sexo for muito desagradável, é possível que isso contribua definitivamente numa opção pela heterossexualidade. Mas, se por mil razões, tudo se passar de modo agradável, não há porque imaginar que aquele que penetra não desejará que a experiência de penetrar alguém do mesmo sexo se reproduza.

    O mesmo se aplica se a primeira experiência for como "passivo". Tudo depende de muitos fatores, sem esquecer o fator anatômico. A posição daquele que se deixa penetrar é mais sensível até mesmo do ponto de vista psicológico - a velha idéia de que quem se deixa penetrar é o "dominado" - e uma primeira experiência extremamente dolorosa pode desencorajar para sempre. Porém nada indica que toda experiência seja percebida como desagradável. É perfeitamenet possível que uma feliz combinação de fatores - por exemplo, a de fazer isso com um amigo - permita a construção de uma idéia muito positiva do deixar-se penetrar.

    O que quero frisar como essencial, aqui, é que o gosto pelo sexo com parceiros congêneres não tem absolutamente nada a ver com a vida afetiva que se quer levar. As pressões culturais nos levam a acreditar que o parceiro sexual deva corresponder à escolha do parceiro de vida, mas isso é uma pura idéia preconcebida sem nenhum fundamento na realidade. O que a realidade nos fornece como dado é o caráter prazeroso ou não de cada experiência. O essencial é gostar ou não de fazer o que fazemos. Um menino ou uma menina pode ter inúmeras experiências homossexuais, mas ser incapaz de construir uma vida com alguém do mesmo sexo. Isso sem falar no desejo perfeitamente justificável de construir uma família convencional: ter marido ou mulher e filhos.

    Hoje em dia, por uma dessas distorções de que a humanidade é capaz, certas micro-minorias, sobretudo no mundo ocidental, têm tido a possibilidade de impor à maioria conceitos e padrões de comportamento que fogem dos condicionamentos milenares que formaram as culturas. Enquanto a ideia de uma bissexualidade humana natural é de fácil compreensão, esta outra, de que a determinação do gênero tal como a praticamos desde a origem dos tempos é arbitrária, requer muita reflexão e muita discussão. Um jovem adolescente não tem maturidade para entender que o seu aparelho reprodutor e sua anatomia genital não devam influir nas suas preferências e comportamento sexuais. O fato de perceber-se as pulsões da libido através de um pênis ou através de uma vagina não é de modo algum inócuo no instinto sexual! A conscientização, por um jovem, de que ele nem sempre é obrigado a servir-se do seu corpo imitando os gestos da procriação não tem nada de instintiva! Libertar-se da ideia de que o pênis é um aparelho talhado pela natureza como instrumento penetrante para a finalidade da transmissão do espermatozóide ao aparelho reprodutor feminino requer todo um trabalho de aprendizado. E, mais sério ainda, o fato de que uma ínfima minoria de pessoas se "sinta" como pertencendo ao gênero oposto àquele que sua anatomia parece indicar não deveria merecer um peso necessário e suficiente para alterar o modo de pensar de toda a humanidade.

    O que preconizo aqui é que o gosto deve prevalecer sobre tudo. A humanidade precisa desenvolver-se ao ponto de ser capaz de tolerar a liberdade absoluta que cada um tem de gostar ou não gostar de alguma coisa e de pautar seu comportamento e seus hábitos por essa avaliação. É isso que trará a felicidade, e não a mudança precipitada de forma, de gênero, de nome. No dia em que um adolescente se sentir completamente livre para escolher iniciar-se com alguém do mesmo sexo porque se sente mais desejo ou porque se sente mais à vontade para começar assim, ele verá diante de si toda a gama de possibilidades de contatos e relações abrirem-se como um leque. Seu corpo será aquele que a natureza lhe deu, e ele não terá necessidade de modificá-lo para ser feliz.

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