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Erotexto e o "Carioquês"

Apresentação

    A maior parte das narrativas do Erotexto respondem ao experimento que me agrada fazer com meus textos para tentar adaptá-los aos recursos do português carioca no seu uso real e efetivo. Que portanto os meus caros leitores não se espantem ao encontrar nelas os fatos linguísticos brevemente enumerados no meu ABC do Português Carioca (V. alto). Não se trata de "erros de português", mas de construções deliberadamente adotadas em sã e perfeita consciência. Meu intuito é o de reproduzir a fala oral sem precisar lançar mão de recursos de que o falante do Rio de Janeiro - e me refiro ao falante educado, culto e letrado - jamais se serve no cotidiano da comunicação coloquial como, por exemplo, o pronome "lhe" em frases como: "Eu lhe pedi para chegar mais cedo, mas você teima em me desobedecer!" A verdade é que o carioca diria "te" em vez do "lhe", pouco importando se a gramática normativa insiste em caracterizar o "você" como terceira pessoa e preconiza a harmonização das pessoas pronominais e verbais. Do mesmo modo, o carioca não empregaria o "tu" se tivesse escolhido usar "te" no início da frase; ele jamais diria: "Eu te pedi para chegares mais cedo, mas (tu) teimas em me desobedecer!" E só por desleixo voluntário ou para reproduzir alguma característica sociocultural ele empregaria o "tu" sem concordância dizendo "tu teima".

    As páginas que compõem a presente seção serão dedicadas aos tópicos linguísticos diretamente concernentes à especificidade do falar do Rio de Janeiro (batizado aqui de "carioquês"). Através delas, o leitor aprenderá um pouco sobre essa variante de exceção do português brasileiro. Além disso, as descrições e explicações gramaticais o estimularão a bloquear julgamentos pejorativos. Todo desvio da norma tem uma explicação e nem todo desvio se explica por uma degradação da norma, e ainda menos pela idéia de "erro". O português carioca é uma variante perfeitamente suficiente para suprir as necessidades da comunicação e para permitir a mais clara expressão do pensamento. A falta de recursos linguísticos não é uma deficiência da variante em si, mas do falante. É mais do que hora, portanto, de deixar definitivamente de lado os complexos de culpa ("Vou falar assim, mas sei que está errado!") ou de inferioridade ("Se o português do Brasil já é um pidgin, o falar carioca então, coitado...") associados a usos mais do que consagrados há séculos. O que estou ensaiando no Erotexto é exorcizar demônios e fantasmas que ainda assombram a consciência linguística do falante carioca. Portanto, repito, que o leitor não se choque ao encontrar no Erotexto desvios morfológicos e sintáticos em relação à sua própria variante do português. Uma variante linguística tem que ter personalidade própria! O exercício será divertido, instrutivo e posso garantir que não compromete em nada o caráter das narrativas deste blogue. Muito pelo contrário, e em especial para aquele leitor brasileiro que sabe encontrar no erotismo e na fala dos cariocas um charme todo especial.


M. F.

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