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Saudável Bissexualidade

     O que será necessário para convencer o mundo de que a bissexualidade já foi uma das modalidades "oficiais" de relacionamento em várias sociedades? Enquanto ocidentais, a tradição greco-romana é aquela que mais deveria nos interessar, e muitos intelectuais pesquisaram e ainda pesquisam as fontes da Antiguidade em busca de respostas sobre as origens da nossa sexualidade, mas curiosamente, a maioria tende a denominar de homossexualidade (ou, mais precisamente, homofilia*), o que na realidade era bissexualidade.


    O jovem de boa família de várias cidades-Estado gregas tinha uma educação completa. Música, dança, ginástica, matemática, argumentação, oratória, ética, etc. faziam parte de sua formação desde a mais tenra idade. O jovem espartano era integralmente formado para ser resistente física e psicologicamente na guerra. Em outras regiões da Grécia e da Magna Grécia (colônias gregas do sul da Itália) e da  Ásia Menor (Éfeso, Mileto, etc.) igualmente, o jovem recebia essa educação que poderíamos chamar de holística porque atendia às necessidades do corpo e da mente.

    Essa função pedagógica grega era tão fundamental que o elemento concentração tornou-se essencial. Ora, para que haja a maior concentração possível, é preciso que se evite de todas as maneiras a distração, e sabe-se o quanto adolescentes são sujeitos à distração! Qual era, portanto, a melhor fórmula para manter meninos e meninas concentrados durante a formação? É simples: evitar que se dispersassem. Aliás, foi desse desejo de evitar a dispersão que surgiram os ginásios, as academias, os liceus, que deram origem às nossas atuais escolas, universidades e outras formas de congregação pedagógica. Na Grécia antiga, no entanto, a exgência de concentração atingiu tais patamares - e é o que nos interessa - que era preciso evitar que os jovens entrassem precocemente em contato afetivo e sexual com o sexo oposto, pois que isso resultava em gravidez, e nada mais pernicioso à boa concentração do que ter filhos. Na Antiguidade, a noção de maioridade não existia, as meninas estavam prontas para ser mães assim que lhes vinham as primeiras regras. Urgia, portanto, que se isolassem os jovens de boa família das consequências da promiscuidade intempestiva que se observavam nas classes inferiores.

    Ocorre que ninguém consegue refrear as pulsões sexuais e os afetos, e a torrente de filmes sobre o assunto, no mundo inteiro, notadamente nos anos 70, quando a hipocrisia humana ainda não impedia que as verdades fossem ditas e mostradas, comprova bem isso na era moderna. Os Gregos ignoravam o que fossem hormônios, mas eram profundos conhecedores da natureza humana. A solução, mais uma vez, foi simples: autorizar as relações - afetivas e sexuais - entre pupilos do mesmo sexo. É habitual pensar-se que isso se restringia aos meninos, mas é um grave erro a ser evitado com firmeza e convicção. Para os que gostam de ir às fontes, Plutarco aborda especificamente o tema quando trata da vida de Licurgo. Meninos tinham seus amantes** e a recíproca feminina é tão verdadeira que Vidal-Naquet*** chega a declarar que a menina espartana era - e eu cito - "no sentido pleno do termo, um garçon manqué", referindo-se ao fato de que ambos recebiam o mesmo tratamento, passando por certos rituais e treinamentos sem distinção de sexo. O amante era geralmente um pouco mais velho e há registros históricos de casos em que este chegava a ser admoestado quando o desempenho do amado em sua formação ficava aquém do esperado. Esse tipo de responsabilização do amante pelos adultos não deixa margem à dúvida quanto ao caráter reconhecido e aceito dessas relações entre os jovens de mesmo sexo.

    A bissexualidade surge naturalmente desse tipo de estrutura. Não estou afirmando que a homofilia duradoura não existisse na Grécia Antiga, mas como hoje em dia, não era a regra. De um modo geral, os adolescentes passavam pela formação que lhes permitia ingressar no mundo adulto e por volta dos trinta anos, casavam-se e constituiam família (respeitando as instituições e regulamentos da época e de cada região, obviamente). A função da mulher era gerar filhos e ocupar-se da casa. Em Esparta, o homem jovem e guerreiro era autorizado a ter - furtivamente - encontros íntimos com a esposa, mas continuava por muito tempo a pernoitar com seus companheiros, num lugar específico destinado exclusivamente aos homens.

    Aos mais recalcitrantes, que teimam em tapar o sol com a peneira, as artes pictóricas da Antiguidade greco-romana constituem provas tangíveis dos hábitos e costumes dessas sociedades. Tanto gregos quanto romanos viam beleza no erotismo e no sexo. As paredes de certos cômodos das casas de romanos abastados eram decoradas com afrescos de caráter sexual, muitas vezes retratando o ato sexual em suas variadas modalidades e posições (um bom exemplo pode ser visitado no sítio histórico de Éfeso). A cerâmica grega ilustra todo tipo de relação íntima. Havia esculturas em tamanho natural reproduzindo cenas sexuais. As cidades e casas romanas eram protegidas por divindades como Príapo, uma divindade que ostentava um pênis colossal, para que a fertilidade reinasse e a população jamais deixasse de crescer. Ainda hoje é possível encontrar pênis esculpidos na pedra, nas antigas cidades de todo o Império romano. É evidente que houve sadismo, tortura e assassinato de conotação sexual, tanto nas cortes quanto na aristocracia, mas não se deve tomar um Tibério, um Calígula ou um Nero como argumento para proscrever definitivamente os costumes sexuais da Antiguidade. O sexo, manifesto na sociedade em toda a sua plenitude de realizações, era uma atividade digna de ser retratada publicamente, portanto livre dos tabus e repressões que o limitam às formas marginais que conhecemos na atualidade.

    É mais do que tempo que o mundo se convença definitivamente de que a grande e única responsável pela criminalização da estrutura bissexual da relação íntima foi a religião e, no caso específico do Ocidente, a religão judaicocristã. No caso específico da Grécia, uma relação que fora criada com base na racionalidade e no bom senso para atender a necessidades essencialmente pedagógicas foi estigmatizada, anatemizada e tornada "pecado" por uma casta de recalcados que, da sofisticadíssima Paidéia grega, só conseguiram enxergar o seu próprio lado mais cru e animal.

    Erotexto quer promover, com a exortação à leitura dos textos históricos e de autores como Werner Jaegar, Jean-Pierre Vernant, Pierre Vidal-Naquet, Claude Lévi-Strauss (que tratou, sem nomeá-lo, da bissexualidade em tribos indígenas), para não mencionar o sem-número de emissões de historiadores de várias nacionalidades disponíveis através do YouTube e tantos outros, o retorno à visão da bissexualidade como modalidade natural da relação íntima. É intolerável que, com todo o material eletrônico disponível a todos e a qualquer momento ainda haja quem creia que a bissexualidade seja um mero pretexto para ocultar uma exclusiva homossexualidade recalcada.


M.F.

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(*) Cf. meu texto "Homofilia e Homossexualidade".
(**)  Em grego, os termos "erasta" e "erômeno" são aproximadamente equivalentes a "amante" e "amado", respectivamente, para referir-se a essa relação. Uma rápida consulta à Wikipédia mostra que os termos também se aplicavam a relações entre adulto e adolescente na Grécia clássica. É sabido igualmente que em Roma angtiga, o sexo era praticado irrestritamente sem levar em conta critérios como o gênero ou a idade. Aqui, só estou tratando dos casos envolvendo adolescentes entre si porque meu intuito é provar que a bissexualidade é, por assim dizer, inata, e que portanto, foi desenvolvida com naturalidade em diversas culturas muito antigas como a da Grécia arcaica.
(***) La Grèce Ancienne vol. 3, pg. 213. Seuil, Paris, 1992.

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