Quem já não passou pela experiência de não ter "sentido nada" ao virar a última página de um conto erótico em outra língua? Ora, excitação zero iguala efeito nulo! Que frustração!
Pois saiba-se que a mesma coisa pode acontecer entre a mãe portuguesa e sua progenitura de 1500, que agora chamo carinhosamente de "brasilês".
Não generalizemos. Há sempre aqueles cujo convívio tanto com a mãe quanto com o filho faculta uma intimidade que lhes permite atribuir facilmente aos mesmos conceitos nomes distintos. Mas a maioria certamente experimenta essa estranheza que é a ausência de efeito após a leitura de um texto na modalidade que não a sua própria.
Por comodidade, vou referir-me ao português e ao brasilês como línguas distintas, mas sabemos que não é bem assim. Os linguistas esclarecem que o brasilês não é um pidgin, um falar crioulo ou um dialeto do português, mas é inegável que o brasilês não é usado tão plenamente e com tanta consistência quanto o português. Um bom exemplo é essa constante mistura de pronomes tão comum ao "carioquês" (o brasilês do Rio de Janeiro), como em: "Te vi ontem na rua. Onde é que você estava indo?", mas os exemplos podem ser multiplicados à vontade. Sem ferir ninguém, acho que muitos concordariam com a afirmação de que o falante brasileiro culto tem consciência de que dispõe de um incrível tesouro linguístico do qual ele não se serve integralmente. Mas avancemos.
Para os falantes brasileiro e português dotados de um conhecimento razoável de ambas as linguas, a sintaxe, a morfologia, a fonética e a fonologia não apresentam maior dificuldade. O hic reside na semântica e no léxico. Onde o português diz "nádegas" dizemos "bunda"; onde ele diz "piça" dizemos "pica" (mais frequentemente "pau"); onde ele diz "cona" dizemos "bu(bo)ceta"; onde ele diz "vir" dizemos "gozar", etc. Mais brandamente, onde ele diz "gajo" dizemos "cara" e onde ele diz "rapariga" dizemos "moça", "garota" ou "menina".
O problema é semântico, já que os significantes (as palavras) remetem incompletamente aos mesmos significados. Por exemplo, "nádegas" e "bunda" remetem para a mesma componente física do conceito, indiferentemente para portugueses e brasileiros, mas a componente que poderíamos chamar de "emocional" difere e só é a mesma para aqueles que empregam essas palavras no dia-a-dia, servindo-se delas exatamente nas mesmas circunstâncias. Em contexto erótico, um português dirá "nádegas" em 100% dos casos e um brasileiro "bunda" em 100% dos casos. As nádegas que tanto excitam um português são incapazes de animar um brasileiro, que precisa da bunda para obter o mesmo efeito!
Que fazer? Como auferir mais prazer dos textos portugueses e como fazer com que nossos genitores linguísticos obtenham do que escrevemos o efeito almejado? Afinal, trata-se de atingir um clímax! Não podemos sugerir que os autores busquem termos comuns às duas línguas para cada conceito, que nos limitemos a usar, por exemplo, "caralho" em vez de "piça" ou "pau", "porra" em vez de "esporro" ou "leite" (perdoem a crueza!) Seria por demais empobrecedor para ambos. A escolha é necessária, quando mais não seja por razões de estilo, para evitar a grosseria, etc.
A solução parece estar no hábito. É preciso vencer a etapa inicial de rejeição e ir em frente, lendo cada vez mais textos na língua aparentada. É como aprender a andar de bicicleta ou estudar matemática: em dado momento, o "clic!" acontece e nos damos conta de que o esforço começou a render frutos. Voilà! Já podemos concluir um conto erótico criado em terras lusas por um vertiginoso orgasmo! E nada mais justo que os autores lusitanos usufruam de um prazer idêntico em recompensa ao mesmo esforço. Mãos à obra!
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