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Da Ditadura das Minorias

 

    Se é bem verdade que no Ocidente chegamos enfim a uma época de real liberdade sexual, não é menos verdade que a sociedade está, sob vários aspectos, sendo submetida aos ditames de ínfimos grupos que conseguiram impor-se por uma série de razões e circunstâncias que não discutirei aqui. Um desses exemplos é o da escrita inclusiva que, à custa do sacrifício do estilo e da economia nos textos, permite fazer referência às variadas denominações de gênero. Essa vitória, que foi indiscutivelmente alcançada por uma ínfima minoria, tem forçado de maneira crescente à revisão e "correção" de textos culturalmente relevantes e o apagamento do registro histórico de toda uma época em que a sexualidade humana não era analisada como o fazemos atualmente. Isso é lamentável.

    Aquele que já assistiu a um bom filme sobre a temática do tempo, e especificamente sobre a volta ao passado, sabe que quando o passado é alterado, o presente sofre - por vezes dramaticamente - os efeitos dessa alteração; quem nunca ouviu falar no famoso Paradoxo dos Gêmeos? Ora, modificar textos antigos para que exibam uma escrita inclusiva e mais "democrática" ao leitor atual consiste precisamente em deturpar um tratamento linguístico que retratava comportamentos reais de uma época que geraram repercussões em nossa época, o que gera contradições entre o conteúdo e a língua que serão percebidos com estranheza pelo leitor atento do futuro próximo.

    Outro ponto importante é que a escrita inclusiva pode ser muito esclarecedora pontualmente, isto é, ali onde a ocorrência se encontra, mas ela tem implicações sintáticas e morfológicas por vezes extremamente desagradáveis, para não falar das infinitas reiterações desses sufixos de gênero através de toda a série pronominal anafórica, por exemplo. É infernal, para quem redige um texto, sentir-se obrigado a escrever, a cada vez: "alguns e algumas", "certos e certas", etc. E depois, o que fazer de palavras como "gente", "pessoas", "multidão" et tantos outros? Que razão justifica que sejam palavras femininas? Por que é que aqueles que todos precisariam "senti-las" no feminino? Não é injusto, já que os defensores da inclusividade fazem questão absoluta que todos os gêneros transpareçam nas formas comuns? São discussões que parecem risíveis aos olhos de quem preza uma boa reflexão inteligente, mas a verdade é que chegamos a esse nível depois que a escrita inclusiva foi generalizadamente imposta.

    O tema que engloba toda essa problemática e que deveria interessar todo aquele que refete é o tema da aplicação irrestrita de normas impostas por minorias ínfimas. Este é um fenômeno novo no Ocidente, mas que tem sido crescente e astutamente explorado por essas minorias. Não quero de modo algum condenar incondicionalmente a aplicação de mudanças no comportamento e na língua, mas como tudo numa democracia, é preciso que cada mudança seja proposta, analisada, votada e aprovada pela maioria e não por "representantes" ou simplesmente imposta como se vivêssemos em regimes ditatoriais.

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