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Erotexto é um blogue dedicado ao erotismo que tem por característica uma rica diversidade de estruturas narrativas. Seu objetivo é triplo: entreter, desenvolver o interesse pela escritura e - o principal - motivar a reflexão sobre a libido e a busca do prazer, cujo fundamento biológico acredito ser de caráter essencial e universalmente bissexual.

Erotexto tem formato fixo. A primeira página comporta a última narrativa proposta (não necessariamente a última criação). O material arquivado consiste de contos e relatos classificados por categoria sob a rubrica "EroStock" (coluna à direita), bem como séries, novelas e folhetins. Para conhecer a acepção em que cada estrutura narrativa foi tomada, convido o leitor a clicar em "Pequena Teoria da Narrativa", aqui acima.

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Que Erotexto possa excitar de modo agradável, são e prazeroso, inspirar o leitor a escrever suas próprias histórias e principalmente, motivar a reflexão.

Marc Fauwel

Na Casa do Sogro

Aos 19 anos, comecei a namorar a menina que viria a ser minha mulher, uma linda morena de boca sensual e olhar deslumbrante não só de beleza, mas de inteligência. Glaucia era dois anos mais nova que eu. Foi paixão à primeira vista, e de um modo tão intenso e verdadeiro que ela logo me apresentou à família. Era verão e passávamos as manhãs na praia, as tardes na piscina da casa dela, no Grajaú, e íamos a barzinhos da quarta ao sábado. Logo me entendi com os dois irmãos dela, um pouco mais novos e viciados em jogos eletrônicos, e os pais. O pai tinha cerca de quarenta e dois anos quando comecei a ir lá. Era um homem perfeitamente comum de cerca de um metro e setenta e cinco, mais para magro, com algum cabelo grisalho e sem barba. A mãe parecia estar na mesma faixa, mas todos - inclusive os empregados - eram terminantemente proibidos por ela de revelar sua idade. Ela aparentava ter sido bonita e sensual, mas a tendência a ser gordinha desviava a atenção para o aspecto simpatia e bom humor, que ela tinha de sobra. O casal me pareceu muito próximo e carinhoso, um bom casal típico da classe média alta brasileira em que o marido provê e a mulher, além de trabalhar, cuida de todo o resto. Comecei tratando-os de "Dona Vera" e "Seu Humberto", mas eles logo insistiram para que eu abolisse o tratamento cerimonioso. Nunca fui capaz de chamar a mãe da Glaucia só pelo nome, mas em pouco tempo, eu me sentia completamente à vontade com todos e a casa do Grajaú se tornou minha segunda casa.

Durante aquele verão de 2000, eu ia quase diariamente à piscina na casa da minha nova namorada. Eu ficava praticamente o tempo todo dentro d'água com ela, nadando, brincando ou namorando. Era um momento em que podíamos estar juntos com pouca roupa, e não perdíamos a menor oportunidade de aproveitar os momentos de intimidade. Quando ficávamos sozinhos, ela acolhia meu sexo entre as coxas enquanto nos devorávamos com beijos de língua mais que lascivos e agarrávamos o bumbum um do outro. Embora tenhamos logo iniciado nossa vidinha sexual, era complicado porque mesmo que eu ficasse muitas vezez por lá para dormir, a vigilância era cerrada. Eu conseguia a duras penas que meus dois colocatários me emprestassem o apartamento por algumas horas, mas era raro e difícil conciliar meus horários com os da Glaucia. Mesmo assim, o namoro avançava e nossa vontade de continuar era clara pas nós dois. Os pais e os irmãos dela gostavam de nos ver juntos e D. Vera não se cansava de repetir que era melhor que "as coisas" acontecessem dentro de casa do que fora, o que deixava supor que se algum dia rompêssemos a vigilância e passássemos uma noite juntos, não precisaríamos ter a mesma sorte que Romeu e Julieta!

Humberto gostou de mim de saída. Engenheiro e dono de fábrica de plásticos, ele adorava um bom papo com o recém aprovado na Engenharia química da "Federal" que eu era. Pouco se lhe dava que eu fosse calouro; ele discorria sobre polímeros como se eu já fosse doutor no assunto e o meu entusiasmo pela carreira dava conta do resto. Quando ele tinha bebido umas e outras, engrenava num planejamento vago e fantasioso do meu futuro na fábrica que gerava risos e piadinhas. Eu não o levava muito a sério nessas horas, mas não deixava de ficar intimamente animado com a possibilidade de um emprego no seio da família da menina que eu amava. Humberto e eu tínhamos afinidade, o que nos levava a passar bons momentos juntos, fosse conversando, jogando xadrez ou até mesmo dando curtas saídas de carro para ir buscar um dos filhos, comprar cigarro ou cerveja para um churrasco. Formávamos uma dupla imbatível no vôlei e eu não me incomodava com os tapinhas no traseiro para comemorar um bom ponto nem me encabulava trocando de roupa junto com ele no vestiário da piscina. Uma intimidade que eu associava à do pai para com o filho nasceu rapidamente e se desenvolveu entre nós.

As férias do ano 2000 foram idílicas e o ano dos meus vinte anos transcorreu todo sem maiores sensações além daquelas que pontuam a vida de qualquer jovem universitário. Logo nos primeiros dias de janeiro de 2001, D. Vera fez uma pequena viagem para ver a mãe idosa que adoecera. Humberto pediu a todos que estivessem muito presentes, pedido que se estendia a mim. Foi a primeira vez que o vi sem a esposa por perto, e seu comportamento para comigo mudou sensivelmente. Ele não só continuava muito próximo como ainda mais íntimo, fazendo inclusive comentários que nunca fizera comigo e revelando um entusiasmo que eu desconhecia nele por temas picantes, como no dia em que estávamos sentados no jardim da piscina.
- Repara naquela ali! sussurrou ele entre os dentes, apontando com o nariz para uma amiga da Glaucia. Se ela tirasse o biquíni, não ia fazer diferença, de tão pequeno!
- É mesmo! respondi, achando graça daquele jeito libidinoso.

Curiosamente, ao mesmo tempo que o Humberto se mostrava todo voltado para o sexo oposto, eu o surpreendia às vezes olhando para um ou outro amigo nosso deitado de bruços tomando sol ou numa atitude menos comum. Uma vez, ele chegou a fazer um comentário sobre um amigo que se curvara para pegar algo no chão.
- Olha lá. Foi assim que Napoleão perdeu a guerra! sussurrou ele, dando-me tapinhas na coxa.

Quando dávamos uma saída de carro, nessa época, ele gostava de falar do que via na rua. Uma vez, um travesti passou atravessando o sinal e ele fez toda uma preleção sobre a função social do travesti na metrópole contemporânea, em defesa do prazer dos solitários, separados, divorciados, tímidos, etc. Eu me limitava a rir, mas percebia que sem a esposa por perto, o Humberto se transformava num homem muito mais receptivo aos estímulos provenientes do amplo espectro da sexualidade. A verdade é que ele subira no meu conceito, mas eu teria preferido que tudo fosse mais explícito entre o casal, porque a mulher dele certamente ignorava essa faceta licenciosa que ele deixava transparecer em sua ausência. Na época, não me pareceu ser um bom exemplo a ser dado por um homem bem casado e há tanto tempo.

Foi pouco antes da volta da D. Vera que um primeiro fato menos comum me chamou a atenção. Como de costume nos dias de sol, cheguei à casa do Grajaú e fui imediatamente ao quarto da Glaucia trocar de roupa. Como eu sabia que todos estavam na piscina, não me preocupei em fechar a porta e comecei a me despir. Tirei o tênis, a bermuda, a cueca, e quando ia enfiando a mão na mochila para pegar a sunga, topei com o Humberto parado na porta, olhando contemplativo como se estivesse lá a horas. Estranhei, mas não disse nada, limitando-me a um "oi". Ele piscou simpaticamente como sempre, mas saiu sem dizer nada, coisa que ele jamais fizera. Chegando à piscina, fui ficar com a Glaucia e o resto do dia transcorreu normalmente, mas fiquei com a pulga atrás da orelha revendo involuntariamente a imagem do pai dela a me olhar calado trocar de roupa.

O leitor deve estar se perguntando em que sentido fiquei "com a pulga atrás da orelha", e a razão vale um parêntese. Aos vinte anos, eu era um estudante apaixonado por uma menina e cheio de projetos que a incluíam, mas cinco anos apenas separavam essa fase da anterior, em que eu tivera algumas experiências que me tornavam mais apto a entender a atitude do Humberto do que ele próprio poderia imaginar. A verdade é que eu descobrira o sexo com vizinhos e minhas primeiras relações foram homossexuais. Eu vivera na prática o que era penetrar e ser penetrado e minhas lembranças daquela época eram as que mais me excitavam em meus momentos de prazer solitário. Quando vi Humberto parado na porta, reconheci um olhar idêntico a outros que eu vira num passado ainda não muito distante. Fim da digressão entomológica.

Humberto evitou-me após o estranho evento e concentrou-se na preparação da casa e da família para acolher D. Vera, que voltaria quase um mês depois, triste com a perda da mãe querida. O resto do ano de 2001 foi ensombrecido por esse luto que me fez evitar a casa do Grajaú e passar a maior parte do tempo possível fora de lá com a Glaucia. Eu limitava-me a ir buscá-la e levá-la, e vez por outra ficava para alguma refeição. Minha amizade com o Humberto parecia não ter sido afetada pelo insólito episódio do quarto, mas as circunstâncias nos afastavam. De longe, eu o observava e admirava o bom empresário e bom chefe de família que ele era. Eu me perguntava se ele teria tido um passado sexual como o meu ou até mais rico em experiências heteróclitas, imaginando que sua mente encerrava lembranças das mais interessantes e variadas.

Em 2002, Glaucia e eu decidimos que seríamos marido e mulher. Embora tivéssemos apenas 22 e 20 anos, pertencíamos a boas famílias cariocas estabelecidas há décadas, o que nos isentava das preocupações de ordem material. As uniões precoces eram comuns em ambas as famílias, e a história de cada uma comprovava o sucesso da fórmula. Os preparativos ocuparam o ano todo, e no dia 15 de janeiro de 2003, para marcar indelevelmente o dia e mês em que nos conhecemos, Glaucia e eu nos casávamos na igrejinha do Outeiro da Glória.

Na casa do Grajaú, a vida foi aos poucos retomando o seu curso. O almoço dominical em família era sagrado e continuou sagrado, portanto era raro que eu passasse mais de uma semana sem ver o Humberto, o que só contribuía para a retomada da nossa intimidade. Aos poucos, voltamos a jogar xadrez, fazer dupla de vôlei, conversar na piscina e dar curtas saídas de carro para compras de última hora. Humberto caminhava abraçado comigo pelo jardim, fumando e contando-me suas idéias mais recentes em matéria de polímeros. Agora casado com a filha dele, eu me sentia mais do que um filho.

Foi numa tarde ensolarada e fresca do mês de agosto do mesmo ano de 2003 que o Humberto me ligou rogando que eu arrumasse um tempinho para ajudá-lo a tirar todos os livros da biblioteca, remover a poeira dos mais de três mil volumes e repor tudo em ordem. Eu já participara dessa grande e trabalhosa limpeza anual e esperava que parte da família e a empregada fossem convocadas, como de costume. Calculando que ele estivesse chamando um por um para saber das disponibilidades dos filhos, ofereci meu dia de folga que, para espanto meu, ele tomou imediatamente como data da operação. Chegado o dia D, joguei um short surrado e uma camiseta velha no carro e toquei para o Grajaú. Para espanto meu, não tardei a descobrir que eu representava todo o efetivo mobilizado para aquele dia. A casa me pareceu vazia e, de fato, Humberto atendeu-me na porta declarando que faríamos um trabalho mais rápido e inteligente a dois. No que dizia respeito à rapidez, tive minhas dúvida, mas enfim...

A primeira coisa a fazer era mudar de roupa, o que fiz na própria sala onde se encontrava a imensa biblioteca que ocupava três paredes. Embora não estivesse acostumado a usá-lo fora de casa, eu optara por um short em vez de bermuda, pensando na liberdade de movimentos. Ao ver-me, Humberto achou graça e disse que eu estava parecido com ele nos anos 70, conjeturando que os homens da atualidade tinham "contraído" uma inexplicável e ridícula vergonha de mostrar as coxas. De fato, o short de tecido xadrez e bocas enormes deixava as coxas totalmente à mostra e, pela primeira vez, vê-las tardiamente lisas como as de um adolescente encabulou-me mais do que estar numa piscina de sunga. Meu embaraço foi tamanho que decidi começar a limpeza pelas prateleiras baixas da biblioteca.

Eu estava sentado no chão e desempoeirando um velho atlas, quando ouvi um impacto forte e seco ao meu lado. Do alto da escada, Humberto deixara escapar um volume grosso como um dicionário, desequlibrara-se, e se não fosse pela minha agilidade, teria despencado da  escada. Vendo-o ofegante, resolvi vencer o incômodo e propor que invertêssemos posições. Ainda que não fosse de modo algum velho, Humberto tinha o dobro da minha idade, uma diferença que me parecia venerável, na época. Nada mais justo do que fazer um gesto de cortesia, pensei eu, trepando até o alto na escada de três metros que me levava a quase tocar o teto do cômodo de pé-direito elevado. Lá de baixo, Humberto acompanhou sem disfarçar a minha ágil ascensão. Ciente de estar proporcionando um espetáculo, vi contudo que seria ridículo apertar o short contra as coxas como fazem as meninas de saia. "Ele está vendo tudo e talvez isso o excite.", pensei, um tanto amolado. Mas logo varri a idéia da cabeça: "Bah! E daí? Ele não vai sair falando nisso!"

Quanta ingenuidade! Assim que tirei um volume da prateleira ouvi, numa entonação cantarolada e brincalhona: "Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça..." Olhei para baixo e vi Humberto de braços estendidos na minha direção claramente endereçando a letra da Garota de Ipanema ao que ele contemplava. Era a primeira vez que ele fazia uma alusão verbal ao meu corpo. Não me ofendi e limitei-me a rir, mas já não conseguia manter a naturalidade vestido em meu short anacrônico. Eu sabia que acabara de tornar-me objeto de... Digamos, de curiosidade. Qual foi minha reação? Nenhuma. Ao contrário do que faria outro homem no meu lugar, fingi indiferença, concedi ao Humberto o direito de olhar-me e procurei concentrar-me na minha tarefa.

Eu disse bem: "procurei"!
- Alguém já disse que você tem coxas femininas, Inácio? lançou ele.
- Sem músculos, você quer dizer?
- Não, lisas e bem torneadas.
- Pois é, por mais que eu faça esporte, os músculos não se definem. E não sei por que não nasce pelo. Deve ser de família.
- Seu pai, como é? Só o vi todo vestido.
- Mesma coisa: pouco pelo.
- Fui o primeiro a comentar?
- Não, sempre ouvi essas coisas.
- Sempre elogios?
- Que nada! Ser conhecido por ter coxa de mulher pode ser complicado, na adolescência.
- Entendo.

Humberto ficou em silêncio por alguns instantes enquanto assumia o meu trabalho nas prateleiras inferiorea, mas logo voltou a falar.
- Posso confessar uma coisa?
- Pode, respondi, na espectativa.
- Não é a primeira vez que olho você.
- Ah não? retruquei, numa entonação de falso desentendido.
- Você se lembra de um dia em que...
- Em que você ficou parado me olhando, no quarto da Gláucia? completei prontamente.
- Isso mesmo, exatamente! Naquele dia, foi por muito pouco que eu não fiz um comentário.
- Mas que comentário você queria ter feito?
- Você está pronto para ouvir o que eu vou dizer, Inácio?
- E adiantaria alguma coisa não estar?
- É, não. Eu diria de qualquer jeito.
- Então respire fundo e solte!
- Lá vai. Eu... Vou ser bem direto: eu sinto uma atração sexual incrível por você. Eu não sabia que era tão forte, tentei me dominar durante esses anos todos, mas não consigo mais manter segredo.

Humberto estava de pé, olhando para mim no alto da escada, mas desta vez bem nos olhos, braços estendidos ao longo do corpo, desarmado. O que é que eu podia responder? Eu tivera algumas experiências homossexuais na puberdade e adolescência, um pouco menos básicas, talvez, que as passadas de mão, esfregações e masturbações coletivas conhecidas da maioria dos meninos ainda ignorantes das delícias do amor convencional, mas mesmo assim tão comuns e desprovidas do indício crucial que denuncia a identidade gay: o amor. Eu jamais tivera o menor sentimento de amor por homens, adorava minha jovem esposa pela mulher que ela era, queria ter filhos com ela e continuar com ela. O que me ocorreu, naquele momento, foi tentar deixar tudo perfeitamente claro.
- Atração sexual, Humberto? Só sexual?
- Sexual. Eu juro a você que é exclusivamente sexual. Eu me sinto excitado cada vez que vejo você de sunga ou trocando de roupa, ou assim, como hoje, e isso me dá vontade de... Bem, você deve imaginar.
- Imagino, respondi, sentando no alto da escada para não apressá-lo.
- Isso faz tempo, quase quatro anos, desde quando você começou a namorar a Glaucia e frequentar nossa casa. Um dia, você estava deitado na beira da piscina e a sunga tinha entrado, atrás...
- Sempre entra. Meu apelido já foi "Cueca" por isso.
- Pois é, sua curvatura das costas é bem pronunciada e isso chama a atenção para a...
- Para a bunda, completei, sem me abalar.
- Inácio, você não quer... Você não quer fazer uma pausa para conversar melhor? Eu acho que hoje é um bom dia para esclarecer tudo isso. Vamos até a cozinha tomar uma cerveja, descansar um pouco e esgotar o assunto, propôs ele, com a simpatia habitual.
- Está bem, aquiesci, sentindo-me observado ao descer.

Na cozinha, Humberto passou-me uma latinha de cerveja, pegou outra e foi sentar-se numa extremidade da longa e pesada mesa do café. Eu fiquei encostado no balcão da pia. Um plano branco de luz solar insinuava-se pela porta entreaberta do quintal e nos separava. Isso me deu coragem para fazer a pergunta que me veio à mente.
- Você já fez sexo com homem, Humberto?

Ele estava olhando pensativo para a latinha que ele segurava com as duas mãos, os braços apoiados nas coxas, e assim ficou quando começou a discorrer sobre sua longa e ininterrupta história de relacionamentos homossexuais. Fiquei boquiaberto ao descobrir que ele nem sequer fizera uma pausa na época do casamento ou quando a esposa dava à luz. Ele confessou ser um aficcionado extremamente ativo – ativo nos dois sentidos –, incapaz de passar uma semana sequer sem receber pelo menos uma felação. Ele era daqueles que saem à noite para encontros relâmpago com o intuito de aliviar momentaneamente a libido em chamas.
- Mas você se satisfaz com a D. Vera também, não? perguntei, realmente curioso.
- Inácio, perdi a conta de quantas vezes eu chego de um desses encontros impaciente para encontrar a Vera receptiva e ter um último orgasmo com ela!
- Depois de ter feito sexo com um homem?
- Volto com mais desejo ainda!
- Ou seja, você não é um gay camuflado pelo casamento, como a gente vê tantos nas salas de bate-papo.
- Nunca tive a menor tendência. A idéia de ter uma relação de amor com um homem me repugna.

Quando ouvi isso, toda a minha mente entrou em ebulição. A semelhança entre nós era flagrante demais para que eu a mantivesse oculta.
- Eu também não, retruquei.
- Euh... Como assim, Inácio? Você também...
- Sou casado com a sua filha, mas depois de tudo que você me disse, não posso deixar de ser franco, Humberto. Não comecei minha vida sexual com uma namorada; minha iniciação aconteceu nas garagens do meu prédio, com vizinhos um pouco mais velhos que eu, e do mesmo sexo. A única diferença em relação a você é que eu parei quando comecei a querer namorar. Faz sete anos que eu não tenho contato com alguém do mesmo sexo.
- Então você não gostou das suas experiências? Foram ruins? Você sofreu abuso?
- Não, pelo contrário, até gostava, dependendo com quem, mas quando dei o primeiro beijo de verdade numa menina, fiquei tão maravilhado que eu não quis me arriscar a comprometer meus namoros com malentendidos.
- Então temos histórias parecidas, mas no meu caso, fiquei tão viciado que fui incapaz de parar, talvez porque não faltasse oportunidade.
- Ou talvez porque cada um tem suas fraquezas.
- Pode ser. Quando você diz que eles eram um pouco mais velhos que você, Inácio, quer dizer que você só fazia o papel passivo?
- Eu cheguei a inverter uma ou duas vezes, e gostei, mas como eles ficavam atraídos pelo mesmo motivo que atrai você...
- Entendo, queriam ver você de costas.
- Pois é, como fosse esse o motivo, eu acabei envolvido com os mais velhos que eu, que nunca propunham inverter as posições.
- E sexo oral?
- Nunca fiz. Além de ter nojo, eu achava humilhante e não queria dar esse gostinho a eles. Já era bem difícil ir para a garagem com alguém que poderia sair dali contando as proezas e acabar com a minha reputação.
- Você era bem masculino, então?
- Completamente. Essa permissividade não tinha, para mim, nenhum valor identitário. Talvez eu quisesse me aproximar dos mais velhos que eu, frequentar o mundo deles, e essa tenha sido a forma que encontrei, mas não passava disso.
- Mas você se valeu de um atrativo físico para provocar essa aproximação.
- De certa forma, sim, mas não me lembro de ter usado isso muito conscientemente.
- Você me disse que seu apelido era "Cueca". Isso tem a ver com essa fase?
- Tem, tem. Como eu disse, na piscina e na praia, minha sunga sempre entrava, e zombavam de mim dizendo que eu estava de cueca. Aos poucos fui entendendo que para alguns, a zombaria tinha outra conotação.
- Os mais velhos da turma ficavam acesos, não é? A primeira vez que reparei em você também foi na piscina, aqui em casa, mas nunca associei a imagem da sunga um pouco enfiada à de uma cueca. Em você, a sunga fica muito bem ajustada porque você tem formas, e isso pode excitar.
- E a sunga deixa as polpas de fora, sei disso. Nunca pude fazer nada para evitar, a não ser usar short de banho, coisa que eu não gosto. Preferi assumir o corpo que eu tenho.
- E fez muito bem!
- Se eu fosse negro, não teria outro jeito!
- Pois é, são todos bundudos!

Uma lufada de vento escancarou a porta do quintal enquanto ríamos juntos. Tive a impressão de voltar a respirar o ar leve e brilhante que encheu a cozinha. Humberto erguera a cabeça. Seu rosto fino e a testa agora livre do cenho franzido revelavam a descontração e bom-humor habitual do homem inteligente que eu admirava. Apaziguado, fui até a mesa chocar minha latinha com a dele e tomamos um bom gole de cerveja para brindar àquele momento de iluminação. Ficamos em silêncio por alguns instantes e quando me virei com a intenção de voltar ao meu lugar, fui freado por um puxão pelo cós do short.
- Agora você vai ter que se redimir pelos quatro anos de suplício! exclamou o Humberto, puxando-me para trás.
- Quatro anos? Tanto assim? retruquei, sem resistir.
- Você pensa que foi fácil saber que a minha filha tinha o privilégio de ver você nu?
- Você me via quase nu, Humberto!
- À distância! Sempre à distância!
- Nem tanto! E as passadas de mão nas partidas de vôlei? Você pensa que eu não percebia? E aquele dia, no quarto da Glaucia?
- Aquele dia? Ah, não vamos falar naquele dia.

Ele me aninhara entre suas pernas e eu podia sentir a rigidez do membro través do short. Eu não podia negar meu desejo, mas, mais do que isso, o fato de poder saciá-lo com o meu próprio sogro me eximia de qualquer sentimento de estar infringindo uma das leis do casamento heterossexual, e isso foi determinante. Tudo parecia propício a uma retomada do que eu deixara para trás, já há alguns anos e não sem sacrifício. Permiti que ele se excitasse através daquele contato íntimo e preparei-me a prosseguir da maneira como eu me habituara, mas quando eu ia começar a baixar o short, ele me reteve.
- Não. Hoje você vai fazer uma coisa que nunca fez.

Intrigado, avancei um pouco e quando me virei, Humberto saltara da mesa e estava abrindo a bermuda para liberar o membro que eu já vira tantas vezes no vestiário da piscina. Era um longo e corpulento espécime que ele se apressou a desembainhar recuando agilmente o prepúcio para expor uma ampla glande brilhante. Voltando a sentar-se e exibindo-o sem pudor, ele olhou-me bem nos olhos.
- Não vá me dizer que nunca teve vontade!

Bastou-me levar a mão à frente para empunhá-lo e avaliar o diâmetro. Senti-o inchar e pulsar entre meus dedos. Do orifício da glande, uma espessa gota ia transformando-se em fio quando a interceptei com a língua. Humberto suspirou.
- Ah, como esperei por isso! gemeu ele, num sussurro, apoiando-se na mesa com os braços para trás.

O exercício da felação pareceu-me instintivo. Em minhas experiências íntimas, eu jamais conseguira admitir nenhum objeto além da barreira da glote, mas sentir aquele corpo quente e roliço ultrapassando meus lábios e vindo deitar-se em minha língua ao som dos gemidos do Humberto foi suficiente para proporcionar-me um intenso prazer. Eu só não estava certo de querer que ele ejaculasse em minha boca, e isso foi motivo para uma certa apreensão, mas Humberto parecia mais que resistente, permitindo que eu continuasse livremente a experimentar cada uma das possibilidades que eu conhecia através de vídeos. Ele parecia um profissional, olhando-me sem temer interrupções intempestivas. Lembrei-me das vezes em que eu ejaculara na boca ou no rosto da filha dele, por pura falta de prática, o que me levava a condenar-me em seguida pelo reduzido entusiasmo na hora da penetração. Mas Humberto limitava-se a gemer vendo-me tentar admitir mais e mais do seu membro na boca, e foi ele que decidiu por fim à felação, elogiando muito o iniciante no assunto que eu era e assegurando-me que teríamos muitas ocasiões de praticar, mas que era preciso agora passar ao que mais importava. Sem me dar tempo de inibir-me com questões técnicas, ele apontou-me o banheiro e deixou-me à vontade. Saí do banho nu e foi nu que ele passou por mim, dando-me um tapa no traseiro e ordenando que eu o esperasse na sala enquanto ele tomaria uma ducha rápida.

Fui imediatamente atraído pela janela que dava para um gramado muito bem cuidado e, cerca de trinta metros à frente, a grade e o portão da casa. Eu sabia o que estava para acontecer, sentia-mem preparado, mas um tremor de apreensão agitava-me a mente. Afinal, eu interrompera tudo aquilo para namorar e casar. Como seria retomar os velhos hábitos? Eu me tornaria bissexual e levaria uma vida dupla entre a esposa e o sogro? Ou não, e teria uma experiência com ele, ali, naquele dia, sem contudo perder o contrôle do "se" e do "quando" haveria uma próxima vez? Eu sabia que Humberto tinha uma forte personalidade e que não seria fácil negar-lhe algo, agora, como parente. Além disso, tudo que eu mais desejava era ter um prazer equilibrado pelos dois aspectos da minha sexualidade e jamais descobrir, por exemplo, que as relações com o Humberto me agradavam mais que a minha vida sexual com a filha dele. Tremi ao evocar a possibilidade dessa descoberta, mas consultando-me interiormente, tive a certeza de que isso não aconteceria porque o meu amor e atração pela Glaucia eram indubitáveis. Olhei uma vez mais para o grande portão de ferro fundido e foi nesse momento que senti um aperto no ombro.
- Pensando na morte da bezerra?

Humberto colou-se a mim completamente nu, levando as mãos à minha cintura e dando um longo susprio de excitação. O momento chegara rápido, sem que eu tivesse tempo de levar minhas lucubrações a algum ponto mais conclusivo. Senti que ele me queria ali mesmo, na janela, e que estava feliz acreditando que eu escolhera deliberadamente esperá-lo ali. Eu não estava mais em situação de hesitar ou negociar. Já conversáramos, brindáramos e ríramos juntos. Eu já provara o seu sexo com a boca e era hora de prová-lo em minhas entranhas. Permaneci debruçado na janela e respirei profundamente, rogando ao vazio que inspirações divinas existissem e que aquilo não fosse o começo do fim de tudo o que eu conquistara na vida. Um dedo hábil veio untar-me fartamente com um produto viscoso e frio...
- Quer uma dica? KY na geladeira., cochichou ele numa voz suave e distendida.

...e o dedo logo foi substituído pela glande tensa e quente.
- Ah! Apertado como eu gosto, sussurrou ele.

Debrucei-me mais, ficando quase na ponta dos dedos, mas Humberto forçou-me o final das costas com a mão para que eu as curvasse para baixo.
- Empina isso, rapaz! exclamou ele, dando-me uma sonora palmada. É aí que está toda a beleza da coisa!

Relaxei a coluna vertebral, mas senti o rosto ferver, vendo-me oferecido daquela maneira. A glande aprofundou-se um pouco mais. Com a apreensão natural, eu me esquecera de avaliar o quanto seria difícil admitir o diâmetro daquele membro. Humberto avançava e recuava para abrir-me, mas eu me fechara há anos para objetos de diâmetro superior a, digamos, dois ou três centímetros. Ele voltou ao lubrificante e ao dedo, que ele conseguiu por fim introduzir profundamente, arrancando-me um gemido alto.
- Doeu?
- Um pouco.
- Perdeu o costume?
- Completamente!

Concentrei-me na obrigação de relaxar o ânus, coisa que o meu curto aprendizado anterior não fora suficiente para tornar voluntário, mas Humberto tanto fez que acabou chegando ao mesmo resultado com os dedos, e pude enfim sentir a glande expandir-me e deslizar para dentro.
- Ah, Inácio, que delícia! suspirou o meu sogro, como num alívio.
- Está entrando... balbuciei, entre gemidos, deitando a cabeça nos braços como se isso facilitasse as coisas.
- Se você pudesse ver o que estou vendo! exclamou o homem, emocionado, empurrando mais e mais.

Foi nesse momento preciso que Humberto, o engenheiro, decidiu especificar-me orgulhosamente que eu estava sendo empalado por um membro de um pouco mais de dezessete centímetros de comprimento por um pouco mais de cinco de diâmetro, acrescentando entusiasticamente que o diâmetro máximo da glande chegava a seis e elogiando-me pela elasticidade e "abertura". Eu tinha na memória a medida de três ou quatro vizinhos de adolescência; descontado o fato de que os diâmetros eram perfeitamente desprezíveis, os comprimentos mal chegavam a quinze centímetros! Quando Humberto chegou ao fim e senti na pele do bumbum a cócegas do seus pelos, concluí que toda a minha experiência passada estava para ser deletada pelo rolo compressor da novidade. Senti uma forte pressão no períneo e algo escorreu do meu sexo. Era esperma, que verti sem sequer ter chegado ao orgasmo. Humberto explicou-me que seu pênis deve ter-me esfregado a próstata, e que aquilo era comum. Em seguida, ele pôs-se a mover-se, num vaivém ritmado e regular, até o primeiro espasmo e a sucessão de jatos que me encheram do que me fora negado anteriormente.
- Você não vai se masturbar? indagou ele.
- Não subiu todo, não sei por quê, respondi, olhando-me. É a primeira vez que isso acontece.
- Você devia estar um pouco tenso. Vou continuar e você se masturba. É pena perder a oportunidade. Ah! Sabe o que mais? Eu vou...

E Humberto empunhou-me gentilmente o sexo pela extremidade, que eu nem me lembrara de descobrir. Ele acariciou-me os testículos e esperou que a ereção se formasse para então largá-lo e deixar o resto aos meus cuidados.
- Obrigado! brinquei.

Ele iniciou então um vaivém regular, mas mais lento, instruindo-me a não parar de masturbar-me. Em seguida, ele aprofundou-se e permaneceu lá, completamente cravado em mim, apenas pulsando. Tive assim pela primeira vez um o orgasmo completamente diferente dos anteriores, durante o qual não só ejaculei abundantemente, como senti meu corpo premendo a verga rígida e pulsante que o atravessava. Desmoronei na janela, de pernas moles como elásticos enquanto Humberto desfechava algumas estocadas finais para coroar de intensidade o nosso primeiro encontro. Quando ele saiu de mim, desejei que voltasse, mas ele deu por encerrada a sessão inaugural. Senti seu líquido escorrer e a entrada voltar gradativamente a fechar-se.

Um primeiro banho a dois selou o início de uma relação que dura até hoje, quase dez anos depois. Glaucia e eu demos um lindo neto ao meu sogro, hoje com cinquenta e seis anos e recém-aposentado. Continuamos a ver-nos na casa do Grajaú sempre que é possível estarmos a sós. Nem ele nem eu sofremos qualquer conflito por manter nossa relação em segredo. Embora a mentalidade no que diz respeito ao sexo esteja mudando rapidamente e a olhos vistos, o sonho de uma sociedade predominantemente bissexual ainda terá que esperar que vá por água abaixo a crença infundada numa polaridade rígida e inquebrantável que rege a sexualidade humana.