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Erotexto é um blogue dedicado ao erotismo que tem por característica uma rica diversidade de estruturas narrativas. Seu objetivo é triplo: entreter, desenvolver o interesse pela escritura e - o principal - motivar a reflexão sobre a libido e a busca do prazer, cujo fundamento biológico acredito ser de caráter essencial e universalmente bissexual.

Erotexto tem formato fixo. A primeira página comporta a última narrativa proposta (não necessariamente a última criação). O material arquivado consiste de contos e relatos classificados por categoria sob a rubrica "EroStock" (coluna à direita), bem como séries, novelas e folhetins. Para conhecer a acepção em que cada estrutura narrativa foi tomada, convido o leitor a clicar em "Pequena Teoria da Narrativa", aqui acima.

Uma comunicação contínua com o leitor faz-se através da rubrica "EroNovas", a primeira da coluna à direita. Meu e-mail está à sua disposição. Para reagir a uma publicação, clique na palavra "comentário", abaixo de cada texto.

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Que Erotexto possa excitar de modo agradável, são e prazeroso, inspirar o leitor a escrever suas próprias histórias e principalmente, motivar a reflexão.

Marc Fauwel

Tatuagem (folhetim, ep. I)

1. Emancipada!

Enfim autorizada pelos pais, Rebeca pode realizar um dos seus maiores sonhos: ter tatuagens. Faz tempo que ela passa longos momentos diante do espelho imaginando ilustrações coloridas preenchendo a página em branco do seu corpo nu. Ela quer uma letra japonesa na nuca, um dragãozinho na omoplata, uma maçã num seio, uma "manga" com motivos abstratos recobrindo o braço direito, um cupido de arco e flecha no púbis e talvez alguma coisa no final das costas. Ela já determinou com exatidão o lugar de cada uma delas e quando se olha no espelho, é capaz de visualizá-las como se já estivessem lá. Teoricamente, basta que Rebeca peça à sua amiga Cátia que marque hora com o tatuador que ela frequenta, mas nessa quarta-feira após as aulas, ela continua temerosa.
– Ai Cátia, sei lá, não consigo tomar uma decisão! diz ela à sua melhor amiga.
– Mas o que é que está pegando, Rê?
– Não vou ter coragem de tirar a roupa!
– Não? Nem para o Henrique? Além de estar super acostumado, ele é um amor. Fora que ele é lindo! E você não precisa chegar lá tirando a roupa, não é!
– Eu sei, mas é que eu queria que a minha primeira tatuagem fosse a da virilha.
– Por quê? Para o teu queridinho Dan lamber? diz ela, zombeteira.
– É!
– Então faz! O Henrique trabalha tão concentrado que nem te vê, pode acreditar.
– Só se a gente for junto e você ficar comigo!
– Se for nesse fim de semana, tudo bem. Durante a semana e no próximo fim de semana, não dá.
– Você tenta então?
– Vou ligar para ele e te ligo de volta.
– Vou ficar esperando.

Elas desligam e Rebeca volta ao espelho enquanto espera impaciente pelo novo telefonema da amiga. De costas para ele e olhando para trás, ela tenta imaginar um belo motivo horizontal no final das costas, pouco acima do sulco que separa suas nádegas em dois belos gomos claros e salientes. Ela sabe que não poderá arrepender-se e que uma tatuagem mal feita passa a ser como um defeito físico. A curvatura dorsal é um dos seus maiores atrativos. Se uma tatuagem viesse a romper essa harmonia, ela não se perdoaria. E na frente? Se o cupido que ela imagina no púbis ficasse desgracioso ou tivesse o tamanho errado, seria um desastre ainda maior! Ter que apagar uma tatuagem num lugar desses seria catastrófico! Talvez sua amiga tenha razão e seja melhor começar pelos outros lugares, pondera ela. Rebeca está em plena agonia quando o telefone toca.
– Fala logo! dispara ela, ansiosa.
– Marquei para sábado às 10h da manhã. Você pode?
– Mas você vai comigo, não vai?
– Claro que vou! Mas relaxa porque é só um papo para você dizer o que quer que ele faça.
– ...
– ...

Tudo parece arrastar-se, nesse resto da semana de Rebeca, até que chega enfim o momento de ir encontrar Cátia. Embora tenha abandonado a idéia de começar pelas tatuagens nos lugares mais embaraçosos, ela decide vestir-se com roupas leves para que o tatuador tenha de saída uma noção de como é o seu corpo. Saia e blusa bem curtos lhe parecem ideais porque se o clima for profissional e descontraído como a sua amiga insiste em enfatizar, ela poderia até mostrar ao tatuador os lugares onde cada imagem será feita. Uma última olhada ao espelho lembra-lhe que seus seios, coxas e nádegas não escaparão aos comentários de baixo nível, na rua, mas ela respira fundo e sai assim mesmo, indo decididamente até o ponto do ônibus que a deixará em Ipanema.

De pernas cruzadas, Rebeca olha pela janela para evitar os olhares boçais de certos passageiros. Ela já passou férias na Europa e Estados Unidos e pôde constatar que há outras maneiras de admirar-se uma mulher bonita. Ela é consciente da sua juventude e beleza, e reconhece que seu corpo atrai homens não necessariamente de sua faixa etária, mas não entende por que um olhar de admiração deva forçosamente ter essa conotação agressivamente imoral e vulgar que a maioria dos homens mais velhos lançam às jovens, no Brasil. Por que é que não fazem brincadeiras leves, usando palavras que agradariam em vez de ofender? Por que palavrões em vez de elogios? Rebeca se dá conta com pesar de que nem conhece muitas palavras de agrado em português; elas lhe parecem todas antiquadas, inadequadas ou "cafonas", isto é, socialmente defasadas. As expressões que pareciam tão simpáticas e carinhosas quando emitidas por alguém do seu meio vulgarizam-se e tornam-se deslocadas quando proferidas com entonação grosseira. Embora imersa nessa reflexão e olhando para fora do ônibus, Rebeca sente-se olhada, e aperta as coxas para evitar que sua calcinha seja entrevista por algum desses cafajestes de olhos bovinos que ela abomina e despreza. É sempre um alívio saltar do ônibus. Quando ela avista Cátia na praça General Osório, sua amiga lhe pergunta se está tudo bem.
– Ah, o de sempre: os caras olham de um jeito!
– Nem fala! Passaram a mão na minha coxa agora mesmo, no metrô. E o pior é que não dá para dizer nada porque os homens se entendem! Mas esquece isso e vamos andando que o Henrique já deve estar esperando. Você demorou!
– É, o ônibus parecia um parador de cidade do interior!

Chegando ao estúdio de tatuagem, um amplo espaço de paredes negras compartimentado em várias salas, elas logo são encaminhadas ao tatuador que vai atender Rebeca. Henrique abdicou do cabelo em favor da tatuagem. Ex-louro, ele agora ostenta um crânio raspado e completamente ornamentado de motivos dantescos realçados pelo mar dos seus olhos azuis. Anéis nos lóbulos auriculares, piercings nos mamilos, duas "mangas" que se unem às mãos completamente preenchidas, além de enormes motivos boschianos nas costas, peito e barriga evidenciam a onipresença da tatuagem nesse jovem magro e alto de sorriso gentil.
– Essa é a Rebeca, diz Cátia, apresentando a amiga como se fosse uma escultura.
– Oi, Rebeca! Então você quer entrar para o mundo dos inconfundíveis?
– Sei lá, nunca pensei nisso, Henrique. Em todo caso, vou começar com tatuagens bem discretas, diz ela, impressionada diante da obra de arte ambulante à sua frente.
– A gente sempre começa com as discretas, mas depois, tudo pode acontecer! retruca ele apontando para si próprio.
– Eu acho super sexy! declara Cátia, passando a mão pela "manga" de cores exuberantes do tatuador.
– Você tem tatuagens escondidas, Henrique? indaga Rebeca, curiosa.
– Quer um exemplo? provoca o rapaz.
– Claro!

Henrique então vira-se e ergue a camiseta. Rebeca reconhece imediatamente "needle", a espada de Arya, no Trono de Ferro, tatuada no final das costas dele como se a lâmina mergulhasse entre as nádegas, que lhe parecem estar totalmente recobertas de motivos silvestres à moda medieval.
– Uau! exclama Rebeca, tapando a boca com a mão.
– Gostou? pergunta o tatuador.
– Agora ela vai querer cobrir o corpo, Henrique! dispara Cátia, rindo.
– Estou sem fala, gente! exclama a neófita. Já sei que o que eu imaginei vai ser só o início. Vamos marcar uma hora para começar, Henrique. Estou morrendo de impaciência!