Os homens (i.e. pessoas que possuem um aparelho genital masculino ao nascer e que na maioria dos casos não entram em conflito com ele ao longo da vida) tendem a identificar-se de acordo com o seu gosto por certas sensações. O adolescente aprende a gostar de sensações essencialmente penianas auferidas da masturbação, do orgasmo e da ejaculação, e isso o faz "sentir-se homem", o que em outras palavras corresponde a sentir-se heterossexual. Essa é a modalidade de prazer que a sociedade aprova e reforça ao longo de todo o aprendizado do neófito, até suas primeiras experiências sexuais com mulheres que, por sua vez, continuarão reforçando nele o gosto pelas únicas sensações de prazer sexual consideradas culturalmente aceitáveis num homem. O resultado é que o indivíduo se identifica como homem em função do seu gosto por essas sensações penianas e o que o faz sentir-se heterossexual* é o fato de sentir prazer exclusivamente com essas sensações. Essa é a origem de uma confusão mental que atormenta psicológicamente um número considerável de homens.
O homem que não tem qualquer conflito com o aparelho genital que é o seu e que assimilou bem os condicionamentos sociais impostos a ele e aos seus congêneres pode não obstante vir a descobrir que sente prazer através de estímulos de outra natureza. É muito comum, por exemplo, que a penetração anal com os dedos seja experimentada como um amplificador muito prazeroso da masturbação, tão prazeroso às vezes, que o homem passa a masturbar-se regularmente dessa maneira, podendo inclusive vir a usar objetos como canetas, cabos de escova, tubos de desodorante, etc. A maioria dos homens fará isso em total privacidade e jamais revelará essa preferência aos amigos, familiares e muito menos às parceiras. Contudo, se é bem verdade que alguns não verão nesse hábito nada de mais, um grande número de homens desenvolverá dúvidas quanto à sua identidade sexual pelo simples fato de que esse tipo de prazer extrapola aqueles atribuídos pela sociedade ao homem "que é homem". O fato de confundir prazer e identidade pode causar conflitos extremamente danosos pela vida afora, e é por isso que resolvi tratar do assunto aqui.
Venho falando em "confusão" desde o início do texto; a primeira etapa é portanto identificá-la. Quando ocorre que um homem associe mentalmente (a) sensações oriundas de estímulos sexuais e (b) a consciência de ser o que ele é (i.e. homem, estudante, filho de um pai companheiro, namorado de uma mulher com quem ele tem uma vida sexual, jogador de futebol, bem integrado num grupo de amigos, etc.), o que ele está fazendo é precisamente "fundir" sensações físicas com a consciência de um conjunto de características que o definem, daí o termo "co(n)fusão". Ora, esse é um erro que não deveria acontecer, já que a percepção prazerosa - puramente física - e a consciência do que somos são itens cognitivos de naturezas distintas e portanto incomensuráveis. Essa "ponte" estabelecida entre a percepção física e a consciência de uma identidade não tem razão de ser e é preciso desconstruí-la através do entendimento.
As sensações oriundas da percepção humana são as mesmas para os dois gêneros naturais, homem e mulher, com exceção daquelas que são específicas aos estimulos peniano ou vaginal, já que é impossível conhecer as sensações produzidas por um órgão que não se possui. Fora isso, todas as demais sensações do corpo se equivalem para o homem e para a mulher e causam prazer (ou desprazer) semelhante. É profundamente ilógico, portanto, negar ao homem a possibilidade de auferir prazer dessas sensações.
O resultado a que essa curta análise deve levar é claro: o homem não deixa de ser homem pelo fato de auferir prazer de sensações físicas que não lhe foram autorizadas pela sociedade, e isso pelo simples fato de que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Em termos explícitos: se o homem deseja praticar a felação, receber carícias nas nádegas, lambidas no ânus e até mesmo ser penetrado - por uma mulher ou por outro homem - não há razão no mundo que o torne "menos homem" por isso. Sendo um ser humano, ele está sujeito a todas as sensações próprias aos humanos.
É crescente o número de homens de toda idade, estado civil e condição social que têm procurado parceiros (mulheres, transgêneros e mesmo homens) para enriquecer ou complementar sua vida sexual e é triste constatar que essa prática tem levado tantos deles a questionar sua identidade sexual pelo simples fato de que certas sensações que até hoje foram consideradas privativas da mulher lhes causam prazer, mas sobretudo porque uma mera falha de entendimento os faz confundir alhos com bugalhos. No dia em que essa confusão se dissolver, veremos o homem desfrutar muito mais prazer do seu corpo e da sua sexualidade.
É curioso observar como à mulher é dada toda a liberdade e até mesmo todo o estímulo para realizar as fantasias mais mirabolantes. A sociedade aprova com entusiasmo que duas mulheres interajam plenamente na cama, aplaudindo quando uma mulher se equipa de uma cinta peniana para penetrar uma parceira e delirando quando duas mulheres se beijam na boca e trocam carícias íntimas. Mas se um rapaz se aventura a dizer aos amigos que sentiu prazer acariciando as próprias nádegas é, na grande maioria das vezes, ridicularizado, quando não imediatamente rotulado e reprovado pelo grupo.
É preciso que sociedades como a nossa aprendam a reconhecer as falhas elementares presentes nos raciocínios que elas aplicam à sexualidade humana. São falhas lógicas grosseiras, falhas de inteligência que evidenciam uma lamentável incapacidade para analisar situações que, no entanto, nada têm de tão complexo ou abstrato. Essas falhas são causadas pela presença de preconceitos. Preconceitos são pressupostos que funcionam como premissas que alteram as conclusões dos argumentos que elas integram.
Vejamos um exemplo bem ilustrativo de argumento contaminado por uma premissa falsa: "Homem de verdade não considera homem bonito; ora, Joãozinho acha o Pedrinho bonito; portanto, Joãozinho não é homem de verdade." Esse tipo de argumento se chama silogismo e o silogismo do exemplo produz uma conclusão falsa em razão da sua premissa maior "Homem de verdade não considera homem bonito", que é obviamente falsa. A premissa maior exprime, no caso do exemplo, um preconceito. Quando o preconceito funciona como uma lei amplamente aceita, a sociedade sanciona rigorosamente tudo o que foge ao comportamento prescrito implicitamente pelo preconceito, donde os exageros e violências que vemos diariamente pelo mundo afora.
À medida que a sociedade evolui do ponto de vista humano (e não meramente econômico), essas falhas vão sendo entendidas e corrigidas pela sociedade, e é isso que vemos nas sociedades mais evoluídas que a nossa, como as sociedades europeias, por exemplo (e ao contrário das sociedades norte-americanas, tão imensamente hipócritas). É por isso que precisamos continuar escrevendo e debatendo para esclarecer o maior número possível de pessoas, sem ofensas, sem agressões, sem rupturas. A sociedade como um todo tem que ser levada entender o ser humano e a sexualidade para que seja capaz de eliminar o preconceito que cega e invalida o raciocínio lógico espontâneo.
(*) A referência ao heterossexualismo neste texto não invalida em nada a minha defesa ferrenha da bissexualidade como inerente no ser humano. Meu objetivo foi dirigir-me aos homens que precisam "sentir-se" heterossexuais, mas cujas práticas e gostos são muitas vezes objeto de conflitos psicológicos graves.
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