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Diálogo Maduro I


Gostar pode ser a resposta para muita coisa, quando o assunto é o sexo. Muita gente viveu precocemente experiências com vizinhos, colegas ou amigos do mesmo sexo, eventualmente até com um primo ou um namorado da irmã, mas a maioria não chegou a examinar seriamente se gostou ou não dessas experiêncas. Na verdade, a maioria atende às exigências da sociedade e se convence de não ter gostado. Entre meninos, é possível que aqueles que penetraram tenham apreciado a experiência, mas a vasta maioria dos que estiveram no papel do "passivo" (qualificativo infeliz, usado aqui por comodidade) convencem-se de não ter gostado, e isso, muitas vezes, nem tanto pela experiência em si, que pode ter sido relativamente prazerosa, mas principalmente porque a sociedade condena a posição do passivo, rotulando-o cegamente de gay.

    Caio é uma dessas raras exceções de jovens que, embora longe de sentirem-se gays, tiveram experiências positivas com meninos, inclusive enquanto passivo. Ele as teve com vizinhos e amigos que ele apreciava e, aos dezenove anos, calouro na faculdade de matemática de uma universidade de renome, conserva as melhores lembranças no que diz respeito ao prazer auferido dessas relações. Ele namora a mesma menina já há dois anos e ambos têm planos de construir um futuro juntos. Como ele jamais escondeu dela as experiências homossexuais que teve, Sofia logo se acostumou à ideia de que ele jamais bloquearia essa faceta da sua sexualidade.

    Sempre que Caio e Sofia conversam, ela se mostra madura o suficiente para compreender que a sua relação com ele é e será sempre atípica, mas Caio faz questão de voltar regularmente ao assunto para que ela tenha certeza absoluta do passo que vai dar caso permaneça com ele, e não se arrependa mais tarde.
— Você entende realmente o que eu quero dizer quando falo que vou coninuar tendo encontros com homens, não é, Sofia?
— Eu já disse mil vezes que sim. Sei muito bem que você não sente paixão nem amor por homens, só tesão, e que não vai deixar de transar com homens quando estivermos casados.
— É isso, mas não quero que você só repita da boca para fora. Quero que você tenha a convicção íntima de que é verdade, que você pode acreditar em mim e ter a certeza absoluta de que eu não sou gay mesmo que eu goste de transar com homens, inclusive como passivo.
— Eu entendi, Caio. Você já me convenceu com o melhor dos argumentos: se admitirmos (1) que a anatomia anal é a mesma em toda a espécie humana e (2) que a prática do sexo anal (i.e., a expansão, a penetração e a fricção do orifício anal) pode ser prazerosa à mulher, então seria contraditório negar que essa mesma prática possa ser prazerosa ao homem.
— Exatamente. Se a a anatomia anal é a mesma, as sensações anais têm que ser as mesmas. Não pode haver um peso e duas medidas. Esse é o meu melhor argumento. Você mesma curte quando o sexo anal dá certo entre nós. Quantas vezes você já sentiu muito tesão quando fazemos, não é mesmo?
— É, não posso negar, às vezes é uma delícia e tenho orgasmos incríveis me masturbando enquanto você põe atrás.
— Pois é, e com o homem tem um "extra", como você sabe.
— Uahhh... (bocejo) Já sei, lá vem você com a próstata!
— Acertou! A mulher não tem nada além do reto, mas o homem tem essa glândula fantástica que, se bem estimulada, provoca até orgasmos. Pode parecer estranho dizer isso, mas, no fundo, o homem tem um motivo a mais que a mulher para gostar de sexo anal!
— Ha! Ha! Desse ponto de vista, é verdade! Caio, eu sempre entendi tudo e acho seus argumentos super convincentes, mas você insiste demais, só isso.
— Eu sei, mas é que se a gente pensa em casamento, tudo tem que estar muito claro porque não quero te ver sofrer.
— Como eu também já disse, é provável que eu estranhe, no início, mas como nós já vivemos nesse "esquema", a única diferença vai ser estarmos morando juntos.
— Pois é, nada vai mudar, mas é aí que está a diferença em relação aos casais "normais", em que muita coisa deixa de ser como era e até mesmo o marido e a mulher deixam de ser integralmente o que são para ser e pensar como casal e não mais como indivíduos.
— É, eu também não concordo com essa visão do casal como produto da fusão e do apagamento da individualidade. Desde que você não me deixe de lado e fique só transando com caras, está tudo bem para mim!
— Eu nunca tive vontade de transar só com homens. No comecinho foi assim porque não tinha menina a fim de garoto bobão e espinhento, e eu já tinha tido as minhas experiências com o João. Mas assim que eu dei o meu primeiro beijo numa menina, engrenei nos namoros até mesmo quando eu voltei a ficar no maior fogo com o João.
— Adoro o João. Espero que vocês não se percam de vista.
— É, ele também não quer que a gente pare de se ver.
— Foi com ele que tudo começou, não é?
— Pois é, a famosa "primeira vez" foi com ele!
— Você acha mesmo que a primeira vez de muitos meninos foi com menino?
— Estou convencido disso, Sofia. Menino procura menino porque falta menina!
— Eu entendo quando você diz que a gente rejeita os garotos da mesma idade, quando é nova. Eu mesma fiz isso mil vezes. Aos quinze anos, a gente quer garotos de dezoito ou mais. Eu só não entendo bem por que um garoto que ainda não pode fazer com meninas vai ser passivo com outro.
— Eu também já te expliquei isso, mas vou repetir. Geralmente, o menino tem experiências como ativo com outro(s) menino(s) porque se sente tímido para abordar meninas ou porque recebeu uma recusa de uma menina. Ele vai procurar aquele vizinho, colega ou amigo – geralmente um pouquinho mais novo – porque é mais fácil abordar meninos. Eles estão sempre juntos, jogam juntos, fazem xixi no murinho juntos, falam besteiras juntos, veem imagens pornô na internet juntos, etc. Esse vizinho ou amigo mais novo ainda não entrou na fase de tentar conquistar as meninas, ainda não levou fora de menina. Ele confia no amigo mais velho e "topa" ter experiências com ele. E é aí que entra a coisa do gostar ou não gostar. Por uma série de razões, a maioria dos meninos não gosta do papel de passivo, mas um ou outro gosta, e foi o meu caso.
— E depois o ciclo se repete quando os mais novos crescem.
— Exatamente. Eles vão chegar aos catorze, quinze anos, vão levar foras das meninas da mesma idade e, armados das experiências que já tiveram, vão tentar aliviar as pressões da libido com carinhas um pouco mais novos que eles. E o ciclo se repete sem fim.
— E um belo dia, as meninas aceitam fazer com eles, e...
— E os que não tiverem tendência gay, quer dizer, os que não se apaixonarem por homens, vão ter boas lembranças das experiências tanto com meninos quanto com meninas e apreciar as duas coisas pela vida afora.
— Como você! Ou não? Com meninos, você só foi passivo, não é isso?
— Como eu, sim senhora! Quem disse que eu fui só passivo? Esqueceu do Renatinho? Ele foi o "meu" passivo!
— É verdade, eu tinha esquecido do Renatinho! Você era terrível! Ha! Ha!
— Eu vivi as duas etapas do ciclo. Muitos só vivem uma delas e a maioria incompletamente.
— Você acha que todo mundo nasce bi, não é? Até as mulheres?
— Todo mundo. Mas a sociedade reprime isso tão bem que pouquíssimos continuam bi. A esmagadora maioria "escolhe" entre hétero ou homo. Daí tanta frustração.
— Eu beijava a Maria na boca quando ela ia dormir lá em casa, mas a gente dizia que era para "treinar" antes de conquistar os garotos mais velhos que já sabiam beijar.
— A questão é: vocês se excitavam?
— Claro que sim. Nós ficávamos todas vermelhas, quentes e lânguidas. Mas a Maria não desgrudava de mim no dia seguinte e chegava a chorar quando a gente se separava nas férias.
— Pois é, e hoje a Maria namora o Roberto e dá a impressão que ela seria a última pessoa no mundo a gostar de ficar com mulher.
— Ah ela tem "alergia" a lésbicas!
— Para você ver até onde chega a repressão social!
— Não entendo muito bem por que damos tanta trela às opiniões alheias.
— É que, quando novos, nós respeitamos a opinião de pai, mãe, irmãos mais velhos, tios, amigos, professores, padres... Nós superestimamos essas pessoas e damos a elas autoridade sobre nós. É difícil para alguém muito novo, sem experiência nenhuma de vida, dizer não a essas pessoas. Tanto é assim que a maioria entra nessas primeiras tentativas sexuais com amigos, colegas ou vizinhos do mesmo sexo já meio confusa por causa do preconceito de que essass coisas são grotescas e erradas.
— É mesmo, tem essa coisa do feio, do errado, do sujo. Deve ter muito pouca gente como você, que entrou e saiu dessas experiências sem esse mal estar.
— Até muitos gays e lésbicas acham que as primeiras relações deixaram uma marca negativa, uma mancha.
— Com você e o João não teve nada disso, não é? Foi sempre bonito e gostoso?
— Foi, porque o João é dois anos mais velho que eu e nunca teve vergonha de dizer que acha o meu corpo bonito e que sente muito prazer comigo. Tudo foi e ainda é muito positivo entre nós.
— Acho uma graça cada vez que você me conta que vocês se encontravam de madrugada, na garagem, enquanto as famílias de vocês dormiam.
— Pois é, depois da primeira vez, na casa dele, totalmente por acaso porque ele estava sozinho naquele dia, tivemos que inventar outro jeito de continuar nos vendo. Eu morria de medo de acordar o pessoal com o barulho da fechadura.
— Vocês se encontravam no meio da noite, não é?
— É, quando todo mundo estava dormindo profundamente. E durava pouco, só alguns minutos.
— Quantos? Vinte? Meia hora?
— Por aí, uma meia hora depois eu estava de volta, todo nervoso e molhado!
— Eca! Ha! Ha!
— Pois é, escorria e não tinha como limpar tudo na hora. Eu enxugava ao máximo, depois enfiava uma das minhas meias no bumbum, como se fosse uma tanga de sumô, para não molhar a cueca.
— Ha! Ha! Quanto tempo isso durou mesmo?
— Nessa idade a gente pensa que as coisas duram muito, mas foram alguns meses do mesmo ano. Eu tinha quinze, o João dezessete e ele logo começou a sair com a Luísa, e foi com ela a primeira transa dele com mulher.
— E você ficou "sem pai nem mãe".
— Mais ou menos, porque ninguém sabia desse lance entre o João e eu, então não tinha como eu tentar a mesma coisa com outro. Foi nessa época que eu comecei a dar em cima das meninas daqui do bairro, da escola, do clube, mas como só tomava "fora", me voltei para o Renatinho, o cara mais tímido do condomínio.
— E foi bom com ele?
— A gente se entendia bem, rolava uma certa amizade, mas ele era muito introvertido, então era difícil desenvolver as afinidades. Mas era minha vez de fazer o que a mãe Natureza exigia que eu fizesse, e ele topava numa boa.
— Topava, mas não gostava, não é isso?
— Digamos que gostava mas não admitia, como a torcida do Flamengo.
— "Eu, Renato, gostar de dar, nunca!"
— É por aí.
— E um belo dia, o João voltou.
— Pois é, o namoro dele com a Luísa acabou e por sorte não o transformou; ele continuava gostando do que fazíamos antes. Cerca de um ano depois a gente estava transando de novo e não parou mais, nem quando um ou outro ficava com alguma menina. E foi aí que você entrou em cena e não saiu mais.
— Que loucura, não é? Eu e meu namoradinho bi! Foi quando a gente começou a ficar juntos que você resolveu "sair do armário" e contar na escola que era bi.
— Pois é, acho que eu fui o primeiro. Depois o Bóris também saiu.
— E a Natália, na mesma época.
— É, só que a Natália só se apaixona por mulher.
— Verdade, ela é lésbica assumida.
— Mas o importante, nessa conversa toda, é você ter entendido que um menino pode não ser gay e no entanto – porque as suas experiências precoces com outros meninos foram positivas –, continuar tendo relações com homens, inclusive como passivo, ao longo da vida e mesmo depois de casado.
— Entendi perfeitamente. A complicação só existe porque, ao negar a inerência da bissexualidade na espécie humana, a sociedade reprime as relações homossexuais e rotula quem as teve. Assim que um menino é taxado de gay ou uma menina de lésbica, fica dificílimo para ele/ela ter relações com alguém do sexo oposto. Daí as precauções extremas daqueles que, como você, gostam de praticar sexo com homens mas não são gays porque não amam homens.
— Em outras palavras, dos que, como eu, são bissexuais, no sentido literal.
— Sim, gostar de ter relações sexuais com pessoas de ambos os sexos é muito diferente de amar indistintamente pessoas de ambos os sexos.
— Você entendeu tudo.
— Isso me fez pensar numa coisa: um bissexual pode ser gay/lésbica ou não.
— Sem dúvida! Por exemplo, Tomás ama André, mora com ele, mas tem transas regulares com Sônia. Sílvia ama Débora, mora com ela, mas tem transas regulares com Pedro. Tomás é gay, Sílvia é lésbica, e ambos são bissexuais.
— Acho que essas coisas não são muito claras na cabeça da maioria.
— Não mesmo! É preciso distinguir a homoafetividade da homossexualidade pura e simples. Gays e lésbicas têm relações homoafetivas com pessoas do mesmo sexo, mas podem ser hetero, homo ou bissexuais.
— Pera! Um gay pode ser heterossexual?
— Pode, mas são casos extremos. Por exemplo, Mário pode amar Tiago e detestar fazer sexo oral e anal com homens, mas adorar fazer sexo oral e anal com mulheres. Mário e Tiago podem então sacrificar parte da vida sexual por amor ou podem entrar num acordo para que o Mário possa satisfazer seu lado hétero com mulheres.
— Entendi e vou tentar dar um exemplo com lésbicas. Sílvia pode perfeitamente amar Débora e não gostar de praticar sexo com mulheres ou achar que "falta alguma coisa" no sexo entre mulheres. Então ela entra em acordo com a Débora para ter transas com homens. Ela ama Débora, é incapaz de amar homens, mas satisfaz sua libido com homens. É nesse sentido que a Sílvia pode ser considerada lésbica e heterossexual.
— Exatamente. São, em última análise, casos particulares de bissexualidade em que a prática sexual com o parceiro do mesmo sexo fica reduzida a quase nada e só o amor se manifesta através do afeto e do contato físico assexuado.
— Outro caso particular que me ocorre é o dos casais de gays/lésbicas que querem ter filhos e resolvem a questão transando com uma pessoa do sexo oposto. No fundo, uma grande parte dos gays/lésbicas admite, ainda que inconscientemente, essa ideia da bissexualidade inerente à espécie, não é?
— Sim, no sentido de que alguns gays/lésbicas toleram o sexo com pessoas do sexo oposto para a finalidade específica da procriação. É muito comum quando um dos parceiros teve relacionamentos heterossexuais, foi casado, etc.
— Uau! Acho que ultrapassamos de longe o objetivo da nossa conversa, Caio. Não só ficou bem claro que homens heterossexuais como você podem gostar de praticar sexo com outros homens...
— Inclusive enquanto passivos!
— Sim, inclusive enquanto passivos. E não só isso, como também percorremos uma série de situações possíveis e claramente existentes que costumam ser estigmatizadas pela sociedade.
— Costumavam mais do que costumam, quando se trata do Ocidente, mas ainda é o caso na maioria das sociedades do mundo, que continuam extremamente ignorantes e preconceituosas, profundamente desrespeitosas dos gostos e preferências individuais. Nas devidas proporções, precisamos lutar por sociedades cada vez mais livres e menos censuradas. É óbvio que tudo que faz mal, tudo que é nocivo ao corpo ou à mente deve ser condenado e banido. Mas o relacionamento entre adultos não deveria jamais ser alvo de tantos preconceitos, e o gostar deveria mais do que tudo merecer respeito. O gostar de uma prática saudável e legalmente aprovada por sociedades verdadeiramente democráticas justifica plenamente o seu uso e não deve ser tomado por base para rotular as pessoas. Dentro de limites naturais e legais muito claros, o princípio do prazer deveria servir de guia aos homens e mulheres no sexo e na afetividade.
— Muito bem falado, meu lindo! Adoro conversar com você.

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