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Acerca de um Interdito



    Um sobrevoo dos sites de contos eróticos do mundo desenvolvido tanto quanto do mundo não tão desenvolvido permite constatar que o tema do incesto figura dentre as preferências de muitos leitores não obstante a interdição imposta e as sanções a que estão sujeitos aqueles que a transgridem.


    A lei generaliza o seu julgamento: o incesto é proibido por lei porque destrói a família. Ora, não é preciso explicar quais são as consequências da destruição da família; todos sabemos qual foi o tratamento dispensado pelos governos colonizadores e pelos missionários de toda ordem aos povos autóctones deste mundo. A destruição da família leva à devastação de um povo, de uma nação.


    Os indivíduos, ao contrário da lei, não generalizam seu julgamento sobre o incesto. Se é bem verdade que o bom senso e uma repulsa natural salutar levam a quase totalidade das pessoas a condenar relações incestuosas entre pais e filhos, entre irmãos e entre tios e sobrinhos, percebe-se que as relações entre primos, entre cunhados, entre afilhados e padrinhos, entre pais e enteados e até, dentro de certos limites (voyeurismo, masturbação), entre irmãos, desde que consentidas e no respeito às diferenças de idade, indicam ser mais toleradas pelos indivíduos e constam da maioria dos suportes de narrativas eróticas: livros, sites dedicados, blogs, podcasts, quadrinhos, etc.


    Esse tipo de relação que, por falta de termo adequado, admitimos ser mais "tolerada" pelos indivíduos pode ser considerado sob dois pontos de vista. Essas relações podem implicar sentimentos deslocados de paixão e amor por pessoas ligadas pela consanguinidade. Essas relações podem ser, por outro lado, de natureza puramente sexual, no sentido propriamente genital do termo, sem qualquer implicação sentimental ou afetiva.


    Não há muito o que comentar sobre as relações incestuosas que envolvem sentimentos profundos e confusos, qualificadas de doentias. Toda pessoa de bom senso há de convir que é de se lamentar que alguém seja incapaz de conceber outro objeto de amor ou paixão além de um próprio irmão ou irmã, de um tio ou tia. O que é que leva alguém a voltar-se tão completamente para dentro do seu círculo familiar mais próximo que lhe seja impossível olhar para fora? É por isso que o tema escapa muitas vezes à esfera puramente legal para ser confiado à psicologia. O amor e a paixão no incesto são tratados como as psicopatias e sociopatias mais nefastas. Sem falar, é claro, das consequências desastrosas que relações dessa natureza podem acarretar em termos genéticos.


    Por outro lado, ainda há muito a ser dito sobre as relações incestuosas eventuais e circunstanciais que acontecem independentemente de qualquer obsessão ou fixação afetiva doentia de uma ou das duas partes. Essas relações podem ser explicadas por uma miríade de fatores: mera curiosidade; súbita irrupção da libido no pré-adolescente, ansiedade pela "primeira vez" no adolescente; erotização de ordem social em torno do corpo; repressões familiares ou religiosas; frustrações sexuais devidas à falta de autoestima, à escassez de experiências, ao casamento infeliz; estes dentre muitos outros fatores, tantos que é impossível explicar cada um deles.


    Essas relações incestuosas eventuais e circunstanciais, no mais das vezes únicas e sumárias, que poderíamos qualificar como sendo "de segunda ordem", fazem parte da experiência de um vasto número de indivíduos e são, na sua quase totalidade, desprovidas de consequências psicológicas a longo prazo. São elas que constituem 99,9% do acervo dos sites de contos eróticos para esta categoria de narrativas. O 0,1% restante, o percentual nefasto, pode e deve ser suprimido e sancionado, mas é estatisticamente desprezível. Nos casos em que, no interior desse ínfimo percentual, o incesto esteja associado à pedofilia, qualquer pessoa de bom senso dirá que ele deve ser incondicionalmente reprimido e as sanções aplicadas ser as mais severas contidas no código penal de todo país. Todavia, uma vez tratadas as exceções, tudo leva a crer que essas relações de "segunda ordem" poderiam ser consideradas como fazendo parte do vasto leque da experiência humana possível. Para dar um único exemplo do tipo de caso a que me refiro, penso no contato hetero e homossexual tão frequente e raramente traumático entre primos de idades próximas.


    Enquanto os juristas queimam as pestanas refletindo sobre a legislação a ser aplicada aos casos de incesto real, milhões de narrativas tratando do incesto fictício abarrotam os servidores da Internet. Essas estórias escritas, faladas e até desenhadas em quadrinhos por artistas famosos são fruto da mera imaginação dos autores e raramente correspondem a fatos reais. Na quase totalidade dos casos, tratam de relações consentidas, não violentas e carregadas de erotismo e desejo mútuo. O sobrinho tem suores frios ao ver a tia quarentona, o primo tem sonhos eróticos com a prima exuberante, a adolescente gagueja ao ver o meio-irmão bonito e atlético, o cunhado se engraça com a cunhadinha saliente, e assim por diante. São narrativas que tratam do que chamei aqui de incesto "de segunda ordem" e cujo sabor provém em grande parte do interdito e da impossibilidade real de uma suposta realização concreta.


    Que fazer de toda essa "literatura" que só faz crescer nos servidores da Internet? Será necessário sancioná-la em bloco, seja qual for o suporte? A meu ver, não. O leitor de contos eróticos é, na sua quase totalidade, adulto, portanto é reduzido o perigo da influência desse material sobre os jovens. O texto, principalmente o longo texto, está longe de exercer no jovem o mesmo efeito que as imagens e os vídeos. E, não sejamos hipócritas, neste final de primeiro terço do século XXI, a juventude mostra-se tão precocemente esclarecida nas coisas do sexo que não se pode mais tratá-la como há trinta anos atrás. 
Para evitar os excessos, bastaria que se recomendasse aos administradores dos sites a triagem de bom senso do material escrito e ilustrativo a fim de evitar todo e qualquer texto tratando do incesto que não se enquadrasse no critério "de segunda ordem". Além disso, os próprios autores poderiam ser encorajados pelos webmasters a censurar publicações que lhes parecessem extrapolar os limites. O indivíduo da sociedade moderna já está constantemente submetido a tantas imposições do mundo real que seria humano outorgar-lhe um pouco mais de latitude no que diz respeito ao seu mundo mental, à fantasia e ao imaginário.


    É inegável que o tema do incesto é grave e sensível. Ele jamais foi retirado do Index dos tabus e sua complexidade exige um tratamento especial que dê provas de muita perspicácia e inteligência. Não obstante, ele precisa ser tratado, e uma vez que apresentei o Erotexto como sendo um blog dedicado acima de tudo à reflexão sobre a sexualidade humana, vejo-me na obrigação de abordar o tema mesmo não sendo capaz de propor uma solução satisfatória que dê conta do desafio que ele encerra. Talvez fosse preciso reexaminar o conceito de incesto para redefinir o que deva constituir seu escopo, mas isso é tarefa para os especialistas. Aqui limito-me a ousar trazer à baila uma discussão que a grande maioria evita. Não preciso dizer que o frequentador do Erotexto é convidado a debater este e todos os demais temas tratados neste blog.


M. F.



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