26. Bastidores
Quando Aninha surge no amplo salão onde
outra recepção tem lugar, ela imediatamente percebe a diferença. Uma maioria de
homens, todos extremamente bem vestidos e desacompanhados assistem ao que
parece ser um desfile de modelos de ambos os sexos que Aninha logo descobre
estarem completamente nus. Temerosa, ela dá um passo atrás, mas Norberto a faz
entrar abraçando-a pela cintura. Aninha se sente imediatamente observada pelos
homens mais próximos.
— Não estou
entendendo… diz ela, sentindo seu coração aos pulos e travando o passo.
— Fique tranquila,
Ana, e continue sorrindo. Daqui a pouco, você estará se sentindo uma
rainha, diz Norberto, acariciando-a já abaixo da cintura.
Um espaço logo se faz em torno deles e todos
aplaudem a chegada do anfitrião com a jovem que ele agora traz pela mão,
deslumbrante no vestido branco que destaca-lhe as formas perfeitas. O
volume da música é baixado e os convidados se calam.
— Senhores, quero
apresentar-lhes a Ana, nossa mais recente colaboradora, uma jovem ambiciosa que
tem pela frente o futuro que escolher. Como todos sabem, Ana está
gerenciando a butique Conchas e Crustáceos durante a ausência da proprietária,
ausente do país. Digo e afirmo que a Ana transformou essa butique no maior
sucesso da cidade, e é com muito orgulho que informa a todos que isso se deu a
partir do momento em que ela tomou a decisão de associar-se à nossa agência. É por isso que a Ana é a nossa homenageada de hoje. Ela
estará em nossa companhia até o fim da nossa recepção anual que já provou ser
um sucesso absoluto e vai se tornando tradição na família da agência Happy Hour.
As palmas ressoam
enquanto todos os olhares convergem para Aninha, cuja roupa revela uma sutil
transparência sob as luzes fortes da passarela improvisada. De certos ângulos,
é possível mais que adivinhar que ela não está usando nada por baixo do vestido
elástico e perfeitamente ajustado ao corpo. Norberto a faz dar uma volta e a puxa
para si para abraçá-la. O efeito do champanhe que lhe foi servido no andar de
cima somado aos elogios contidos astutamente inseridos no pequeno discurso
do big boss da agência resultam numa descontração um tanto eufórica e
irrefletida, mais fruto da lisonja do que outra coisa. A música volta a
preencher o salão, o desfile é retomado e Aninha deixa-se levar por Norberto,
que vai apresentando-a de grupo em grupo. Ela recebe elogios e se sente admirada por
esses homens maduros que sabem como se dirigir a uma mulher bonita. Garçons
passam constantemente, ela procura alimentar-se um pouco, mas não dispensa o
champanhe oferecido por Norberto, que procura mantê-la alheia ao que transcorre
por trás dos bastidores da luxuosa recepção para executivos muito bem sucedidos.
— É a Amanda! diz
ela subitamente, apontando para a jovem morena e bonita que desfila entre duas
fileiras de convidados tão próximas que é possível tocá-la.
— Você a conhece?
pergunta Norberto, franzindo o cenho.
— Claro! Ela
estagiou lá na loja, esta semana. É um doce de menina. Foi boa idéia chamar os
modelos da agência para animar a festa.
— Ah, sim, foi
mesmo… responde ele, um tanto distante. Você me dá licença um instante, Aninha?
— Claro. Vou esperar
aqui vendo o desfile.
— Está bem.
Norberto se afasta e
vai diretamente dizer diz alguma coisa a um homem que parece fazer parte da
organização da recepção. Ao mesmo tempo, algo acontece que chama a atenção de
Aninha. Um homem de cerca de 45 anos levantara a mão imediatamente antes que
Amanda começasse a desfilar e Aninha pôde observar, sem dar maior importância
ao fato, que a jovem que desfilara anteriormente saiu do salão por uma porta
pela qual, minutos depois, o tal homem sairia também. O que chamou sua atenção
foi que o mesmo ia acontecendo com Amanda, mas ao se encaminhar para a porta,
estaa foi interceptada pelo homem com quem Norberto falou e voltou ao grupo de
modelos que iam desfilar. Inteligente, Aninha percebeu algo no ar, mas estava
um pouco alta para ter idéias perfeitamente claras. Isso não a impediu de
perceber no semblante dos modelos que conversavam um ar de inquietude.
— E então? Está
gostando do desfile? diz Norberto, de volta.
— Eles são todos
lindos. Foi você que teve a idéia do desfile sem roupa?
— É, nós sempre
inventamos algo novo para as nossas festas. Essa clientela é muito especial,
Ana. São homens e mulheres extremamente bem-sucedidos na vida, para os quais o
céu é o limite, literalmente. Essas pessoas têm desejos requintados e os meios
para realizar qualquer um deles por mais excêntrico que seja.
— É sério? Uau!
exclama Aninha, deslumbrada. Você está falando de casas, carros, comidas,
bebidas, roupas, viagens, não é?
— É… isso também,
responde ele com um risinho, mas eles têm sonhos e fantasias que você nem
imaginaria possíveis, Ana.
— Que eu nem
imagino? Será? Me conte algum…
— Olhe, preciso dar
um pulo lá em cima para estar um pouco com os outros convidados. Vou deixar
você em ótima companhia aqui com o Belisário. Peça o que quiser a ele, está
bem? É como se você estivesse comigo.
— Mas…
Belisário é um homem
de 1,90m, careca, com porte de "homem do presidente". Ele não repara
que Aninha torna a ver um convidado erguer discretamente a mão e, minutos
depois, o modelo que acaba de desfilar — desta vez um rapaz magro de cabelo
longo — sair do salão e ser seguido por ele.
— Para onde eles
vão? pergunta ela.
— Para onde quem
vai, diz ele, fazendo-se de desentendido.
— O menino que
desfilou e o cara que foi atrás, ora!
— Quem sabe ao
banheiro?
— Hm... Pode ser.
A palavra
"banheiro" ecoa na cabeça de Aninha e ela não perde a deixa.
— Por falar nisso,
sou eu que estou com vontade de ir ao banheiro. Onde é mesmo?
— Lá, diz o homem,
apontando para outra porta bem afastada da porta em questão.
— Então eles não
foram ao banheiro, diz ela rindo!
— Você acha que só
tem um banheiro nessa cobertura? diz o gigante, debochado.
Aninha se afasta
aliviada, mas vai até a porta indicada, para não despertar suspeitas. Trata-se
de um pequeno cômodo com duas poltronas de veludo que dá acesso a dois
banheiros muito luxuosos. Aninha espera e uma das portas se abre. Para surpresa
sua, Mirela, a gerente da agência Happy Hour, é quem sai.
— Mirela! Ainda bem
que é você. Me explique o que está acontecendo aqui.
— Que cara é essa,
Ana? Não está acontecendo nada.
— Nada? Primeiro:
estou sendo vigiada por um gorila. Segundo: cada vez que um modelo sai da sala,
um convidado sai atrás.
— Ah, isso? Ana,
você não vai se fazer de inocente, não é? Para cima de mim?!
— Está legal, tudo
bem, os modelos estão fazendo programa com os clientes, até aí passa. Mas por
que é que eu estou sendo vigiada de perto?
— Que negócio é esse
de ser vigiada? Não sei de nada disso.
— O Norberto me
trouxe aqui, me apresentou a vários convidados, ficou comigo um tempo e de
repente, saiu dizendo que ia lá para cima me deixando com um tal de Belisário
que está me vigiando.
— Ah, o Beli? Beli é
gente boa. Pense que ele está com você para realizar seus desejos.
— E se eu disser que
o meu desejo é ir embora?
— Ah, aí vai pegar
mal, amor. Você não quer ser indelicada com o Norberto, não é?
— Mirela, você não
me conhece. Se você não me explicar o que está acontecendo aqui, vou botar a
boca no mundo e essa festa vai terminar muito, muito mal!
— Espera aqui que eu
já volto, Ana.
Mirela sai do
pequeno cômodo e vai falar com o tal Belisário que está postado do lado de
fora. Momentos depois, ela volta, leva Ana para um dos banheiros e tranca a
porta.
— Ana, eu fui
autorizada a explicar parte da coisa a você.
— Então pode começar
a falar.
Mirela então explica
que aquele andar da cobertura é dedicado aos "presentes" que a
agência faz aos seus melhores clientes e que, é claro, na maioria das vezes,
trata-se de sexo. Mas tudo se passa no maior sigilo porque essas pessoas são
casadas, têm famílias, além de terem um nome a zelar porque são empresários,
políticos ou celebridades, todos extremamente conhecidos e mediatizados
sobretudo em São Paulo ,
Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Obviamente Mirela omite a informação crucial e
reitera-lhe a necessidade de comportar-se como a "homenageada do dia".
— Sei. Isso quer
dizer que esse andar aqui é como um motel.
— Não veja a coisa
assim, Ana!
— Pois bem, se o
Norberto quer continuar a contar comigo, eu quero saber tudo, senão vou pensar
que alguma coisa de muito perversa está acontecendo com esses modelos. Não
gosto de coisas escondidas; acho sinistro.
— Relaxa, amor! Você
está dando importância demais a isso aqui. Eles são gente como todo mundo, só
que não podem fazer essas coisas como todo mundo porque são visados demais,
entendeu?
— Entendi, mas quero
ver para ter certeza.
— Ai, ai, ai… Espera
mais um pouco que eu já volto.
Mirela torna a sair
do banheiro para falar com Belisário. Ele se mostra descontente, irritado, mas
finalmente consente em permitir que Ana veja o interior do apartamento. Os três
saem do salão pela porta por onde Ana viu saírem os modelos
"leiloados", que dá acesso a um longo corredor com uma dúzia de
portas que se estendem à esquerda e à direita. Eles tomam a esquerda e caminham
até o final, entrando por uma porta que se abre com um código numérico. No
interior, há um homem sentado diante de um sofisticado console de gravação,
observando diante de si uma dezena de monitores que exibem o que se passa em
cada cômodo do apartamento, especialmente em dez suites amplas e luxuosamente
decoradas.
— Por que é que
vocês filmam isso? pergunta Aninha, estupefata com o que vê nas telas de
altíssima definição.
— Isso é
confidencial, responde o Belisário, excitado, sem saber para que cena olhar.
— Olha aquele ali,
Beli! chama o técnico, apontando para um dos monitores em que se vê um homem de
cerca de sessenta anos, quase obeso, montado num jovem cabeludo e frágil
quarenta anos mais novo.
— Ah se a mulher
dele soubesse! responde o segurança careca rindo, agora descontraído.
Aninha olha em
silêncio para a parede de monitores que mostram dez pares de pessoas em
diversas atitudes sexuais. Toda aquela parafernália dedicada à espionagem a
assusta e enoja.
— E o que vocês vão
fazer com essas gravações?
— Nada, amor. É só
por precaução mesmo, responde-lhe Mirela com o mesmo tom vulgar e
condescendente.
— Pois para mim,
isso não serve. Uma coisa é receber os modelos na loja para fazer propaganda da
agência; outra coisa é saber que eles servem de escravos sexuais nessas
festinhas de bacana. Eu quero ir embora daqui, e agora!
— Querer não é
poder, Ana, diz Mirela voltando-se para ela com ar sério.
— Ah é? Vamos ver!
Ana corre até a
porta, mas logo a descobre trancada. Belisário vai até ela, dá-lhe um
fortíssimo tapa no rosto e a ampara nos braços, desacordada. Ao despertar, ela
se descobre deitada na cama king size de uma das suites que ela viu
no estúdio de gravação. Ela está consciente, mas sente-se entorpecida, como se
só pudesse agir e pensar em câmera lenta. Ela vê Belisário ao pé da cama,
Norberto sentado ao seu lado e ouve vagamente ressoar como em eco o que lhe
parece ser um chuveiro aberto no banheiro.
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