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Ano Parentético


Sou um homem casado, pai de cinco filhos e estabelecido na vida como empresário e presidente da fábrica que meu pai fundou no início do século XX. Estamos em 2019. Há exatamente dez anos, uma estranha e inimaginável conjunção de circunstâncias alteraria dramaticamente o meu comportamento durante quase um ano e traria repercussões essenciais à vida de um ente querido. É isso que vou tentar narrar aqui.

    No dia 14 de abril de 2009, sofri um grave acidente de carro na estrada que me valeu dois meses de hospital e praticamente o resto do ano em casa. Com os dois braços, as duas pernas e a bacia fraturados, fui instalado na cama do quarto de hóspedes da minha casa, onde foi montada a parafernália que manteria o meu corpo na posição correta. Eu tinha quarenta e seis anos. Meu estado de desencorajamento era tal que se me fosse possível teria dado cabo da vida. Minha esposa tirou férias para passar o primeiro mês integralmente ao meu lado, mas a natureza do trabalho que ela exerce a impediu de obter uma licença maior e, findos esses trinta dias intensos, foi a vez de os meus três filhos, duas filhas e o marido de uma delas, todos igualmente ocupados com suas vidas, revezarem-se para me fazer companhia. Mas a boa vontade dos jovens foi rapidamente transformando-se em impaciência e irritação, as visitas tornaram-se mais escassas e os cuidados para comigo reduziram-se a um mínimo que me obrigava a recorrer à empregada até mesmo para auxiliar-me em minhas funções fisiológicas. No terceiro dia consecutivo sem sinal dos meus filhos, pedi que a empregada ligasse para cada um dizendo que não os queria mais aqui até o final da minha recuperação. Eles fingiram-se de ofendidos, mas como não insistiram, tive a certeza de que a minha decisão conviera a todos.

    Todos, não. Para supresa minha, o genro que participara do revezamento inicial apareceu aqui cerca de uma semana depois dizendo-me que a esposa, minha filha mais velha, tinha deixado de vir por causa da gravidez avançada, que ele estava consternado com a falta de empatia dos meus outros filhos e que eu podia continuar a contar com ele. Mauro era o genro com quem eu melhor me entendia. Embora casado com a minha filha há menos de dois anos, tínhamos boas  conversas e de vez em quando jogávamos xadrez tomando um bom uísque. Ele me assegurou que passar por aqui logo depois do trabalho não teria nenhum inconveniente, e isso era absolutamente necessário porque minha esposa trabalhava à noite e eu não podia manter a empregada diariamente aqui até tarde por muito tempo mais. Ficou combinado então que ele viria me ver diariamente depois das cinco e isso me foi de um imenso alívio.

    Como eu disse, no início da minha recuperação eu estava tão dependente que precisava de ajuda até mesmo para tarefas mais constrangedoras. Durante o dia, a empregada acostumara-se a me ajudar até nisso, mas eu me trabalhara para recuar a função intestinal até depois da meia-noite, quando minha mulher já estivesse em casa. Entre as seis e as oito ou nove horas, eu podia contar com o meu genro. Passávamo essas duas ou três horas conversando, ele me dava os remédios, coçava por baixo dos gessos, lia para mim e até jogávamos xadrez porque eu sabia ditar os movimentos das peças. Aos poucos, fui descobrindo que o Mauro era um rapaz não só inteligente e solidário, mas dono de uma sensiblidade da qual meus três filhos homens eram absolutamente desprovidos. Mauro trabalhava com propaganda e marketing, mas na área de comunicação e diretamente ligado à arte. Ele produzia belos cenários para a publicidade de grandes companhias nacionais que possuíam complexos hoteleiros e promoviam excursões ecológicas a paraísos tropicais, inclusive a Amazônia. Ele me mostrava tudo isso em seu laptop e as horas em sua companhia passavam rápido e agradavelemente. As pausas para as tarefas mais ingratas logo se tornaram insignificantes e até ríamos da minha estúpida dependência.

    Entretanto, eu não deixara de ser homem e, com o passar do tempo, certas sensações emergiram. Enquanto eu estivera engessado, o desconforto era tanto que minhas ereções iam e vinham sem que eu tivesse a necessidade de tocar-me, mas assim que eu me vi livre dos gessos nos braços, certas idéias reacenderam-se em minha mente. Cheguei a pedir à minha mulher que me aliviasse uma ou duas vezes, mas ela chegava tão cansada e tão tarde que me atendia rapidamente e de modo mecânico. Acabei deixando de pedir e, como meus filhos, ela também não insistiu. Por mais que eu tentasse me virar sozinho, as dores no ombro e pescoço ainda eram tão vivas quando eu agitava o braço que me desencorajavam a prosseguir. Suportei a abstinência por mais algumas semanas, mas um belo dia, não mais aguentando as longas ereções infrutíferas, acabei comentando com o Mauro que essa estranha situação estava me deixando com os nervos à flor da pele. Lembro-me que a conversa surgiu exatamente num momento em que ele estava me ajudando a urinar. Encontráramos um jeito cômodo que evitava a mudança de posição; eu abria as pernas, ele colocava o "compadre" de aço inox entre elas e me ajudava apenas a introduzir o pênis na boca cilíndrica. Naquele dia, enquanto ele foi ao banheiro esvaziar o compadre, fui assaltado por uma incontrolável ereção. Meu lençol ficara nas pernas e ele me surpreendeu pela primeira vez nesse estado. Ele riu, mas eu estava envergonhadíssimo, tentando em vão tapar o volume com a mão por causa dos dolorosos repuxamentos mo braço.
— Relaxa, seu Jonas! Assim, pelo menos, o que o senhor acabou de confessar ficou bem ilustrado! disse ele sorrindo, já puxando o meu lençol para cima.
— Ah, mas é desagradável, Mauro! Eu preferiria não ter que ilustrar desse jeito.
— Bah! O senhor sabe tanto quanto eu que isso é involuntário no homem.

    O incidente parece ter sido rapidamente esquecido, mas motivou-me a suportar a abstinência por mais duas ou três semanas, até que recebi a visita de um dos meus filhos ingratos, que rompeu a minha proibição e esteve aqui com a esposa para expor-me um problema grave na fábrica. Ela sentou-se ao meu lado e estava sem sutiã, usando uma blusa ou malha que revelava não só a clivagem entre os seios, mas era moldada por eles e claramente marcada pelos bicos que pareciam querer furá-la. No meu estado, foi a gota d'água. Assim que eles foram embora, minha excitação era tamanha que provoquei um orgasmo apenas esfregando algumas vezes o freio da glande com as pontas dos dedos. Quando Mauro chegou, cerca de duas horas depois, vi-me obrigado a contar tudo para que ele me ajudasse a ocultar o "desastre" à minha mulher. Meu short de pijama estava encharcado e o esperma grudara meus pelos pubianos.
— É, a coisa está feia, seu Jonas, disse ele, examinando a cena. Vamos ter que dar um jeito nisso.
— Estou com pena de você, Mauro! Por mais essa, você não esperava, lamentei.
— É, não vou dizer que sim, mas é melhor resolver isso agora do que deixar para a dona Lina.
— Deus me livre a Lina ver isso! Ela vai desconfiar da empregada!
— É verdade, haha!

    Mauro saiu do quarto e voltou trazendo uma bacia com água morna e uma toalha. Seria até desncessário dizer que quando ele começou a limpar-me, uma nova ereção se anunciou. Quando eu ia começar a me desculpar, ele me fez calar dizendo que era a coisa mais normal do mundo e continuou, manipulando-me com naturalidade. Mas a ereção foi ficando cada vez mais consistente e ficou evidente que eu estava novamente excitado. Vendo o meu genro tão disponível e nós dois na mais absoluta intimidade, tomei coragem, respirei fundo e resolvi falar no impensável.
— Mauro, você está vendo em que estado eu estou. Isso tem me acontecido vinte vezes por dia. Nós somos amigos e eu sinto intimidade suficiente para dizer uma coisa a você: estou desesperadamente necessitado de uma masturbação! Mas uma masturbação de verdade, com um orgasmo forte e completo, não como o que eu tive hoje.
­­
    Mauro ficou em silêncio e respondeu que ia pensar. Ele achava que se me aliviasse uma vez, seria obrigado a continuar até que eu pudesse me masturbar sozinho. Não pude discordar e perguntei se ele faria mais isso por mim, e que seria um mero item a mais na lista das tarefas "higiênicas", mas ele não riu e senti que ele ficou um pouco aflito, como se isso o transtornasse mais que o normal. Vendo-o assim, perguntei o que estava acontecendo, mas ele não quis me dizer nada na hora e prometeu que conversaríamos outro dia. Acho que jogamos xadrez e ele foi embora meio acabrunhado. Não passei uma boa noite e a espera por ele foi das mais ansiosas, de muita irritação com minha mulher à noite e com a empregada de dia. Quando por fim ele chegou, por volta das oito e meia do dia seguinte, estava sereno, parecendo reequilibrado. Conversamos um pouco sobre o dia dele no trabalho e quando o assunto se esgotou, ele se mostrou curioso para que eu contasse mais detalhadamente a visita do meu filho com a minha nora, e o incidente da véspera. Falei do efeito que a visão dos seios dela provocara em mim e contei de que modo eu conseguira obter um orgasmo.

    Mauro concordava, essa cunhada parecia fazer questão de ser sexy e às vezes se insinuava a ponto de confundi-lo. Ela tinha, de fato, um corpo atraente para qualquer homem. Evocamos as férias na casa de praia, em que ela trocava de bikini cinco vezes por dia, um menor que o outro, e a conversa descambou um pouco para a fantasia, o que mais uma vez excitou-me a ponto de ser surpreendido por outra ereção. Mas dessa vez, como estávamos em plena conversa entre homens, não tive escrúpulos de fazer com que o Mauro constatasse o quanto eu estava sensível a esses temas. Movendo unicamente a mão, puxei o lençol e me descobri o suficiente para que ele percebesse. Por razões práticas, não me vestiam cuecas, mas unicamente uns shorts de malha fina que minha mulher comprava às pencas. Como fui bem dotado pela natureza, meu volume falava por si. Mauro me e olhou conformado, meneando a cabeça enquanto já baixava o meu short e empunhava o meu membro duro.

    Conforme ele previra, as masturbações se sucederam praticamente dia sim, dia não. A solidão do quarto e certas cenas na televisão estimulavam-me a libido de tal modo que quando ele chegava, eu estava mais do que necessitado de alívio. Nas primeiras vezes, ele quase não falava e atinha-se à tarefa em si, como se quisesse me mostrar até onde a solidariedade humana pode chegar. Aos poucos, contudo, o hábito nos levou a conversar até mesmo nesses momentos. Inventávamos algum assunto bem erótico e basicamente, o que ele fazia era direcionar meu pênis para a barriga, levar-me ao orgasmo e limpar a menor área molhada possível. A operação não levava mais que três minutos, mas me rendia vinte e quatro horas de relaxamento.

    Certo dia, eu tivera uma notícia desagradável e isso bloqueou meu apetite sexual. Quando o Mauro chegou, desabafei-me um pouco, conversamos, mas logo depois ele introduziu o assunto da masturbação, insistindo muito para que eu não me acanhasse porque era melhor fazer com ele do que ter que pedir a outros, já que eu sabia que a minha mulher chegava cansada, etc. Eu reiterei que não seria necessário, mas li certa insatisfação em seu rosto. Ele estava em pé ao lado da minha cama e, como se diz, "de cara amarrada". Perguntei se ele tivera algum problema no trabalho e ele respondeu que não. Perguntei porque ele não se sentava, ele respondeu que queria ficar em pé. Puxei conversa, mas ele voltou a insistir que se ele não me "aliviasse", eu ficaria de mau humor no dia seguinte. Irritado, acabei insinuando que ele parecia estar gostando da nova tarefa. Isso o ofendeu, ele começou a se despedir, mas elevei o tom de voz e ordenei que ele ficasse e conversasse comigo em vez de bancar o susceptível. Eu não podia imaginar que o que ele tinha a dizer seria absolutamente inesperado para mim.

    Mauro voltou para trás e continuou de pé ao lado da cama, mas extremamente sem jeito, espremendo uma ponta de lençol. Depois uma longa hesitação, ele começou a falar, revelando que tivera relações com meninos na adolescência, mas apressou-se a acrescentar que isso acontecia não obstante o seu firme propósito de um dia se casar e fundar família, coisa que para ele estava acima de tudo na vida. Ele acrescentou que fazia anos que ele não tivera nenhum contato dessa natureza e que o casamento e a perspectiva do filho o encorajavam a manter-se assim, mas que ele não podia mentir quanto a esse antigo gosto e que masturbar-me trouxera de volta à sua vida um sabor ao qual ele não dera o peso devido. Ele terminou admitindo que sim, ficara frustrado momentos antes, porque masturbar-me, longe de ser uma obrigação para ele, começara a ser uma fonte de satisfação.
­­­— Você é gay, rapaz! disparei assim que ele terminou.
— Seu Jonas...
— Você é gay, interrompi. Você recalcou sua natureza e ainda levou minha filha no arrastão.
— Seu Jonas, posso falar?

    Eu estava furioso. Na minha cabeça, meu genro era um homem a quem eu pedira um favor que me constrangia pedir a mulheres naquele contexto. Eu estava disposto a mandá-lo embora pensar seriamente em pedir o divórcio à minha filha. Só o deixei explicar-se devido à tênue circunstância que me atava àquela cama. Dizendo-lhe que ele tinha sorte por isso, ordenei que ele fosse em frente e tentasse me convencer de que não era um gay que se infiltrara na minha família. Para mim, era causa perdida, mas como eu tinha tempo a perder, resolvi dar-lhe uma chance. Uma só. Como ainda me lembro bem da longa defesa do meu genro, vou reproduzi-lo aqui, à moda dos Antigos, para fixá-lo indefinidamente para mim e para o leitor atento.

— "Seu Jonas, quando eu olho para o senhor, penso em alguém que sempre soube o que quis e nunca teve medo de ir atrás daquilo que queria conquistar. Acontece que nem todo mundo é assim. Eu não fui assim. Na adolescência, eu era um menino como outro qualquer que passou pelas etapas normais de descoberta do sexo e do amor, mas me faltava o que o senhor tinha provavelemente de sobra, essa tal autoconfiança para ir atrás dos objetos de desejo. Durante algum tempo, o estudo, o futebol, a bicicleta e a mera companhia dos amigos compensam a dificuldade de obedecer aos ditames da libido, mas chega o dia em que um concurso de circunstâncias favorece certas práticas e os mais sensíveis sucumbem. Eu via perfeitamente que alguns colegas e amigos – poucos, mas alguns bem próximos - já iam-se emancipando sexualmente enquanto eu ficava para trás por ser incapaz de solicitar às meninas os favores que eles obtinham com certa facilidade. Isso constituía uma pressão psicológica muito grande para mim e reforçava as idéias fixas relacionadas à prática sexual não realizada.
    A consequência disso foi que na primeira oportunidade, aquiesci a uma proposta feita por um vizinho mais velho e tão retraído quanto eu, um filho único cursando o pré-vestibular sem a menor dúvida de que nascera para ser médico. E sim, eu fui passivo, como o senhor deve estar imaginando, e mais uma vez por força das circunstâncias: ele era cerca de quatro anos mais velho que eu e a idéia da reciprocidade nem se cogitou. Fizemos na casa dele, num dia em que os parentes estavam ausentes e repetimos a experiência algumas vezes pelo puro desejo de torná-la mais agradável, coisa que demorou muito a acontecer. Um belo dia, percebemos que cada um estava bem no seu papel e o resultado foi extremamente prazeroso. Para mim, foi a descoberta de um primeiro prazer sexual real. Embora eu me censurasse por não ter ainda conseguido realizar o que se espera de um homem, já era um primeiro passo estar com alguém com a finalidade de estabelecer uma relação sexual."

    Lembro-me de ter interrompido o Mauro várias vezes com ironias e sarcasmos, mas vou omitir minhas intervenções agressivas para evitar rupturas na continuidade do que o meu genro teria preferido que fosse um solilóquio.

    "A companhia desse 'mentor' pré-universitário teve o poder de acalmar-me para suportar as notícias da rápida evolução sexual dos meus amigos que trocavam de namorada como quem troca de roupa e que me contavam com riqueza de detalhes as suas proezas donjuanescas. Eu me dizia que a estabilidade da minha relação proporcionava a mim e ao meu vizinho muito mais ocasiões sexuais do que aqueles fanfarrões podiam conseguir com vinte meninas. E de fato, era comum passarmos longas horas juntos experimentando, o que multiplicava por dez o número medíocre dos intercursos e orgasmos de que eles se gabavam. Passivo ou não, eu rapidamente me senti instalado numa vida sexual regular e madura que me distanciou de muito desses amigos deslumbrados. A parte negativa é que eu me acomodei e só viria a conhecer o outro lado, o lado que se espera do homem, cerca de quatro anos depois, quando foi minha vez de ingressar na faculdade."

    Eu estava tão impaciente para que o Mauro me contasse como foi possível o encontro definitivo com a minha filha que o forcei a saltar a parte "virei homem" e passasse ao que me interessava. Ele aquiesceu e prossegiu um pouco frustrado, mas no mesmo tom de voz.

    "O senhor sabe que a Cíntia e eu nos conhecemos na facudade. Quando ela entrou, eu tinha terminado o segundo ano de Comunicação, estava com vinte e um anos e fazia dois que eu tinha perdido o contato com o rapaz que me iniciou. Assim que eu saí de casa para morar numa república, tive minhas primeiras relações sexuais com duas colegas de faculdade. Eu não era feio, era inteligente e tinha uma visão muito aberta do sexo. Como eu tentei dizer ao senhor, nunca me senti propenso a ter relações afetivas com homens porque o meu propósito antigo era casar e ter filhos. Elas gostavam da minha companhia e se sentiam livres quando transávamos porque eu não impunha nada. Quando conheci a Cíntia, foi amor à primeira vista e não desgrudávamos um do outro. Acho que o senhor vai gostar de saber que quando fomos morar juntos, fazíamos amor com tanta frequência que muitas vezes estávamos caindo pelas tabelas durante as aulas. A Cíntia não me negava nada e sempre foi muito exigente em termos de prazer, o que me satisfazia completamente porque eu estava obstinado em 'tirar o atraso' e compensar meus anos de desvio. Preciso dizer que até hoje, grávida e tudo, a Cíntia adora fazer amor comigo e me solicita sempre que tem a menor chance, o que muito me agrada e..."

    Eu sentia que ele estava chegando ao fim e sabia que a conclusão justificaria seu comportamento estranho naquele dia. Mas eu já entendera e me dera por satisfeito. A iniciação do meu genro inoculara nele o vírus da homossexualidade e esse vírus permanecera nele em estado latente até o dia em que lhe pedi ajuda. Se eu conhecesse o passado dele, jamais teria feito o que fiz, mas eu ignorava esse passado, portanto não era responsável pela eclosão desses desejos. Mas o que estava feito estava feito, e eu tinha diante de mim um genro indubitavelmente atraído por uma possível relação de cunho sexual comigo. Era a minha vez de parar para pensar. Naquele momento, eu o interrompi, disse-lhe para voltar para casa tranquilo e não voltar no dia seguinte, mas prometi que o chamaria assim que minhas idéias estivessem mais claras.

    Isso já faz dez anos, mas sei que minhas reflexões acabaram tomando-me o resto da semana e o fim de semana inteiro porque me lembro ter sido num domingo à noite que pedi ao Mauro que viesse no dia seguinte. Quando ele chegou, estava lívido, parecendo exausto. Ele se confessou tresnoitado devido à idéia fixa de que eu tornaria a propor-lhe separar-se da minha filha. Mas eu não tinha mais isso em mente. Durante aqueles dois ou três dias, eu mergulhara no passado e tinha na memória viva as lembranças de fatos muito semelhantes aos que ele me narrara. Se é bem verdade que eu jamais vivi uma relação homossexual como a dele, eu também não pude iniciar-me com alguém do sexo oposto; isso era simplesmente impossível. Na minha época, os meninos também se viravam como podiam para que as primeiras experiências não fossem por demais tardias, e isso implicava improvisar certas práticas entre nós mesmos. Eu só precisava certificar-me de que o Mauro tinha pela minha filha sentimentos legítimos, e ele me garantiu que sim. Eu jamais poderia aceitar que ele fosse um homossexual recalcado camuflado num casamento convencional, e ele me garantiu que não se tratava disso. Eu precisava saber com quem estava lidando.
— Como você se qualifica, Mauro? Quero que você se defina.

    Ele olhou para baixo e torceu o lençol com as mãos numa aflição indisfarçável. Ao fim de alguns instantes, ele disse, quase sussurrando e numa entonação interrogativa.
— Bissexual?

    Olhei para ele, esperando que ele decidisse por si mesmo, que demonstrasse maturidade e autonomia.
— Bissexual? Quero uma resposta definitiva, uma certeza.

Ele olhou novamente para baixo, em seguida virou-se e olhou-me nos olhos.
— Bissexual.

    A resposta me satisfez. Os rótulos tem essa vantagem, de encerrar numa palavra uma longa definição. Agora eu podia dizer que conhecia o meu genro. Perguntei-lhe se minha filha sabia alguma coisa do passado dele e a resposta foi negativa. Aconselhei-o a manter isso em segredo porque desafiar os preconceitos de uma esposa seria muito mais arriscado. Ele concordou, informando-me que a minha filha Cíntia demonstrava ter verdadeiro asco pelas relações homossexuais, sobretudo entre homens. Consolei-o falando da mãe dela, que não perdia – e não perde – uma ocasião de fazer comentários maldosos a esse respeito. Por fim, admiti que eu mesmo jamais tivera simpatia pelo tema e pedi desculpas antecipadas pela falta de jeito que eu talvez demonstrasse dali em diante, pelo menos nos primeiros tempos. Mauro entendeu tão bem que encerramos a conversa com amenidades e ele foi para casa muito mais leve sabendo que poderia retomar naturalmente as visitas. Entretanto, fui incapaz de voltar a solicitar sua ajuda na função delicada que desencadeara toda aquela discussão.

    Mais um mês se passou sem que meus cinco flhos quebrassem minha ordem de manter-se longe da minha casa, o que me impressionava sobremaneira. Eu já estava em casa há cerca de três meses. Quando pude enfim ser libertado dos gessos das pernas, as únicas visitas que recebi foram as do meu irmão com esposa e filhos, que aprontaram tanto tumulto que foi um alívio ao vê-los partir, e a do Mauro, que chegou com uma caixa embrulhada em papel de presente. Era um laptop, e estava pronto para ser conectado ao wifi, que o próprio Mauro instalara previamente. Fiquei exultante; agora eu poderia até mesmo mandar retirar do quarto a televisão com seus noticiários ruins, propagandas "coladas" das estrangeiras e programas nacionais vulgares. Naquele dia, Mauro me fez companhia até tarde e chamamos minha filha pelo Skype para que ela visse o pai todo feliz e livre dos gessos, a mãe, e o marido que ela dizia ser meu filho predileto. Acredito que tenha sido a melhor noite da minha recuperação até então.

    Não perdi tempo para usar meu novo laptop em meu proveito, explorando meus sites habituais à cata das imagens e vídeos que me empolgam. Eu só não contava com o fato de que as dores e repuxamentos ainda inviabilizavam uma masturbação realmente agradável. Tentei algumas vezes, mas meu punho, cotovelo e ombro ainda me causavam tanta sensação ruim que neutralizavam o prazer do orgasmo. Quando, frustrado, confessei isso ao Mauro, ele reiterou sua disponibilidade, e foi então que ele voltou a tocar-me naquele estado depois de várias semanas. Para divertir-me, ele trouxe uma fita métrica e mediu-me o membro em comprimento e diâmetro.
— Dezoito e meio por seis! antecipei-me todo prosa.
— Não vamos exagerar: por cinco! retificou o meu genro.
— É sério? Vê lá como você mede esse diâmetro!
— Não tem erro, seu Jonas. Vou medir de novo. Pode olhar: cinco centímetros.
— É mesmo. Vai ver que os metros mudaram!

    Rimos a valer e como o humor sempre estimulou-me a excitação, tive um orgasmo prodigioso com a ajuda do Mauro, naquele dia. Ele ria às gargalhadas ao colar lenços de papel da barriga ao meu cabelo para absorver o esperma.
— Gozou como um garoto, hein, seu Jonas!
— Pois é, estou em forma. A Lina que me aguarde quando eu sair dessa cama!
— Coitada! Não vai nem trabalhar no dia seguinte!

    Mauro correspondia bem às minhas brincadeiras desse tipo, mas eu lia em seus olhos que ele esperava pelo dia em que algum sinal meu fosse dirigido a ele. Fui então me preparando mentalmente para ser capaz de ampliar os graus de liberdade que eu lhe dera e um belo dia, assim que ele me tocou, eu tinha uma fórmula pronta.
— Hoje você pode fazer o que quiser!

    Ele me olhou nos olhos com ar intrigado.
— Eu disse "o que você quiser", reforcei, espichando o olho na direção do meu sexo duro em sua mão.

    Imberbe e muito branco, Mauro corou até a ponta do nariz, apoiando-se na cama para não desabar de nervoso.
— O que foi? O sogro quarentão inibiu suas fantasias?
— Não é isso. É que...
— Anda, rapaz! Não é qualquer um que eu deixaria fazer isso, e você sabe muito bem! disparei, fingindo zanga.

    Mauro então debruçou-se na cama e abocanhou-me a glande, salivando como se fosse um sorvete ou doce adorado. Percebi o quanto ele ansiava por aquele momento, vendo-o lamber e chupar com todo o desejo reprimido há tempos. Aliás, lembro-me que isso despertou-me a curiosidade.
— Faz quanto tempo, Mauro?
— Anos! respondeu ele sem interromper a felação.

    A resposta fora incompleta, mas eu não quis perturbá-lo com interrogatórios. Contentei-me em pensar que talvez ele tivesse encontros esporádicos com homens e que se isso não prejudicasse seu casamento com a minha filha, não deveria me incomodar. Ele me deu tanto prazer que tive um orgasmo inebriante e uma ejaculação farta que ele acolheu toda na boca, engolindo discretamente. Quando ele terminou, dirigi-lhe uma piscadela e ele disparou em direção ao banheiro, encabulado mas todo feliz.

    Daquele ponto em diante, minha recuperação foi cada vez mais suportável. No dia em que o gesso da bacia foi substituído por uma cinta elástica, passei a sentir-me novamente um ser humano normal, quase livre na cama e podendo até fazer alguns movimentos fora dela. Eu ainda sentia dores e repuxamentos musculares, mas já enxergava a luz no fim do túnel. No final de novembro, meu médico anunciou que eu poderia andar pela casa dentro de poucos dias. Eu ficara naquela cama e naquele quarto desde o mês de abril. Mauro passou a vir em intervalos um pouco mais esparsos, mas sem perda da regularidade. Agora eu tomava banho de chuveiro com a assistência dele e era nesse momento que ele satisfazia a minha necessidade de orgasmo, sentado no tampo do vaso. Eu gostava de olhá-lo em ação, chupando de olhos fechados e sempre parecendo deliciar-se com o que eu lhe deixava na boca.

    Foi por essa época que comecei a pedir-lhe me mostrasse as nádegas. A longa duração da minha convalescença suprimira o gosto da minha esposa pelos jogos eróticos e eu me sentia carente da imagem de um corpo nu. Aos vinte e seis anos e com seu tipo físico, Mauro tinha um belo par de coxas e nádegas rechonchudas desprovidas do mais ínfimo pelo. Assim que ele virava as costas e baixava as calças (eu só lhe pedia isso), eu me excitava como se estivesse diante de uma das jovens sedutoras que eu via diariamente nos sites de sexo. Logo descobri que esse exibicionismo agradava o meu genro porque, me dizia ele, trazia-lhe boas recordações de adolescência. Ao que tudo indica, não lhe poupavam comentários picantes quando o viam de costas e saber-se ainda digno deles excitava-o a ponto de ter ereções. Quando isso acontecia, ele me pedia autorização para masturbar-se enquanto me satisfazia e nós dois tínhamos orgasmos, cada um ao seu modo.

    A consequência desse desnudamento progressivo não tardaria e passei a penetrá-lo em cada banho, curvado sobre a pia e oferecendo-se a mim com profusão de gemidos. Quando a empregada o via sair daqui de cabelo molhado, dávamos a desculpa de que eu espalhava tanta água que ele acabava encharcado. Como ela jamais associaria o marido e pai de cinco filhos que eu era a uma relação com um homem, limitava-se a rir e caía no logro.

    A marca da minha recuperação total foi reaparecer vestido diante de toda a família. Fiz questão de chamar meus cinco filhos ingratos para, muito sarcasticamente, "agradecer pelos sete meses de constante e carinhosa presença e incessante colaboração". Como todos moram longe daqui da Urca, fiz questão de dispensá-los quinze minutos depois da minha curta preleção, sem esquecer de elogiar enfaticamente o meu genro Mauro e terminar com um agradecimento público à nossa empregada, antes de abrir a porta e vê-los sair enciumados e frustrados sem terem tomado sequer um cafezinho. Minha mulher ficou muda, sentindo-se incluída na lista dos ingratos e refugiou-se no escritório assim que a casa ficou vazia.

    Na prática, eu não precisava mais dos préstimos do meu genro e isso o fez deixar de vir por uma boa quinzena. Fui eu que liguei para ele instando para que não deixasse de vir visitar-me, que retomaríamos o xadrez, as conversas e o bom uísque. Hoje sei admitir que a verdade é que senti falta da intimidade com ele e quis atraí-lo de volta com um objetivo mal definido em mente. Escolhi uma data em que eu sabia que estaria sozinho por várias horas e ele fez-me a gentileza de pedir folga do trabalho nesse dia. Mas assim que o vi à porta, eu soube que não ia acontecer. Ele trazia um discurso pronto baseado na alegação de que o que estávamos fazendo era uma temeridade e que ser descobertos era mera questão de tempo, mas não precisei pressioná-lo muito para descobrir a verdade: eu reacendera a chama e a necessidade o levara a procurar um parceiro sem conexão à família. Ciente da sua bissexualidade, limitei-me a fazer com que ele se comprometesse a separar-se da minha filha caso alguma relação com homens se tornasse mais forte que o casamento. Ele aquiesceu e jurou por tudo que lhe era mais sagrado que respeitaria esse compromisso.

    Quando o Mauro foi embora, senti uma ponta de angústia, mas instantes depois fui tomado por um amplo sentimento de bem-estar. O que eu vivera, como todo fruto das circunstâncias, reclamava um fim. O ponto final estava posto eu podia orgulhar-me de tudo que ele coroava: minha virilidade conseguira um alívio em meio à tormenta da minha recuperação e meu genro descobrira uma forma de nutrir sua bissexualidade latente há tantos anos. Minha vida seguiu adiante, tornei-me o patriarca de uma família numerosa e foi para celebrar a primeira década após esses acontecimentos tão inusitados que decidi publicar a narrativa que recebe aqui o seu próprio ponto final.



"A verdade é que senti falta da intimidade com ele..."

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