Por mais que eu me esforçasse para entender por que é que os meninos que se deixavam penetrar por outros meninos faziam aquilo, eu não conseguia conceber que um orifício que me parecia ter sido destinado exclusivamente a expulsar coisas do corpo pudesse ser utilizado para admitir coisas ao interior dele. Outros fatores vinham complicar ainda mais o meu entendimento como, por exemplo, certos episódios de obstipação que me fizeram descobrir o quanto o ânus é contraído e sensível à dor e, claro, o fato de que aquilo que expelimos através dele seja essa matéria infecta e putrefata de cor marrom que os adultos chamavam de fezes. Na infância e pré-adolescência, tudo me afastava da ideia de prazer anal e foi por isso que elas transcorreram sem maiores desafios de ordem sexual.
Assim que a adolescência e suas espinhas despontaram e comecei a receber, por tradição oral e pictórica transmitida por colegas e vizinhos, a doutrina da veneração ao traseiro da mulher, a questão anal veio à tona na confusão borbulhante das minhas reflexões, e voltou ampliada porque tratava-se agora de entender como podia ser prazerosa uma penetração que tinha todas as desvantagens que eu já explorara acrescidas do fato anatômico de que a minha glande, ainda estreitamente envolta em seu prepúcio, era sensível ao menor contato direto. Eu mal podia suportar o recuo completo da maldita pele! A mera idéia de forçar minha glande nua a ampliar um orifício ínfimo para esfregar-se nas paredes do que eu ainda acreditava ser um longo túnel estreito me apavorava. Minhas inquietações não se resolviam e agora começavam a agravar-se sob a pressão explícita dos colegas para saber quem do grupo seria o primeiro a servir-se do seu membro para finalidades não estritamente fisiológicas. Os testemunhos daqueles que diziam ter visto irmãos mais velhos "em ação" com as namoradas vinham reforçar o clima de terror para o qual nós, jovens não iniciados, íamos sentindo-nos involuntariamente arrastados. Felizmente, as tréguas eram mais longas que os períodos de batalha porque, verdade seja dita, estávamos todos no mesmo barco, na rua de província em que eu vivia e, como diz o ditado, longe dos olhos, longe do coração ou, no nosso caso, dos nervos.
Um belo dia, porém, a verdade aterradora chegou-me aos olhos sob a forma de um aluno cuja má fama se estendia pouco a pouco na escola. Ulisses era o seu nome. Eu nunca o vira porque ele pertencia a outra turma, mas sua fama o precedia e não tardei a ficar sabendo que ele fazia a felicidade dos colegas de turma em sessões de cinema e em excursões às matas que cercavam a cidade. A unidade lógica do meu cérebro foi implacável: se existia um Ulisses, então existia pelo menos uma pessoa no mundo que experimentava como prazer tudo o que eu considerava de mais contrário à natureza, de doloroso e de asqueroso. Minha curiosidade foi tão grande que procurei por ele na escola e, não conseguindo encontrá-lo, fui de ônibus ao seu bairro tentar vê-lo, ainda que de longe. Fiquei postado do lado de fora até que ouvi uma mulher, provavelmente a mãe, gritar seu nome e dizer-lhe alguma coisa. Instantes depois, ele abria a porta da frente e descia os degraus que levavam a um jardinzinho mal entretido. Era um menino franzino, de cabelo castanho curto e rosto alongado, e nada nele me permitia imaginá-lo nas situações que me haviam descrito na escola: "ocupado" entre dois colegas no cinema ou satisfazendo um grupinho no mato. Mas parecia ser verdade porque as histórias sobre a presteza com que ele atendia alegremente quem quer que lhe pedisse esses servicinhos iam-se acumulando e fazendo parte do nosso dia a dia. Para o cético que eu era, no entanto, a comprovação final só viria meses mais tarde, com a notícia de que ele fora transferido da escola antes do término do ano letivo e sem qualquer explicação. Daquele dia em diante, tive que aceitar esta nova verdade de que certas pessoas praticam a sodomia, do contrário, o Ulisses ainda estaria na escola. Das duas, uma, concluí: ou elas apreciam isso pelo puro gosto de vencer obstáculos, ou então existe um prazer misterioso, ao fim da linha, que recompensa os dissabores de ambas as partes. Seria preciso investigar. Enquanto isso, minha glande continuava sensível ao toque, obrigando-me a abster-me de qualquer ação concreta.
Minhas numerosas sessões de masturbação, no entanto, logo viriam a enriquecer-se do aporte pictórico de revistas e eventuais filmes pornográficos, o que me permitiu finalmente comprovar não só a existência da sodomia, mas sua importância na hierarquia das preferências sexuais masculinas. Não obstante os grunhidos de esforço dos homens e os gritos e caretas das mulheres, não havia uma revista ou filme estrangeiro sequer que não exibisse pelo menos trinta por cento de penetrações anais, e quando o material era nacional, a percentagem elevava-se a oitenta por cento, para não dizer mais! Essa obsessão pareceu-me ainda mais descabida quando descobri que a mulher não só tinha orgasmos, mas que estes não eram de modo algum anais. Meu centro lógico me fustigava redobradamente: se o objetivo do sexo por diversão — o conceito de prazer ainda me escapava — é o orgasmo, por que diabos a mulher consente ao sexo anal? Essa reflexão gerou em mim um poderoso reforço ao argumento até então reinante ao meu abstencionismo, o da sensiblidade da glande, e decidiu-me a ir à cata de uma primeira experiência em terreno tenro e natural, isto é, a vagina. Pus-me imediatamente a procurar à minha volta uma candidata com quem iniciar-me.
Para evitar constrangimentos, comecei pelo lugar mais afastado de casa, o clube onde eu ia à piscina e praticava esportes. Havia por lá meninas cujos corpos me excitavam quando as via de short, saia curta ou biquíni, mas além da pouca intimidade com elas, eu sempre as via tratando com ar de desprezo os meninos da mesma idade e com uma admiração boquiaberta os já rapazes, de dezoito anos ou mais. O mesmo acontecia com as meninas da escola, em especial as da minha sala, que o convívio diário permitia tratar-nos com um escárnio e uma zombaria de dar pena a um residente do corredor da morte. Lembro-me de uma delas, linda, que despertou-me um interesse ardente seguido da enorme decepção causada pela descoberta de que não só ela namorava, mas que o dito mancebo tinha a respeitavel idade de vinte e um anos! Fiquei desolado e meu desejo extinguiu-se em poucos dias. Resolvi então investir no meu bairro, tendo em mente duas ou três vizinhas dignas de atenção. Uma delas, irmã mais velha de um amigo meu, era linda, muito loura de olhos azuis, e deliciosa, constantemente de saia curta. Consegui aproximar-me a ponto de explicar-lhe matemática, disciplina que, àquela altura, eu ainda dizia "tirar de letra". Contudo, o máximo que consegui obter foram alguns beijos na boca, por pura insistência minha, que ela concedeu mais para exibir sua experiência e habilidade no assunto do que pela motivação que eu queria despertar. Ao primeiro toque em seus lábios, eu era forçado a afastar-me para não denunciar meu "entusiasmo". No dia em que, armado de coragem, omiti esse gesto cortês, fui metralhado com um tal acesso de gargalhadas que passei a crer que ter uma ereção por dar um simples beijo era a coisa mais infantil do mundo e que era obviamente por isso que elas procuravam pelos mais velhos. Não tive melhor êxito com outras meninas do bairro, ainda que eu ensaiasse diariamente beijar as costas da mão imaginando ser uma linda e molhada boca enquanto evitava ter o menor sinal de ereção. Restava-me o meu próprio condomínio, onde havia também umas tantas garotas dignas de interesse sexual da minha parte. Eu já "ficara" com algumas delas em festinhas de aniversário locais, mas a proximidade dos irmãos e pais tornava a tarefa mais delicada. Não foi sem sacrifício que consegui tocar, ainda que por fora da roupa, as partes íntimas de duas das mais acessíveis, aquelas que já haviam passado por todos os vizinhos da minha idade, durante os beijos intermináveis que dávamos brincando de "Pera, uva e maçã", quando não escondidos atrás de algum piloti ou nas escadas de serviço. Mas daí a obter o mais breve contato digno do qualificativo de carnal, era outra história; elas simplesmente recusavam-se a satisfazer-me de um modo mais maduro. Sem mais recursos, fui obrigado a abandonar minha busca.
Meu relacionamento com os vizinhos, colegas e amigos continuara desenvolvendo-se normalmente; eu ia à casa deles e eles vinham à minha, jogávamos conversa fora e compartilhávamos nosso ócio típico de adolescentes da família de classe média-média brasileira. Já possuíamos a chave de casa e frequentávamos o comércio próximo, íamos à escola, ao cinema e ao clube sozinhos, mas ainda éramos considerados imaturos para nos afastarmos dos itinerários autorizados pela família. Enquanto eu estivera muito concentrado em minha busca infrutífera afastei-me das brincadeiras de mau gosto do meu grupo, acreditando estar mais avançado que eles no que dizia respeito ao sexo. Uma vez abandonada a busca, no entanto, voltei não só a observar esses jogos pueris, mas recomecei a participar deles e, para espanto meu, logo descobri que eu não teria muita dificuldade em obter satisfação da minha curiosidade central com meus próprios pares. Os jogos eróticos dissimulados entre meninos giravam todos em torno das nádegas e do sacrossanto orifício que elas ocultam e protegem. Passadas de mão, puxadas de cueca, tentativas de esfregar-se, para não falar dos palavrões e do extenso campo semântico envolvendo os posteriores, todo esse comportamento gestual e linguístico tinha por objetivo final, ainda que subconsciente na maioria, obter uma primeira experiência sexual digna desse nome, e se a realização desse objetivo estava desviada do seu alvo central, isso se justificava pelo fato incontestável e universalmente aceito de que as meninas da nossa idade não nos concediam nada além da boca entreaberta às nossas línguas ávidas, as quais assumiam o papel que aos nossos pênis em constante ereção era vedado desempenhar. Isso nos levava inexoravelmente a tentar satisfazer nossa curiosidade entre nós mesmos, coisa que, via de regra, realizávamos muito superficialmente.
Entretanto, uma novidade radical ia subrepticiamente infiltrando-se em meu horizonte perceptual, ao sabor desses embates sempre zombeteiros, misto de brutalidade e sensualidade entre congêneres. Pelos motivos acima, fui naturalmente levado a observar os corpos de vizinhos, colegas, amigos e até primos, que eu via trocando de roupa em casa ou nos vestiários da escola e do clube. Aos poucos, fato inédito até então, comecei a perceber que a mera visão da nudez posterior de alguns deles passara a excitar-me a ponto de despertar-me o desejo de contato. Não havia dúvida, eu fora tocado pela graça... das nádegas, e isso moldaria tão decisivamente a minha sexualidade que acredito poder afirmar que foi precisamente naquele momento que tive uma primeira intuição de que os corpos masculino e femino possuíam igual poder de atração e, ainda que inconscientemente àquela altura, dessa característica que hoje qualifico de inerente à espécie humana: a bissexualidade.
Foi portanto pela observação de congêneres que fui sensibilizado para a poderosa e universal atração sexual das nádegas. Em nós, homens em germe, é possível que esse poder fosse acentuado pelo contraste entre a ostensiva agressividade retilínea do pinto e a ingênua saliência curvilínea da bunda, inofensiva porém notável. Inicialmente, foram as nádegas em si, em seu aspecto exterior, que assumiram o papel integral, mas ao fio das conversas e da atmosfera onírica trazida pelo rico material gráfico que circulava entre nós, o controvertido orifício que elas ocultam e defendem de maneira tão contraditória foi pouco a pouco tornando-se um "atrator estranho" que acabava por motivar os assédios, resultando disso que os mais íntimos, os mais flexíveis, alguns tímidos, alguns curiosos e, porque não dizer, alguns simpatizantes, cediam aos mais ousados, geralmente um pouquinho mais velhos. E as histórias iam-se acumulando no acervo tributário das nossas experiências originárias, oriundas do convívio exclusivo com a família, com a vizinhança, com a escola e com os amigos. Assim que um grupo se estabelecia mais duradouramente, seus integrantes eram classificados — tacitamente, é claro — segundo critérios anatômicos que os definiam, por assim dizer, como "desejáveis" e "indesejáveis". Os desejáveis eram geralmente aqueles que exibiam certos atributos que considerávamos femininos, como coxas lisas e bem torneadas e traseiros bem feitos e mais pronunciados. Os indesejáveis eram normalmente os precocemente peludos, os magricelas, os muito altos, os muito gordos, os mais velhos e, claro, aqueles que, por índole, não inspiravam nenhum avanço de natureza sexual. Ser desejável, porém, não implicava de modo algum ceder aos assédios, assim como ser indesejável não implicava estar a salvo dos mesmos. Minha autocrítica baseada em observações ao espelho forçava-me a inserir-me no rol dos desejáveis, mas devo dizer que jamais senti a menor pressão a ceder, talvez porque lessem no meu comportamento uma certa afinidade com o seu. E, de fato, agora armado do desejo e convencido de que eu nada conseguiria de mais conclusivo com o sexo oposto, isto é, livre do dilema que me impedia de inaugurar minha vida sexual com meus congêneres, eu me sentia pronto a dar os passos decisivos nessa direção.
Um dos irmãos do meu melhor amigo adequava-se como uma luva ao critério dos "desejáveis" conforme definido acima. Eu o via vez por outra com pouca ou nenhuma roupa e constatava a cada vez que ele exibia certas características que evocavam algo de feminino: um rosto ainda andrógino, voz e gestos não carregados de virilidade grosseira, coxas lisas, nádegas salientes. Uma simpatia inicial seguida das pulsões mútuas da libido nos aproximaram e os jogos eróticos não tardaram a instalar-se entre nós, em particular o contato entre os corpos, o meu sempre por trás. Quando eu ia à casa deles, dormíamos todos no mesmo quarto, mas meu melhor amigo e os demais irmãos pareciam ter um prazer todo especial em estimular esses meus encontros licenciosos com ele, destinando-me sempre um lugar em sua cama. Nossos contatos eram obviamente superficiais, mas isso bastava para levar-me a libido e a imaginação aos extremos da fantasia.
Meses e meses se passaram, talvez um pouco mais de um ano, até que, não cabendo em mim de impaciência, roguei a esse irmão do meu melhor amigo que cedesse ao meu desejo maior, e ele consentiu. Mas precisávamos de privacidade, que não conseguiríamos numa casa com cinco irmãos e irmãs. Ele foi portanto à minha casa, e foi sua primeira visita. Trancados no quarto, limitamo-nos a baixar as calças e nos unir. No primeiro contato, para imenso alívio meu, percebi que a excitação superava de muito a minha notória sensibilidade e que eu podia roçar sem medo o meu sexo descoberto na pele branca e firme das nádegas que ele me oferecia sem qualquer pudor. Enquanto isso, eu procurava palavras para formular alguma coisa à guisa de agrado, numa tentativa de compartilhar meu êxtase. Lembro-me de ter exclamado o quanto aquela sensação era inédita e maravilhosa, mas, talvez por medo de ser mal interpretado, não ousei dizer o quanto o corpo que eu tinha diante dos olhos me parecia bonito e desejável. Passei longos momentos apenas sentindo o seu calor e as pulsações do meu sexo contra ele. De uma coisa não tenho dúvida: até aquele momento, nosso prazer era mútuo. Foi no instante em que decidi que era hora de passar ao ato propriamente dito que a realidade interpôs-se ao que parecia estar sendo a mais pura realização de um sonho. Inexperientes, ainda não aprendêramos a atribuir importância a aspectos secundários e no entanto essenciais do material gráfico que tantas vezes acompanhara os nossos exercícios solitários. Preservativos, lubrificantes e até mesmo a saliva passaram-nos completamente despercebidos. Malgrado a boa vontade dele e minha perseverança, a penetração asseverou-se impraticável, e eu não me permiti dar vazão a um orgasmo sem consumar o ato; teria sido por demais egoísta e injusto. Não pude deixar de pensar que, no fundo, eu estivera certo desde o início, e que o sexo anal só podia decepcionar. O irmão do meu amigo, inabalável em sua índole serena, subiu as calças, despediu-se e foi embora como se tivesse ido à minha casa para jogar uma partida de botão.
Eu tinha tudo para estar cabisbaixo e desapontado. Contudo, legítimo representante dessa etapa insólita e maravilhosa do desenvolvimento humano, que é a adolescência, senti-me, pelo contrário, esfuziante: a rigor, eu tivera a minha primeira relação sexual digna desse nome e, de quebra, conseguira livrar-me da horrível impressão de que a sensibilidade da glande inviabiliza o sexo! Desembestei escadaria abaixo instantes depois que ele saiu, mal cabendo em mim de uma injustificada euforia. Meu desejo era de sair contando a proeza aos vizinhos mais próximos, mas ao avistar, já ao longe, o irmão do meu amigo descendo a rua, senti respeito e carinho, e guardei para mim, e para sempre, o que acabáramos de fazer. Àquela altura, eu sequer poderia imaginar que só viria a ter uma primeira relação anal consumada anos e anos depois, e que aquilo que, para tantos, é uma necessidade frequente viria a resumir-se, para mim, a raras e preciosas ocasiões de evocar o longo périplo que me fora necessário para descobrir o quanto a lógica dos imberbes é rigorosa e imponderável.

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