10. O sorriso do lagarto
– Quero ver! Quero ver! sussurra a garota, agitando-se em volta da irmã.
– Desinfeta, Angie! grita Rebeca, a mão na porta para que ela saia.
– Mãe, a Rê não quer me mostar a t...
– Cala a boca! susurra a outra, voando em cima da irmã para tapar-lhe a
boca.
– Hmm! Hmm! Hmm!
– Você prometeu que não ia falar, Angie!
– É, mas só se você me mostrar.
– Não... Não deu tempo de terminar, diz ela, evasiva.
– Não? Um cupidozinho pequenininho?
– Não. Era mais difícil que ele pensava.
– Sei! diz a guria, incrédula. Aposto que vocês ficaram foi de beijo,
lá, isso sim!
– Você não sabe de nada, Angie. Cala a boquinha, tá.
– Eu quero ver assim mesmo, insiste a garota.
– Mas só tem o contorno!
– Eu só quero ver, Rê! Não vou comer a tua tatuagem não!
– Tá bom, então. Vem cá que eu te mostro. Mas depois me deixa em paz,
tá?
– Deixo.
Em frente ao espelho, Rebeca ergue a saia e baixa o elástico da calcinha
o suficiente para expor o local da nova tatuagem, onde um Cupido em pleno vôo,
ainda sem o arco e a flecha, parece pairar no ar, voltado para a fenda que
Rebeca oculta propositadamente.
– Falta muito ainda, mas está ficando bonitinho, avalia a garota,
tentando tocar a tatuagem com a ponta do dedo.
– Tira a mão! faz a outra, dando-lhe um tapa.
– Aiê! Também não precisa ser estúpida! protesta a garota,
desinteressando-se.
– Isso, some, diz Rebeca, fechando a porta do quarto atrás da irmã.
A última sessão de tatuagem deixou Rebeca lânguida, sonhadora e um pouco
desorientada. Ela se pergunta no que vai dar esse primeiro contato íntimo,
intenso mas incompleto, que ela teve com Henrique. Diante do espelho, ela passa
a mão pelo rosto e engole a própria saliva acreditando detectar algum resquício
do estranho sabor que se misturou a ela poucas horas antes. Ela deseja Henrique, não tem dúvida disso, mas preferiria não ser só mais uma cliente dentre
tantas que fazem sexo com ele. Ele terá sido para sempre o primeiro a preencher o
seu corpo em branco com tatuagens escolhidas a dedo e isso lhe dá algum direito
sobre ela, mas a idéia de conceder-lhe isso banalmente a incomoda. Como toda
mulher, ela desejaria ser especial.
O jantar da pequena família transcorre sem incidentes. Para alívio de
Rebeca, sua irmã parece estar gostando de guardar o segredo, pelo menos por
enquanto. Mais tarde, diante da televisão, no sofá da sala, Rebeca se submete
pela enésima vez ao comentário paterno sobre o comprimento da sua roupa,
a exposição das suas coxas e barriga, e toda a preleção habitual sobre os
tarados de plantão nas ruas do Rio.
– Pai, eu não dou a mínima! Estou cansada de ouvir besteira na rua, e não dá em nada.
– É, mas um dia pode acontecer de algum tentar alguma coisa, e...
– Pode acontecer com qualquer uma, pai!. Eu já disse que não vou começar a me
vestir como freira só porque o homem brasileiro não sabe respeitar mulher!
– Não digo como freira, mas você já se viu sentada com essa saia,
Rebeca? É questão de bom senso, Rebeca. Não quero ser grosseiro, mas estou
vendo a tua bunda!
– Ah, para com isso, pai! retruca ela, um tanto encabulada, descruzando
as pernas para tentar tapar as coxas com o pouco de saia que as cobre.
– É verdade, pai! Às vezes dá para ver as polpinhas do bumbum a Rê fica em pé! reforça a caçula, provocativa.
– Eu não digo nada porque já gastei toda a minha saliva, interfere a mãe, mas
não entendo porque é que vocês precisam andar tão peladas hoje em dia. Eu vivi
os anos 70, usei minissaia, mas nem de longe era como agora!
– Parece que estão todas sem calcinha, contribui o pai. Acabou a
sutileza no jogo da sedução? Agora, só sendo explícito? E, Rebeca, você já parou para pensar no efeito que uma mulher causa num homem? Efeito involuntário! O problema, agora, é que a mulher tem o direito de provocar o homem, mas o homem tem cada vez menos o direito de provocar a mulher. Isso não te parece injusto?
– Gente, vocês estão me deixando de mau humor. Vou para o meu quarto.
Tchau.
– Isso mesmo! Foge da raia como você sempre faz, diz o pai. Boa noite.
– Boa noite, filha, diz a mãe, com voz conciliadora.
– Tchau, "meu anjo", faz a caçula, insolentemente alusiva.
Sentindo-se levemente excitada pelo dia que teve e com toda essa discussão centrada em seu corpo, Rebeca decide ir para a cama nua, disposta a passar a
noite sonhando com a sua aventura no estúdio de tatuagem. O roçar do
lençol por seus seios e coxas a transporta rapidamente para a dimensão erótica
desejada. Ela toca-se com carinho, experimentando uma vez mais a umidade do
entrelábios, como Henrique poucas horas atrás. O clitóris rapidamente
intumescido lhe proporciona uma onda de prazer crescente. Ela o acaricia e
massageia lentamente sentindo o sumo quente invadir-lhe o sexo. Ela adormece
num suave torpor orgásmico.
O sol está a pino quando Rebeca vai chegando ao centro de tatuagens. Banhada
pelo fulgurante sol matinal, ela tem a impressão de que todos os olhares da
calçada se dirigem para as suas coxas, seios, sexo e rosto. O roçar da
saia com as nádegas e a presença do fio da calcinha entre elas a faz sentir-se
secretamente nua, e isso a excita. Ela passa pela recepção sem ser notada e
irrompe no estúdio de Henrique. Na cama de tatuar, um homem de corpo
integralmente tatuado se volta para ela com um sorriso enigmático. Henrique e um colega acabaram
de tatuar-lhe as plantas dos pés.
– Era a única coisa que faltava, diz ele, radiante. Vem ver!
Ela se aproxima. Ele está na mesma posição "ginecológica" em
que ela vira Xênia, a cliente de quem Henrique extraíra o piercing vaginal. Não
há mais cor de pele nesse homem. "É um mosaico ambulante!", pensa
ela, maravilhada e horrorizada ao mesmo tempo. Ela percorre seu corpo tentando identificar
as centenas de desenhos unidos uns aos outros e só então percebe que ele está
completamente nu e que as cores do seu sexo confundem-se com as da barriga onde
ele repousa inchado, em estado de semi-ereção. Ela olha para Henrique, que lhe sorri e
apresenta o colega tatuador, Bruno.
– E eu sou o Joker, interrompe o tatuado, erguendo a cabeça e
estendendo-lhe a mão por entre as pernas, na direção do pé da cama.
– Prazer, diz ela, estendendo-lhe a sua com um sorriso intrigado.
– Hoje é o dia mais feliz da minha vida, menina, diz ele. Cobri o último
espaço em branco do meu corpo.
– Estou vendo! exclama ela, sem saber muito para onde olhar, mas
intimamente atraída pelo sexo exposto.
– A Rebeca é minha cliente, diz Henrique. Ela veio para terminar
a última tatuagem dela. Enfim, a última até agora!
– Ah é? Posso ver? pergunta o Joker.
Rebeca olha interrogativamente para Henrique, mas ele a tranquiliza
sinalizando que ela tem outras para mostrar. Joker as examina atentamente, elogia
Henrique pela qualidade dos trabalhos e dá um sorrisinho condescendente a
Rebeca dizendo-lhe aquele é apenas o começo de uma longa história que as
tatuagens irão contando aos poucos. Ela sorri satisfeita com a imagem e
sente-se descontrair pouco a pouco naquele ambiente de veteranos; suficientemente descontraída para querer saber mais sobre as tatuagens nas
partes mais íntimas daquele homem. Agitando sem cerimônia o pênis de Joker para
endurecê-lo bem, Bruno mostra-lhe como este tornou-se um soldado da SS estilizado
ostentando o capacete nazista tatuado em cinza esverdeado na glande. Em seguida, separando bem as nádegas cobertas
de tatuagens de um colorido vivo, ele faz surgir as labaredas que parecem
surgir do ânus e envolvê-las como pétalas de fogo.
– É o despertar o kundalini, diz Henrique.
– O que é isso? pergunta Rebeca.
– Ah, isso você só vai descobrir quando for à Índia! diz Joker, tirando
as pernas dos suportes e sentando-se na cama voltado para ela.
– É tão misterioso assim?, diz ela, sorrindo e tentando desviar o olhar da ereção.
Ao terminar a frase, Rebeca arrepia-se toda sentindo uma mão firme
acariciar-lhe a nuca e a raiz dos cabelos.
– Ele pode abreviar o teu aprendizado, diz Bruno, malicioso,
empurrando-a gentilmente para Joker.
– Ei, calma! exclama Rebeca, detendo-se com as mãos nas coxas de Joker e
procurando por Henrique com olhar inquieto.
– Dá um tempo, Bruno! diz o rapaz, olhando-o expressivamente.
– Por quê? Você não quer saber o que é o despertar do kundalini, menina?
pergunta Bruno, cuja mão desceu até o final da coluna de Rebeca e não mostra
intenção de deter-se.
– Está legal, gente, chega disso! diz Henrique, puxando Bruno e indicando a Joker que é hora de ir embora.
Rebeca se vê parada no meio da sala, meio apavorada e meio excitada
diante dos três homens, o primeiro tão tatuado que lhe parece um lagarto, o segundo visivelmente imoral e o terceiro, Henrique, sempre tão interessante, mas agora inseguro. Ela se sente como uma presa fácil sendo defendida por um animal de
espécie semelhante mas não exatamente a mesma que a dela. Ela não vê em
Henrique a verdadeira convicção de querer afastá-la dos dois outros, mas depende disso porque ela mesma está dividida entre os apelos do corpo e o bom
senso da mente. Intimamente ela sabe que outorgou a Henrique plenos poderes e
que está nas mãos dele decidir se ela se entrega ou não. Joker continua sentado
na cama de tatuar, diante dela, de pernas abertas, o gordo membro em riste. Henrique foi até a cadeira
onde se encontram suas roupas e faz-lhe sinal de que se vista e vá
embora. Bruno olha incrédulo para os dois outros, meneando a cabeça como quem
os chama de idiotas. O suspense começa a durar demais e a tensão no
pequeno ateliê vai subindo.
– Não está vendo que ela não quer parar, cara? Se ela não quisesse já
teria ido embora! diz Bruno, desrespeitoso e debochado.
Henrique procura o olhar de Rebeca e ela entende que ele quer repassar-lhe o bastão. Ela só pode contar consigo mesma. Dando dois passos, ela se aproxima de Joker e empunha-lhe o membro.
Henrique procura o olhar de Rebeca e ela entende que ele quer repassar-lhe o bastão. Ela só pode contar consigo mesma. Dando dois passos, ela se aproxima de Joker e empunha-lhe o membro.
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| "Hoje é o dia mais feliz da minha vida. Cobri o último espaço em branco do meu corpo!" |

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