A peculiaridade
deste conto é ser uma narrativa "em segunda pessoa". Não há narrador onisciente falando de terceiras pessoas nem alguém contando o seu
próprio passado em primeira pessoa, mas alguém relembrando fatos a uma segunda
pessoa. Se você gosta de literatura, preste sempre atenção no que
tecnicamente chamamos de foco narrativo. Repare também que neste texto, o
carioquês é utilizado em toda a sua plenitude.
M. F.
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— Mas falando
sério, Marco, foi você que forçou a barra naquele dia.
— Você quer mesmo
acreditar nisso, não é?
— Eu estava lá,
tranquila, e você chegou todo nervoso.
— Você me chamou
dizendo que a água estava uma delícia.
— Eu disse isso,
mas não estava te chamando.
— Ah não? Mas você
não me impediu de tirar a roupa e chegar perto!
— Você já chegou
tirando. O que é que eu podia fazer?
— Ah, sabe de uma
coisa, Tati, já faz tempo demais. Está na hora de dar uma recapitulada nisso
para deixar tudo claro.
— Por mim, tudo
bem, mas sou péssima para essas coisas.
— Não faz mal, eu
começo e você me ajuda a lembrar.
— Se é assim...
— Droga, já não sei
se foi em 2018 ou 2019.
— Começou bem! Foi
no dia 31 de dezembro de 2018.
— Tem certeza? Faz
séculos, isso!
— Absoluta, pode
partir daí.
— OK, só um gole de
cerveja para molhar a garganta...
Então vamos lá. Dia
31 de dezembro de 2018. Me lembro que estava fazendo um calor infernal e que
todo mundo tinha saído menos nós dois, não sei por quê.
— Eu tinha
terminado o segundo período de informática, estava sem namorado e estava
curtindo o meu começo de férias. Você não quis ir com a Sandra e os outros não
sei por quê.
— Eles iam bater
perna num calçadão de praia com aquele sol de rachar! E você sabe que a tua
irmã quando junta com os teus pais fica um saco.
— É tua mulher, cara.
Vocês estavam casados há dois anos. Já tinha enjoado?
— Não, tanto que
estamos casados até hoje, e se não me engano, cunhadinha, você adora os teus
sobrinhos.
— Adoro mesmo, mas
isso não tem nada a ver com vocês.
— Ah não? Sem nós,
você não seria tia deles.
— Tá bom, Marco, dá
pra continuar ou a gente vai ficar nisso?
— Desculpa. Então,
eles saíram e nós ficamos, e assim que a porta fechou, você voou para o quarto,
botou um biquini e foi para o quintal tomar banho de mangueira.
— Na minha.
— Na tua nada! Você
gritou de lá que a água estava uma delícia.
— Eu já disse que
não foi para te chamar.
— Bom, não vamos
discutir isso por enquanto. O fato é que estava mesmo fazendo um calorão e eu
fui lá...
— Me ver de
biquini.
— Não foi isso,
Tati. Eu estava casado há dois anos, tua irmã era super gostosa e nossa vida
conjugal estava perfeita.
— Tá legal, tá
legal, vou fingir que acredito, mas continua!
— Quando eu cheguei
na porta da cozinha que dá para o quintal, a primeira coisa que eu reparei foi
que você tinha posto o menor biquini que você tinha, aquele branco que você nem
tinha coragem de usar na praia.
— Era o meu biquini
mais velho, e eu estava na minha casa, esqueceu?
— E eu sou homem,
esqueceu?
— Ah, isso é
problema de vocês homens. Eu só queria me refrescar.
— Agora fica quieta
e me deixa continuar.
Chegando no
quintal, vi você com aquele biquini, mas fiquei na minha e até conversamos um
pouco, mas ver aquela água geladinha saindo da mangueira, te molhando e
refrescando o ar em volta me encheu de vontade de me livrar do calor infernal
que eu estava sentindo.
— É, e aí você
ficou de cueca.
— Eu perguntei se
podia e você deixou, Tati!
— Isso é verdade,
não vou negar. A gente se conhecia há uns cinco anos e não vi mal nenhum em
tomar banho de mangueira com um cunhado de cueca.
— E não tinha mal
nenhum mesmo, só que ficando tão perto de você com aquele biquini que te
deixava quase nua...
— Você desconectou
a cabeça de cima.
— É, mais ou
menos... Mas você provocou um pouquinho, admite, vai!
— Eu? Não me lembro
disso não.
— Você me passou a
mangueira e me pediu para te molhar, aí ficava de costas um tempão porque sabia
que eu ia olhar para a tua bunda...
— Que mentira,
Marco! Nem pensei nisso. Você é que ficou de "troço" todo duro e
quando eu me virei tomei um susto.
— Tomou mesmo,
disso eu me lembro, haha! Mas você não era mais nenhuma inocente, Tati. Você
tinha quanto? Dezenove anos?
— Eu dezenove, você
indo para vinte e seis.
— E você era toda
gostosinha.
— O que não
justifica...
— O quê? O assédio?
Pode falar!
— Mais ou menos. Você
não fez nada para se esconder.
— Para quê, se você
mesma disse que eu estava de pau duro?
— Eu disse? Nem
precisava, a cueca molhada ficou transparente!
— Mas disse, e com
todas as palavras.
— Haha! Não vou nem
discutir.
— É, mas disse, e
eu disse que era por tua causa, porque você estava praticamente de bunda de
fora.
— E eu respondi que
o nome daquilo era biquini, que a torcida feminina do Flamengo usava e que você
era o único cara de vinte e seis anos que ficava "empolgado" olhando!
E você lembra da tua resposta?
— Não, qual foi?
— Você me disse que
eu podia pegar "se quisesse".
— E você pegou!
— Fiquei curiosa
com aquilo atravessado na cueca.
— Você segurou e
gostou, Tati.
— Porque ele mexeu
dentro da minha mão.
— Você teria parado
por ali?
— Isso eu não sei,
mas...
— Não teria, Tati.
Você também ficou com vontade.
— Mas foi você que
baixou a cueca.
— E você se abaixou
junto, lembra?
— Hã?
— Ah não! Vai me
dizer que não lembra?
— Não lembro de
quê?
— Tati, pelo amor
de Deus!
— Não sei do que
você está falando, juro!
— Você botou na
boca, Tati.
— Não senhor! Isso
foi bem depois!
— Tati, quando eu
baixei a cueca, você pegou o meu pau, disse que ele era bonito, se curvou e
começou a chupar.
— Mentira! Mandei
você guardar aquilo porque algum vizinho podia ver.
— Não tinha prédio
em volta da casa dos teus pais, Tati!
— Mas algum vizinho
podia trepar no muro. Eu tenho certeza que não fiz nada naquela hora. Eu queria
que a gente continuasse tomando banho de mangueira, mas você já estava todo
nervoso com aquilo duro que não baixava mais.
— Mas você chupou o
meu pau.
— Tá, mas não foi
ali nem naquele momento. Ali, você me beijou, passou a mão entre as minhas
pernas e eu fiquei te tocando, implorando para a gente ir para dentro.
— Mas você não quis
ir!
— Não é bem isso.
Eu estava apavorada com o que a gente estava fazendo e não queria fazer nada no
meu quarto.
— É, disso eu
lembro. Aí você me chamou para o toldo do quintal e nós fizemos naquele sofá
velho.
— Eu te chamei?
Você me puxou para lá!
— Só tirando o
corpo fora, né Tati!
— Estou falando a
verdade. Você disse que se a gente não fizesse, você ia enlouquecer de tanta
vontade.
— Se você se visse
no espelho naquele dia...
— Aquele biquini
era tão velhinho!
— Talvez fosse por
isso; devia estar pequeno para você. E biquini branco...
— É verdade que
biquini branco realça.
— Eu me lembro como
se estivesse vendo; ele só tinha a frente.
— Mas nem era de
fio!
— Não mas entrava
todo atrás.
— Tanto assim?
— Sumia no rego, e
a tua bunda era linda.
— Haha! Você vai me
deixar com vergonha.
— Deixa disso, não
tem ninguém escutando o nosso papo.
— Vantagens de
praça de alimentação de shopping! Mas continua.
— Então, foi o
biquini que me deixou doido. Era tão apertado que entrava atrás e na frente...
— Sério, camel toe?
— Hum-hum. Sem
brincadeira.
— Ai, que vergonha!
— Não, mas eu achei
supersexy, pirei vendo aquela rachinha...
— Tá bom, Marco,
não precisa entrar nos detalhes!
— E isso sem falar
da parte de cima do biquini.
— Era de
"cortininha", tão bonitinho!
— Tão inocente, não
é? Teus peitinhos ficavam praticamente de fora.
— E eu nem tinha
tanto peito... Devia estar curto mesmo. Coitado do meu cunhado!
— Ainda bem que
você reconhece. Foi uma tortura!
— Até você me puxar
para o sofá do toldo.
— Bom, na minha
lembrança, foi você que sugeriu, mas enfim...
— Não, você me
puxou, literalmente, pela mão, e chegando lá, me fez sentar no sofá, tirou a
cueca e já veio ajoelhando comigo entre as tuas pernas até colar no meu rosto.
— E você chupou.
— Não tinha mais
jeito.
— Falando assim,
até parece que você não queria, Tati!
— Você era quase
sete anos mais velho que eu, marido da minha irmã, gostoso... Ai! Falei
besteira.
— Ah! Está vendo?
Você tinha atração por mim!
— Não, não, eu juro
que foi coisa de momento; eu não tinha fantasias com você.
— Eu tinha, mas
ficava na minha.
— Sério? Eu acho a
Sandra tão mais bonita.
— Bah! O homem
sempre quer todas, a verdade é essa.
— É, também cheguei
a essa conclusão com o passar dos anos. Mas você ama a Sandra, não ama?
— Sempre amei e amo
cada vez mais. É a mãe dos meus filhos e uma esposa adorável.
— E a vida
conjugal...
— Vai indo bem. Mas
não é para isso que entramos nesse papo, não é?
— Não. Vamos
continuar resolvendo teu probleminha de memória.
— Haha! Meu
problema, não é?
— Claro. Eu me
lembro das coisas exatamente como aconteceram.
— Podemos
continuar? Você estava chupando o meu pau.
— Que grosseiro,
Marco!
— E ainda digo
mais: você está querendo fugir do que aconteceu logo de saída.
— Ah é? Então fala,
adoro a tua imaginação.
— Eu gozei em cheio
na tua boca e foi um desastre ecológico.
— (...)
— Que foi?
— Ha! Ha! Ha! Ha!
Ha! Ha! Ha! Você se drogou antes de vir?
— Vai me dizer que
também não lembra?
— Marco, você subiu
no sofá por cima de mim e tentou meter aquele troço na minha boca. Eu chupei um
pouco e te repeli por causa da ânsia, esqueceu?
— Não foi isso,
Tati! Você chupou com vontade e me deixou com tanto tesão que eu gozei na tua
boca e, aí sim, você me empurrou dizendo que dava ânsia quando ia muito no
fundo, mas me deixou gozar no rosto e curtiu bem, chegou a provar e tudo.
— Quê?! Eca!
Jamais!
— Bom, é a tua
memória contra a minha. Disso eu me lembro claramente porque a gente voltou até
a mangueira para se lavar e até fiquei um tempo lá com você porque a água
estava uma delícia. Foi nessa hora que você reclamou porque eu estava pelado no
quintal e podiam ver.
— Nossa, você
confunde tudo mesmo!
— Não, eu me lembro
muito bem das coisas, mas deixa pra lá.
— Eu me lembro da
gente se agarrando no sofá molhados.
— Foi aí que eu
comecei a tirar o teu biquini.
— Ah foi, grande
conquistador?
— Foi. Eu afastei o
sutiã para chupar teus peitinhos e você acabou tirando e ficamos nos beijando
enquanto eu passava a mão entre as tuas coxas, até que você levantou e me
deixou tirar a parte de baixo do teu biquini. Você ficou peladinha na minha
frente, deu voltinhas para mim e tudo.
— Ah mas que cara
prosa!
— Estou te falando!
Foi assim.
— E aí, abusador de
calouras?
— Aí você montou em
mim e a nossa primeira trepada foi com você no meu colo. E posso te dizer que
quando você foi descendo no meu pau, fez mil caras e bocas não de caloura mas
de veterana de fim de curso!
— Ah mas que
cachorro você é! Ainda me ofende!
— Mas é verdade! Você
era tudo menos inexperiente e cavalgou o meu pau passando do trote ao galope
como uma verdadeira amazona.
— Eu não tinha
autoridade para dizer não a um homem casado.
— Sei! Você se
lembra com quantos caras já tinha transado aos dezenove?
— Ah, sei lá,
uns... Uns quinze, dezesseis, contando com os namorados de escola.
— E se eu te disser
que eu tinha transado com sete, aos vinte e seis anos?
— Tadinho! Foi
culpa da mamãe ou você morava no interior?
— Para com isso,
Tati. Não vamos entrar numa de debochar.
— É, tem razão,
agora somos adultos. Desculpa. Continua.
— Eu me lembro que
como eu tinha gozado, ficamos um tempão trepando naquele sofá, variando
posições, mas que eu queria fazer você gozar com a minha língua.
— Disso eu me
lembro, e foi uma loucura, não vou mentir.
— Eu devorei a tua
bucetinha e te fiz subir pelas paredes, pode confessar.
— Também não vamos
exagerar, mas foi bom e eu sei que não fingi naquele orgasmo.
— Ah, porque você
já fingia orgasmo? E ainda se dizia "caloura"!
— Isso é normal na
mulher, Marco. Depois te dou uma aula disso. Agora continua.
— Eu me lembro de
ter pedido para meter no cuzinho, você virou de quatro e deixou, mas eu não
consegui de jeito nenhum enfiar. Hoje sei que algumas mulheres espertas se
fecham e botam a culpa na anatomia.
— Sexo anal é uma
coisa muito especial, Marco. Ali não convinha.
— Ou seja, que
entra, entra, mas você não deixou entrar.
— É, digamos que
foi isso. Mas me lembro que você pôde compensar amplamente essa frustração
porque eu tinha parado de menstruar naquele dia ou na véspera.
— Naquele dia
mesmo. Me lembro bem de ter gozado umas três vezes depois da primeira, e sempre
dentro. Aliás, você também gozou muito.
— É, eu sei.
Ficamos ali quanto tempo? Umas duas, três horas?
— Eu sei que foi
até você começar a achar que os outros iam começar a voltar.
— Quando eles
chegaram, nós estávamos como dois santos jogando videogame, vestidos e de
cabelo seco.
— Prontos para
encher a pança e sair para o reveillon em Copa.
— Não teve nada de
reveillon em Copa, Marco!
— Nós fomos, sim,
ver os fogos!
— Claro que não!
Nós fomos para a casa da minha tia na Barra.
— Isso foi em 2019,
Tati!
— 2018, Senhor
Alzheimer! Mas vamos comer que é melhor. A gente falou tanto que nem tocou na
comida. Bom apetite!

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