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Repondo os Pingos nos Is


A peculiaridade deste conto é ser uma narrativa "em segunda pessoa". Não há narrador onisciente falando de terceiras pessoas nem alguém contando o seu próprio passado em primeira pessoa, mas alguém relembrando fatos a uma segunda pessoa. Se você gosta de literatura, preste sempre atenção no que tecnicamente chamamos de­­ foco narrativo. Repare também que neste texto, o carioquês é utilizado em toda a sua plenitude.

M. F.

*****************

— Mas falando sério, Marco, foi você que forçou a barra naquele dia.
— Você quer mesmo acreditar nisso, não é?
— Eu estava lá, tranquila, e você chegou todo nervoso.
— Você me chamou dizendo que a água estava uma delícia.
— Eu disse isso, mas não estava te chamando.
— Ah não? Mas você não me impediu de tirar a roupa e chegar perto!
— Você já chegou tirando. O que é que eu podia fazer?
— Ah, sabe de uma coisa, Tati, já faz tempo demais. Está na hora de dar uma recapitulada nisso para deixar tudo claro.
— Por mim, tudo bem, mas sou péssima para essas coisas.
— Não faz mal, eu começo e você me ajuda a lembrar.
— Se é assim...
— Droga, já não sei se foi em 2018 ou 2019.
— Começou bem! Foi no dia 31 de dezembro de 2018.
— Tem certeza? Faz séculos, isso!
— Absoluta, pode partir daí.
— OK, só um gole de cerveja para molhar a garganta...

    Então vamos lá. Dia 31 de dezembro de 2018. Me lembro que estava fazendo um calor infernal e que todo mundo tinha saído menos nós dois, não sei por quê.
— Eu tinha terminado o segundo período de informática, estava sem namorado e estava curtindo o meu começo de férias. Você não quis ir com a Sandra e os outros não sei por quê.
— Eles iam bater perna num calçadão de praia com aquele sol de rachar! E você sabe que a tua irmã quando junta com os teus pais fica um saco.
— É tua mulher, cara. Vocês estavam casados há dois anos. Já tinha enjoado?
— Não, tanto que estamos casados até hoje, e se não me engano, cunhadinha, você adora os teus sobrinhos.
— Adoro mesmo, mas isso não tem nada a ver com vocês.
— Ah não? Sem nós, você não seria tia deles.
— Tá bom, Marco, dá pra continuar ou a gente vai ficar nisso?
— Desculpa. Então, eles saíram e nós ficamos, e assim que a porta fechou, você voou para o quarto, botou um biquini e foi para o quintal tomar banho de mangueira.
— Na minha.
— Na tua nada! Você gritou de lá que a água estava uma delícia.
— Eu já disse que não foi para te chamar.
— Bom, não vamos discutir isso por enquanto. O fato é que estava mesmo fazendo um calorão e eu fui lá...
— Me ver de biquini.
— Não foi isso, Tati. Eu estava casado há dois anos, tua irmã era super gostosa e nossa vida conjugal estava perfeita.
— Tá legal, tá legal, vou fingir que acredito, mas continua!
— Quando eu cheguei na porta da cozinha que dá para o quintal, a primeira coisa que eu reparei foi que você tinha posto o menor biquini que você tinha, aquele branco que você nem tinha coragem de usar na praia.
— Era o meu biquini mais velho, e eu estava na minha casa, esqueceu?
— E eu sou homem, esqueceu?
— Ah, isso é problema de vocês homens. Eu só queria me refrescar.
— Agora fica quieta e me deixa continuar.

Chegando no quintal, vi você com aquele biquini, mas fiquei na minha e até conversamos um pouco, mas ver aquela água geladinha saindo da mangueira, te molhando e refrescando o ar em volta me encheu de vontade de me livrar do calor infernal que eu estava sentindo.
— É, e aí você ficou de cueca.
— Eu perguntei se podia e você deixou, Tati!
— Isso é verdade, não vou negar. A gente se conhecia há uns cinco anos e não vi mal nenhum em tomar banho de mangueira com um cunhado de cueca.
— E não tinha mal nenhum mesmo, só que ficando tão perto de você com aquele biquini que te deixava quase nua...
— Você desconectou a cabeça de cima.
— É, mais ou menos... Mas você provocou um pouquinho, admite, vai!
— Eu? Não me lembro disso não.
— Você me passou a mangueira e me pediu para te molhar, aí ficava de costas um tempão porque sabia que eu ia olhar para a tua bunda...
— Que mentira, Marco! Nem pensei nisso. Você é que ficou de "troço" todo duro e quando eu me virei tomei um susto.
— Tomou mesmo, disso eu me lembro, haha! Mas você não era mais nenhuma inocente, Tati. Você tinha quanto? Dezenove anos?
— Eu dezenove, você indo para vinte e seis.
— E você era toda gostosinha.
— O que não justifica...
— O quê? O assédio? Pode falar!
— Mais ou menos. Você não fez nada para se esconder.
— Para quê, se você mesma disse que eu estava de pau duro?
— Eu disse? Nem precisava, a cueca molhada ficou transparente!
— Mas disse, e com todas as palavras.
— Haha! Não vou nem discutir.
— É, mas disse, e eu disse que era por tua causa, porque você estava praticamente de bunda de fora.
— E eu respondi que o nome daquilo era biquini, que a torcida feminina do Flamengo usava e que você era o único cara de vinte e seis anos que ficava "empolgado" olhando! E você lembra da tua resposta?
— Não, qual foi?
— Você me disse que eu podia pegar "se quisesse".
— E você pegou!
— Fiquei curiosa com aquilo atravessado na cueca.
— Você segurou e gostou, Tati.
— Porque ele mexeu dentro da minha mão.
— Você teria parado por ali?
— Isso eu não sei, mas...
— Não teria, Tati. Você também ficou com vontade.
— Mas foi você que baixou a cueca.
— E você se abaixou junto, lembra?
— Hã?
— Ah não! Vai me dizer que não lembra?
— Não lembro de quê?
— Tati, pelo amor de Deus!
— Não sei do que você está falando, juro!
— Você botou na boca, Tati.
— Não senhor! Isso foi bem depois!
— Tati, quando eu baixei a cueca, você pegou o meu pau, disse que ele era bonito, se curvou e começou a chupar.
— Mentira! Mandei você guardar aquilo porque algum vizinho podia ver.
— Não tinha prédio em volta da casa dos teus pais, Tati!
— Mas algum vizinho podia trepar no muro. Eu tenho certeza que não fiz nada naquela hora. Eu queria que a gente continuasse tomando banho de mangueira, mas você já estava todo nervoso com aquilo duro que não baixava mais.
— Mas você chupou o meu pau.
— Tá, mas não foi ali nem naquele momento. Ali, você me beijou, passou a mão entre as minhas pernas e eu fiquei te tocando, implorando para a gente ir para dentro.
— Mas você não quis ir!
— Não é bem isso. Eu estava apavorada com o que a gente estava fazendo e não queria fazer nada no meu quarto.
— É, disso eu lembro. Aí você me chamou para o toldo do quintal e nós fizemos naquele sofá velho.
— Eu te chamei? Você me puxou para lá!
— Só tirando o corpo fora, né Tati!
— Estou falando a verdade. Você disse que se a gente não fizesse, você ia enlouquecer de tanta vontade.
— Se você se visse no espelho naquele dia...
— Aquele biquini era tão velhinho!
— Talvez fosse por isso; devia estar pequeno para você. E biquini branco...
— É verdade que biquini branco realça.
— Eu me lembro como se estivesse vendo; ele só tinha a frente.
— Mas nem era de fio!
— Não mas entrava todo atrás.
— Tanto assim?
— Sumia no rego, e a tua bunda era linda.
— Haha! Você vai me deixar com vergonha.
— Deixa disso, não tem ninguém escutando o nosso papo.
— Vantagens de praça de alimentação de shopping! Mas continua.
— Então, foi o biquini que me deixou doido. Era tão apertado que entrava atrás e na frente...
— Sério, camel toe?
— Hum-hum. Sem brincadeira.
— Ai, que vergonha!
— Não, mas eu achei supersexy, pirei vendo aquela rachinha...
— Tá bom, Marco, não precisa entrar nos detalhes!
— E isso sem falar da parte de cima do biquini.
— Era de "cortininha", tão bonitinho!
— Tão inocente, não é? Teus peitinhos ficavam praticamente de fora.
— E eu nem tinha tanto peito... Devia estar curto mesmo. Coitado do meu cunhado!
— Ainda bem que você reconhece. Foi uma tortura!
— Até você me puxar para o sofá do toldo.
— Bom, na minha lembrança, foi você que sugeriu, mas enfim...
— Não, você me puxou, literalmente, pela mão, e chegando lá, me fez sentar no sofá, tirou a cueca e já veio ajoelhando comigo entre as tuas pernas até colar no meu rosto.
— E você chupou.
— Não tinha mais jeito.
— Falando assim, até parece que você não queria, Tati!
— Você era quase sete anos mais velho que eu, marido da minha irmã, gostoso... Ai! Falei besteira.
— Ah! Está vendo? Você tinha atração por mim!
— Não, não, eu juro que foi coisa de momento; eu não tinha fantasias com você.
— Eu tinha, mas ficava na minha.
— Sério? Eu acho a Sandra tão mais bonita.
— Bah! O homem sempre quer todas, a verdade é essa.
— É, também cheguei a essa conclusão com o passar dos anos. Mas você ama a Sandra, não ama?
— Sempre amei e amo cada vez mais. É a mãe dos meus filhos e uma esposa adorável.
— E a vida conjugal...
— Vai indo bem. Mas não é para isso que entramos nesse papo, não é?
— Não. Vamos continuar resolvendo teu probleminha de memória.
— Haha! Meu problema, não é?
— Claro. Eu me lembro das coisas exatamente como aconteceram.
— Podemos continuar? Você estava chupando o meu pau.
— Que grosseiro, Marco!
— E ainda digo mais: você está querendo fugir do que aconteceu logo de saída.
— Ah é? Então fala, adoro a tua imaginação.
— Eu gozei em cheio na tua boca e foi um desastre ecológico.
— (...)
— Que foi?
— Ha! Ha! Ha! Ha! Ha! Ha! Ha! Você se drogou antes de vir?
— Vai me dizer que também não lembra?
— Marco, você subiu no sofá por cima de mim e tentou meter aquele troço na minha boca. Eu chupei um pouco e te repeli por causa da ânsia, esqueceu?
— Não foi isso, Tati! Você chupou com vontade e me deixou com tanto tesão que eu gozei na tua boca e, aí sim, você me empurrou dizendo que dava ânsia quando ia muito no fundo, mas me deixou gozar no rosto e curtiu bem, chegou a provar e tudo.
— Quê?! Eca! Jamais!
— Bom, é a tua memória contra a minha. Disso eu me lembro claramente porque a gente voltou até a mangueira para se lavar e até fiquei um tempo lá com você porque a água estava uma delícia. Foi nessa hora que você reclamou porque eu estava pelado no quintal e podiam ver.
— Nossa, você confunde tudo mesmo!
— Não, eu me lembro muito bem das coisas, mas deixa pra lá.
— Eu me lembro da gente se agarrando no sofá molhados.
— Foi aí que eu comecei a tirar o teu biquini.
— Ah foi, grande conquistador?
— Foi. Eu afastei o sutiã para chupar teus peitinhos e você acabou tirando e ficamos nos beijando enquanto eu passava a mão entre as tuas coxas, até que você levantou e me deixou tirar a parte de baixo do teu biquini. Você ficou peladinha na minha frente, deu voltinhas para mim e tudo.
— Ah mas que cara prosa!
— Estou te falando! Foi assim.
— E aí, abusador de calouras?
— Aí você montou em mim e a nossa primeira trepada foi com você no meu colo. E posso te dizer que quando você foi descendo no meu pau, fez mil caras e bocas não de caloura mas de veterana de fim de curso!
— Ah mas que cachorro você é! Ainda me ofende!
— Mas é verdade! Você era tudo menos inexperiente e cavalgou o meu pau passando do trote ao galope como uma verdadeira amazona.
— Eu não tinha autoridade para dizer não a um homem casado.
— Sei! Você se lembra com quantos caras já tinha transado aos dezenove?
— Ah, sei lá, uns... Uns quinze, dezesseis, contando com os namorados de escola.
— E se eu te disser que eu tinha transado com sete, aos vinte e seis anos?
— Tadinho! Foi culpa da mamãe ou você morava no interior?
— Para com isso, Tati. Não vamos entrar numa de debochar.
— É, tem razão, agora somos adultos. Desculpa. Continua.
— Eu me lembro que como eu tinha gozado, ficamos um tempão trepando naquele sofá, variando posições, mas que eu queria fazer você gozar com a minha língua.
— Disso eu me lembro, e foi uma loucura, não vou mentir.
— Eu devorei a tua bucetinha e te fiz subir pelas paredes, pode confessar.
— Também não vamos exagerar, mas foi bom e eu sei que não fingi naquele orgasmo.
— Ah, porque você já fingia orgasmo? E ainda se dizia "caloura"!
— Isso é normal na mulher, Marco. Depois te dou uma aula disso. Agora continua.
— Eu me lembro de ter pedido para meter no cuzinho, você virou de quatro e deixou, mas eu não consegui de jeito nenhum enfiar. Hoje sei que algumas mulheres espertas se fecham e botam a culpa na anatomia.
— Sexo anal é uma coisa muito especial, Marco. Ali não convinha.
— Ou seja, que entra, entra, mas você não deixou entrar.
— É, digamos que foi isso. Mas me lembro que você pôde compensar amplamente essa frustração porque eu tinha parado de menstruar naquele dia ou na véspera.
— Naquele dia mesmo. Me lembro bem de ter gozado umas três vezes depois da primeira, e sempre dentro. Aliás, você também gozou muito.
— É, eu sei. Ficamos ali quanto tempo? Umas duas, três horas?
— Eu sei que foi até você começar a achar que os outros iam começar a voltar.
— Quando eles chegaram, nós estávamos como dois santos jogando videogame, vestidos e de cabelo seco.
— Prontos para encher a pança e sair para o reveillon em Copa.
— Não teve nada de reveillon em Copa, Marco!
— Nós fomos, sim, ver os fogos!
— Claro que não! Nós fomos para a casa da minha tia na Barra.
— Isso foi em 2019, Tati!
— 2018, Senhor Alzheimer! Mas vamos comer que é melhor. A gente falou tanto que nem tocou na comida. Bom apetite!
— Humpf! Bom apetite.




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