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Tatuagem 5


5. Ideograma

– Não tem gosto de nada!
– Assim você vai acabar apagando a minha maçãzinha, Dan! Para de lamber senão vou levantar!
– Ah não! Está tão gostoso, assim, no colinho!

Rebeca aconchega-se mais ao rapaz que para de lamber-lhe insistentemente o seio recém-tatuado e passa a beijá-la enquanto a puxa pelas nádegas para sentir-se enterrado nela o mais profundamente possível.
– Aiê, Dan!
– Que foi?
– Está me abrindo toda!
– Vai dizer que não sabe que é assim quando chega até o final?
– Eu sei, mas... faz ela, empinando-se para afastar-se um pouco.
– Ah! Vai sair, Rê?
– Não, mas está muito grosso! Prefiro com você deitado.

O rapaz, sentado na cama, deixa-se cair para trás e Rebeca pode enfim cavalgá-lo para aliviar o estiramento causado pelo diâmetro avantajado que ela acolhe há longos minutos. Nem toda posição é confortável quando se trata de um parceiro cujo dote em fase final de desenvolvimento vai atingindo dimensões que poderiam assustar um incauto.
– Ele está medindo quanto, Dan? diz ela, fazendo caretas a cada sentada.
– Da última vez que medi estava com dezenove, mas vai crescer mais.
– Não diz isso que eu volto pro Francis! E ainda grosso desse jeito!
– Você preferiria que ele fosse esmirrado como o dele?
– Deixa de ser malvado! Mas o teu podia ser um pouquinho menor, sério mesmo!
– Mas a tua xana poderia ser maior, não é? A da Marta...
– Para de falar nessa pi... Bom, não vamos baixar o nivel. Eu sei que a Marta "aguenta tudo", mas você sabe que eu não gosto que você fale nessa... velha.
– Haha! Ela tem 27 anos! Mas não precisa ficar com ciúmes.
– Ciúmes, eu? Quem é que conhece você do avesso, hein? faz ela, dando-lhe tapinhas no rosto, de leve.
– Xi, já vi que o analzinho não vai rolar hoje, de novo!
– Adivinhou! E nem daria tempo porque daqui a pouco tenho sessão de tatuagem.
– Já está na hora?
– É melhor a gente ir parando. Assim eu tomo banho com calma.
– Você vai tatuar o quê, hoje?
– Um letra japonesa que eu escolhi.
– Qual?
– Sei lá, mas tem a ver com amor e sexo.
– Oba! Vai ser na xaninha?
– Espertinho! Bom, vou para o banho.
– Posso ir junto?
– Pode, mas é para tomar banho! enfatiza ela, franzindo o sobrolho para desmontar do corpanzil do rapaz e presenteá-lo com uma rápida chupada antes de disparar em direção ao banheiro.
– Bundinha delícia! grita ele, observando a alternância das dobrinhas que se formam a cada passo na junção das coxas às nádegas salientes de Rebeca.

(...)

O ideograma antigo, que evoca o amor carnal, consiste de poucos traços e vai sendo rapidamente reproduzido por Henrique em tinta preta na pele cor de pergaminho de Rebeca.
– Estou toda arrepiada! exclama ela, de nuca descoberta e cabelo erguido em coque improvisado para o momento.
– Estou vendo! diz o rapaz, concentrado.
– Uma vez você me disse que tatua homens nas partes íntimas. Mulher também? Existe tatuagem vaginal?
– "Tatuagem vaginal"? repete ele com um risinho. Existe, e como! E não só vaginal, mas anal também.
– Sério? Anal? Mas quem pede? Atrizes pornô? Prostitutas?
– Tem de tudo, Rebeca. Já tatuei até filha acompanhada do pai.
– Com o pai? Que nojo!
– Menores não, porque aqui não é permitido, mas já tatuei na frente de pai, mãe, tio, tia, padrinho, irmão...
– Que nojo! Eu jamais viria qui com um parente. E fora isso – mas fala a verdade! –, nunca rola nada entre você e as clientes, quando elas vêm para se tatuar nesses lugares?
– É claro que rola! Às vezes a coisa esquenta tanto que dependendo da hora, acontece aqui mesmo. Mas eu juro para você que nunca dou o primeiro passo e só deixo isso acontecer com gente maior e vacinada.
– Que loucura! Haha!

O riso saudável de Rebeca oculta-lhe a excitação, mas Henrique repara o quanto ela curvou as costas, sentada de frente para o encosto da cadeira. Agora mais à vontade, ela nem pôs a blusa para dentro do short e ele pode admirar o delicioso "cofrinho" interrompido apelaspelo fino elástico da calcinha de algodão branco. Pouco a pouco, sessão após sessão, Henrique tem descoberto os segredos do corpo de Rebeca; não apenas as formas, mas seu odor e as pequenas marcas que o tornam único. A manga justa da blusa de malha preme suavemente a pele do braço indicando a textura da carne e um aroma de corpo recém-banhado já sutilmente misturado a um longínquo odor de transpiração adentra suas narinas e o inebria. Como ele gostaria que um dia Rebeca, como tantas outras, também confessasse uma atração por ele e, quem sabe, algum desejo que ele pudesse realizar ali mesmo!
– Prontinho!
– Já? pergunta ela, como se despertasse de um transe interrompido, desejando acrescentar "logo agora que estava ficando gostoso!", mas engolindo essa parte.
– É um ideograma simples, Rebeca, mas espero que se torne amuleto para você.
– Está querendo que eu tenha muitos namorados, é? diz ela, virando a cabeça para dirigir-lhe um sorriso malicioso.
– Por que não? Você é tão bonita! diz ele, fingindo-se concentrado em passar um algodão úmido na nova tatuagem, mas desfrutando do prazer de estar tão perto de um corpo quente e apetitoso.
– Quer dizer que eu posso ir embora? pergunta ela, mais para desligar-se de um estranho magnetismo do que pelas razões práticas habituais.
– Está liberada! Leva o espelhinho para ver como ficou.

Rebeca levanta-se e vai até o espelho da parede com o espelho de mão para ver o novo trabalho sem precisar contorcer-se. Notando que ela está com uma certa dificuldade para manusear o espelhinho, Henrique o pega e direciona para a sua nuca.
– Ficou linda! Adorei.
– Que bom. Espero que o teu namorado goste.
– Quem, o Dan? Ele não é meu namorado! reage ela, como para justificar-se.
– Haha! Tudo bem! Namorado, "ficante", amigo... Eu quis falar da pessoa que você vai deixar ver essa tatuagem de pertinho.
– É, o Dan vai ver hoje mesmo, mas nem ligo se ele não gostar.

A presença de Henrique logo atrás dela lhe causa um ligeiro arrepio na espinha. Diante do espelho, ela sabe que suas coxas totalmente descobertas e o short tão curto e apertado atraem os homens. Sua decisão de permanecer ali por mais alguns momentos não é plenamente consciente, mas atende a uma vaga curiosidade de saber o que ele fará se estiver sozinho com ela. Parecendo querer examinar de perto o trabalho recente, Henrique repousa com tranquilidade a mão em seu ombro e toca na tatuagem com a ponta do dedo. Rebeca chega a sentir o corpo dele roçar no seu, mas não tem coragem de oferecer-se, curvar quase imperceptivelmente a coluna e flexionar os joelhos para ficar um pouco mais baixa, olhando-o através do espelho como se lhe dissesse com o olhar: "É para você enxergar melhor."  O contato se estreita, mas ele não quer que ela perceba a sua excitação e se afasta.
– Bom, então, até a próxima, Rebeca? Já decidiu o que vai ser?
– Acho que vai ser o tribal no final das costas, diz ela, ligeiramente ofegante.
– É só você me ligar ou escrever que eu mando os desenhos por e-mail e você escolhe. Isso também se faz numa sessão ou duas, dependendo da complexidade.
– Está bem, eu ligo assim tiver grana para pagar.
– Sem estresse, Rebeca. Se você não tiver agora, a gente acerta depois. O importante é você ter a tatuagem.
– Que legal! Obrigada, diz ela, sorrindo e olhando-o tão profundamente nos olhos que chega a embaraçá-lo.

Caminhando até a estação de metrô, Rebeca avalia se não estaria pressionando demais Henrique a reparar nela. Ela não quer de modo algum que ele pense isso dela, mas é obrigada a admitir para si mesma que tem se vestido de maneira provocante para as sessões de tatuagem, o que é confirmado pelo modo como os homens olham para ela na rua. Ela não se arrepende de ter ido sozinha fazer o ideograma, mas admite que tudo é bem mais fácil quando sua amiga Cátia lhe faz companhia para ir e voltar. Já na estação, um pouco assustada, ela decide esperar pelo vagão de metrô das  mulheres, matutando sobre a diferença entre Henrique e a maioria dos homens e sobre o quando o Rio de Janeiro seria maravilhoso se não fosse pela violência e pela falta de respeito.



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