8. A fantasia na prática
Várias semanas já se
sucederam à última sessão de tatuagem sem que Rebeca se decidisse a fazer a
última delas, o cupido na virilha. A verdade é que ela anda hesitante,
temerosa, inibida, talvez porque saiba que sua atração por Henrique vai
inexoravelmente levá-la a fazer algo de que ela poderia arrepender-se. Enquanto
isso, suas atividades habituais vão decorrendo sem muita alteração, e uma de
suas prediletas é ir tomar sorvete com a sua melhor amiga. É numa dessas
ocasiões que a reencontramos, no momento em que ela entra na enorme sorveteria
do Leblon e começa a procurar por Cátia, dando voltas em meio a um mar de
mesinhas e cadeiras repletas de jovens em grupo e de crianças com os pais.
– Rê! Aqui! chama a
amiga.
Ela a localiza, acena, caminha com dificuldade até sua mesa, trocam beijinhos e ela se senta de costas para a rua.
– Que legging é
essa, cara? indaga a amiga, inclinando-se e passando-lhe a mão na coxa para
sentir a textura da roupa.
– Até parece que
nunca viu, Cátia!
– Quando você
entrou, só se via uma bunda!
– Ah, para com isso!
– Estou falando
sério! E não fui só eu que olhei.
– Também não é
assim; nem está dividido na frente!
– Não olhei direito,
mas mais arroxada que isso, rasga! E ainda com esse azul turqueza...
– Eu não queria
botar a preta. Vamos pedir e mudar de assunto?
– Calma, não precisa
ficar zangada!
As duas tomam
sorvete, conversam, fofocam e no final, Rebeca pergunta à Cátia se ela não quer
acompanhá-la à república onde o mora o seu amigo Dan. Ela ficou de dar um pulo
lá porque eles não se vêem há vários dias. Cátia aceita e elas vão em direção
ao ponto pegar o ônibus para Botafogo.
– Aposto que é por
causa do Dan que você botou essa legging, provoca Cátia.
– Ai, vai recomeçar
com isso?
– Os caras não param
de te olhar.
– Dá um tempo, Cátia!
– Dá um tempo, Cátia!
Mas de fato, Rebeca
chama a atenção. A ousada legging dá forma e separa as nádegas, o que provoca alvoroço na calçada. Alguns dos que olham para trás dão esbarrões em outros
pedestres e aqueles que seguem as duas amigas fazem comentários nada louváveis.
Rebeca chega a temer que algum mais abusado lhe passe a mão. Por sorte, um
ônibus não tarda a parar.
– Agora você
acredita no que eu disse? pergunta Cátia, dando um tapinha na coxa da amiga.
– Acredito, e isso
estragou a minha festa porque agora eu não consigo me desligar dessa maldita
legging. Parece que a minha cabeça passou para a bunda!
– Quem manda ser
gostosa? Tem que tomar cuidado com os tarados, susurra-lhe a amiga.
Rebeca é
perfeitamente consciente do corpo que tem e sabe que suas proporções bem equilibradas
agradam. Ela sabe que nem todo homem brasileiro aprecia mulheres de carne
espessa, constituída à base de ingestão de fritura, e nádegas imensas, como
sugerem os sites pornô da Internet. A questão é: que tipo de homem tem acesso a
uma mulher de corpo perfeito? Quanto mais bonito é o corpo da mulher, mais
exigente ela pode ser quanto aos parceiros, e é nesse momento que a escória
masculina cai por terra aos montes. Não é sem razão que as mulheres lindas e
bem feitas são vistas como antipáticas pela maioria dos homens. Na verdade, não
se trata de antipatia, mas de autopreservação. A atitude distante da mulher
bonita faz parte do seu processo seletivo.
Rebeca faz o
percurso até Botafogo entregue a esses pensamentos. Quando o ônibus chega, elas
saltam e o assédio masculino recomeça até o momento em que Dan atende
ao interfone e o portal maciço do edifício antigo fecha-se com estrondo atrás delas. Ao
saírem do elevador, encontram o apartamento aberto.
– Dan? chama Rebeca.
– Estou na área!
grita ele, misturando sua voz à água da torneira do tanque.
– Lavando roupa,
"Maria"? brinca a Cátia.
– Pois é, como você
chegou atrasada, sou eu que tenho que fazer! retruca o rapaz, espirituoso,
parando de enxaguar uma camiseta para trocar beijinhos com a ex-namorada e a
amiga.
– A Rebeca veio
mostrar a nova legging, retoma Cátia cinicamente.
– Cara, eu vou te
matar! faz Rebeca, dando-lhe um empurrão, vendo Dan parado diante dela para
avaliar a controvertida peça de roupa.
– Não tenho nada
contra, diz ele, olhando a amiga de alto a baixo com ar guloso.
– Vai demorar muito
nesse tanque, Dan? Pergunta Rebeca, impaciente.
– Não, terminei.
Vamos lá para dentro.
Elas caminham diante
dele enquanto atravessam a cozinha em direção à sala. A voz grave, o cabelo
curto e o corpo esguio de Cátia não se comparam aos atributos de Rebeca em
termos de volúpia, mas a velha queda de Dan pela androginia o faz vibrar sempre
que as duas amigas estão juntas. Numa das raras vezes em que ele está só e com
tempo de sobra no apartamento, a situação lhe parece mais do que propícia a um
programinha a três, mas antes de tomar qualquer iniciativa, ele espera que as
duas amigas estejam sinitonizadas com ele. Enquanto Rebeca escolhe um disco,
Cátia vai até a janela. Dan repara no traseirinho discreto mas bem saliente que
ela tenta dissimular sob a bermuda masculina ao debruçar-se para ver o
movimento da Volutnários da Pátria. Ele daria tudo para ver essa cabeça de
menino bonito num corpo nu de mulher sem peito. Ele se pergunta se ela tem
pelos pubianos ou se depila como a Rebeca; se ela gosta de ser penetrada, de
chupar; se ela aprovaria que ele a beijasse...
– De quem são esses
vinis velhos, Dan? Isso não estava aqui, da última vez, pergunta Rebeca
acompanhada dos primeiros acordes de Purple Rain.
– Ah! O tio de um
dos caras deu isso para ele e ele liberou. Tem até Led Zeppelin, The Who...
– Não conheço nada
disso, retruca ela. Prince eu conheço porque tem lá em casa. Purple Rain é
legal.
Rebeca começa a
dançar languidamente, balançando a cintura de olhos fechados e mãos por trás da
cabeça. Cátia, da janela, e Dan do lado oposto não conseguem evitar que seu
olhar passeie pelo corpo da amiga, que serpenteia à moda hippie e esbanja
sensualidade. Num acordo tácito, eles se aproximam e iniciam com ela uma dança
a três que nada tem de inocente. Cátia abraça Rebeca por trás e esfrega-se
nela. Dan faz o mesmo pela frente. Rebeca dança entre eles por alguns minutos
até que Cátia decide tirar-lhe o top e livrá-la do pequeno sutiã completando o
quadro woodstockiano. Rebeca não se opõe a desnudar-se com sua melhor amiga e
seu melhor parceiro de sexo. Seus seios roçam o peito desnudo de Dan enquanto
ele faz sinal para que Cátia imite a amiga e dispa a parte de cima.
Inicialmente, ela faz que não com a cabeça, mas o desejo acaba vencendo a
inibição. Pela primeira vez, Dan pode contemplar a modesta elevação dos seus
pequenos seios guarnecidos de mamilos rosados e já intumescidos. Esse corpo
andrógino o excita. Ele dá um sorriso de aprovação que Rebeca retribui ao
sentir o toque morno dos seios nus da amiga em suas costas, e os três dançam
assim durante toda a execução de Purple Rain.
Quando entra a
melodia seguinte, o clima erótico já chegou a tal ponto que Rebeca abre a
bermuda de Dan e começa a acariciá-lo por fora da cueca. Ele retribui com um
beijo molhado e puxa Cátia para beijá-la também. Rebeca termina de despi-lo e
inclina-se para abocanhar-lhe o membro enquanto os dois outros devoram a
boca um do outro. Cátia baixa a legging da amiga até o meio das coxas
deixando-a terminar de despir-se enquanto ela se livra da própria roupa. A
excitação de Dan vendo-se nu com as meninas é indescritível. Ele não se espanta
muito ao descobrir que Cátia está usando cueca em vez de calcinha e não se
inibe para enfiar a mão por dentro dela. Cátia retribui com movimentos
pélvicos, mas ele sabe que não é por ele que ela suspira. Quando Rebeca torna a
levantar-se, ele fica impressionado com a exiguidade da calcinha fio-dental no
mesmo tom de azul que a legging que ela acaba de tirar. Pegando-a pela mão, ele
a faz dar uma voltinha e deslumbra-se pela milésima vez com a beleza dos seus
seios e a perfeição das nádegas, por entre as quais o estreito fio da calcinha
desaparece sensualmente. Sua ereção é tão consistente que a glande arqueada
pela tensão chega a cutucar-lhe a barriga. Rebeca decide que é hora de por seu
amigo à prova. Ela o empurra sentado no sofá, indica um lado a Cátia e senta-se
do outro. Ele não tarda a ser presenteado com um par de bocas que
atacam-lhe avidamente o membro para sugá-lo alternadamente.
– Vocês vão acabar
comigo! geme ele, contraindo as coxas.
– O objetivo é esse!
retruca Cátia exortando Rebeca a caprichar na sucção.
Dan tenta pensar em
outra coisa, mas quando começa a olhar ao redor para distrair-se, Rebeca
monta-o agilmente, introduzindo-lhe a língua na boca antes mesmo que o pênis
chegue ao fim da linha. Ao mesmo tempo, Cátia desce do sofá e põe-se a
acariciar coxas e testículos dele enquanto assiste excitada às expansões da
vagina da amiga pelo grosso membro. Ela mal pode crer que esteja vivendo esse
momento e quer extrair dele todo o proveito possível. Aproximando-se, ela
põe-se a lamber tudo que está ao seu alcance provocando gemidos em seus dois
parceiros, principalmente em Rebeca, cujo ânus pulsa a cada passagem molhada de
sua língua e que trota em Dan até atingir o orgasmo, gemendo ofegante enquanto
ele preme com força os seus mamilos e cochicha coisas indecentes em sua orelha.
A maior fantasia de
Rebeca, contudo, é ver Dan possuir Cátia também. Ela então passa para o lado
dele e convida a amiga a ficar ao lado dela, ajoelhada no sofá.
– Você quer que eu
dê para ele? pergunta Cátia, não muito satisfeita.
– Você não quer?
– Você sabe que eu
nunca transei com um homem, Rê.
– E daí? Está com
medo ou não está a fim?
– Sei lá, eu... diz
a outra, toda confusa.
– Tudo bem, já tive
uma idéia.
Rebeca sai do sofá,
vai até a escrivaninha, afasta o teclado do computador, livros, cadernos e
outros objetos e vai puxar a amiga pela mão para debruçá-la no espaço
improvisado. Cátia hesita, mas obedece. Rebeca então chama Dan e diz que vai
comandar a operação. Ele está de pé no meio do cômodo e quase babando, em
contemplação, a um metro das pequenas nádegas de Cátia, que ele imaginava quase
masculinas, mas jamais que tivessem uma forma tão pefeita. Rebeca vai até ele,
puxa-o pelo pênis até estabelecer o contato e abre espaço com ele entre os
grandes lábios da amiga, que estremece.
– Não faz drama,
Cátia, não é maior que um consolo!
– Vê lá, Dan! Se
doer, nunca mais falo contigo, ameaça a outra, debruçada na mesa e olhando
tensa para trás.
– Pode deixar, diz o
geek grandalhão com voz terna.
Dan pega Cátia pela
cintura com ambas as mãos e limita-se a avançar o corpo. Sempre olhando para
trás, ela mantém os olhos fixados nele enquanto sente pela primeira vez a
abertura gradual de sua vagina por um pênis. É uma sensação nova para ela, ter
um homem no controle. Rebeca vai abraçá-la e beija-a até que Dan comece a
mover-se produzindo pequenos impactos contra suas nádegas. Ela agora geme,
obrigada a dar o braço a torcer: sua excitação é das mais intensas. Muito molhada,
ela não tarda a ter um orgasmo e Dan não esconde o orgulho por ser seu primeiro
homem. Agradavelmente surpreso pelo sex appeal da amiga lésbica de sua amiga,
ele entrega-se a um vaivém ritmado que gera uma excitação sem precedentes na
neófita em matéria de heteroassuntos, cujos orgasmos se multiplicam até que Dan
perde o controle e é obrigado a retirar-se dela para ejacular. Rebeca acorre,
toma-lhe o membro e o abocanha-o para não perder a chance de degustar mais uma
vez esse produto do sexo que ela tanto aprecia. Cátia assiste ainda zonza à
felação da amiga e aprende um pouco mais vendo-a receber na boca vários jatos
de sêmen esbranquiçado. Não é sem espanto que ela percebe Rebeca convidá-la
para um beijo e é quase com asco que ela compartilha do conteúdo de sua boca,
diante do olhar maravilhado de Dan.
– Viu só? Não foi
tão horrível assim, diz Rebeca, passando os dedos nos cantos da boca da amiga.
– Estou até bamba!
responde a outra.
– Obrigado,
obrigado! exclama o pavão enfatuado.
– Menos, Dan! diz Rebeca,
fazendo o movimento correspondente com as mãos.
Como se diz, uma vez
realizada, a fantasia perde muito do seu poder e é preciso pensar em outra, mas
o trio está satisfeito, sobretudo Rebeca, que sonhava com esse encontro há
tempos. Cerca de duas horas se passaram. Os três ouvem mais algumas músicas e
conversam comendo. Em seguida, as amigas se despedem de Dan e voltam a
enfrentar as ruas cheias de tarados de plantão.

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