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Tatuagem 6


6. Tribal

– Você vai ter que ir comigo, Cátia! suplica Rebeca com voz insistente e agoniada.
– Mas para quê? Você já foi lá sozinha várias vezes! Ainda não deu para ver que o Henrique não morde?
– Eu sei que ele não morde, mas dessa vez, vou ter que ficar só de calcinha, não é? Você tem que ir comigo! Por favor, Cátia!
– Perguntinha, Rebeca: você está interessada nele?
– Eu não! Por que essa pergunta agora?
– Você está complicando demais! Ele é só um tatuador e você está fazendo todo um drama, como se tudo fosse diferente para ele só porque é você.
– Nunca fiquei com a bunda quase na cara de um desconhecido, Cátia!
– Você não vai ficar de bunda na cara dele; vai ficar deitada de calcinha e ele vai trabalhar nas tuas costas, drama queen! Aliás nem por que essa conversa; se você não está se sentindo à vontade, é só desmarcar!
– Uau! Isso é que é apoio moral! Obrigada!
– Você é a única pessoa no mundo que precisa de apoio moral para fazer uma tatuagem, Rebeca! Ainda se fosse um bucho, não digo nada, mas com o corpo que você tem!
– Está legal, vou tentar não ser chata... Mas você vai lá comigo, não vai?
– Vou, vou, mas a que horas?
– Hoje vai ser às seis da tarde. Não tinha outro horário.
– Tinha que ser na hora da muvuca, claro! Bom, te encontro lá, chatinha!
– Valeu, obrigada!
– Agora tenho que desligar. Até mais tarde.
– Até, tchau.
– Beijo.

Rebeca desliga o celular mais tranquila, mas logo é assaltada por uma enxurrada de idéias angustiantes. Será que ela está bem depilada? E as marcas de biquíni? Que perfume usar? Que calcinha vestir? Ela dispara até a gaveta da cômoda, tira todas as calcinhas, descartando logo as mais velhas e as fio-dental – "indecentes" demais. Restam as mais sóbrias e algumas com estampas bem-humoradas atrás: lábios, bichinhos, simbolos sutilmente maliciosos, um enorme "KISS". Ela acaba optando por uma calcinha de algodão branca, imaculada, que traz um anjinho deitado numa nuvem fofa. Falta esquadrinhar coxas e bumbum atrás de eventuais problemas. Diante do espelho da parede, ela tira toda a roupa e, de pertinho, explora minuciosamente cada centímetro. Ela morreria de vergonha se o Henrique visse um pelo isolado em algum lugar. E como estão as polpinhas? Ela as examina percorrendo-as com os dedos. Em seguida, ela separa as nádegas, mas logo conclui que o Henrique jamais se aventuraria tão longe e que um banho bem perfumado será mais que suficiente para tranquilizá-la quanto a essa região. E na frente? Será que algum pelinho recalcitrante pode penetrar pela malha da calcinha e aparecer? Além disso, a mera idéia de que a fenda crie um sulco no tecido fino a apavora. Ela não tem a menor intenção de estar virada de frente para o tatuador, mas pode acontecer que ele esteja por perto quando ela se virar na cama. Afastando-se um pouco, Rebeca admite que seu reflexo no espelho é o de uma pessoa de rosto bonito e corpo harmonioso. Ela olha para o despertador: 4h30. Ela voa para o banheiro. No banho, ela retoca aqui e ali a depilação e passa reiteradas vezes o sabonete pelas partes "críticas", enxaguando-se generosamente.
– Pronto, só falta a roupa, pensa ela, em voz alta, saindo do banheiro.
– Falando sozinha, Rê? diz-lhe a irmã mais nova, passando por ela pelo corredor, que ela atravessa nua apressadamente em direção ao quarto.
– Muito engraçado, retruca ela, com desdenhosa impaciência.
– Vai encontrar o Dan, é? Aposto que vocês vão...
– Me deixa, Angie!

A menina a segue até o quarto e fica parada observando-a revirar o armário à procura de roupas. Ainda indefinida com seu corpo de menina impúbere, ela inveja essa irmã toda bem feita e tão independente que já tem namorado e vida sexual.
– Eu beijei o Gustavo lá na escola, hoje. De língua!
– Puxa, que coisa, hein! Devia estar com gosto de bala, diz a outra, sarcástica, ajustando a calcinha diante do espelho.
– Eu acho que o treco dele ficou duro porque ele se afastou um pouco, diz a guria, atrevida, deixando-se cair de costas na cama.
– É, vai te metendo com menino que fica de "treco" duro para ver o que te acontece!
– Mas eu não fiz nada!
– Acho bom mesmo. Agora cala a boca que eu tenho que me concentrar aqui.
– Você vai aonde? Fala! insiste a caçula, admirando as formas da irmã apenas de calcinha, os belos seios redondos à mostra.
– Não te interessa.
– Vai fazer outra tatuagem? Eu adoro o dragãozinho e esse desenho na nuca, mas a da maçã no peito, sei lá...
– O que é que tem ela? indaga Rebeca, apertando o seio para examiná-la.
– Sei lá, parece mulher-propaganda de site de encontros.
– Não fala besteira, Angie! Eu tenho um monte de amigas que tatuaram o seio.
– Eu não vou tatuar o meu, declara ela, puxando a gola da camiseta para olhar o peito plano.
– Você faz o que você quiser. Agora cala a boca, senão eu não saio hoje.

Depois de passar mais longos minutos indecisa quanto ao sutiã, Rebeca escolhe um short cor de areia, uma camiseta estampada à moda psicodélica dos anos 70 e pede a opinião da irmã.
– O short é curtinho, mas está bonito.
– Curto demais?
– É só você não encolher as pernas quando sentar, senão vão ver as polpas.
– Tá, isso eu sei. Mas assim, comigo em pé, está tudo bem, não é?
– Está, mas você fica com as coxas todas de fora. Vão mexer com você na rua.
– Ah, com isso eu estou acostumada; homem aqui é que nem bicho e você vai descobrir isso daqui a um tempo. Bom, são cinco horas. Vou indo porque o trânsito deve estar horrível.
– Não vai mesmo me contar se você vai fazer outra tatuagem ou se vai encontar o Dan?
– Você não vai contar para a mãe?
– Juro que não, garante a menina, beijando os dedos.
– Bom, vou fazer outra tatuagem.
– Onde?
– Bem aqui, em preto.

Rebeca vira-se e baixa ligeiramente o short para mostrar à irmã o local exato onde o desenho horizontal será tatuado.
– Bem perto do cofrinho! exclama a garota, rindo.
– É, logo acima do cofrinho. Fica sexy.
– Você quer ficar sexy, é?
– Toda mulher quer ser sexy.
– Eu não!
– Mas logo, logo vai querer. Agora tchau, Angie. Tenho que ir.

Rebeca dá um beijinho na irmã assanhada, que se pendura em seu pescoço para dar-lhe um abraço forte e tentar beijar-lhe teatralmente os lábios. Ela se desvencilha e sai do quarto apressada, avisando em voz alta que volta mais tarde e que estará com a Cátia. Sua mãe vai até a sala para pedir detalhes, mas ouve a porta bater e os passos da filha em direção ao elevador. Ela desiste, meneando a cabeça.
– Onde é que a Beca foi, Angie?
– Eu perguntei, mas ela não quis me dizer, responde a pequena cúmplice, rodopiando no meio da sala para fazer a saia levantar.
– Sossega esse facho, mocinha! No outro dia, você fez isso na frente do amigo do teu pai e aposto que ele viu tudo!
– E daí? Era um velho, mãe!
– Ah, desisto! Já expliquei mil vezes, mas você não quer ouvir.

O trânsito inclemente prejudicou a pontualidade de Rebeca. Ao chegar à loja de tatuagens, ela avista Cátia espumando de raiva.
– Como é que você me faz vir aqui e chega atrasada? O Henrique está atendendo outro, sabia?
– Quê?! Mas ele não pode fazer isso comigo! Eu marquei hora!
– Ele te esperou. Mas não vai demorar; é só uma menina ajustando um piercing.
– Piercing, sério? Será que ele deixa a gente ver?
– Sei lá. Mas que atraso foi esse, Rê?
– Ah, a Angie ficou lá no quarto tagarelando, depois o ônibus...

Rebeca vai contando os percalços do seu deslocamento, até que elas chegam à sala de Henrique. A porta entreaberta deixa vê-lo debruçado entre as pernas de uma jovem mulher deitada em posição ginecológica. Amistosa e desinibida, ela avista as duas amigas e faz sinal para que entrem. Henrique ergue a cabeça, sorridente, dá uma bronca bem-humorada em Rebeca e convida-as a observar a operação de retirada de um piercing vaginal.
– Pelo jeito, sou alérgica a esse metal, diz a jovem, dirigindo o olhar para Cátia.
– Ah, que droga! responde ela, toda interessada.

Enquanto isso, Rebeca, curiosa, aproxima-se de Henrique, impressionada ao vê-lo manipular diretamente o sexo da jovem. O piercing, situado logo acima do clitóris, precisa ser cortado para que saia com o mínimo possível de atrito. Ela pode ver o par de generosos grandes lábios abaixo dos dedos do rapaz e a área afetada tomada por um inquietante tom vermelho arroxeado.
– Está vendo? diz o rapaz, vou cortar bem aqui com o alicate.
– Ai! Isso dá medo.
– É só questão de jeito. Sai num instantinho.

Um "tac!" ecoa na sala e o tatuador ergue as mãos, exultante, segurando entre os dedos as duas partes do piercing nocivo. A vagina completamente depilada da cliente fica exposta ao olhar guloso de Cátia, que não consegue tirar os olhos dela enquanto a jovem, aliviada, chama Henrique para dar-lhe um beijo de gratidão. Ela tem cerca de vinte anos, usa o cabelo curtíssimo e está deitada semi-nua, vestida apenas com um top curto e justo, sem sutiã. Assim que o tatuador a libera, ela sai da cama e as duas amigas ficam admiradas diante da sua estatura e de suas belas formas. Ela caminha até o espelho, dandoa Rebeca a oportunidade de constatar como, de fato, no mundo da tatuagem, o pudor conta bem pouco.
– Caramba, Henrique! Será que isso vai ficar muito tempo assim? diz ela, pressionando o baixo-ventre para expor a região inflamada.
– Não, não. Se você passar a pomada que eu indiquei, isso desaparece em uma semana e daqui a uns quinze dias podemos repor um piercing de outro metal. Mas vai ser bem mais caro!
– Sério, cara? Tô sem um puto! lamenta-se a moça.
– Relaxa. A gente dá um jeito, diz ele com um sorriso maroto.

Indo até a cadeira onde deixou as roupas, a jovem põe uma calcinha fio dental ínfima e uma minissaia de couro preto que mal esconde o tapa-sexo. Ela se despede de todos e sai sem se preocupar com as polpas à mostra.
– Não sei como ela tem coragem de sair assim aqui no Rio, comenta Rebeca.
– Deve ouvir o que quer e o que não quer! acrescenta Cátia, rindo.
– Acho que a Xênia não está nem aí para isso, diz Henrique, lavando o alicate para colocá-lo no esterilizador.
– Agora é minha vez, tio! exclama Rebeca fazendo voz e gestual infantil.
– Atrasadinha! zomba o tatuador, dando um gole num copo de café mais do que frio.

A cena tão íntima da retirada do piercing encheu Rebeca de coragem, mas ela não pode privar-se de ir até a porta e fechá-la antes de tirar a roupa.
– Pelo amor de Deus, Rê! Depois do que você viu? faz Cátia, desanimada.
– Ah, sei lá, gente! Ainda não me sinto à vontade, dá licença?
– Relaxa, Rebeca. A porta serve para isso, diz Henrique, conciliador.

Ela tira o short e a coloca cuidadosamente no encosto da cadeira, sorrindo encabulada, evitando olhar para Henrique. Em seguida, vai até a cama já preparada com um lençol descartável novo e deita-se de bruços, puxando as bordas da calcinha para tentar tapar um pouco as polpas.
– Que gracinha! brinca o tatuador, olhando para o anjinho deitado na nuvem fofa, estampado na calcinha.
– Só você mesmo, Rê! contribui Cátia.
– Não começa, gente! zanga-se ela, levando as duas mãos atrás para cobrir a estampa.
– Prometo não olhar, mas se você ficar com as mãos aí, não vai ter tatuagem porque não vou conseguir trabalhar, brinca Henrique.

Assim que Rebeca volta a deixar os braços soltos nas laterais do corpo, sente as mãos do tatuador que começam a explorar-lhe o final das costas.
– Hum! Boa curvatura dorsal!
– Isso quer dizer que a tatuagem vai ficar bem na direção do olhar, declara Cátia.
– Muito bem observado! Você entende de tatuagem?
– Não, mas eu tenho uma no mesmo lugar, só que eu sou bem menos empinada que a Rebeca.
– Para, gente! Estão me deixando encabulada.
– É elogio, Rebeca! Não é, Henrique?
– Claro! Uma bundinha dessas só pode dar inveja!
– Cala a boca e começa a trabalhar, Henrique! esbraveja Rebeca, rindo de nervoso e batendo com as mãos na cama, o que faz tremular o objeto das últimas considerações.

Henrique espalma uma mão em plena concavidade das costas de Rebeca e a estuda atentamente antes de decalcar o desenho previamente escolhido. Ele não quer ocultar as duas covinhas tão charmosas que sua nova cliente têm tão nítidas, uma de cada lado, logo acima das duas elevações que dão à calcinha de estampa de anjinho uma conotação espevitada e sensual. Rebeca experimenta um prazer singular com a fricção e a temperatura dessa mão que, de certo modo, a acaricia. Seu reflexo natural seria o de elevar as nádegas e mexer as pernas, mas isso poderia despertar a suspeita de que ela está excitada, então ela se contém. Ela olha para Cátia, que retribui com uma piscadela enquanto observa o início do trabalho.

Henrique decalca a imagem da "tribal" escolhida por Rebeca em poucos minutos e começa agilmente a aplicar a tinta ao sabor do zumbido do pequeno motor. Sua mão livre repousa ora acima, ora abaixo, diretamente sobre as nádegas, nas quais ela pesa e imprime movimentos laterais. Os minutos passam e Rebeca vai admitindo que gostaria de estar completamente nua, sentindo aquela mão diretamente na pele e, quem sabe, explorando-a até mais intimamente. De olhos fechados, ela tenta imaginar cenas de proximidade entre Henrique e suas clientes, clientes como aquela que ela viu ao chegar, a tal de Xênia. Nada mais fácil do que insinuar-se e permitir que ele "avance o sinal". Talvez seja por isso que algumas tatuagens demorem tanto tempo para ser completadas, conjetura ela, achando graça. São pequenas tréguas para aliviar o sofrimento, por que não? Vez por outra, ela desperta do devaneio e volta a ouvir o zumbido da máquina e a sentir com mais intensidade a dorzinha insistente nas costas.
– E aí? Tudo bem? diz Henrique com voz neutra.
– Bom não é, mas a letra japonesa doeu mais.
– É, os tribais não dóem tanto. Não falta muito. Você escolheu um desenho muito delicado e é fácil de fazer.

Talvez inconscientemente, ele disse isso fazendo carinho no alto da coxa de Rebeca, e ela não pôde evitar o pequeno sobressalto que elevou-lhe as nádegas. Percebendo tudo, Cátia encara-a com malícia nos olhos, ao que Rebeca responde mostrando-lhe a ponta da língua. A verdade é que ela está adorando estar ali, inteirinha diante dos olhos de Henrique e à disposição dele. Ela olha significativamente para a amiga que, perspicaz, inventa uma desculpa e sai. Assim que a porta se fecha, Rebeca volta-se para o tatuador.
– Henrique..., começa ela com voz felina.
– Hum? ele responde, concentrado.
– Você já... Quer dizer, já aconteceu... Ai, não estou sabendo como falar.
– Quer ajuda? Qual é o assunto?
– Pois é, esse é que é o problema, diz ela, olhando para a cintura do rapaz debruçado sobre ela. Tipo assim... Você me disse que já rolou alguma coisa entre você e clientes...
– E é verdade, rola sim.
– Me conta mais? Estou curiosa, pede ela com voz lânguida, agora brincando com as espessas costuras laterais da calça dele.
– Geralmente toques, carícias, mas já rolou sexo oral e até transa.
– Pelo que eu vi hoje com a menina do piercing, é fácil!
– Pois é, mas não é ético. Eu só deixo rolar se o ou a cliente tomar a iniciativa.
– É mesmo, eu tinha esquecido que os homens também tiram a roupa para você.
– Homens e mulheres de todas as idades e formas.
– Aposto que você recebe um monte de declarações.
– Todo dia!
– Você ficou excitado vendo a Xênia?
– Olha, Rebeca, eu prefiro não falar dos clientes nem do que rola com clientes que você vê por aqui. Só quero que você tenha a certeza de que são todos maiores e vacinados. Isso ficou bem entendido, não é?
– Sou insistente, né? diz ela, dando puxõezinhos numa das presilhas de cinto da calça.
– A Cátia não vai voltar? pergunta ele, esquivando-se.
– Ela deve estar vendo o mostruário, lá na frente e... Ui! faz ela, fingindo um sobressalto.
– Doeu? Estranho!
– Foi só uma pinicadinha, mas me assustei.
– Mas uma pigmentada aqui e termino.

Para fixar a mão, Herique praticamente agarra uma nádega de Rebeca, que sente os dedos resvalarem a calcinha exatamente entre as pernas. Ela não consegue evitar um curto gemido e sua mão vai parar entre as coxas do rapaz.
– Rebeca, alguém pode entrar, previne ele, tentando evitar desconcentrar-se.
– Eu sei, mas estou ficando excitada, confessa ela. Me faz carinho pelo menos, vai, pede ela com a voz ainda mais lânguida e entreabrindo as pernas para oferecer-se.
– Olha, você tem um corpo delicioso, estou adorando olhar para ele de tão perto e poder tocar nele, mas se eu perder a concentração, a gente vai ter que parar e continuar em outra sessão. Você é que escolhe. Estou quase acabando.
– Está bem, desculpa. É que essa tua mão aí atrás...
– Ah, então sou eu que peço desculpas. Eu faço isso sem nem prestar atenção, só para ter um ponto de apoio. Pronto, está terminado. Só vou limpar e você pode ir olhar no espelho.

De tão acostumado a viver esse tipo de situação, Henrique já não se incomoda com os humores variados de clientes frustradas em suas pequenas expectativas eróticas. Ele sabe que elas sempre voltam quando metem na cabeça alguma fantasia com o tatuador. Ele observa Rebeca sentar-se na cama calada e de costas para ele, e sabe que ela está encabulada. Ela vai até o espelho da parede ver sua nova tatuagem, um desenho bonito, mas simples, todo na horizontal, que paira logo acima do início das nádegas, as extremidades apontando artisticamente para as duas covinhas renomadamente sensuais.
– Ficou linda, diz ela, satisfeita, mas séria.
– Sinal que você escolheu bem, retruca ele, amistoso, constatando o quanto o top justo destaca-lhe a cintura.
– Já são 9h! exclama ela, olhando para o pulso. Nem senti o tempo passar.
– Hoje você foi a última cliente, mas às vezes, fico aqui até as 11h.
– Se valer a pena... retruca ela com olhar maroto, pegando o short na cadeira para vesti-lo.

Rebeca se despede de Henrique e caminha pelo corredor tirando a carteira da bolsa para pagar na recepção. Cátia está sentada numa cadeira folheando um catálogo de piercings, entediada.
– Chegou a falsa tímida! diz ela, levantando-se.
– Não entendi, Cátia! retruca a outra, passando o dinheiro para um rapaz magro, de óculos e todo tatuado.
– Sério, você não precisava de mim para nada, hoje! E aí, deu para ele ou só rolou uma chupadinha? sussurra ela cinicamente.
– Para com isso, cara! Eu te chamei porque estava com vergonha de ficar sem roupa sozinha com ele.
– Mas a vergonha passou, não é?
– É. Isso não é bom? diz ela, repondo a carteira na bolsa e saindo.
– É bom, mas quem ficou aqui morrendo de tédio fui eu! Mas esquece isso e me conta tudo!
– Não aconteceu nada.
– Não mente, Rê! Eu vi como você estava.
– Eu fiquei excitada com a mão dele na minha coxa, mas ele não fez nada. Eu até toquei nele, mas ele falou que se rolasse alguma coisa, a agente ia ter que adiar o final da tatuagem, e eu queria que ela ficasse pronta hoje mesmo. Como ela é tão simples, não tinha por que adiar.
– Então ficou para a próxima? Oba! Não vou precisar vir!
– Palhaça! Mas isso me deixou toda acesa. Pena que é tarde, senão eu ia lá no Dan.
– Você não pode dormir lá?
– Está louca? Minha mãe me mata! E nem que pudesse; aquele antro de tarados! Mas amanhã pego o Dan de jeito!
– E hoje? Vai conseguir dormir?
– Por que a pergunta, Cátia?
– Se quiser, posso dormir na tua casa.

Rebeca sabe que Cátia só espera uma deixa para enfiar-se em sua cama. Desde que se conhecem, elas já passaram por vários momentos de intensa sensualidade, mas como Rebeca sente-se predominantemente atraída por homens, sabe que não é capaz de retribuir satisfatoriamente às carícias da amiga.
– Não vou dizer não, mas você sabe como eu sou incompetente!
– Não faz mal, Rê, mas você está tão acesa por causa do Henrique, que eu não posso perder a chance de te sentir assim.
– Não dá para recusar, é claro. Até hoje, nada nem ninguém me fez gozar como a tua linguinha mágica.
– Sério? Ainda estou invicta?
– No dia em que o Dan chegar a 10% de você eu caso com ele!
– Uau! Que elogio.
– É, mas eu gosto de pau.
– Teu único defeito!

A irritação pela demora logo vira passado e as duas pegam um táxi sentindo-se as melhores amigas do mundo. Cátia liga para casa avisando que vai dormir fora. O taxi dispara pelas artérias da Zona Sul do Rio de Janeiro.



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