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Lili ou A Paixão de Cristiano


Quando a quarta-feira enfim chegava, Lili já estava com os nervos à flor da pele, quase explodindo de impaciência. Ela contava os segundos até as dez horas em ponto, momento em que a campainha do casarão antigo e renovado com gosto tocava e a empregada anunciava a chegada do professor. Febril, o coração aos pulos, ela se instalava na escrivaninha do quarto e fingia ser a menina aplicada com que toda mãe sonha enquanto contava cada passo na escada principal. Quando Cristiano irrompia no quarto, ela sentia na nuca o calor do seu olhar, seu coração disparava e suas têmporas umedeciam-se, mas ela fazia-se de indiferente a cada vez para obrigá-lo ao eterno processo de reconquista. Ele então se aproximava, cumprimentava respeitosamente, sentava-se na cadeira que ela pusera estrategicamente colada à sua, tirava da pasta de couro o mesmo livro que o dela e por fim, perguntava-lhe como tinha sido a semana e que dificuldades ela tinha a tratar durante os noventa minutos que eles teriam pela frente.

    Lili, é claro, escolhia sempre as roupas mais propícias a facilitar ao jovem mestre a deliciosa tarefa de explorá-la. Suas preferidas eram saias ou vestidos curtos, sempre de tecido flexível e amoldável às coxas. Ela já verificara o efeito positivo de certos shorts, mas além da oposição ferrenha de sua mãe, eles apresentavam certas dificuldades incontornáveis que ela preferia evitar. A barra de uma saia ou vestido chegando ao terço médio das coxas surtia resultado equivalente e favorecia expansões que ela julgava indispensáveis, isso sem mencionar a opção, que a saia ou vestido deixavam em aberto, de usar ou não algo por baixo! Lili dava a maior atenção a esse item, a cada quarta-feira, e quando ela decidia oferecer-se um pouco mais, tomava um longo banho durante o qual ela se depilava até não deixar vestígio de surgimento do mais ínfimo pelo. Cristiano podia então passear por suas coxas e roçar-lhe os dedos nos recantos mais íntimos sem qualquer obstáculo. E como ela apreciava os seus cochichos nesses momentos de intensa emoção! Ele elogiava o perfume do seu cabelo, a maciez da sua pele e a deliciosa firmeza das duas pétalas úmidas de orvalho que ela eventualmente facultava ao roçar mais delicado dos seus dedos ávidos. Ele assegurava-lhe que ela teria todo o amor e carícias que desejasse na vida e lamentava não poder deter o malvado tempo para esperá-la e ser seu príncipe encantado. Lili ria, toda corada, parecendo inconsciente do fato de que desfrutava desse amor unilateral como uma cortesã experiente.

    Por mais que parecesse dar azo a uma criatividade sem limites, esse jogo das quartas-feiras não era de modo algum desprovido de regras. Se era bem verdade que Cristiano conquistara suficientemente a confiança de Lili para que ela lhe outorgasse favores que ele não obteria de outras senão a alto preço, era-lhe terminantemente proibido expor-se ou servir-se de outra parte do corpo que não as mãos. Uma vez, no auge da febrilidade, ele tentara pousar em seu colo a mão da pupila para que ela constatasse por si mesma o quão penoso é para o homem o veto à continuidade de certos jogos que levam naturalmente a um desfecho que Lili ainda não conhecia mas que acabaria forçosamente por relalizar-se. A reação da jovem foi de uma tal repugnância e descontentamento que ela o desprezou por semanas, chegando a fingir-se de indisposta para evitar três encontros subsequentes. Quando Cristiano foi enfim autorizado a retomar as aulas, encontrou sua cadeira do lado oposto pela mesa e teve a impressão de estar com uma nova aluna perfeitamente estranha. Foi preciso recomeçar tudo da estaca zero, desta vez atendo-se estritamente ao regulamento imposto por Lili. Ele não podia deixar de espantar-se, vendo-a satisfazer-se com o jogo superficial e jamais dando mostras de desejar ir além. O que ela chamava de "roçar as pétalas" era o auge a que o pobre professor devia limitar-se a almejar se quisesse ser agraciado pela honra de poder dividir com ela aqueles momentos de prazer. A verdade é que Lili aparentava não saber o que havia além dos limites que ela impusera e, temendo expor sua ignorância, atinha-se ao caminho conhecido. Cristiano sofria, mas preferia ser acorrentado à cadeira a ver-se privado daquelas quartas-feiras.

    Certo dia, ao abrir-se a porta do casarão, Cristiano foi surpreendido pela própria Lili, que o atendeu em pessoa. De jeans e blusa branca de mangas compridas, ela o acolheu sorridente e subiu na frente dele a longa escada em curva, oferecendo-lhe descontraída a visão de suas formas sensuais, porém vestida como nunca estivera até então. Acompanhando-a sem tirar os olhos dela, Cristiano perguntou-se o que estaria por vir, mas alegrou-se ao constatar que tudo parecia continuar como antes. Durante a aula, sua mão pôde passear pelo corpo vestido como tantas vezes passeara pelo corpo desnudo. Uma diferença, porém, chamou-lhe a atenção; exatamente na convergência das coxas, Lili parecia ostentar uma estranha protuberância rígida. Olhando-o com um sorrisinho enigmático, ela o forçou com a mão a apalpá-la até que ele distinguiu o que lhe pareceu ser um objeto de extremidade plana – talvez um peso para papéis, supôs ele – que ela inserira por baixo da roupa certamente para provocá-lo. Ele apalpou, testou a rigidez do objeto e por fim conseguiu segurá-lo entre os cinco dedos como se fosse o botão de um cofre, pondo-se a movê-lo em vários sentidos com a intenção de deslocá-lo para cima e tirá-lo. Subitamente, a respiração de Lili alterou-se, seu rosto ficou corado e quente, seu olhar perdeu-se. Cristiano parou e a respiração dela voltou ao normal. Ele perguntou-lhe o que estava havendo, mas ela rogou-lhe que continuasse. Ele voltou a manipular o objeto e os mesmos efeitos se reproduziram nela: rubor, calor, respiração ofegante. Horrorizado, ele agarrou-a pelos ombros, olhando-a seriamente.
— O que é que você fez, menina? disse ele, atônito.
— Ah, não pára..., gemeu ela, com voz lasciva.
— Você... Você enfiou alguma coisa aí? perguntou ele.
— Hum-hum, fez ela, toda lânguida. Uma coisa da mamãe que eu encontrei no outro dia.

    Pouco importava o que fosse, Cristiano estava estarrecido com a hipótese de que aquela menina superprotegida tivesse entregue o seu defloramento a um objeto, depois de tantos meses de um jogo torturante que o excluía como parceiro sexual. A centímetros dele, Lili pressionava o dito objeto imprimindo-lhe movimentos circulares, gemendo, cada vez mais vermelha e quente, até começar a contorcer-se e resfolegar, procurando os seios com a outra mão.
— Foi para me mostrar isso que você me chamou hoje?
— Hã-hã..., fez ela, em pleno orgasmo.
— Mas você sabe que eu teria dado tudo para ser o primeiro, Lili! Exclamou ele, engolindo um soluço.
— Você, o primeiro? Ha! Ha! Ha! Ha! Ha!
— Mas então...
— Então o quê? perguntou ela, levantando-se e começando a abrir lentamente a calça.
— Então tudo isso que nós fazemos é banal para você? Você se fingia de menina inexperiente comigo para se divertir às minhas custas?

    Botão após botão, Lili abriu a calça justíssima, baixando-a em seguida, não sem sacrifício. Ela estava sem calcinha. Colado ao monte de Vênus, distinguia-se a extremidade redonda e plana de um plugue vaginal negro cujo restante estava completamente cravado nela.
— É você quem vai puxar hoje, declarou ela, solene, de pé diante dele, oferecendo-se.
— "Hoje"? fez Cristiano, sentindo a náusea subir-lhe ao peito.
— É. Ontem foi o Francis, um colega da escola que também me quer.

    Desgostoso, Cristiano pegou o livro na mesa, jogou-o na pasta de couro, fechou-a e quis levantar-se para ir embora, mas Lili deu-lhe as costas, exibindo-lhe os dois gomos brancos, irretocáveis, das nádegas que emergiam do cós da calça presa ao final das coxas. Olhando-o por cima do ombro, ela o encarou com o sorriso mais confiante do mundo.
— Você brinca com as pessoas, Lili. Não gosto disso.
— Brinco com quem quer brincar. Tem mal nisso? disse ela, voltando a ficar de frente, batendo com as unhas na extremidade plana do plugue.

    Cristiano decidira ir embora, mas, rompido o encanto, cedera ao instinto animal e já não era mais capaz de abrir mão de uma chance que talvez fosse única em sua vida. Acalentando a esperança de consumar o que até ali sempre ficara em suspenso, ele aproximou-se de Lili e cravando-lhe os olhos, procurou o pequeno disco colado entre suas coxas para começar lentamente a extraí-lo. Ela pousou uma mão em seu ombro e soltou um curto gemido quando o diâmetro maior distendeu-lhe o sexo. O objeto negro de cerca de quinze centímetros em forma de naipe de espadas alongado deslizou facilmente para fora e Cristiano pôde contemplá-lo na mão, perplexo.
— Então isso é da sua mãe?
— É, disse ela, puxando a calça e agitando-se para fazê-la subir.
— Você pega emprestado e devolve?
— E ela nem percebe.

    Lili assumira um ar indiferente e desinteressado. O jogo chegara ao fim, como a aula. Cristiano entendeu que não cabia insistir; era hora de partir. Ele devolveu-lhe o brinquedo e foi embora. No caminho de volta, ele conjeturou que a impressão de estar em situação de domínio pode ser totalmente enganosa. Durante meses, a sua posição de professor e mais velho que Lili levara-o a pensar que era ele que a fazia adotar certos comportamentos e é por isso – e por paixão – que ele fazia tudo com tanta cautela. A verdade, porém, é que era ela que comandava o jogo com tal inteligência que ele nem percebia. Na verdade, ela era a cabeça de um vasto jogo erótico praticado com professores, amigos e colegas, exclusivamente voltado para o seu próprio prazer. Cristiano podia ter tirado mais proveito desse jogo, mas o afeto que ele desenvolvera por Lili impediram-no de continuar em contato com ela após descobrir sua verdadeira personalidade. Ele preferiu deixar de ser seu professor particular e evitar qualquer contato. Cerca de um ano depois, ele ficou sabendo indiretamente que ela engravidara e fora criar o filho em Israel, onde morava uma tia. Diante disso, sua aventura com Lili tomou proporções ínfimas e ele tocou a vida para a frente sem mais pensar no assunto.




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