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Se era tão bom, por que a culpa?


Quantos homens podem declarar com toda sinceridade que jamais, no decurso de um clássico jogo de esconde-esconde, meio às pressas, enquanto dividiam um esconderijo provisório com um vizinho, colega, amigo ou primo, não cederam, na adolescência, à pressão da ebulição hormonal constante e imponderável? Certamente bem poucos. E contudo, nenhum segredo permanece melhor e mais tempo trancafiado nos cofres censurados da memória masculina. Se é bem verdade que alguns acabam por assumi-lo, a esmagadora maioria de nós prefere morrer com ele. Todavia, sou da opinião de que um exame de consciência honesto seria capaz de fazer com que o mais refratário dos homens chegasse a admitir não só que viveu uma ou mais experiências dessa natureza, mas que foram momentos intensamente prazerosos, pouco importando que função tenha sido a sua nessa relação. Sempre fiel ao meu propósito de mostrar que o sexo natural e saudável é sempre prazeroso, vou aqui tentar encorajar meus leitores a empreender esse pequeno esfoço de reconhecimento.

    Vou apresentar dois pontos de vista, e acredito que seja grande a chance de que a experiência do leitor se identifique com um deles, eventualmente com ambos. Um dos pontos de vista é o daquele que se  recorda de ter sido assaltado por uma onda de excitação incontrolável que o levou a solicitar os favores de um vizinho, colega, amigo ou até parente. O outro é o daquele que, solicitado, concedeu esses favores. Através de um curto caso imaginário, vamos tentar descobrir por que razão essas situações, por mais prazerosas que tenham sido no momento em que aconteceram acabam muitas vezes, uma vez na memória, por tornar-se motivo de angústia, arrependimento e recalque para aqueles que as viveram.

1. Toninho, o turbulento

    Antônio Carlos, o Toninho para a maioria, está naquela fase em que o menino ainda não dispõe dos recursos para satisfazer-se sexualmente com meninas. Ele as observa, admira, excita-se, masturba-se no banho e no quarto, estimulado por mil fantasias eróticas com Fulana, Beltrana e Sicrana, mas não ousa ainda fazer avanços às criaturas reais que povoam a sua vizinhança, a escola e o clube. A verdade é que as meninas, por mais que exibam seu corpo desde cedo, são infinitamente menos acessíveis a ele que os seus colegas do mesmo sexo, cuja promiscuidade natural facilita a tactilidade das relações. Ele começa quase inconscientemente a dar-se conta de que tudo é mais fácil quando ele dá vazão aos seus impulsos com os seus congêneres.

    Toninho mora num prédio dotado de uma vasta área de lazer com piscina e quadras poliesportivas. É muito frequente que os jovens moradores joguem futebol, vôlei, basquete e outros jogos vestidos apenas de sunga ou short de banho. Um belo dia, em meio a um jogo de esconde-esconde, Toninho, vítima constante dos seus hormônios em ebulição, vai esconder-se propositalmente com Nando, cujo traseiro inspira-lhe uma estranha volúpia. Ajoelhados na grama, por trás de um murinho baixo, ambos observam lado a lado o colega que inicia uma lenta contagem. Toninho, cujas segundas intenções impacientam, cola uma mão desajeitada no final das costas do outro, que o rejeita de pronto, mandando-o parar. A verdade, no entanto, é que Toninho já ouviu alguns boatos sobre situações de maior promiscuidade envolvendo o seu vizinho. Ele nunca tomou parte delas, mas saber disso amplifica o seu desejo e encoraja-o. Ele insiste, passando mais decididamente a mão entre as nádegas do colega que, não conseguindo esquivar-se, limita-se a rir nervosamente enquanto lhe pede que pare sem convencê-lo. A essa altura, porém, inebriado pelos hormônios e no auge da exitação, Toninho já não consegue contrariar os imperativos da natureza e monta-o. Nando reage bruscamente, mas ele consegue facilmente imobilizá-lo, e tanto se esfrega que sucumbe a um orgasmo incontrolável. Num misto de euforia e desconcerto, ensopado, afastando o elástico da sunga para ver o resultado diante da risadinha tímida do outro, ele não vê alternativa senão disparar em direção à piscina.

2. Nando, o gentil

    Fernando, o Nando para a maioria, é um menino de boa índole que jamais se envolve em brigas e procura ser amigo de todos. Ele tem uma característica que lhe vem provavelmente do fato de pertencer a uma família numerosa: a da intimidade fácil; todos o beijam, abraçam, agarram, apalpam, sem que ele faça maior alarde por isso. Ademais, certos colegas e vizinhos são sensíveis a uma peculiaridade sua, a de ter nádegas carnudas e salientes que "empolgam" alguns deles quando o vêem na piscina ou trocando de roupa. Ele sabe disso porque frequentemente ouve piadinhas a esse respeito, quando não alguma solicitação ou mesmo um avanço mais ousado, e a verdade é que ele já viveu uma ou duas experiências mais conclusivas. Um desses meninos é o Toninho, vizinho do mesmo prédio, que não perde uma chance de sentar-se junto dele para tentar passar-lhe a mão nas coxas. Não é que isso desagrade particularmente o Nando, mas ele sabe que essa permissividade traz má fama, isso sem falar dos comentários paternos e maternos não necessariamente simpáticos às modalidades exóticas de sexualidade, uma ladainha que ele ouve em casa dia sim, dia não.

    Um belo dia, durante um jogo de esconde-esconde no pátio do prédio, Nando vê Toninho surgir abruptamente em seu esconderijo. Ele logo sente a quentura da timidez invadir-lhe as faces diante desse outro, um pouco mais velho e mais alto, com quem ele jamais esteve tão a sós quanto ali. Ajoelhado na grama e debruçado sobre o murinho que une o nível do canteiro ao do pátio, observando por sob os carros estacionados a movimentação do colega engrenado numa honesta contagem, ele faz de conta que não se importa, mas dirige ao intruso um expressivo "Shhh!" colando o indicador aos lábios. Contudo, assim que ele recomeça a concentrar-se no jogo, sente o contato leve e mal assumido de uma mão no final das costas. Ele a repele de pronto, uma, duas, três vezes, mas o outro insiste tanto que ele acaba cedendo, peferindo mostrar que não dá importância aos dedos que passeiam sobre o tecido inútil de sua sunga e tentando ignorar o suave arrepio que evoca nele certas ocasiões semelhantes. É que, intimamente, Nando não detesta essas raras situações de uma excepcional promiscuidade, e o momento parece tão propício! Ele decide então conceder ao colega esses instantes de emoção, autorizando-se também a desfrutar de um prazer secreto no silêncio obrigatório do jogo. Mas logo a carícia é bruscamente interrompida por um movimento ágil, e agora é o corpo todo de Toninho que ele sente envolvendo-o firmemente por trás. Ele tenta repeli-lo, temendo que a febrilidade o cegue para a dezena de colegas espalhados pelo pátio e o leve a ultrapassar os limites, mas é vencido pela força do outro, que continua montado nele, esfregando-se com instintiva competência. Menos de um minuto é suficiente para que o processo irreversível do orgasmo se desencadeie. Nando sente o bafo de cada arfada em sua nuca, enquanto, mais abaixo, uma umidade morna atravessa-lhe a sunga. Só então o outro desmonta e, sentado nas pernas, puxa o elástico da própria sunga para olhar. Ainda um pouco assustado, Nando deixa escapar um riso nervoso ao ver o incômodo que o emaranhado gosmento e leitoso causa em seu invasor. Isso lhe traz um prazerzinho vitorioso, um sabor de vingança que o faz sorrir mais relaxado enquanto o outro dispara em direção à piscina, ignorando-o. Ainda um tanto atordoado, ele tenta localizar por entre as rodas dos carros os pés do menino que acabou de terminar a contagem para por-se à procura dos demais.


    Agora que dispomos dos dois pontos de vista, examinemos o que se passa logo depois desse evento tão corriqueiro. Toninho atirou-se na piscina para remover da sunga os traços da sua pequena aventura. Aliviado, ele sentiu-se vitorioso com a sua experiência erótica mais ousada até então. Ele esteve a um passo do ato sexual, o que o deixa, pensa ele, à frente de muitos dos seus amigos e conhecidos! Sua mente estava tão repleta de imagens e sensações que ele se viu forçado a permanecer dentro d'água até apaziguar o corpo. Agora, ao chegar em casa, seu maior desejo seria o de sair contando a proeza aos dois irmãos mais velhos, mas ele se dá subitamente conta de que a experiência que ele acaba de ter não é das mais louvadas pela família, muito pelo contrário. Ele decide calar-se e vai tomar um banho para lavar a sunga com água doce, como preconiza a mãe, e aliviar-se da excitação persistente. Sob a ducha, ele revê na memória as imagens recentes e fantasia a consumação do ato com Nando. A intensidade de um segundo orgasmo o surpreende. A idéia de uma nova oportunidade com o Nando fixa-se solidamente em sua mente, mas ao sair do banheiro, ele pressente que o que ele acabou de viver, bem como suas fantasias e desejos relacionados a essa experiência são coisas a relegar às regiões mais bem policiadas de sua memória.

    Vejamos agora o que fez Nando. Depois do jogo e de um último mergulho na piscina, ele foi para casa tomado por um sentimento vago, híbrido de prazer e culpa. Intimamente, ele aufere prazer das situações secretas como aquela que ele acaba de viver com Toninho e que, como as outras duas em sua memória, poderia tornar-se bem mais conclusiva dentro em breve. Mas ele sabe que sua família não só as desaprovaria como censuraria o papel assumido por ele, o que o levaria a sentir-se um "fouxo" ou submisso, coisa que ele não é de modo algum; ele faz tudo que os seus colegas fazem: nada, luta judô, joga futebol, participa das brincadeiras bruscas de menino e se masturba pelo menos uma vez por dia vendo imagens de nudez feminina ou de sexo. O que ele não sente é o mesmo imperativo físico que subjuga alguns meninos, como o Toninho, a ponto de levá-los a procurar satisfazer-se em outros. É esse comportamento de cão em época de cio que, na sua opinião, mereceria ser tachado de submissão, submissão aos instintos! Nando intui naturalmente que o dia virá em que ele será atraído por uma mulher e ela por ele, e que tudo será feito com a maior serenidade. Ele não se sente ansioso em relação ao sexo, e talvez isso se deva ao fato de que seus pais têm uma boa relação de amigos e amantes, que seu irmão e sua irmã trazem os namorados em casa e que as conversas sobre sexo vêm naturalmente à baila em sua família. O único senão, aquele que o faz ter a sensação de culpa que se infiltra e mina a lembrança prazerosa de ter despertado tão violentamente os instintos do Toninho, o único senão, é essa consciência que ele tem de que os pais e irmãos desaprovariam o que eles fizeram. A mera idéia de contar sua aventura provoca-lhe um arrepio na espinha que confirma a sua convicção de que continuar calando é a melhor política.


    Avancemos no futuro um pouco mais distante desses dois adolescentes. A vida seguiu seu curso e levou tanto Antônio Carlos quanto Fernando a namorarem até encontrar aquela com quem casar-se e ter filhos. Antônio Carlos tem uma próspera carreira de bancário e Fernando não se enganou ao optar pela informática. Ambos sempre sentiram-se naturalmente levados a desenvolver relações afetivas com o sexo oposto e sentem-se perfeitamente à vontade na situação de homens casados com mulheres. Além disso, outro traço comum os une: ambos sentem-se excitados diante de imagens ou cenas de sexo entre homens. Antônio Carlos tem uma atração irresitível pelas nádegas de proporções perfeitas e Fernando considera um volumoso apetrecho em plena ereção uma obra de arte extremamente desejável. Isso não os desvia de modo algum do gosto e desejo pelo corpo e pelo sexo feminino, mas enriquece-os por acréscimo. Ainda que não divulguem sua bissexualidade à família nem aos amigos, tanto um quanto outro buscam satisfação secretamente através de imagens e vídeos e alimentam mil fantasias eróticas com parceiros imaginários. Nem um nem outro vê nisso qualquer problema de ordem psicológica, mas ambos gostariam de viver num mundo em que inexistisse o tabu da relação puramente sexual entre homens.


Conclusão

    Atualmente, homens e mulheres têm à disposição um rico material erótico-pornográfico largamente suficiente para que cada um se defina no que diz respeito às preferências quanto ao tipo de relação entre parceiros de sexo oposto ou de mesmo sexo. O que se observa é que pessoas que sempre se definiram como sendo exclusivamente heterossexuais ou homossexuais começam a admitir sua simpatia por certas situações que antes eram consideradas privativas de outros grupos. A título de exemplos, é crescente o número de casais cujo homem solicita à mulher que o penetre ou cuja mulher admite outra mulher como parceira do casal e troque carícias com ela; de amigos que contratam um profissional do sexo para realizarem em grupo fantasias bissexuais; de homens e mulheres casados que procuram relações extraconjugais com parceiros do mesmo sexo. Eu poderia multiplicar os exemplos, mas para concluir, os novos tempos, notadamente através da Internet e das redes sociais, estão flexibilizando as simpatias, as preferências e as escolhas sexuais, permitindo assim que as pessoas admitam que nem tudo é preto ou branco e comecem a desejar ver mais variedade em seu leque de opções, ainda que seja pela mera fantasia (a idade avançada ou alguma incapacidade física, por exemplo, justificariam plenamente o recurso à fantasia). É de esperar-se que dentro em breve, o reconhecimento da característica espectral preponderante da relação sexual se generalize e venha a despi-la de toda a conotação negativa responsável pela dura carga de culpabilidade que ainda testemunhamos em tanta gente que não ousa assumir suas próprias afinidades e simpatias sexuais. O sexo saudável e natural é bom em si mesmo e sua realização multiforme precisa ser universalmente reconhecida como tal.




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