Nos meus tempos de serviço militar, que cumpri num centro de formação de
oficiais da reserva da Infantaria, fui parar, assim que promovido a aspirante,
no comando de um dos três pelotões de uma companhia. Eu era encarregado da
ordem-unida, da aula de ginástica diária, de levar o pelotão marchando de um
lado para outro do enorme pátio interno do quartel, de supervisionar o banho, o
rancho, a guarda, e de outras tantas tarefas enfadonhas que não me exigiam
qualquer esforço neuronal, mas que exauriam-me a tal ponto que acabei
preferindo passar a dormir no batalhão.
Por ironia do
destino, assim que comuniquei minha decisão aos superiores, recebi nova tarefa:
supervisionar o dormitório do pelotão. Eu deveria ter adivinhado, mas surpreso
ou não, no início da segunda noite, lá estava eu, percorrendo as fileiras de
beliches. A tarefa logo me pareceu inútil; os soldados tinham tanto medo de ir
para o xadrez que seu comportamento noturno era impecável. Sendo assim, em vez
de passar toda a primeira hora com eles, comecei a dar umas
"incertas", inicialmente diárias, em seguida mais esparsas, até
limitar-me a fechar a porta e apagar as luzes antes de ir dormir no meu quarto
que, embora sem ligação com o dormitório, ficava no cômodo ao lado.
Certa noite, eu já estava dormindo quando alguém bateu
à porta. Era o R., um dos soldados do meu pelotão, insistindo para falar
comigo. Impaciente, eu quis despachá-lo autoritariamente, mas ele insistiu
alegando ser muito grave. Acabei
deixando-o entrar e pedi-lhe que falasse o mais baixo possível. Ele começou, um
tanto sem jeito, a explicar-me que o pelotão era dividido entre uma minoria que
mandava e uma maioria que obedecia e que, em determinadas noites, um soldado
era sorteado para ser currado pelos outros. O escolhido era obrigado a se
levantar imediatamente, ir lavar-se muito bem e voltar para deixar-se penetrar
por vários soldados. Se houvesse o menor sinal de descuido higiênico, o
escolhido estaria condenado até o dia da baixa. Nos casos mais graves,
tomavam-lhe até o soldo. As ameaças eram tão sérias, acrescentou R., que tudo
se passava no maior silêncio e no dia seguinte ninguém tocava no assunto. Ele
terminou suplicando-me que pensasse numa solução. Estarrecido, prometi tomar
providências e o mandei de volta ao dormitório.
A primeira coisa
que fiz foi conversar com um sargento antigo com quem eu me entendia muito bem.
Assim que ouviu a história, ele recomendou-me cautela, arguindo que os soldados
eram capazes de arquitetar artimanhas inimagináveis e que ele já tinha visto de
tudo naquele batalhão. Se eu fizesse escândalo, as próprias supostas vítimas
negariam até a morte, por medo de represálias que poderiam se estender até suas
famílias, fora do quartel. Mesmo que eu conseguisse pegá-los em flagrante,
ninguém revelaria a verdade e tudo seria reduzido a um caso banal de
homossexualismo de caserna, velho como Esparta. Agradeci o meu amigo e voltei
às minhas atividades, sem deixar de procurar constantemente uma solução. No
dia-a-dia, entretanto, quando o meu olhar cruzava o do R., eu não percebia mais
agonia e súplica, mas parecia-me que ele queria dizer-me alguma coisa. Ele não
me procurou mais, mas isso não me convenceu a desistir de continuar
investigando.
A tática que
resolvi usar foi a de voltar a dar as minhas "incertas" no dormitório
do pelotão. E não só isso, mas, num esforço sobre-humano, em qualquer momento
da noite! Fosse às 21h, às 3h30 da madrugada ou meia hora antes do toque da
alvorada, eu abria silenciosamente a porta e esquadrinhava com o olhar toda a
extensão do dormitório, por cima dos beliches, entre eles e por baixo deles. As
semanas se passavam e R. me dizia que nada tinha mudado. Mas eu não conseguia
pegá-los em flagrante. Era como se eles tivessem sido prevenidos por algum
espião. Fui ficando com os nervos à flor da pele por não poder revelar a
ninguém uma trama tão grave.
Numa tarde de
terça-feira, mais de dois meses depois da conversa com o R., entrei no
dormitório do pelotão para inspecionar o banheiro numa hora diferente da
habitual. Eu costumava fazer isso depois que eles saíam para a primeira
instrução da tarde, mas, não me lembro mais por quê, naquele dia resolvi fazer
a inspeção em pleno horário do almoço deles, quando estivessem supostamente
todos no rancho. Não havia ninguém nos beliches, mas ouvi cochichos e ruídos no
banheiro. Este consistia de um amplo cômodo aberto destinado aos chuveiros e
pias e dez reservados fechados com meias-portas. Ao chegar, deparei com cinco
soldados nus, dois dos quais fizeram sinal aos demais, que tentaram sair do
banheiro, mas foram impedidos por mim, que já obstruíra a entrada (não havia
porta) com o meu corpo. Simultaneamente, num canto à minha direita, dois
outros, que eu vira de relance, levantavam-se, um deles tantando
atabalhoadamente encobrir o membro ainda ereto. O outro era R.
— O que é que está
acontecendo aqui? gritei. Ninguém sai até que eu entenda tudo, do início ao
fim! Eu estava furioso e mais do que impaciente para que aquilo terminasse.
— Nada, aspirante!
A putinha do R. tava no cio hoje, e como a galera tá a perigo,
"sacumé", né! disparou um soldado em tom extremamente grosseiro,
sendo interrompido pelas gargalhadas boçais dos demais.
Olhei para o R.
que, para espanto meu, pareceu-me mais encabulado que violentado. Ele se
sentara de pernas cruzadas e estava de cabeça baixa, brincando com as mãos, mas
eu podia perceber que havia um sorriso em seu rosto, um sorriso nervoso, como
um esgar que ele não conseguia apagar para ser capaz de olhar para mim
seriamente. A explicação veio-me instantaneamente: ele fora até o meu quarto
naquele dia, há quase dois meses, com o intuito de tentar – antes que qualquer
suspeita pairasse contra ele – desviar minha atenção do fato de que ele era
verdadeiramente a "putinha" do grupo. Resolvi tratar o caso com
rigor, lembrando-me que uma boa punição exemplar pode ser salutar para um
grupo. Ordenei aos demais que não o difamassem no quartel e o mandei para o
xadrez por insubordinação e não por conduta imoral. Mal sabia eu que aquela
decisão viria mudar o rumo da minha vida.
Menos de 48 horas
depois do encarceramento do soldado R., lá estava eu, no corpo da guarda,
fazendo uma primeira visita para assegurar-me do seu bem-estar. Assim que me
viu, ele olhou-me com um olhar cheio de tormento e vergonha, mas nenhuma
hostilidade, amargura ou ressentimento. Eu já sabia que ele agira por pura
vergonha de ser denunciado por algum dos soldados como gay passivo e
compulsivo, e isso parecia tê-lo serenado um pouco. Durante essa primeira
conversa, ele foi inteiramente sincero e confessou-me que assim que venceu o
pavor de descobrir que não escaparia do serviço militar, começou reprogramar a
mente, sonhando com as inúmeras possibilidades de satisfazer seus impulsos.
Antes mesmo do processo seletivo, ele imaginava-se sendo possuído por montes de
soldados másculos e bem-dotados em todas as situações e posições possíveis e
imagináveis. Ele confidenciou-me que foi levado a praticar o sexo desde muito
cedo e que sempre tivera uma atração exclusiva e intensa por homens. Retruquei,
brincando, que entendia perfeitamente, mas que essa prática era terminantemente
proibida nas forças armadas porque o Estado-Maior acreditava que, caso fosse
estimulada, as casernas se tornariam um reduto de homossexuais e, contradizendo
a bela história do "pelotão dos amantes", da Grécia antiga,
declaravam veementemente que com homossexuais não se faz um exército. Ele riu,
mas demonstrou ter perfeito entendimento do nosso estado de atraso social.
Naquele primeiro dia de visita, conversamos por quase duas horas e não senti o
tempo passar. Quando não pude mais adiar o momento de ir embora, R. pediu-me
que voltasse no dia seguinte.
Era um sábado e eu
estava dispensado de serviço, mas fui ao batalhão exclusivamente para vê-lo.
Naquele fim de semana, R. era o único no xadrez. Eu conseguira fazer com que os
soldados do pelotão não espalhassem nada sobre ele e sua presença na prisão do
corpo da guarda não suscitou, portanto, maior curiosidade; ele passou por mais
um soldado insubordinado dentre os tantos que frequentavam o recinto. Quando
cheguei à cela, R. me pareceu mais do que feliz. Havia nele alguma coisa que o
transfigurava, tornando seus olhos mais brilhantes e seu olhar mais claro e
penetrante. Assim que entrei, sem bem interpretar essa impressão, senti-me
recebido por uma amante ávida; é a analogia que me ocorre atualmente. O dia
estava quentíssimo e R. estava usando o short azul e a camiseta branca sem
mangas destinados à educação física. Não pude deixar de reparar suas pernas
completamente lisas e as coxas femininas. Ele era magro sem ser franzino e, das
duas ou três vezes que encontrou um pretexto para dar-me as costas ou
curvar-se, pude adivinhar suas nádegas, cujo peso devia formar as duas dobras
acentuadas que surgiam das bocas escancaradas do short a cada vez que ele
sentava-se de pernas recolhidas no catre da cela.
Quando certificou-se de que eu tinha reparado em seu corpo, R. sentou-se quase colado a mim, com a cabeça a poucos centímetros da minha, o que não interpretei como atitude de desafio, mas de aproximação, desejo de intimidade. Eu queria que ele falasse, contasse a sua vida, se abrisse sobre seus problemas e dificuldade, mas ele me olhava tão profundamente nos olhos que me senti constrangido. Tentei afastar-me um pouco, mas ele se aproximava e olhava-me com seus olhos tristes de um verde-acinzentado indescritível. Quando tentei levantar-me, senti sua mão deslizar pela minha coxa. Tentei frear essa mão, mas ela apertou a minha com fervor e aquele olhar se tornou suplicante. Eu não tinha o que dizer e não queria enveredar por essa via em plena caserna, embora saiba hoje que àquela altura, eu já estava muito balançado por toda a situação. Consegui ir embora "incólume" no primeiro dia, mas intimamente sabia que estava indo contra a minha natureza mais instintiva.
É quase
desnecessário dizer que voltei ao batalhão no dia seguinte, domingo. Assim que
o soldado carcereiro nos deixou a sós na cela, R. se aproximou, afagou-me o
cabelo sorrindo gentilmente, tocou minha mão, olhou-me profundamente nos olhos
e ficou hesitante, esperando. Pela primeira vez, parei para olhá-lo com vontade
de vê-lo, de descobrir aquela beleza andrógina de olhos felinos. Ele era muito
claro, tinha traços muito finos, assim como a pele, o cabelo, as sobrancelhas.
O nariz curto e reto, os lábios vermelhos formando duas covinhas pouco acima de
cada comisura, os dentes muito brancos e unidos, um queixo curto e harmonioso e
a penugem tão juvenil na face ainda sem sinal de barba, tudo isso resultava num
rosto quase feminino, não fosse o horrível corte militar do cabelo. Tentei
imaginá-lo sem ele, e não precisei esforçar-me muito porque, como por
telepatia, R. tirou uma carteira da gaveta da mesa e mostrou-me uma foto sua.
Antes do serviço militar, ou seja, há poucos meses apenas, ele era um menino de
dezessete anos com cabelo de ouro, comprido até a nuca. Mesmo em plena luta
contra isso - nada estava resovido na minha cabeça, àquela época -, tive que
reconhecer que ele era muito bonito e que vê-lo me causava um incontestável
prazer estético. Quando R. fechou a carteira e a repôs na gaveta,
voltou-se para mim com segurança redobrada, sorrindo alegremente por ter-se
mostrado em seu semblante habitual não desfigurado pela imagem uniforme, pobre
e desgraciosa da nossa soldadesca. Ele pareceu-me mais jovem e radiante, como
se tivesse voltado a ser o menino do retrato.
Meu gesto de beijá-lo foi espontâneo e súbito, como que detendo o percurso do seu rosto. R. arregalou os olhos, articulou uma palavra, mas logo entregou-se e ficamos por alguns segundos assim, de lábios colados e línguas se amando, sentindo nossas mãos úmidas uma na outra. Cheguei a sentir lágrimas subirem aos olhos e o coração disparar: eu estava beijando a Beleza e sendo retribuído por ela! Não durou mais que alguns segundos, mas quando nos separaramos, senti que precisava daquele corpo como o meu precisava de ar. Ato contínuo, R. empurrou-me para trás até a cama, abriu minha calça, fez-me sentar, ajoelhou-se entre as minhas pernas e sem sequer olhar, abocanhou avidamente o meu sexo, dando um suspiro como se tivesse enfim podido recomeçar a viver, sugando com desejo, acariciando-me os antebraços e olhando-me fixamente com olhos sorridentes e serenos. Minha excitação era tamanha que senti o orgasmo vir assim que comecei a acariciar seu rosto. Ele o recebeu sem hesitar, engolindo e acariciando-me com boca até o fim da ereção. Tudo não durou mais do que dois ou três minutos. Logo estávamos abraçados e nos beijando longamente no meio da cela inundada do sol que entrava pelas grades da janela. Nada foi mais custoso e triste para mim do que a despedida, naquele dia, mas eu o veria de volta ao pelotão ao amanhecer, o que me animou um pouco. Ele parecia tolerar melhor situações como aquela, como se já houvesse passado várias vezes por privações dessa natureza. Eu o senti mais sereno que eu, mais pronto a esperar por uma nova ocasião de encontro. Fui embora desolado, obcecado pela idéia de fazer amor com ele por horas a fio. Mas a semana me reservava uma surpresa.
Ao passar pelo
corpo da guarda, às 7h30 do dia seguinte, descobri que R. continuava
encarcerado, mas não tive tempo de pensar nisso e muito menos de ir vê-lo; as
manhãs de segunda eram as mais atarefadas da semana. Logo depois da formatura
geral, fui chamado ao gabinete do capitão da minha companhia. Havia duas
notícias para mim. A primeira era que aquela seria minha última semana no
comando do pelotão que me havia sido designado. A segunda era que o caso do
soldado R. chegara ao conhecimento dos os oficiais superiores, que o
consideraram de alta gravidade e decidiram desligar R. antes mesmo que concluísse
o serviço militar. O capitão me deu as duas notícias nessa ordem,
laconicamente, agradecendo-me pelos serviços prestados e prevenindo-me de que
seria transferido de pelotão. Saí do gabinete sentindo vertigem e fui para o
meu quarto. Não me lembro de ter chorado tanto até aquela data, mas agora sei
que aquela era apenas a primeira vez. Não sei como consegui dar conta das
minhas tarefas finais na companhia, mas aos arrancões, cometendo inúmeras
falhas, fui até o fim.
A semana me pareceu
durar um mês, mas o sábado chegou enfim e, como eu seria remanejado na semana
seguinte, fui poupado do serviço de fim de semana. Por volta das dez horas, eu
estava no batalhão diante do sargento da guarda que me olhava com cara de
espanto. Dei a desculpa de que precisava explicar algumas coisas a R. porque ia
ser transferido do pelotão dele (era natural para um aspirante). Encontrei R.
feliz por ver-me e com um moral relativamente alto, talvez por causa do tempo
bom, mas intrigado com a demora em ser solto, ignorando tudo sobre seu
desligamento. Resolvi que não revelaria nada. Nos beijamos com ardor e ele foi
sentar-se na mesinha colada à parede, recostando-se a ela. Aproximei-me com a
intenção de continuarmos a nos beijar e percebi que ele puxara a boca do short
e deixara escapar o sexo já bem duro. Era bem feito, proporcional e nada
repulsivo, envolto em seu estojo de pele clara e macia. Com as mãos pousadas em
suas coxas senti-o pulsar em minha boca, e meu soldado-amante contorcer-se
contendo gemidos.
R. já estava desligado
das forças armadas e partiria dali para casa na manhã de segunda feira, mas se
fôssemos descobertos, eu certamente enfrentaria um processo militar e a corte
marcial. Fui portanto até o corpo da guarda para certificar-me de que ninguém
tinha a intenção de entrar no corredor das celas. Quando voltei, deparei com R.
já debruçado na mesa, olhando para mim, o short azul baixado até o meio das
coxas. Meus sonhos tinham fundamento: perfeitamente lisas e de um branco
imaculado, as nádegas que saltavam-me aos olhos eram as mais linda que eu já
vira. Puxando para o lado uma delas com a mão, meu temerário soldado olhou-me e
sussurrou: "É teu, aspirante!" Aproximando-me mais, separei levemente
os dois gomos para expor, bem no meio do sulco, a pele um pouco mais escura com
o orifício ligeiramente aberto dos que têm certo hábito, pulsando intensa e
convidativamente. R. tornou, impaciente: "Mete, aspirante, anda!"
empinando-se todo e chegando para trás para alcançar-me. Abri a calça e tirei
meu sexo já todo duro e encharcado, enterrando-o profundamente em R. que abafou
um gemido, jogando a cabeça para trás e soltando um longo "Ahhhh!"
Puxando-o pelo alto das coxas, inicei um vaivém rápido, evitando os impactos para não fazer barulho. De vez em quando eu o envolvia carinhosamente pela barriga para acariciar seus mamilos, beijar sua nuca, e podia então ouvir sua masturbação forte e constante. Pedi-lhe para não gozar ainda e tive meu próprio orgasmo dentro dele, muito intenso e copioso. Em seguida, pedi-lhe que voltasse a sentar-se na mesa, colhi seu membro e o chupei intensamente. Ele foi tão profuso quanto eu, senão mais. Com a boca inundada do seu nectar, procurei a sua e trocamos um beijo final cheio de gula enquanto eu o tornava a penetrá-lo de frente, forçando suas coxas contra o corpo. Embora mais completo, esse encontro também não durou muito. Enxuguei meu suor numa toalha, despedimo-nos com um beijo demorado, olhei uma última vez para o seu rosto de menino bonito e saí com o pensamento fixo na ocasião seguinte.
Não me lembro
exatamente do motivo que impediu-me de ir vê-lo no dia seguinte, domingo, mas
creio ter sido relacionado à minha família. Na formatura matinal da
segunda-feira, a tropa foi informada pelo comandante da unidade de que o
soldado R. M. Silva fora suspenso do serviço militar e desligado da unidade
naquela manhã mesmo e por razões que não seriam divulgadas. Não pude evitar o
choque. Acompanhei em silêncio, como as centenas de pares de olhos do resto da
tropa, a saída do sinistro camburão do túnel do corpo da guarda e seu percurso
em marcha lenta até o outro lado da cancela, onde R. foi deixado, fora dos
muros do batalhão, símbolo do seu desligamento e do fim da responsabilidade do
Exército por ele. Quando R. desembarcou, olhou para trás uma última vez e
seguiu caminhando, as lágrimas desciam pelo meu rosto sem que eu sequer
tentasse impedir. Naquele momento, nada mais me importava.
Tentei entrar em
contato com R. no mesmo dia, mas foi inútil. Insisti como um desesperado nas
semanas subsequentes, mas ele se limitava a dizer por telefone que não queria
ver-me. Terminei meu serviço militar sem jamais conseguir encontrá-lo. Passei
dois ou três anos sem ter notícias dele, até entrar por acaso em contato com um
amigo seu e ficar sabendo que sua vida afetiva não fora prejudicada por aquele
episódio do serviço militar, e que era uma vida repleta de encontros e
desencontros como a vida de toda jovem pessoa de beleza excepcional. Depois
perdi todo contato com quem quer que pudesse dar-me notícias suas. Bem
mais tarde, já maduro, eu viria a descobrir com tristeza que R. morrera aos 26
anos de idade, de pneumonia, provavelmente em conseqüência das devastações
causadas pelo HIV. De R. trarei para sempre na lembrança o rosto resplandecente
de beleza juvenil, os imensos olhos felinos e o ardor de uma paixão
interrompida.

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