Lembro-me de ter tido constipações homéricas que
me aprisionavam por mais de uma hora ao trono tentando - quantas vezes em vão -
expelir do meu corpo aquele elemento que me parecia tudo menos fabricado por
mim. Quando, por fim, eu conseguia pari-lo, contemplava com horror,
ultrapassando largamente o espelho d'água do sanitário, o imenso
"toco" de cor sinistra que se refratava nele e repousava agora inerte
contra a imaculada porcelana branca.
Durante a meninice, sempre contei com a ajuda
exclusiva da minha mãe, que amaciava-me amorosamente o orifício com seus dedos
de veludo até que ele se dilatasse o suficiente para comportar o diâmetro do
maldito toco. Mas lá pelos onze anos, já pré-adolescente e em plenos
inícios masturbatórios, a notícia se espalhara tão bem pela família, que todos
os adultos tinham o direito de opinar, quando não de me examinar. Avó, avô,
tias, tios... e até empregadas mostravam-se mais solícitos para comigo nessas
ocasiões do que em outras, por vezes mais graves, como quando eu tinha febres
altas que me levavam ao hospital! Quantas vezes eu não senti as mãos ávidas da
parentela separando as minhas nádegas de menino para encontrar o orifício
e proclamar solicitamente um "está saindo!" que ecoava pela casa. Fosse
deitado de costas na cama com as pernas escancaradas e brutalmente empurradas
contra o peito, fosse debruçado numa mesa com as pernas a balançar, fosse
sentado no próprio vaso, eu era invariavelmente, repetidamente submetido às
humilhantes intervenções adultas, por vezes assaz sofisticadas, como aquela em
que minha tia Sofia, grande conhecedora desses inconvenientes, cismou de
alargar-me o fiofó com um instrumento ginecológico que achei parecido com um
pequeno bico de pato que se abria por meio de uma alavanca. Ela só conseguiu
empurrar de volta para dentro o que já estava para sair por vias naturais, mas
com isso, inaugurou-se uma nova era: a família em coro concluiu que, se eu
franqueara à minha tia Sofia a passagem do dito instrumento, não teria por que
vedar aos demais membros o acesso às minhas entranhas. A coisa foi tomada como
acordo tácito e, até os meus quase doze anos, creio que poucos foram os
parentes mais próximos que não me haviam sodomizado com um dedo.
Mas vamos adiante. As consequências de
condicionamentos semelhantes nunca são as mesmas em cada indivíduo submetido a
eles. Em mim, a associação da constipação intestinal à manipulação dos meus
posteriores por outrem tornara-se perfeitamente natural, embora eu entendesse
que a quase totalidade dos meus amigos e colegas, vizinhos, e até parentes do
mesmo sexo e da mesma faixa etária que eu jamais compartilhariam a minha
opinião, caso eu a manisfestasse abertamente. Todavia, o que rege o
comportamento de um menino de doze anos não é unicamente o entendimento; a
necessidade fala muito mais alto, quando não berra! Assim foi que, em pleno
acantonamento escoteiro, tendo sido acometido de uma violenta crise, vi-me sem
outra alternativa senão pedir ao meu companheiro mais próximo, o Felipe, que me
examinasse o escapamento e relatasse de que tamanho era a coisa. Ele riu quando
lhe falei do meu estado, mas não do que lhe pedi para fazer. E lá fomos nós
para os banheiros, que estavam desocupados porque uma atividade lacustre
estava em curso. Mal o
Felipe fechou a porta do reservado, dei-lhe as costas, baixei minha sunga e
separei as nádegas, concentrado no meu objetivo. Felipe, colado à porta imunda,
repleta de inscrições e desenhos pornográficos, além de longos rastros fecais
feitos com o dedo, curvou-se para olhar.
— E aí? perguntei, forçando ao máximo para já ir
tentando expelir o indesejável produto do meu organismo em desordem.
— Dá pra ver a pontinha escura; parece bem dura!
— Tá muito aberto?
— O cu? Um pouco.
— Vou forçar mais.
— Saiu mais um pouco, mas acho que o resto é bem mais
grosso. Dói?
— Dói quando eu forço. Mas nem forçando muito eu
consigo sozinho.
— E como você faz, então?
— Lá em casa, todo mundo ajuda, mas aqui não dá, né!
— Caramba! Eles enfiam a mão no teu cu? Pegam no teu
cocô?
— Não... Bom, quer dizer, mais ou menos, respondi,
embaraçado diante do espanto potencial do Felipe.
— Então o que eles fazem?
— Ah, depende. Não vou ficar explicando.
— Então o que é que eu tenho que fazer?
— É só você ficar assim, olhando até a parte mais
grossa sair. Quando a ponta sair todinha, é só eu fazer força que o resto
passa. Sozinho eu não consigo saber qual é a grossura máxima e fico com medo de
continuar e machucar tudo.
— Tá legal, então. Tô olhando.
E ele se agachou e ficou olhando para o meu orifício
até certificar-se do diâmetro máximo do toco. Felipe era de uma paciência à
toda prova; não só assistia aos meus "partos" — que se reproduziram
algumas vezes em sua companhia — como me consolava quando a dor era tão aguda
que me levava às lágrimas e ao adiamento. Acabamos virando amigos graças a essa
estranha circunstância. Passamos a nos encontrar fora do escotismo, jogávamos
futebol, íamos ao cinema e frequentávamos a casa um do outro. Um belo dia,
fiz treze anos e, subita e inexplicavelmente, meu mal expirou. As semanas após
o último episódio de sofrimento foram se sucedendo e não houve mais episódios. Eu
estava livre!
Livre? Em termos! Livre das constipações, mas não de
uma "sequela" das mais inesperadas. Com o passar do tempo, fui
experimentando uma sensação que, na época, eu não conseguia descrever. Era como
uma carência de estímulos anais intensos acompanhada de um "vazio"
retal. É compreensível; durante anos a fio, meu pequeno orifício fora submetido
a extraordinárias dilatações e meu reto fora preenchido por verdadeiras
"toras" de fezes endurecidas! Hoje me parece lógico que, na época, eu
tenha experimentado alguma estranheza quando da brusca cessação desses
estímulos. Nós aprendemos sempre, não importa a natureza — positiva ou negativa
— da experiência. Eu conhecia por demais as funcionalidades do meu aparelho
excretor para passar a ignorá-lo do dia para a noite! Foi assim que, ainda aos
treze anos, depois de uma longa folga aos meus posteriores, voltei a dar-lhes
atenção, dessa vez mais serenamente.
Ainda me lembro bem daquele dia, no banheiro da minha
casa. Como de costume há algum tempo, eu tirara o pesadíssimo espelho que
ficava acima da pia e o pusera no chão para me ver de baixo para cima e, contemplando
meu sexo, meu saco, minhas coxas e minhas polpas já generosas de menino
fortinho de metro e sessenta, me masturbar até ser tomado pela incomparável
sensação do orgasmo, assistir ao espetáculo do esperma sendo ejetado,
percutindo a cortina do box à minha frente, escorrendo molemente por ela e
gotejando da cabeça inchada do meu membro no enorme espelho oval. Foi nesse dia
que decidi, pela primeira vez, enfiar um treco no cu. Olhando para o espelho
entre minhas pernas, comecei a acariciar minha bunda, sentindo no fundo do rego
os meus dedos resvalarem nas pregas e ficando muito excitado. Ainda com receio,
fui introduzindo lentamente, pelo topo, a caneta Bic cor de laranja,
concentrado na resistência do anel, no atrito, na dilatação, nas pulsações, mas
principalmente na sensação de entrada, oposta àquela que eu conhecia tão bem. Puxei,
voltei a avançar, enfiei um pouco mais, tornei a tirar, percebendo a diferença
entre cada sensação. Longos minutos depois e após descobrir que a saliva bem
viscosa é um ótimo lubrificante, eu conseguia enfiar praticamente a caneta
inteira. Graças à minha experiência, eu sabia que o interior era uma cavidade e
não um túnel e logo a explorei em todas as direções, como num exercício
inconsciente de lipoaspiração. Quanto à tal sensação de entrada, devo dizer que
a considerei "diferente", sem mais. Contemplando através do espelho
no chão o meu sexo teso, de boa grossura em relação às minhas coxas, meu saco
em forma de casca de noz, os gomos lisos da minha bunda separados pela mão e a
caneta espetada no orifício, cheguei ao pico da exitação e comecei a me
masturbar com a mão livre. Em dois minutos, atingi um orgasmo acompanhado de
muitos jatos, ao mesmo tempo que eu redescobria de outro modo as contrações do
meu ânus, que se sucediam fortes e amplas sobre a caneta de pequeno diâmetro. Quando
terminou, eu estava zonzo, de pernas bambas, coração aos pulos, cabeça
formigando e visão fora de foco. Eu acabara de descobrir que o movimento
inverso àquele que me torturara desde a mais tenra infância me proporcionava
prazer.
Continuei levando minha vida de menino de bairro,
brincando com os vizinhos desde o momento em que eu terminava os deveres de
casa até a hora do jantar, frequentando às reuniões semanais e atividades do
grupo escoteiro e saindo muito com meu amigo Felipe. As meninas bonitas
começavam a me interessar, mas eu ainda era muito infantil para despertar
qualquer interesse nelas. Meu contato com o sexo feminino ainda era
integralmente platônico e limitava-se à contemplação daquelas que eu julgava
lindas e às masturbações que eu dedicava àquelas que eu via de saia curta na
escola ou na rua e seminuas na piscina ou na praia. De vez em quando, eu
participava de uma masturbação coletiva no meu prédio, em que dez meninos em
roda baixavam as bermudas e só paravam depois que tivessem ejaculado até a
última gota. A visão dos sexos alheios, todos diferentes e de vários tamanhos,
era um estímulo certo, e todos aguardavam essas ocasiões com muita impaciência.
Minhas sessões de prazer solitário estavam, porém,
indefectivelmente associadas ao prazer anal, a tal ponto que, aos poucos, fui
sentindo a necessidade de aumentar o calibre que eu introduzia em mim. Da caneta passei ao
dedo, mas embora a exploração digital fosse mais inteligente, a pura sensação
me pareceu áspera e o cheiro persistia, o que me dava nojo. Logo descobri os
cabos de escova de cabelo, de preferência aqueles cujo diâmetro era maior no
centro e cuja textura do plástico fosse bem lisa, por serem facilmente laváveis
e perfumáveis. Fiquei mestre em me masturbar com a mão esquerda enquanto, com a
direita, fazia entrar e sair da bunda aqueles zepelins mais grossos
imaginando-os manipulados pelas mulheres da família. Isso, aliás, duplicava em
intensidade as minha fantasias que, cabe aqui assinalar e sublinhar, eram cem
por cento heterossexuais ou, na "pior" das hipóteses, figuravam-me
como protagonista ativo de uma penetração ao dono de alguma bunda que eu vira,
por exemplo, num vestiário, considerara sensacional e retivera na memória para
usar num sessão posterior de masturbação. Não me lembro de ter sequer uma única
vez imaginado colegas, amigos ou vizinhos fazendo o papel da escova! Algumas
vezes, masturbei-me junto com o Felipe, mas nem com esse amigo tão íntimo eu me
concedia o prazer integral, limitando-me a compartilhar o espelho para que ele
também se visse de baixo para cima, uma perspectiva que me parece até hoje a
mais erótica. Meu melhor amigo tinha uma pronunciada curvatura dorsal e uma
bunda branca, lisa, estreita mas saliente, que produzia duas dobras muito bem
definidas no alto das coxas recobertas apenas por uma fina penugem loura. Ela
me excitava, mas, apesar da nossa intimidade, eu não tinha coragem de confessar
meus novos hábitos. Eu fingia estar completamente concentrado em nossos sexos e
no assunto feminino que os manteria em riste até a ejaculação. Como todo
adolescente, repetíamos as clássicas brincadeiras de tentar passar a mão um no
outro, sugando o ar com língua colada no céu da boca e ficando
putos quando o outro conseguia um toque.
Ocorre que às vezes, coisas ínfimas desencadeiam
grandes desdobramentos. Felipe e eu tínhamos treze anos e ambos gostávamos de
motocicleta. Na garagem do prédio dele havia uma Kawasaki enorme e nosso sonho
era montá-la. Como o receio de sermos apanhados em flagrante pelo porteiro
mal-encarado era grande, resolvemos montá-la juntos, ele na frente, eu na
garupa. Assim que ele fingiu acelerar, meu gesto foi de agarrá-lo pela cintura
e "viajar" com ele, mas involuntariamente, a situação me lançou de
volta às minhas fantasias eróticas. Sentindo-me tão perto, comecei a me excitar
e a agarrar meu amigo com outras intenções. Felipe percebeu instantaneamente,
mas, para surpresa minha, só disse que depois ia querer ficar na garupa também.
E foi assim que, pela primeira vez, aliviamos nossa tensão sexual um no outro. Me
lembro que terminamos a brincadeira na moto um tanto sem jeito, mas tensos,
acalorados, de rostos vermelhos e, claro, frustrados. E me lembro que voltamos
a nos pegar no elevador, do mesmo modo como havíamos feito na moto, um de cada
vez agarrando o outro por trás. Essa brincadeira durou e ganhou tal intensidade
que eu cheguei a ejacular na roupa esfregando-me no Felipe em algum canto de
garagem, na "nossa" moto, em elevadores, escadas, sempre lugares
escondidos e nunca dentro das nossas casas. A brincadeira se estendeu às férias
de verão, que a família dele me convidou a passar com eles, numa cidade de
praia. Logo notei que eu assediava muito mais o Felipe do que ele a mim. Era
como se a minha libido se manifestasse com muito mais intensidade. A cada
solicitação minha, ele resmungava um pouco, mais por tédio que por censura, mas
logo consentia em virar-se para que eu o agarrasse por trás. Lembro-me que as
sensações foram especialmente intensas naquelas férias de verão, porque tudo
acontecia de roupa de banho. Dentro d’água, no banheiro, no quarto ou em
qualquer situação em que estivéssemos sozinhos, dez vezes por dia, eu rogava ao
Felipe que me deixasse esfregar-me nele, sentindo meu sexo duro em contato com
suas nádegas infatigáveis. A coisa era bastante desigual - a cada quatro vezes,
ele exigia a recíproca uma vez - mas isso não o aborrecia, só impacientava um
pouco quando ele tinha alguma diversão em vista e eu o retinha com meus
assédios.
Dois episódios daquele verão são dignos de registro. No
primeiro, era noite fechada e estávamos conversando perto da quadra de vôlei
onde havia um box único com uma ducha. Eu pedi ao Felipe para darmos uma entradinha.
Ele assentiu e, pela primeira vez, talvez pela situação única de estarmos na
mais total escuridão, concordou em baixar a sunga. Eu não via absolutamente
nada, mas a sensação do contato direto do meu sexo com a bunda nua e os
movimentos um pouco hesitantes do Felipe, que não admitia, é claro, sentir
muito prazer numa situação tão flagrantemente homossexual, tudo isso foi para
mim tão extraordinariamente erótico e prazeroso que jamais esquecerei de um
segundo sequer daquela rápida aventura que pode ter durado por coisa de dez
minutos.
O segundo episódio se deu no quarto, nas mesmas
férias. Nos deram um beliche e eu fiquei embaixo. Felipe foi o primeiro a
deitar-se e começamos a conversar sobre o que faríamos no dia seguinte. De
repente, veio a ereção, coisa que me acontecia até caminhando. A primeira coisa
que me veio à cabeça foi mostrar ao Felipe. Saí da cama, subi a escadinha e,
quando fiquei com a cintura à altura do corpo do meu amigo, baixei o short
e exclamei: "Olha como está duro!" Felipe reagiu com a fleugma
habitual, olhando sem dar maior importância ao fato. Tomei coragem e fui em
frente: "Quer pegar?" perguntei, sentindo a cabeça zumbir de nervoso.
Ele respondeu virando-se para o meu lado e empunhando-me displicentemente o
membro, como se dissesse: "Pronto. Que mais?" Me lembro de ter dito:
"Quente, né?" e de ouvir um lacônico "É". Nessas horas, o
diálogo inexiste, não há muito o que dizer. Eu poderia ter pedido a ele para ir
além, mas não ousei e acabei tão excitado que fui para o banheiro masturbar-me
com a minha própria mão. Foi a primeira vez na vida que alguém pegou no meu
sexo.
Cheguei a achar que esses episódios poderiam criar
algum tipo de dependência sexual entre nós, mas me enganei; Felipe era
completamente descolado, bem másculo e, logo após a volta ao Rio, ficamos um
bom tempo sem nos ver porque ele andou frequentando outros amigos com os quais
tinha afinidades desportivas. Além disso, as aulas recomeçaram, novos amigos
apareceram de ambos os lados eu passei meus catorze anos da maneira mais banal
do mundo. Cheguei a dar meus primeiros beijos numa vizinha, com quem eu viria a
ter um namoro tórrido alguns anos mais tarde.
Entretanto, meus hábitos masturbatórios continuavam
exigindo o estímulo anal e eu me tornei um perito em descobrir novos apetrechos
dilatantes e penetrantes. Durante algum tempo, usei uns tubos de ensaio de bom
diâmetro e muito compridos, que eu introduzia quase completamente em mim,
deitado de bruços na cama, enquanto me masturbava imitando os movimentos do coito,
folheando a Playboy, a Hustler ou revistinhas pornográficas que os colegas me
emprestavam e, claro, olhando-me num espelho que eu posicionava na
escrivaninha, de frente para a cama para me ver de perfil. Para mim, o orgasmo
prazeroso continuava indissociável das contrações anais. Isso durou por quase
dois anos.
Foi aos dezesseis anos que tomei a decisão mais
audaciosa de toda a minha adolescência. Eu ainda não tinha me relacionado
sexualmente com meninas, me masturbava furiosamente e continuava sendo assaltado
por sonhos eróticos com protagonistas masculinos nus, com a diferença de que o
ator principal desses sonhos já não era exclusivamente o Felipe, mas qualquer
colega, vizinho ou amigo que tivesse uma bunda que eu considerasse
"boa". Comecei a sonhar com situações em que eu os penetrava em
vários lugares, sempre de pé ou de quatro, fazendo-os gemer com a potência do
meu sexo e visualizando suas bundas lisas, que eu via nas aulas de ginástica,
judô ou natação. Isso foi me deixando num estado de tensão sexual tão grande
que não vi alternativa senão "provocar" a minha primeira relação
sexual. Ora, a única pessoa capaz de entender profundamente o teor da minha
necessidade era ninguém mais que o amigo de quem eu já não era mais "unha
e carne". Exatamente, o Felipe. E a decisão mais audaciosa de toda a minha
adolescência foi a de, precisamente, chamar o Felipe à minha casa e, dentro do
meu quarto, cara a cara, falar com toda a sinceridade do estado em que eu me
encontrava. Não vou tentar convencer o leitor da veracidade do que vou
passar a narrar. Posso apenas pedir-lhe que retenha na memória que eu declarei
que tudo o que foi contado nela retratava a mais pura verdade. Isso me basta.
Em determinado dia do meu décimo sexto ano, telefonei para o Felipe, que eu só via então nas reuniões do grupo escoteiro, e pedi a ele para vir à minha casa à tarde. Eu estava sozinho, tomado de intensa excitação e muito ansioso. Quando ele chegou, fomos direto ao meu quarto, fechei a porta, tomei coragem e, de pé, a dois passos dele, tentando em vão olhá-lo nos olhos, mas sendo forçado pelo constrangimento a saltar dos olhos à boca e vice-versa, expliquei que estava me sentindo constantemente excitado, tendo ereções de meia em meia hora, sonhos eróticos diários, poluções noturnas, que estava me masturbando até três vezes por dia e que eu precisava que ele me deixasse pelo menos uma vez penetrá-lo de verdade porque isso me acalmaria. Falei num fôlego só, sem deixá-lo interromper-me. Em momento algum usei palavras como "comer" e "dar". Meu discurso saiu espontaneamente livre de expressões pejorativas e deixava claro que eu assumia o meu estado físico e o caráter insuportável da minha carência sexual. Talvez tenha sido isso que, mais uma vez, para espanto meu, tenha motivado o Felipe a novamente responder agindo. Ele simplesmente me olhou com ar de velho conhecido e foi abrindo o cinto para baixar a calça azul do colégio e a cueca — uma cueca de tecido amarelo de furinhos –, e debruçar-se na minha cama alta, oferecendo a bunda branca, completamente lisa, que tanto me excitava e que era a minha predileta. Eu estava autorizado a comê-la.
E comi. E trepamos como só adolescentes trepam, isto
é, sem manhas, sem hipocrisia, com toda a naturalidade para expressar tanto o
desconforto quanto o êxtase. Inicialmente, "errei o buraco" várias
vezes porque minha glande superlubrificada escapulia, até que, tateando com os
dedos e empunhando meu membro com força consegui mantê-lo bem direcionado. Depois,
foi a vez de Felipe descobrir sozinho que só se consegue dar sem dor um cu
relaxado. Quando essas condições estiveram reunidas, pus força no corpo e senti
meu sexo ser dolorosamente comprimido pelo diafragma anal. Felipe gemeu,
gritou, reclamou, disse que "se era assim", queria parar. Fiz uma
pausa, mas implorei que ele me deixasse recomeçar. Lembrei da saliva grossa e
deixei escorrer um espesso fio que ligou minha boca ao meu sexo duro que eu via
entre os gomos brancos e lisos da bunda do meu amigo. Foi a solução. Vi a
glande começar a sumir pouco a pouco, sentindo-a ser tragada pelo cu que,
embora ainda incrivelmente apertado, concedera enfim acolhê-la, sob os
protestos de dor do Felipe, que se contorcia na minha cama, empurrando-me para
trás com a mão. Parei de novo e esperei, mas não saí de dentro dele. Quando ele
se acalmou, segurei-o pela cintura e puxei. Meu membro dobrou como um arco e
fez que ia sair. Senti dor, tive que segurá-lo firmemente e fazer ainda mais
força. Felipe chegou a ficar quase de pé para combater o desconforto. Quando o
convenci a curvar-se de novo, a ficar bem debruçado na cama, abrir as pernas e
empinar-se ao máximo, fui tão certeiro que a cabeça mergulhou:
"plop!" Felipe exclamou, realmente assustado: "Entrou tudo,
cara! Tá me arrombando! Tira! Tira!"
Rindo de nervoso e fazendo outra pausa, expliquei que
a cabeça tinha passado mas faltava o resto. Felipe queria desistir,
argumentando que eu já deveria estar satisfeito, que eu poderia inclusive
gozar. Para mim, era fora de cogitação terminar daquele jeito e gozar fora
depois de tanto sacrifício e humilhação para obter aquela ocasião única. Pedi
paciência, esperei que ele se resignasse mais uma vez, tornei a apelar para a
saliva e voltei à carga. Para alívio de ambos, a saliva e talvez o suor anal
produzido pelo atrito lubrificaram tão bem a área que meu membro começou
lentamente a deslizar para dentro, até ficarmos colados um no outro. Lembro-me
de ter entrado em euforia, dito que a sensação era maravilhosa e que a bunda do
meu amigo era linda. É verdade, eu disse literalmente: "A tua bunda é
linda, cara!" Pude enfim me concentrar na sensação provocada pelas
pulsações anais que premiam energicamente o meu membro e, para felicidade
minha, Felipe deu sinal de que estava começando a sentir prazer ou (para ser
bem realista), pelo menos, a deixar de sentir dor e desconforto. Intuitivamente,
iniciei os primeiros movimentos do sexo de toda a minha vida, registrando cada
sensação, como o repuxar do freio da glande devido à pressão anal sobre o
prepúcio, a umidade do local, os odores, o tato...
Éramos jovens e inexperientes, mas soubemos descobrir
o que havia para descobrir. Meus movimentos foram se tornando cada vez mais
livres e amplos. Eu via meu sexo duríssimo e grosso entrar e sair quase todo. Felipe
também começou a aprender a extrair prazer de cada vaivém. A lubrificação
aumentou, vi minhas coxas baterem com mais frequência e mais força nas dele. Por
fim, o relaxamento anal chegou ao ponto ótimo e entramos em sincronia. Estávamos
fazendo sexo de verdade! Entre nós, não havia viado nem macho, passivo nem
ativo. Éramos só mais dois caras descobrindo o sexo na idade em que o sexo tem
que ser descoberto, porém incapazes ainda de obter os favores femininos. No
fundo, a explicação é tão simples!
A harmonia e perfeição dessa primeira penetração me
deixaram exultante e Felipe começou a demonstrar um real prazer quando tudo
fluiu e não havia mais a mínima dor. Contudo, os minutos foram passando e eu
não sentia o menor indício de que ia gozar. Eu me sentia como se pudesse ficar
ali a tarde inteira, entrando e saindo do Felipe com a intensidade que fosse. O
desejo de gozar estava presente, mas só na vontade, não no corpo. Comecei a
procurar uma razão, olhando para baixo e vendo meu membro sumir e ressurgir
daquela bunda tão sensual quando, subitamente, lembrei-me do meu velho
condicionamento. Foi um choque. Seria hora de confessar o segredo mais bem
guardado da minha existência? Abaixo de mim, Felipe começava a dar sinal de
cansaço, respirando forte e voltando a mexer o corpo, cobrando-me silenciosamente
o final da experiência. Mas o final da experiência é o orgasmo, a ejaculação, e
nada estava mais longe das intenções do meu corpo do que o orgasmo!
Tive que tomar, na mesma ocasião, a segunda decisão
mais difícil da minha vida até então, e a tática que me pareceu mais adequada
foi a de entrar na pele do meu amigo e agir em vez de falar muito. Sem parar de
penetrá-lo, puxei o Felipe pela cintura e o fiz ficar de pé. Em seguida, peguei
uma mão dele e pus espalmada na minha bunda. Ele se espantou um pouco, mas
começou a acariciá-la. Enquanto ele se distraía com isso, lubrifiquei bem meu
orifício com saliva grossa e ordenei, decidido: "Mete um dedo,
Felipe." Ele já estava numa espécie de torpor porque eu não interrompia
meu vaivém, mas a mudança de posição foi uma boa ideia e elevou seu grau de
excitação. Suavemente, ele levou a mão até o sulco e o invadiu à procura do
orifício, massageou a entrada e começou a introduzir um dedo. A velha sensação
ressurgiu imediatamente com toda a carga erótica habitual. Enquanto eu me
colava em Felipe para dar mais folga ao seu braço, deixando apenas que o nosso
balanço cuidasse da minha penetração, fui sentindo a dilatação anal, e as
deliciosas pulsações das minhas reminiscências se desencadearam enfim.
Felipe me pediu para confirmar se era isso que eu
queria, mas só pude responder com gemidos porque o vagalhão do orgasmo já
mandara aviso. Sentindo-me grato, resolvi retribuir com uma carícia íntima.
Isso trouxe de volta a ambos excitação plena. Felipe recomeçou a mover-se para
facilitar a minha penetração. Estimulado por mim, seu membro voltou rapidamente
à ereção total. Em pouco tempo, sua respiração se alterou, ele começou a
anunciar o orgasmo e calculei que poderíamos gozar juntos. Acelerei os
movimentos puxando-o pela cintura para me grudar nele, afastei-o da cama para
evitar a colcha, já retendo ao máximo o meu próprio orgasmo e, assim que ele
disparou o primeiro jato, senti um espasmo fortíssimo e irrompi num gozo
alucinado, fazendo-o gemer forte a cada vez que o meu sexo pulsava e ejetava
meu esperma dentro dele. Esses poucos segundos foram de um êxtase
descontrolado, durante o qual não parei de masturbá-lo, sentindo seu membro
pulsar e tentando direcioná-lo para que que o esperma terminasse no chão do
quarto. A atmosfera erótica ficou tão intensa e explícita que as inibições e
barreiras caíram por terra e nos vimos sem censura, cada um entregue ao prazer
do modo mais espontâneo. Lembro-me de ter pedido várias vezes, gemendo muito,
que ele não parasse de enfiar-me o dedo, e o mais fundo possível. Quando os
espasmos cessaram e paramos de ejacular, ficamos no meio do quarto, colados,
ofegantes, até que meu membro deslizou para fora e o senti pesado entre as
coxas, ainda inchado e semi-anestesiado. Me lembro de tê-lo examinado e
ficado um pouco assustado ao ver a cabeça tão vermelha e senti-la dolorida na
região do freio. Tive um alívio quando vi que não havia sangue.
Felipe, por sua vez, voou para o banheiro e voltou com
a mesma cara boa e simpática de sempre, mas ele me pareceu transfigurado, seus
olhos mais brilhantes e vivos que de costume. Talvez isso se devesse ao fato de
que ele acabara de fazer-me o mais belo gesto que jamais outra pessoa me
faria na vida. Felipe foi a pessoa que fez com que eu me conhecesse e me
aceitasse como sou desde sempre. Se não fosse por ele, as mulheres da minha
vida, que eu começaria a descobrir sexualmente poucos meses depois daquela data
histórica, teriam sido outras, teriam sido as mulheres erradas, as mulheres que
não tolerariam o meu modo peculiar de atingir o orgasmo. Foi graças ao Felipe
que pude encontrar as mulheres certas, as mulheres de horizontes amplos,
aquelas que entendem a diversidade e riqueza do prazer masculino. É por isso
que dedico a ele este relato, através do qual eu quis mostrar o quanto são
múltiplas as causas possíveis para as atitudes e práticas sexuais que cada um
adotará e que o acompanharão vida afora. Uma mudança de cidade nos separou para
sempre, mas se porventura algum dos meus leitores ouvir, de um certo Felipe, um
relato que difira deste unicamente por ser contado de outro ponto de vista,
queira transmitir-lhe a minha mais profunda simpatia e o meu eterno
agradecimento.

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