Muitos anos se
passaram até nos encontrarmos e podermos finalmente ter uma conversa
esclarecedora. Isso foi em 2010. Até então, as lembranças se misturavam em
minha mente; eu não tinha mais certeza do que havíamos feito. Durante anos e
anos, eu tentara uma reaproximação, fosse ela por correspondência, mas em vão. Quando nos vimos,
naquele dia de primavera, tive a impressão de que ambos ansiávamos por uma
coincidência como aquela. Estávamos perto de um pub onde podíamos beber e
conversar à vontade. Nos cumprimentamos, propus entrarmos, comentamos nosso
aspecto físico atual, trocamos perguntas cordiais sobre a vida e a família,
pedimos gin tônica, fiz um longo preâmbulo e cheguei enfim ao cerne da questão.
— ...e no decorrer da vida, as lembranças que eu tinha
sobre nós dois foram tornando-se incertas a ponto de levar-me a crer que
tínhamos ultrapassado os limites da mera amizade.
— Ah, meu caro, quanto a isso, teremos que trabalhar
juntos porque no que me diz respeito, certas lembranças estão afogadas num mar
de imagens semelhantes que se confundem.
— Que provém do fato de que nossas vidas tomaram rumos
perfeitamente convencionais: nos casamos, tivemos filhos...
— Provavelmente.
— Mas você se lembra do quanto éramos próximos, não?
— Claro! Éramos os melhores amigos do mundo e ninguém
me deixava mais à vontade que você.
— Posso dizer o mesmo, mas — ignoro por quê — não sou
capaz precisar se...
— Se "transgredimos"?
— Essa é a palavra adequada para qualificar as
lembranças que vão tornando-se cada vez mais incompletas, vagas e confusas em
minha memória. Por exemplo, você se lembra de uma vez, nas férias, em que
tivemos que caminhar para chegar à praia no meio da noite e nos demos as mãos
para não nos afastarmos um do outro e nos perdermos?
— Acho que sim, mas é uma lembrança longínqua.
— Faça um esforço. A noite estava um breu e havia uma
vegetação rasteira sobre a areia. Estávamos descalços e morrendo de medo de
topar com algum crustáceo ou uma cobra.
— Sim, sim, agora me lembro! Aquilo foi uma
temeridade!
— Pois bem, essa imagem é nítida em minha memória, e
me lembro que fiquei feliz por sermos amigos a tal ponto. Andar de mãos dadas
com você foi uma das coisas que me marcaram.
— E embora você fosse forte e vigoroso, eu era mais
alto, e me lembro de ter sido o guia, não foi isso?
— Sim, sim, você foi o guia, naquela escuridão. Eu não
sabia para onde íamos! E me lembro que tínhamos que chegar onde o seu pai
estava, pescando à noite, mas de nada do que aconteceu ao chegarmos.
— Eu certamente fui pescar com os adultos. Você não
pescava, deve ter sentado na areia para assistir um pouco à pescaria e esperar
para ir embora com todos. Meu irmão mais novo não estava lá, já devia ter ido
dormir, portanto você deve ter se sentido bem entediado e solitário.
— De onde veio essa idéia de falar do seu irmão?
— Ele já nos falava da "brincadeira secreta"
de vocês dois.
— Ah, sim. Pois é, eu estava imerso em dúvidas. Seu irmão
aceitava os meus avanços e eu tinha uma timidez doentia com as meninas. Você se
lembra disso?
— Muito bem. Eu saí namorando a partir dos quinze e
você, nada. Mas não ligue para isso. Só toquei no assunto porque o julguei
pertinente ao nosso tema. Voltemos a ele. Você tem razão, há coisas que podemos
deduzir a partir das nossas lembranças fragmentadas dos mesmos fatos.
— Sim, sim, sem dúvida. Você não se lembra de nada que
possa ter acontecido entre nós, naquelas férias, além desse episódio da
caminhada noturna?
— Não, de nada. Eu só pensava em pescar ou ir à única
boate do centro, à noite, para conhecer meninas diferentes todo dia.
— Eu me lembro bem dessa boate, e de você aos beijos
com uma menina, na praia, uma vez.
— Ah, foram muitas, em todas as férias que passamos
lá!
— Eu quase arrumei uma namoradinha paulista. Nos
correspondemos por alguns anos. Depois ela se casou e perdemos contato.
— Você era sério. Eu levava os namoricos na
brincadeira, queria saber de beijar, desbravar o corpo das meninas com as
minhas mãos bobas e, a partir dos dezessete anos, levá-las para a cama.
— Tenho outra lembrança vívida que eu gostaria de
comparar com a sua, mas é um tanto constrangedora.
— Pois não se acanhe e vamos a ela!
— Um dia em que estávamos os dois no seu quarto, você
foi tomar banho e voltou enrolado na toalha. Eu estava sentado na cama e você
chegou bem perto, soltou a toalha e se aproximou muito de mim. Você estava
excitado. Você se lembra disso?
— Como se fosse ontem. Você me tocou.
— Não!
— Sim.
— Me lembro de você chegando muito perto de mim, mas
me lembro de ter resistido, de ter mandado você parar. Durante algum tempo,
tive na mente a impressão de um gesto, um tapa no teu* sexo, um tapa seco mas
não violento, apenas para que você o tirasse da minha frente, mas acho que até
isso é mais fruto de fantasia do que parte da lembrança.
— Eu posso ter insistido, mas você não relutou muito. Quanto
ao tapa, não me lembro dele.
— Relutei para...? Se eu te disser que minha memória
se detém nesse frente-a-frente sem tapa e sem toque, você acredita?
— É claro. Fiz terapias e sei perfeitamente que eu
mesmo recalco certas lembranças. Você deve ter feito o mesmo.
— Recalque... É, pode ser. E me diz, eu... só toquei
ou fui além?
— Você quer mesmo ir fundo nessas lembranças?
— Quero sim. É importante para mim.
— Pois bem, eu poderia afirmar com toda certeza que
você me tocou franca e intencionalmente, que não foi um tapa, e que mal
podíamos nos encarar depois disso. Você foi para casa e ficamos sem nos ver por
algum tempo, talvez por meses.
— Eu masturbei você?
— Não, mas você empunhou meu sexo, olhou para ele e
soltou, encabulado.
— Que loucura! Como pude esquecer uma coisa tão fora
do comum?
— Recalque. É a única explicação que encontro.
— E você retribuiu de alguma forma?
— Não, mas se você não tivesse parado, teríamos ido
mais longe porque eu estava excitado e me sentia à vontade com você. Tudo foi
muito rápido, mas naquele dia, passei a ver você como bissexual sem nem mesmo
entender bem o que era isso. Eu não tinha nenhuma dúvida de que você gostava de
meninas, mas aquele episódio somado ao que o meu irmão mais novo contava serviram
como evidências de que a sua atração não se limitava a elas.
— É, não tenho o menor impulso afetivo por homens. Seu
irmão era como uma válvula de escape puramente sexual para mim, numa época em
que eu não conseguia me aproximar das meninas.
— Entendo perfeitamente e acredito em você. E não pense que dou
muita importância a isso, ouviu? São coisas comuns na adolescência, e embora
beirando os dezoito, nossa maioridade era puramente numérica.
— O que não entendo é que se nós éramos tão amigos — e
éramos –, eu não tinha motivo para recalcar o que fiz.
— Nunca mais tocamos no assunto. Quando nos revimos, o
episódio estava riscado das nossas vidas.
— E eu não me lembro sequer de ter sentido vergonha ao
chegar em casa, ou de ter me perguntado se o fato de ter feito aquilo me
caracterizaria inexoravelmente como homossexual. Mas sendo quem sou, devo
certamente ter passado por um momento de crise.
— É possível, mas depois, você deve ter dito:
"Isso não foi nada, não significa nada, aconteceu com o meu melhor amigo, posso
esquecer." O mais curioso é que você estava em plena atividade na tal
brincadeira secreta com o meu irmão. Vocês se viam, ele ia à tua casa e não sei
o que acontecia por lá.
— Não vou mentir: aconteceu.
— Masturbação? Felação? Penetração?
— Uma tentativa de penetração, incompleta, para minha
total frustração. Eu estava obcecado por isso.
— Enquanto ativo e ele passivo?
— Sim.
— Você se lembra de uma vez em que o meu pai te
perguntou...
— Naquele dia, na sala, diante dos três irmaõs? E como
me lembro! Ele me perguntou se eu gostava de meninos, em clara alusão ao que o
teu irmão e eu fazíamos... que aliás eu não imaginava que alguém soubesse!
— Você se defendeu dizendo que era só uma brincadeira.
— Eu não sabia onde enfiar a cara! Me senti como se
abusasse do teu irmão, mas não era abuso porque durante muito tempo ele
correspondeu bem à nossa "brincadeira"! Fui eu que, depois da
tentativa de penetração, me afastei dele.
— Meu pai gostava de você, sabia que você era íntegro
e, principalmente, que gostava do meu irmão, não queria apenas
"usá-lo". Tanto assim que o que ele fez não foi dar uma bronca, mas
alertar você para o fato de que se relacionar sexualmente com meninos poderia
complicar sua cabeça. Mas devo dizer que o meu irmão contava os dias para ver você
lá em casa, retomar a tal brincadeira secreta pelos cantos e dividir a cama com
você.
— É verdade, era comum eu ficar na cama dele quando
nós dormíamos todos no mesmo quarto. Você e o irmão do meio ficavam acordados?
— Nem era preciso; ele nos contava tudo no dia
seguinte: vocês se tocavam, depois dormiam grudados um no outro.
— É verdade. Mas não pense que tudo eram flores. Eu
ficava ansiosíssimo, querendo tudo e me permitindo um mínimo.
— Sem culpas, meu caro; vocês não eram os únicos.
— Você está se referindo a você com o irmão do meio?
— Você está a par de alguma coisa?
— Numa ocasião, fui procurá-lo para desabafar e ele
acabou me contando, para aliviar um pouco o peso que eu punha nesse assunto.
— E o que ele disse a meu respeito? Você pode falar; já
não me importo e não vou brigar com ele por ter contado a você.
— Bem, ele me disse que vocês iam às últimas
consequências e que você... bem, que você "se oferecia".
— Imagino até que termos o meu simplório irmão terá
usado. Mas é verdade; paradoxalmente, eu vivia atrás de um rabo de saia, mas em
casa, sozinhos os dois, eu pedia a ele para tomarmos banho juntos e acontecia
regularmente.
— Parece mesmo paradoxal. Nunca imaginei você nessa
posição.
— Foi exclusivamente com ele e era segredo de Estado.
— É aí que quero chegar: foi mesmo só com ele? Isto é,
nós dois... não fomos além, naquele dia em que você saiu do banho e eu estava
no teu quarto?
— Que eu me lembre, não. Você se tornou muito arredio
comigo, mesmo que não tocássemos mais no assunto.
— Vamos avançar um pouco mais. Você se lembra da
Mônica?
— A primeira namorada que levei para a cama? E como!
Passávamos tardes inteiras fazendo amor... ou melhor dizendo, sexo. Por quê?
— Você não se lembra de nada extraordinário nos
envolvendo?
— Só nós dois, fora as brincadeiras a três? Não, nada.
— E se eu te disser que tenho na memória a lembrança
de termos passado um fim de semana juntos, naquele apartamento imenso de vocês,
quando teus pais viajaram com teus dois irmãos...
— E nós... transgredimos?
— Segundo eu me lembro, inicialmente, vocês me
autorizaram a assistir e a tocar em vocês, depois eu participei e nós dois...
— Diante da Mônica? Você tem certeza disso? Não me
lembro.
— É como eu disse, tenho a lembrança, mas começo a
duvidar daquilo que me lembro, por isso dou tanta importância a essa conversa
de hoje.
— Entendo. Você tem alguma imagem específica que me
permita visualizar um pouco esse dia?
— Acho que tenho. Estávamos os três nus e a Mônica fez
uma macarronada. Durante o almoço, ela se levantou e foi sentar no teu colo. Vocês
fizeram sexo assim, à mesa, durante o almoço e na minha frente. À certa altura,
a Mônica me chamou e quando cheguei ao lado de vocês, ela me fez uma felação e
pediu a você que me tocasse enquanto a penetrava.
— De fato, me lembro vagamente de uma cena de sexo com
ela, na copa, misturada a imagens de mesa, pratos, comida... Mas você estava
presente?
— Sim.
— E eu toquei em você? Meu Deus, como a memória nos
engana!
— Recalque também? Enfim, é por isso que preciso de
você para reconstituir um pouco da minha vida na época. Naquele fim de semana,
eu tenho a nítida lembrança de termos feito sexo a três com a Mônica e que não
poupamos contatos um com o outro.
— Você e eu?
— Sim. Sem penetração, mas contatos bem íntimos.
— Não me lembro disso. Como ter certeza? Como ter
certeza?
— E digo mais: ela nos instigava.
— De que modo? Você se lembra de outro exemplo?
— Sim. Ainda nos vejo sentados juntos, os três, no
sofá, várias vezes, durante aquele fim de semana. Ela se sentava entre nós
dois, nós a bolinávamos e ela pegava nossas mãos e punha no sexo duro um do
outro.
— Estou impressionado. Eu poderia jurar que são
resquícios de sonhos.
— Eu também! Não tenho certeza de nada, que isso fique
bem claro. São lembranças que não querem dizer nada, porque só minhas e
portanto sem força de prova. Posso tê-las acrescentado ao longo da vida, por
puro desejo de que as coisas houvessem acontecido dessa maneira.
— Você tinha atração física por mim?
— Esse ponto é interessante. Depois da puberdade,
minhas pernas e coxas logo se cobriram de pelos, mas você ficou liso e, à certa
altura, ver você nu começou a me excitar, mas unicamente de costas. Foi só bem
mais tarde que prestei atenção ao sexo, porque me chamava a atenção pelo
tamanho, bem maior que o meu.
— Voltando ao fim de semana com a Mônica, você se
lembra se nós dois chegamos a...
— Não tenho imagens, mas é possível. Me lembro que
levamos a Mônica para casa no domingo à noitinha e voltamos para a sua casa. Você
já tinha carro, mas a carteira ainda não tinha saído. Minha memória me diz que
você estava extremamente excitado com aqueles dois dias de libertinagem e que
nós tomamos banho juntos para não ter que parar de falar.
— Coisa que fizemos dos doze aos dezenove!
— Algumas vezes, sim. E naquele dia, é possível que
tenhamos tentado algo de mais... ousado, mas quero deixar bem claro que não
tenho imagens na mente, só a vaga lembrança de uma excitação fora do comum.
— Para ser franco, me lembro de nos termos tocado em
banhos, mas sou incapaz de datar isso porque os episódios se confundem num só
tipo de impressão que eu qualficaria de "conceptual".
— Entendo. Como as milhares de lembranças de casas,
que se fundem pra formar o conceito universal "casa", desprovido de
imagem. Talvez seja essa a resposta.
— E para piorar as coisas, eu confundo muito a imagem
do meu irmão do meio com a sua em cenas mais "transgressivas". É
possível que eu fizesse com ele pensando em você. Agora , forçando
muito a memória, quem eu vejo nesse dia que você diz ter sido um domingo, é ele,
mas nem posso chamar isso de lembrança porque não me vem imagem alguma.
— Isso seria impossível porque teus irmãos estavam
viajando com teus pais. Me lembro de você lamentando ter levado a Mônica para
casa porque você ainda estava muito excitado.
— Pois a minha memória me diz que meus pais estavam de
volta quando nós voltamos da casa da Mônica. É possível que eu tenha tomado
banho com o meu irmão do meio e feito algo com ele, já que isso era
relativamente comum entre nós, mas disso você não sabia, na época.
— E se foi o caso, eu tenho uma lembrança deturpada,
talvez em virtude de um eventual desejo intenso de ter estado no lugar do teu
irmão ao ver vocês indo para o banho juntos.
— Não deixa de fazer sentido porque, se tudo foi como
você diz, aquele fim de semana deve ter sido intenso! Eu, francamente, não me
lembro desse banho com você. E mais: me lembro de brincadeiras de banho lá em
casa e na casa de vários amigos, mas tudo está também muito confuso em minha
memória porque como eu tinha uma vida muito intensa e era supersociável, a
quantidade de rostos e de imagens superpostas que me vêm à mente é assustadora.
É muito difícil individualizar os eventos e mais ainda datá-los.
— Ao contrário de mim, que vivenciava cada momento
passado com vocês como se fosse um episódio excepcional na minha vida de filho
único.
— O que significa que não só você é uma fonte mais
fidedigna que eu, como devia dar muito mais importância que eu a esses
episódios para mim banais.
— Justamente, não sei se sou uma fonte mais fidedigna.
Você pode estar esquecido ou confundir as lembranças, mas eu tenho a impressão
de estar "enriquecendo" minhas lembranças primeiras.
— Eu devo fazer a mesma coisa e acho que todos fazem,
mas uma coisa é certa: comparando nossas lembranças, podemos pelo menos ter
certeza quanto ao que elas têm em comum. Agora você tem certeza de 3 coisas ao menos:
(1) andamos de mãos dadas na escuridão e você desejou essa proximidade; (2)
"provoquei" você no meu quarto, ao sair de um banho e você desejou
essa proximidade; (3) tomei um banho com alguém, no fim de semana que passamos
lá em casa, com a Mônica, e você desejou essa proximidade. Eu considero isso um
grande avanço, você não? Até hoje, nem mesmo esse desejo de proximidade era
claro para você.
— Tem razão, é um avanço. E não sei o que você vai
achar da idéia, mas deveríamos nos esforçar para nos lembrarmos melhor desses
episódios e, num novo encontro, compará-los e atualizá-los.
— É uma idéia. Vamos mudar um pouco de assunto para
espairecer e combinar um novo encontro aqui mesmo.
Quando nos
separamos, eu estava me sentindo estranho, como se tivesse acabado de viver
certas coisas e minha memória estivesse cheia de lembranças recentes. Era como
se tivéssemos reconstituído juntos uma parte de quebra-cabeças e as peças
reunidas tivessem revelado uma imagem que eu conhecia bem. Eu não conseguia
recuperar as impressões tácteis da minha mão em contato com o pênis do meu
melhor amigo ou do meu corpo em contato com o seu no banho. De fato,
essas impressões se assemelhavam mais a desejos do que a lembranças
propriamente ditas. A conclusão a que cheguei é que o desejo é capaz de alterar
dados da memória.
Semanas se passaram. Eu fora procurar o irmão do meio
e trazia novidades, no novo encontro com meu ex-melhor amigo. Cumprimentamo-nos
amistosamente e entramos no mesmo pub para conversar tomando drinques.
— Acho que poderemos chegar a uma conclusão sobre o
famoso banho no tal dia em que levamos a Mônica para casa.
— Ah, sim? Estou curioso!
— Seu irmão confirmou que seus pais, ele e o caçula
chegaram de viagem enquanto estávamos levando a Mônica em casa. Ele se lembra bem
disso, e mais ainda: se lembra de ter tomado banho com você.
— E você confia nessa lembrança?
— Sim, porque ele me deu uma boa razão para crer: ele
afirma ter "provocado" o tal banho quando você contou-lhe o nosso fim
de semana.
— É possível, é possível... respondeu meu amigo, como
se buscasse imagens na memória.
— E se for o caso, esse ponto está resolvido, disse
eu. Eu devo estar misturando as coisas na memória e me pondo no seu lugar com
ele, nesse banho que eu devo ter desejado.
— Isso incomoda você?
— Sim porque essas lembranças certamente já foram
inquestionáveis. É uma pena que sejam corruptíveis!
— Nunca parei para pensar se isso está me acontecendo
também, mas quem sabe? Vou começar a prestar atenção.
— Pois é, a mente nos prega peças!
Quando nos separamos, fui caminhar resumindo o que
tínhamos discutido até aquele dia. O episódio mais antigo, o das mãos dadas no
escuro, não era dos mais complicados e não deve ter tido maiores consequências;
meu amigo deve ter ido pescar com os outros e eu provavelmente ficara na praia
remoendo minha frustração e esperando que a pescaria acabasse. O último
episódio, o do banho no dia da Mônica, acabava de ser esclarecido: não fora
comigo e sim com o irmão do meio. Restava, como única possibilidade de me
certificar de que eu tivera momentos íntimos com o meu melhor amigo, o episódio
intermediário, ocorrido no quarto dele. Mas como fazer, já que não era eu que
me lembrava que o tocara, mas ele? E se ele estivesse padecendo do mesmo
problema que eu e tivesse "enriquecido" o episódio, acrescentando-lhe
um contato íntimo desejado, mas de modo algum concretizado? Se ao menos
pudéssemos tentar uma reconstituição, como nas investigações criminais! Mas
isso não me interessava, a essa altura da vida em que toda e qualquer atração
entre nós se esvaíra há muito. E o problema me parecia tanto maior porque se eu
era incapaz de ter certeza absoluta de algo tão intenso, era muito plausível
que isso estivesse acontecendo com muitos outros episódios da minha vida, e não
só da minha vida sexual! Caso o meu cérebro estivesse apenas sendo capaz de
"mentalizar" (i.e., por sob forma mental) lembranças de segunda
ordem, isto é, lembranças de lembranças e, talvez por causa disso,
"enriquecendo" essas lembranças de segunda ordem com imagens que eram
mero fruto do desejo, a consequência seria que dentro em breve eu já não
poderia dizer como fora o início da minha vida sexual, e isso me parecia
catastrófico. Parentes, amigos e gravações de sons e imagens servem como
testemunhas dos fatos das nossas vidas e são referências fidedignas para os
mesmos, mas como fazer para os casos em que esses recursos estão ausentes? Não
me bastava a crença no que o meu amigo dizia; eu precisava de uma prova
concreta de que naquele dia eu empunhara intencionalmente o seu sexo em plena
ereção para soltá-lo tão-logo e corar de vergonha.
A prova visual nunca se deu, mas hoje posso afirmar
que a ruptura é a prova, a ruptura — efetuada na origem — de qualquer vínculo
erótico que porventura houvesse entre o meu melhor amigo e eu. Depois daquele
dia, nunca mais houve a menor ambiguidade em nossa relação; éramos
amigos tout court. A vergonha decidira por nós, ou melhor, por mim,
talvez porque eu tivesse antevisto consequências trabalhosas e repercussões
temerárias no caso contrário. A certeza encerrara o capítulo e é por isso que a
minha lembrança se detinha antes mesmo do ato que poria as minhas convicções à
beira do abismo. A conclusão final que posso depreender dessa investigação é
que a mente tem certa capacidade de proteger a memória das incursões do desejo,
e que isso é para o bem da vida.

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