No dia 31 de
dezembro, o único estado de espírito que ocupa o professor é a falta de sua
sala na faculdade de filosofia da PUC. É lá que ele se sente existir e é
lá que a sua solidão se dilui no burburinho do dia-a-dia acadêmico. É lá também
que ele tem as suas fantasias, habitualmente com pessoas que lhe são
diametralmente opostas em tudo. Quanto à realidade das suas relações
afetivas e sexuais, sempre foram de nerd para nerd e aparentemente jamais
deixariam de ser. Mas neste 31 de dezembro...
— Marcela?!, exclama o professor, surpreso,
abrindo a porta do pequeno apartamento da rua Santa Clara.
— Oi, mestre,
responde a lourinha recatada, de grandes olhos azuis por trás da lente espessa
dos óculos antiquados.
— Aconteceu
alguma coisa?
— Desculpe
incomodar, Cícero, mas aconteceu, sim: estou sozinha e com medo de me deprimir,
declara ela, os olhos já invadidos pelas lágrimas.
— Não diga
isso, Marcela! Entre, entre. Você vai passar o réveillon comigo. Vamos
conversar, comer bem e ir ver os fogos na praia, que tal? Eu também estou
sozinho, então vamos fazer companhia um ao outro.
Enxugando as lágrimas por baixo das lentes, a jovem
sardenta de cabelo em rabo-de-cavalo e econômica de gestos devido à timidez
excessiva avança na sala abarrotada de livros. Seu corpo de jovem de vinte anos
transparece na velha jeans e na camiseta que revela as axilas, que ela vestiu
de qualquer maneira, minutos antes, na república em que ela mora com mais
quatro estudantes, a algumas quadras da casa do seu professor. Isso perturba
Cícero, dividido entre prestar-lhe auxílio e olhar para ela, o que o excita.
— E suas
colegas da república, Marcela?
— Foram todas
passar o réveillon na casa da família.
— E isso não é
a situação ideal, para você? A casa toda sua para ler e estudar no canto que
você quiser?
— É sim, sempre
foi, mas não sei o que me deu hoje.
Ela diz isso apertando as mãos, aflita, o que projeta
levemente os seios, fazendo-os balançar sutilmente. Cícero imagina-os
rosados, de mamilos generosos, ávidos de uma boca ardente.
— Vamos sentar
um pouco, Marcela, convida ele, indicando o sofá e sentando-se ao lado dela.
— Obrigada.
— Você quer
beber alguma coisa: uma Coca, um suco de laranja...?
— Você divide
uma Coca comigo? Não aguento uma inteira.
— Claro, claro.
Vou buscar.
Cícero se levanta e vai até a cozinha, pega uma
latinha do refrigerante, um limão e a forma de gelo no congelador, e vai
preparar dois copos. Ele não se apressa, tentando bolar algum meio de distrair
essa aluna deprimida. Passar o dia com ela poderia ser custoso. Talvez fosse
melhor sair com ela, passear, ir a algum lugar onde ela pudesse ver um pouco de
animação. Outra opção, caso seu estado se degradasse, seria levá-la à casa da
sua irmã Beatriz, que tem casa grande, filhos, cachorro e onde a bagunça reina
dia e noite. Ela o convidou, e ele recusou precisamente por causa disso, mas
sendo sua única e querida irmã, poderia facilmente reconsiderar. Senão, havia o
Bernardo, seu melhor amigo, mas seria bem mais complicado porque ele estava às
voltas com o problema de um assalto recente. Cícero volta para a sala com os
copos, mas sem nenhuma solução na cabeça. E então, acontece o inesperado.
Ao chegar à porta da cozinha, ele não vê Marcela. A
segunda coisa que lhe vem à cabeça é ir até a janela para tentar vê-la na
calçada, já que a primeira foi imaginar que ela desistiu e foi embora. Mas ele
não a vê do seu terceiro andar com ampla vista para a rua.
— Marcela! ele
chama, interrogativamente.
— Aqui, Cícero,
responde uma vozinha desfiada vinda do interior do apartamento.
Ele deposita os copos sobre uns papéis na mesa
abarrotada e caminha em direção à porta que dá acesso ao o banheiro e ao único
quarto da casa. Ele escolhe o banheiro, mas sua visão perférica revela o
movimento no quarto. Quando ele se volta, avista Marcela deitada em sua cama...
completamente nua. Seus olhos são diretamente atraídos pelo monte de Vênus
cujos pelinhos claros e muito bem aparados contrastam deliciosamente com a
textura lisa do corpo.
— Não fala nada
e vem, diz ela, estendendo os braços para ele, com uma expressão indefinível no
rosto.
Cícero não é de tirar a roupa assim, facilmente, na
frente de uma mulher, principalmente quando ele esteve à vontade em casa
durante horas, sem se preocupar com a roupa de baixo. Por sorte, ele se lembra
que neste 31 de dezembro, entra em vigor o seu ditado prefrerido: ano novo,
roupa nova. Ele está usando uma imaculada Calvin Klein branca, presente do seu
amigo professor titular de epistemologia na faculdade. Sem tirar os olhos do
corpo de Marcela, ele despe prontamente a bermuda cáqui e a polo bordeaux e
caminha até a cama. A primeira coisa que ela faz é abocanhar seu sexo já
revolto na cueca nova enquanto leva a mão dele até o seio.
Cícero contempla a nudez da aluna. Os seios cônicos e
suficientes mantêm-se firmes e apontados para cima, enquanto ele os acaricia
com a mão e percorre o seu corpo, peito e barriga abaixo, rumo à pélvis
deliciosa e ao pequeno triângulo isósceles que aponta para o que em
circunstâncias normais, seria para esse professor um sonho impossível, uma mera
fantasia.
Marcela, por sua vez, puxou-lhe a Calvin Klein pelo
elástico estriado e observa o membro que a espia, curvado na direção do seu
rosto. É uma estrutura clara, longa de uns dezessete centímetros por uns cinco
de diâmetro e de glande coberta, obviamente, pois que se trata do pênis de um
professor de metafísica. Mas ele lhe parece grande a contento, maior que a
média observada nos seus poucos namorados nerds. Ele pende acima do seu rosto e
o professor parece não saber que iniciativa tomar. Ela então o empunha porque a
primeira etapa é endurecê-lo completamente, o que não tarda a acontecer. O
membro pulsa em sua mão e isso causa fisgadas no orifício do prepúcio forçando
Cícero a avançar um pouco para convidar Marcela a puxá-lo para trás. Pronto, se
a situação parece não ter pé nem cabeça, o mesmo não se dá com o que ela tem na
mão.
— É grande, diz
ela, voltando os olhos para ele, com ar tímido e parecendo começar a despertar
de uma ação impensada.
— É um tamanho
bom, Marcela, diz ele, gentil, olhando para a convergência das pernas dela e
sentindo-se maltratado pelas pulsações selvagens que vão todas morrer na mão de
sua aluna.
— Você... quer
que eu chupe? indaga ela, como se fizesse a pergunta mais pertinente de toda a
história da filosofia.
— Bem, Marcela,
se não for de todo contra os seus princípios, eu gostaria, sim, responde ele,
com um sorrisinho tímido, mas indubitavelmente irônico.
Ela ergue a cabeça e abocanha a glande, acolhendo-a
toda na boca. Cícero coloca um joelho na cama, permitindo-lhe voltar a recostar
a cabeça no travesseiro e oferecer-lhe essa felação com um mínimo de conforto. Ele
logo percebe que Marcela domina mais que os fundamentos dessa arte. Puxando-o
pela coxa, ela o convida a penetrar profundamente a sua boca, sem dar o menor
indício de náusea. Ela acolhe facilmente dois terços do seu membro e, num
esforço suplementar, faz desaparecer o último terço, colando seus lábios em sua
pélvis. Ao retirá-lo da boca escancarada, Cícero o traz envolto numa membrana
de saliva espessa que escorre até seus testículos. Seria uma pena não
aproveitar toda essa lubrificação, pensa ele. É melhor interromper as
preliminares. Ele poderá presenteá-la depois com uma boa sessão de sexo oral.
Marcela, perspicaz, gira na cama e deita-se
transversalmente com as pernas abertas e rebatidas sobre o corpo. A visão da
fenda longa entre o par de lábios rechonchudos triplica a excitação do
professor que observa de pé, empunhando o membro em riste e gotejante. Marcela
passa dois dedos ensalivados entre os pequenos lábios e seu sorriso se
transfigurou em malícia e desejo.
— Mete,
professor, pede ela, oferecida.
Cícero ajoelha-se na borda da cama, apoia-se nas coxas
dela, pincela o entrelábios com a glande encharcada e aprofunda-se, penetrando
a carne e provocando um avanço brusco da sua aluna, que solta um gemido e o
segura firmemente pelos antebraços, olhando-o nos olhos. O membro que a penetra
é grande, e ela sente a expansão inhabitual do seu sexo, como há pouco sentiu a
da sua boca. Mas, muito bem lubrificado, Cícero avança, penetrando nela até a
base, roçando seus pelos contra os dela. Sua aluna resfolega, invadida pelo
corpo decidido do macho maduro, um corpo que já não procura, mas que vai
diretamente onde deve ir e chega sem hesitar até onde deve chegar. Completamente
penetrada por ele, Marcela olha fixamente Cícero nos olhos, como se dissesse:
"Confio em você."
Ele inicia então o longo vaivém inicial, ampliando,
alargando, aprofundando, em suma, tornando adulto de uma vez por todas esse
corpo ainda verde de sua aluna nerd. A cada penetração, ela franze o cenho e
agita a cabeça de um lado para o outro, tomada por sensações que ela não
conhecia. Sua porta se abriu para um aríete possante que se transformou num
cavalo de Tróia invasor e corpulento, cujos ocupantes estão para ser expelidos
numa enxurrada, figura ela, em sua mente nérdica enquanto aguenta corajosamente
as primeiras investidas esperando pelo momento em que o corpo adaptável as
acolherá com prazer. Cícero é resistente e trabalha com afinco acima dela, sem
beijá-la, sem acariciá-la, profundamente concentrado em sua prospecção. De vez
em quando ela o empurra gentilmente pelo peito, ele aquiesce por cinco ou seis
segundos para que ela respire e reinicia as estocadas ritmadas e sempre
profundas, parecendo capaz de prosseguir indefinidamente.
Mas a natureza é sábia. Aos poucos, o que era esforço
se torna avidez e Marcela passa a desejar que esse corpo maciço se afunde mais
e mais em suas entranhas. Ela geme e pede e chuta e xinga, puxando o professor
pela nuca para forçá-lo a penetrá-la também com a língua, autorizando-o a dar o
passo que, por respeito, ele não foi capaz de dar. Ela o abraça, sentindo-o ir
e vir no seu corpo com seu êmbolo preciso e causar-lhe uma sensação cada vez
mais intensa que se propaga até a raiz dos cabelos. Agora ela sente que poderia
acolher muito, muito, muito mais, e ela chega a desesejar isso. Ela sonha com
mil homens e suas mil vergas pistoneando o seu sexo numa alternância
alucinante, depois ocupando simultaneamente todos os orifícios do seu corpo. Graças
à resistência, regularidade e precisão do seu professor, ela mergulha num
transe orgiástico digno dos mais violentos rituais da Antiguidade. Atingido o
clímax, Marcela revira os olhos e seu gemido se prolonga numa espécie de canto
contínuo e trêmulo. Excitado ao extremo, Cícero se retira dela e detém com
vigor esse animal revolto que lança o fluido da vida pela venta única, em jatos
profusos que batizam o corpo ainda tão puro de sua aluna. Ela os acolhe um a
um, acompanhando sua trajetória e provando com a língua esse estranho orvalho
de indefinível sabor masculino.
Em atitude contemplativa, Cícero ajoelha-se e
inclina-se diante da fenda úmida e ainda entreaberta que ele acaba de deixar. Ele
sente o aroma e prova o sabor procurando retê-los na memória porque sabe que a
lembrança será a única coisa que lhe restará dessa aventura louca com uma aluna
jovem e solitária, num último dia do ano.

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