Novela em 12 capítulos
A pequena ilha de
colonização grega considerada resquício da lendária Atlântida e dita ter sido
cuspida — daí seu nome, Phtinos — pelo próprio Hades está em pleno rebuliço: a
sibila acaba de morrer, precocemente, aos trinta e seis anos de idade, sem ter
tido tempo sequer de encontrar uma sucessora digna dessa posição tão
importante. Será preciso elegê-la pelo voto até o alvorecer porque em Phtinos,
todas as grandes questões passam pelo oráculo antes que qualquer decisão seja
tomada: colheita, comércio, guerra, jogos, diplomacia, educação da juventude,
culto religioso, etc. Tradicionalmente, a sucessora é uma jovem escolhida pela
sibila dentre as virgens do templo de Perséfone segundo critérios como a
devoção à deusa, a conduta impecável, mas sobretudo a comprovada aptidão
divinatória. Na esplanada dos templos, o tumulto é grande e a tensão
transparece no rosto dos responsáveis por essa eleição intempestiva.
Capítulo I - A Eleita
No templo de Perséfone,
doze jovens cobertas da cabeça aos pés por túnicas tão diáfanas quanto seus
véus alinham-se diante da grã-sacerdotisa.
— Uma de vocês será a nova
sibila, diz a mulher de cerca de quarenta anos, altiva, o rosto lívido e tenso.
O conselho dos notáveis da cidade está reunido e amanhã ao alvorecer o nome da
eleita será anunciado. Todas aqui sabem perfeitamente se foram ou não
agraciadas pela Deusa com o dom da profecia, portanto dêem um passo atrás
aquelas que não foram.
Nove dentre as doze virgens
recuam em silêncio. Uma
das três imóveis destaca-se pela beleza imponderável e pelo olhar trágico. A
grã-sacerdotisa vem por-se diante dela.
— Leda, estás ciente do
destino que te espera. Vai preparar-te e recolhe-te para receber o resultado. Quanto
as demais, de volta ao santuário da Deusa. Quero ver todas imersas em oração
até que o resultado seja divulgado, ao alvorecer. E ai daquela que inventar
qualquer mal-estar ou desmaio! ameaça a mulher, severa por força do cargo.
Onze jovens se encaminham
lentamente e em fila para a câmara onde reina a colossal estátua de Perséfone
pintada em cores vivas, enquanto Leda, acompanhada de duas escravas, segue para
o aposento onde as virgens são banhadas, ungidas e vestidas. Elas a despem e
ela entra em silêncio na piscina retangular em cujo espelho d'água flores
silvestres flutuam perfumando o ar.
O dia prossegue
febrilmente. A tensão é palpável e não se vêem mais os notáveis da cidade,
todos recolhidos para votar. A ágora fervilha de pequenos grupos reunidos para
conjeturar sobre a eleita. A ilha é pequena; todos conhecem as virgens do
templo de Perséfone. O sol se põe no oceano, mas Phtinos recusa-se a render-se
ao império de Morfeu e um murmúrio se eleva no céu em chamas.
No dia seguinte, ao
alvorecer, a ágora está apinhada e o tumulto é maior que na véspera. Todos se
comprimem para ouvir a proclamação do nome da nova sibila. A comitiva surge da
esplanada dos templos e o arauto sobe os cinco degraus do prédio dos banhos
públicos, ficando entre duas colunas desgastadas onde se vêem algumas
inscrições obcenas.
— Atenção! Atenção! Saibam
todos que a nova Sibila de Phtinos provém de família renomada, é
comprovadamente virtuosa e possui incontestável dom dinvinatório, sinal de que
é cara aos deuses e nos foi enviada por eles. Seu nome é Aglaia, filha do
comerciante Hermolau, que graças à sua frota, mantém-nos em contato com as
cidades mais importantes do mundo.
O burburinho se restabelece
em meio aos gritos de louvor e aos cumprimentos à numerosa família da eleita,
visivelmente surpresa. Todos se voltam para o templo de Perséfone de onde
deverá sair o cortejo que apresentará ao povo a nova sibila. Entretanto, no
interior do templo, o tumulto é maior que na ágora.
— Por Zeus! exclama a
grã-sacerdotisa, zangadíssima, atirando uma ânfora de bálsamo no chão e
fuzilando com os olhos o porta-voz dos eleitores. O que é que esses idiotas
fizeram durante a noite toda? Leda é a indicada pelos deuses, não essa parva da
Aglaia! A que se deve esse erro tão grosseiro?
— Não sei, Eminência. Fui
encarregado apenas de vir comunicar-lhe o nome da eleita e transmitir-lhe a
ordem de prepará-la para o cortejo.
— Pois Phtinos pagará caro
por essa estupidez! Vai e diz isso ao Conselho. Não sou sibila, mas já
profetizei com êxito muitas vezes em ocasiões cruciais.
— Pois não, Eminência. Com
sua licença, Eminência.
— Voa! Talvez ainda
tenhamos tempo de consertar as coisas.
Capítulo II - Anos Felizes
Legítima ou não, a eleição
foi ratificada e Aglaia tornou-se a nova sibila de Phtinos. Ela logo revelou
ser mais inteligente e perspicaz do que propriamente certeira em seus oráculos,
mas conquistou a todos pela beleza das suas feições, pela expressividade dos
seus olhos e pelo calor da voz que emana dos seus lábios. Todos querem
consultá-la e é com o maior prazer que interpretam seus oráculos de maneira
benévola. Ela guia o povo em decisões sobre a atividade agrícola e comercial,
veiculando a vontade da filha de Deméter a respeito do grão a ser plantado ou
de que produtos exportar e importar, mas também a respeito de casamentos, do
comportamento dos filhos, dos problemas de ordem afetiva, das doenças, das
relações com as demais ilhas e com o continente, das promoções para cargos
públicos e uma infinidade de outras questões. Suas opiniões provém sempre da
razão e de uma perspicácia inhabitual para uma jovem de sua idade. É isso que a
distingue da média e a mantém respeitável.
Ao fim de dois anos sem
incidentes e às vésperas do seu décimo oitavo ano de vida, uma única coisa traz
a Aglaia um ligeiro incômodo; ultimamente, quando ela avista jovens que se
abraçam, beijam ou em qualquer atitude erótica mais ousada — coisa comum entre
os profanos de origem grega —, um transtorno se opera em seu corpo, a ponto de
fazê-la temer que sinais transpareçam em sua fina túnica. Seus mamilos se
intumescem e já houve ocasiões em que um líquido espesso brotou-lhe entre as
coxas e desceu pelas pernas. E isso tem-se agravado com as imagens lascivas que
vêm invadindo seu sono e povoando seus sonhos até pouco tempo tão puros. E como
a posição de sibila torna impossível qualquer confidência, a solidão só faz
agravar seu estado.
Capítulo III - Tormento
No dia do equinócio de primavera
do terceiro ano de sibilato de Aglaia, durante o grande cortejo em homenagem a
Deméter, mãe de Perséfone, quatro rapazes divertem-se despontando de cada saída
das ruelas da ágora e erguendo despudoradamente as túnicas para agitar seus
sexos diante das virgens do templo, que caminham austeras, lentamente, em duas
filas de seis, vestidas nas longas túnicas que nada velam dos seus corpos
imaculados. Aglaia caminha à frente das duas colunas e aparenta indiferença
enquanto parte da populaça, às gargalhadas, instiga o quarteto que dispara até
a ruela seguinte para repetir a brincadeira de mau gosto. As festas da
primavera agitam os humores e as ruidosas orgias dos ricos perturbam a paz de
espírito dos mais pobres, o que enche de sentido o austero cortejo das virgens.
Embora aparentando total impassibilidade, Aglaia reteve na memória a imagem de
um dos rapazes, alto e forte, de belos olhos negros, cabelo denso e lábios
sensuais, que abriu mão da brincadeira assim que seus olhares se cruzaram por
um breve instante. Ela volta ao templo sentindo no corpo os transtornos da
paixão.
A sibila se banha e veste
num cômodo exclusivo situado no fundo do templo. No corredor, uma janelinha dá
para a ruela, logo abaixo, e Aglaia gosta de temperar seus longos momentos de solidão,
após um dia inteiro dedicado à cidade, com rápidas visitas a essa abertura para
o mundo, o que lhe dá uma agradável sensação de liberdade. Sonhadora, o queixo
pousado nos braços, ela observa o movimento quando, de repente, avista o mesmo
rapaz de há pouco, amigo dos baderneiros do cortejo, conversando com um
comerciante. Sua curta túnica atada a um ombro expõe os braços e coxas de quem
foi trabalhado pela ginástica e pelo labor. O roçar dos seios na pedra fria
provoca em Aglaia um arrepio que se propaga ventre abaixo. Ela relembra a cena
da exibição e começa a desejar que o rapaz a descubra ali e adivinhe o seu
entusiasmo. "Olha para cá... Olha para cá... Olha para cá..."
sussurra ela com os lábios colados ao braço.
Influenciado ou não pela
força do seu desejo, o rapaz acaba erguendo a cabeça e a distingue na pequena
janela retangular. Ele sorri, mas Aglaia mantém-se impassível. Ele lhe faz
gestos, mas ela franze o sobrolho, repreendendo-o; ela sabe que não pode
revelar nada do que sente. Pintada no muro do imóvel em frente, uma caricatura
mostra um egípcio prostrado diante da lua e dando as costas a um sol zangado. O
rapaz vai até o desenho e consegue muito habilmente transmitir a Aglaia com
gestos a mensagem de que estará em frente à janela enquanto durar a travessia
da ruela estreita pela lua. Aglaia sai da janela, mas entendeu tudo e caminha
pelo corredor com o coração aos pulos.
No templo, todos dormem,
exceto a sibila. Apenas deitada, Aglaia acompanha impaciente o trajeto da lua
pelas aberturas inacessíveis junto ao teto. Seu corpo a maltrata. Seus seios
doem e um filete quente e viscoso inunda a fenda interdita entre suas coxas. Ela
não consegue evitar o toque, e o prazer se irradia por todo seu corpo. Acariciando
o sulco entre os lábios delicados, ela anseia pelo momento em que a lua
decidirá por ela o que fazer. Seu corpo fechado simbolizado pelo o portal do
templo lembra-lhe que o castigo pelo rompimento do selo é a morte para o
invasor e o fogo para aquela que se deixa invadir. Ela se pergunta se não
valeria a pena morrer para provar, fosse uma única vez, as delícias que esse
pecado encerra.
É em meio às contorções do
desejo que Aglaia constata aliviada a chegada do momento esperado. Envolta num
manto e pé ante pé, ela desce ao cômodo dos fundos, onde uma porta de serviço
desemboca na ruela em que o rapaz vai esperá-la. A porta se fecha por dentro
assim que toca no batente. Com uma moeda em pé, ela consegue impedir que a
taramela baixe completamente, e sai. Do outro lado da ruela banhada pela lua
chega-lhe um breve "Psst!" Envolta no manto, ela transpõe num átimo
os poucos metros que a separam do pecado.
Capítulo IV — A Transgressão
Uma mão forte envolve-lhe o
pulso e a puxa para a sombra de um pilar. Aglaia se vê colada ao corpo do rapaz
cuja imagem ainda está nítida em sua memória. Sem sequer dar-lhe tempo de abrir
a boca, ela o beija apalpando-o e procurando o membro que ela viu horas antes. Ele
tenta detê-la para que vá com calma, mas ela está ávida e cega de desejo.
— Escuta... ele tenta
perguntar.
— Não digas nada. Deflora-me
aqui, agora.
— Mas és a sibila! Não
podes... balbucia ele, sussurrando, desorientado.
— Eu disse aqui e agora,
retruca ela, decidida, deixando cair o manto, colando-se ao muro e erguendo a
longa túnica de dormir até acima do púbis.
Amedrontado, mas igualmente
excitado, o rapaz que jamais imaginaria chegar tão longe, e muito menos
deflorar a sibila a cinco passos do templo, ergue sua túnica, deixa escapar o
membro do calção de tecido cru e aproxima-se dela, tocando com a mão o denso
triângulo pubiano. Aglaia, na ponta dos pés, abre as pernas para lhe dar
liberdade enquanto abraça o corpo másculo do rapaz.
— Como te chamas?
sussurra-lhe ela na orelha.
— Makron, responde ele,
procurando sua boca para beijá-la enquanto sente nos dedos a umidade do sexo.
— Deflora a sibila, Makron,
sussurra ela, sentindo o membro indócil roçar-lhe as coxas.
— Isso pode custar-me a
vida, retruca ele, ofegante de excitação, agarrando-a pelas nádegas e puxando-a
para si.
— Morrerias por esse
troféu, Makron? pergunta ela, empunhando com força o membro pela base e
esfregando a glande entre os lábios.
— Morreria se não houvesse
outro jeito, mas não achas preferível sumirmos daqui? Meu tio tem um barco.
Podemos fugir de Phtinos.
— Isso é impossível. Não
sabes que carrego a marca das sibilas?
— Não. Que marca? pergunta
ele, premendo-lhe um seio e esfregando-se voluptuosamente em seu corpo.
Aglaia toma a mão do rapaz
e passa os dedos por trás do seu ombro direito. Ele sente o relevo na carne.
— O que é?
— É um medalhão com a
efígie de Perséfone gravado a ferro em brasa. A sibila é uma prisioneira e todos
conhecem essa marca. Eu seria repatriada pela primeira pessoa que a visse. Se
eu tiver que morrer, que seja no meu país. Mas tu, Makron, não hesites em fugir. Agora anda,
faz o que te pedi!
Experiente, o jovem
habituado ao contato feminino alarga gentilmente com o dedo a entrada do
orifício. Aglaia sente a elasticidade dos seu sexo sendo testada e se oferece,
movendo-se para frente e para trás. Ele então lhe pede que fique de costas,
explicando que será mais cômodo. Ela se vira para o muro de tijolos, espalmando
as mãos nele e tentando olhar para trás, apreensiva. Makron encaixa a
extremidade da glande na entrada e pressiona algumas vezes sem penetrá-la. Assim
que ele sente a área bem escorregadia e lisa, previne Aglaia e, com um
movimento preciso, afunda a glande em seu sexo. De rosto colado ao muro, a
jovem sibila escancara a boca e espreme os olhos. Foi-se o hímen. O ato está consumado
e com ele o crime.
Doravante, Aglaia atravessa
a ruela dos fundos do templo toda noite para ter com o seu amante. Eles
encontraram um lugar completamente ermo, uma minúscula loja desocupada a alguns
passos do muro da primeira noite. Eles alternam posições numa mesinha tosca e
Aglaia aprende com ele tudo sobre os segredos de Afrodite. O membro treinado de
Makron invade-lhe as entranhas evitando deixar-lhe a semente, cujo sabor Aglaia
aprende em pouco tempo a apreciar. Às vezes, ela dedica-se a uma longa felação,
saboreando-lhe o membro grosso e molhado até que este despeje em sua boca o
esperma de tempero exótico. Mais raramente — essa prática, ainda que apreciada,
é mal vista em Phtinos —, ela se deixa penetrar por trás, desejando urrar com a
expansão do orifício que toda jovem de família piedosa aprende a negar à avidez
dos homens. Nele, Makron é livre para esvair-se, e a constrição multiplica por
cem a intensidade dos seus orgasmos. Ele agarra Aglaia com força, puxando-a
pela cintura e penetrando-a até que não reste nenhuma porção visível entre o
seu corpo e o dela. Isso consome as forças da jovem, que jaz debruçada sobre a
mesinha, ofegante, exausta, mas sentindo-se bem amada. De volta ao templo, as
doces sensações do seu corpo ainda pulsante prolongam-se noite adentro e ela
adormece em estado de graça.
Capítulo V - Perigo
O dia a dia do templo não
foi alterado pelo pecado da sibila. Pelo contrário, os oráculos de Alglaia têm
ganho em astúcia, multiplicando as ambiguidades e os sentidos possíveis, o que
lhes vem triplicando os acertos. Como resultado favorável, os donativos em
dracmas e gêneros avultam-se na sala da grã-sacerdotisa, o que lhe permite
pensar em reformas para o telhado do templo, pintura nova para a Deusa e,
claro, em suas economias pessoais.
Certa noite, perambulando
pelos corredores do templo, ocorre à mulher longilínea e grave algo que não
deixa de ter importância. Ela é responsável por doze jovens de famílias
notórias e deve zelar pela sua total segurança. Indo até os fundos do templo,
ela dissimula no alto da porta, precisamente aquela por onde Aglaia têm-se
evadido toda noite, uma fina palha de modo que caia facilmente caso a porta
seja aberta. Ela faz isso por pura formalidade, como tem feito há anos, apenas
para certificar-se de que não há alguma temerária dentre as donzelas. No dia
seguinte, ela é a primira a acordar e vai diretamente até a porta dos fundos. Qual
não é sua surpresa ao descobrir, pela primeira vez em onze anos, que a palha
está no chão! Ela manda imediatamente reunir as doze virgens e, diante da
fileira de rostos apreensivos, desenvolve toda uma preleção com a finalidade de
deixar claro que se ela vier a descobrir que alguma delas sai ou que algum
intruso entra por essa porta, a responsável será imediatamente excluída, não
sem antes receber a punição devida: um bom número de chibatadas que deixarão
bem viva na lembrança e na carne a razão do castigo. As doze meninas se
entreolham intrigadas e alegam sincera inocência. A grã-sacerdotisa sabe que
pode dar-lhes crédito e as dispensa, mas promete a si mesma investigar mais a
fundo o mistério.
Dias depois, ela repete o
teste com a palha e a abertura da porta se confirma no dia subsequente. Ela não
quer passar a noite acordada, então pede a uma escrava que o faça e lhe relate
o que viu. Como toda noite, Aglaia sai furtivamente e volta cerca de duas horas
depois. Para sorte sua, a escrava faz barulho e ela a surpreende. Aglaia
inventa que a Deusa atribuiu-lhe uma missão noturna para salvar almas perdidas,
e que essa missão é secreta. Por afeição, respeito e temor, a escrava lhe jura
fidelidade e, de fato, se cala.
Mas Aglaia começa a temer. E
se a escrava tiver visto movimento do outro lado da ruela? E se ela a tiver
seguido? E se a tiver visto com Makron? É preciso fazer alguma coisa. A
inspiração de sibila não tarda a ocorrer-lhe.
Capítulo VI - O Pacto
A Visita
O sol se pôs nos
insondáveis mares do oeste e as duas folhas douradas do imenso portal do templo
de Perséfone, voltado para o leste e já banhado em sombra, foram fechadas para
o descanso das suas ocupantes. Após a ceia, a calma reina no templo, exceto
pela atividade febril mas silenciosa que se inicia nos aposentos da sibila.
Nua, ajoelhada em frente ao
pequeno altar sobre o qual reina apenas a estatueta do deus Príapo com seu
sorriso sarcástico e o falo desproporcional a erguer-lhe a túnica, Aglaia se contorce,
os olhos revirados e dois dedos de uma das mãos cravados no sexo.
— Se ainda tens... alguma
consideração pelos mortais, Príapo... rogo-te que venhas em meu auxílio, invoca
ela num susurro gemido, sentindo seu corpo invadido pela excitação.
Lá fora, a lua já passou
pela janela e Makron está à espera, na ruela atrás do templo. A poucos metros,
uma luminosidade rubra preenche o cômodo em que a sua amante se encontra e um
calor súbito, sensual e lúbrico assalta o corpo da sibila, enfraquecendo-a até
levá-la a desabar e contorcer-se no chão, tomada pelos espasmos de um
misterioso e avassalador orgasmo.
— Que queres, mortal?
pergunta uma voz masculina desencarnada, envolvente, mas sarcástica.
— Ó Príapo... ouviste o meu
chamado... sussurra Aglaia, num gemido, em meio às sensações intensas que a
invadem e sem tirar os dedos aflitos de seu sexo em chamas.
— Não estás satisfeita com
o que alcançaste? O erro do Conselho foi-te assim tão prejudicial que na
primeira oportunidade traíste o teu juramento de sibila? Já esqueceste a marca
indelével que tens no ombro? Que queres de mim? Nada posso por ti, criatura
fraca!
Da densa bruma vermelha no
centro do cômodo materializa-se o deus da fertilidade, sob a forma de um homem
de belos traços regulares e másculos, vestido numa túnica curta que, ao
contrário das representações na estatuária e iconografia, cobre completamente o
seu legendário falo. Ele se aproxima de Aglaia, prostrada no chão, ainda sob o
efeito do orgasmo contínuo que a fustiga.
— Suplico... que me ajudes,
ó deus do coito e da fertilidade! Não estou entregue aos meus caprichos... mas
obedeço a um irresistível apelo. Bastou que Makron erguesse a túnica uma única
vez... para que eu me tornasse uma escrava da carne. Nada me torna mais infeliz
do que não ter seu sexo em minhas entranhas, e a cada dia... espero pelo
momento sublime de revê-lo e senti-lo belo e forte entre minhas coxas. Rogo-te
que me ajudes a não perdê-lo, ó Príapo. Farei o que quiseres para que não me
afastem desse amante e senhor do meu corpo.
— Olha para ti. És a águia
eleva as preces dos teus semelhantes às alturas do Olimpo, mas rastejas como a
mais vil serpente entregue às convusões da carne. Sou protetor da fertilidade,
não da lubricidade e da luxúria, diz Príapo com uma ponta de ironia e numa voz
alta e clara que Aglaia sabe ser a única capaz de ouvir.
— Estou à tua mercê, ó
Deus. Dispõe do meu corpo e alma como quiseres... mas livra-me da vigilância da
grã-sacerdotisa... que não tardará a descobrir meu segredo!
Com uma mão, e como se
pegasse um trapo insignificante, Príapo ergue Aglaia pelo braço. Ela vacila, as
feições desfeitas pelas vagas de orgasmo que não cessam enquanto este deus está
presente diante de uma mortal.
— Tens o corpo belo como a
terra fértil. Não me espanta que ele desperte os varões da ilha, diz ele,
olhando-a de cima a baixo, demorando-se nos seios, na barriga e no triângulo de
pelos castanhos que orna a pélvis. Pois muito bem, prossegue ele, como sei que
a tua eleição foi fruto do erro e da corrupção humana...
— Da corrupção, meu Deus?
interrompe Aglaia, tentando manter-se de pé.
— Foste escolhida graças à
tua beleza e à influência de um protetor que bem conheces, mas cujo nome
calarei por ora.
— Pois peço a tua proteção
contra ele também, ó Príapo, geme Aglaia, intrigada, mas satisfeita por ouvir
enfim uma explicação para essa escolha que nem para ela fazia sentido.
— Sacrificarás um asno em
meu nome. Até lá, não contarás com a minha proteção. Uma vez cumprido o
sacrifício, virei possuir-te quando bem me aprouver, enquanto durar a tua
ligação com Makron, pois que a considero uma devoção ao falo.
— Seja feita a tua vontade,
ó Deus. Não vou objetar nem tentar aliviar o meu fardo... que é pesado mas
merecido, diz a sibila, prestes deixar-se novamente desabar no chão.
— E não voltes a invocar-me
em nenhuma circunstância. Tiveste hoje uma chance de pedir minha ajuda e não
terás outra.
— Dou-me por satisfeita, ó
Príapo. Ser-te-ei devedora até a morte.
— Até a morte? Veremos!
responde o deus, sibilino, dissolvendo-se na bruma rubra.
O efeito orgásmico se
dissipa instantaneamente. Aglaia mal tem forças para rastejar até a cama,
chorando convulsivamente pela emoção do que acaba de viver, somada à súbita
lembrança do encontro perdido com Makron, que deve tê-la esperado até o fim da
travessia da lua e partido cheio de interrogações. Foi a primeira vez que ela
faltou ao encontro, e isso a devasta. Ela adormece de pura exaustão. A noite
será curta e o dia seguinte que promete ser longo e fatigante.
O Sacrifício
Contrariando suas expectativas,
o sono de Aglaia foi reparador, depois da visita de Príapo. Ela se levanta
faminta e bem-disposta, sentindo as idéias claras para propor enigmas
inteligentes em resposta às consultas dos cidadãos de Phtinos. Diariamente, o
enorme portal do templo é aberto pelas doze virgens para que os primeiros raios
do sol incidam sobre a estátua de Perséfone. A sibila surge entre elas, de
braços erguidos, recitando em voz alta a oração matinal dirigida a Hélios. O
dia de hoje não é exceção, e Aglaia acolhe com temor e humildade esse novo
ciclo de um dia concedido pelo deus da cabeleira de fogo.
As consultas se sucedem,
interrompidas apenas para curtas pausas destinadas ao cuidado do corpo:
alimentação e higiene. A única inquietude de Aglaia é quanto à realização do
sacrifício a Príapo. Como conseguir um asno e a quem recorrer para ajudá-la? Essa
questão toma o seu espírito a cada interrupção até que, para surpresa sua, uma
nova consulta traz a resposta. Ao voltar ao assento de onde ela profere os
oráculos, é Markron que ela vê prostrado aos pés de Perséfone. Aparentando
indiferença diante do olhar atento da grã-sacerdotisa e das doze virgens, ela
se dirige a ele como a qualquer outro.
— A que vieste? Abre teu
coração e a Deusa há de ajudar-te, diz ela com voz firme.
— Aquela que eu amo faltou
ao encontro de ontem à noite. Isso partiu meu coração e tirou-me o sono. Acordei
hoje sem idéias nem ânimo para nada além de vir aqui rogar a Perséfone que me
diga se ela deixou de amar-me ou se ainda tenho esperanças.
As lágrimas sobem aos olhos
de Aglaia, mas à sibila é vedado chorar. Ela dá as costas a Makron e se volta
para a estátua de quinze metros, respirando profundamente e preparando-se para
proferir um oráculo com voz clara.
— Nesta mesma noite, o
trânsito da lua há de trazer-te a resposta, mas um asno jovem levarás contigo.
Embora intrigado com a
parte que toca o asno, Makron jubila, levantando-se num salto, sorrindo para as
doze virgens como se as conhecesse de longa data. E de fato, Aglaia já lhe
falou sobre cada uma delas quando, após o amor, eles conversam abraçados sobre
banalidades. Mas elas não desviam seu olhar glacial do ponto imaginário à sua
frente e isso o leva de volta à realidade. Voltando-se para a grã-sacerdotisa,
Makron aponta para a gaiola de madeira onde um enorme coelho branco se agita. Ela
faz sinal com a cabeça de que sua oferenda é aceita. Por fim, ele olha com
gratidão para a sibila que continua de costas, e parte.
Esse encontro imprevisto
transtorna Aglaia por várias consultas, até que ela se acalma, confiante no
resultado. Quando chega o fim do dia e que ela pode enfim recolher-se, ela faz
uma oração a Príapo, jura-lhe fazer o sacrifício e começa a preparar-se. Ela
sabe que Makron gosta da maciez da sua pele, do perfume do seu corpo e do modo
como ela trança o cabelo. Ela passa portanto um longo tempo entregue a esses
cuidados puramente femininos. Chegado o momento, ela sai dos seus aposentos com
as sandálias na mão e caminha pé ante pé pelo mármore frio do templo silencioso
até a pequena porta dos fundos. Makron já espera ansioso do outro lado da
ruela parcialmente iluminada pela luz da lua.
— Louco! sussurra ela,
jogando-se nos seus braços e empurrando-o para a sombra para cobri-lo de beijos.
— Quase mataste-me
deixando-me esperar-te ontem! Que aconteceu?
— Trouxeste o asno?
pergunta ela, procurando em volta.
— Sim, está logo ali, mas
não entendi nada, responde o rapaz, indicando uma direção.
— Precisamos ir até o altar
do bosque. Vamos sacrificá-lo, declara Aglaia, puxando Makron pela mão.
— Quê?! Diz ele,
soltando-se e parando.
— Queres continuar a
ver-me? Então não discutas.
— Isso vai nos custar uma
noite inteira, Aglaia!
— O risco maior é para mim.
Vamos. Explico tudo no caminho.
Tomando aa trilha do bosque
e iluminados pela luz dos astros, Aglaia explica-lhe parcialmente o pacto que
fez com Príapo, omitindo obviamente os detalhes sobre a sua parte no
compromisso e enfatizando que o pacto os põe a salvo de serem descobertos pela grã-sacerdotisa
e por quem quer que seja, descoberta que poderia custar-lhes a vida. Confiando
na intimidade da sibila com as divindades, o rapaz acaba convencendo-se de que
foi a melhor opção e segue abraçado com Aglaia, feliz por poder desfrutar de um
longo momento em sua companhia.
Chegando à clareira, no
centro da qual um altar público foi erigido para sacrifícios de animais aos
deuses, Aglaia explica o procedimento a Makron e inicia a primeira etapa. Ela
acaricia os testículos do asno até que a ereção se anuncie. Em seguida, ela o masturba
até que o pênis do animal desça e enrijeça plenamente e recolhe o fruto da
ejaculação num rescipiente próprio do culto a Príapo. Ela então entorpece o
asno com um pó utilizado pelas sibilas para induzir rapidamente o transe e
Makron o mata com o seu punhal. Ele retira as entranhas e as coloca sobre a
palha, no altar, depois decepa-lhe o longo membro ainda ereto acima da bolsa
escrotal, pondo-o em lugar de destaque junto ao coração. Essas partes
são queimadas no altar em oferta ao deus. O restante será deixado para os
habitantes do bosque, homens, mulheres e crianças que não obtiveram o estatudo
de cidadãos, mas que são autorizados a viver na ilha. Atraídos pelo ritual e
pelo odor, eles surgirão assim que a clareira voltar a estar desocupada e se
apropriarão da carne deixada de lado.
Volutas de fumaça densa
levam as fagulhas em direção ao céu. Aglaia recita as orações ao deus Príapo,
indicando a Makron os trechos que ele deve repetir e ungindo-o bem como a si
mesma com o esperma do asno sacrificado. Findo o ritual, uma paz intensa invade
a sua alma, simbolizando a liberdade e a segurança prometidas pelo deus. É o
sinal que Aglaia esperava; seu sacrifício foi acolhido favoravelmente. O pacto
está selado. Exaustos, os amantes se separam prometendo encontrar-se à noite e
em cada noite subsequente.
Capítulo VII - Sob a
Proteção Divina
Dias de Liberdade
O primeiro encontro depois
do sacrifício do asno a Príapo é de pura euforia para a sibila e seu amante. Mal
eles se tocam do outro lado da rua, ela procura o calor do seu sexo, sentindo-o
fremente em sua mão ávida, e assim que chegam ao pequeno cômodo aberto, a dois
passos do fundo do templo, ele apenas ergue o seu vestido e põe-na sentada na
mesinha tosca para afundar a cabeça entre suas coxas. Apoiada nos antebraços,
Aglaia se oferece, elevando as pernas e abrindo-as ao máximo, acariciando
nervosamente o cabelo espesso e encaracolado do amante enquanto ele revisita
com a língua cada reentrância do seu sexo e, abaixo dele, cada linha que se
irradia do pequeno orifício que ela aprendeu a ceder no auge da volúpia.
— Não me tortures, malvado,
penetra-me! suplica ela, puxando-lhe a cabeça para beijá-lo na boca e forçá-lo
a avançar.
— Quanto desejo! exclama o
rapaz.
— Vê como estou! sussurra
Aglaia, puxando as pernas para trás e exibindo-lhe os pequenos lábios inundados
de orvalho lúbrico.
— É verdade, já estás
pronta, assente ele, dando batidinhas com o membro no tapete pélvico.
— Entra logo, perverso!
suplica ela, olhando-o nos olhos e tocando com os dedos a região entumescida e
molhada.
Makron então a possui,
fincando nela o vistoso membro, dádiva do próprio Príapo. Aglaia escancara os
olhos, num susto, quando a glande abre espaço entre os pequenos lábios e passa
deslizando como a proa em flecha de um navio que singra os mares.
— Aaah! Vilão!
— Não gostas?
— Cala-te e não para! Sou
tua.
Makron avança, curva-se
sobre ela e beija-lhe os seios, trabalhando ritmadamente para levá-la ao
clímax, tomado pouco a pouco por uma excitação que vai transformando seu membro
numa verdadeira máquina de guerra. Aglaia se sente deliciosamente percorrida
por esse aríete que a golpeou para entrar e que agora vai e vem, ocupando-a
mais e mais. Ela o sente com a mão, apalpando a tora que avança e recua sem
cessar. Como é potente! E como é resistente! pensa ela, vendo o suor do rapaz
brotar dos músculos contraídos dos antebraços.
— Não esqueças... de
sair... antes de... deixares a semente..., cochicha-lhe ela com voz
entrecortada.
— Não te preocupes, posso
levar-te às estrelas bem antes disso, declara ele, vaidoso, intensificando os
movimentos à guisa de prova.
— Assim me matas, geme
Aglaia, às portas do orgasmo.
— Se for de prazer,
concedo, diz Makron, sorrindo, instalado num ritmo firme e constante.
— Não para... Não para... Mete...
Assim... Ahhh!
— Onde queres que eu jorre?
pergunta ele.
— Espera... estou sem
forças... balbucia ela, premendo os seios e agitando a cabeça, tomada por
sensações que ocupam todo o seu corpo e não deixam ao espírito e ao pensamento
a menor fresta.
Do alto, Makron contempla a
sua Aglaia nesse transe extático não sibilino. Empurrando-lhe as coxas contra o
corpo, ele conta com a luz da lua para ver o diâmetro ocupado pelo seu membro
que vai e vem sem parar enquanto ela respira ofegante e crispa as mãos nas
suas. Ele a deixa ser tragada pelo orgasmo, contemplando seu rosto, vendo-a
morder os lábios e revirar os olhos de prazer. As ondas do clímax se sucedem
deixando-a cada vez mais fraca, até que o seu corpo amolece por completo e suas
pernas pendem fora da mesa.
— Liquidaste-me... Não
posso mais... Vou morrer de prazer se continuares..., diz ela entre duas
respirações.
— Ainda não respondeste
onde queres que eu jorre, diz Makron, desafiando-a sem baixar o ritmo.
— Hm... que tal no chão,
animal insaciável?
— Deitar fora a semente
depois de tanto labor? Nunca! Estou aceso, Aglaia, não podes desamparar-me
agora!
— Está bem, monstro. Já sei
que pensaste no terreno infértil! diz ela, cheia de malícia na voz e já virando
de bruços.
— Bem sabes o quanto gosto,
responde ele.
— Ai como sofro quando sais
de mim, amado! diz ela, debruçada na mesa e olhando para trás, contemplando a
verga pulsante do rapaz em
pé. Volta para mim rápido, ainda que por esse estreito tão
pouco navegado!
— Às tuas ordens! exclama
ele, encostando-lhe a glande no orifício e fazendo-a fremir de apreensão.
Aglaia aprendeu com Makron
a não rejeitar esta modalidade, mas ainda lhe custa suportá-la sem sofrimento. Repousando
a cabeça sobre os braços, ela espera o momento em que a dor da expansão se
torna aguda para queixar-se gentilmente, mas não impede que o amado a penetre
até o fim. Ele está em fogo, após um dia de abstinência. De olhos arregalados,
Aglaia morde o próprio braço para não gritar, enquanto sente cada fisgada do
membro que se afunda contrariando a pressão centrípeta do seu ânus. Quando
enfim o longo membro desliza para dentro e Makron se debruça sobre seu corpo,
ela só tem forças para gemer duas palavras.
— Mata-me...
Makron é resistente, sem
dúvida, mas a essa altura, seu orgasmo está às portas. Sem forças para retomar
o ritmo anterior, ele se limita a fazer movimentos curtos, ainda que profundos,
sem se descolar de Aglaia, imobilizada entre ele e a mesa. Subitamente, uma
estocada forte e a primeira descarga, seguida de outra e nova descarga, e mais
outra, e mais outra. Aglaia sente os jatos inundarem-lhe as entranhas,
liberando os movimentos do membro que vai, qual uma serpente mitológica,
nadando nela como num pântano. Arfante e entregue aos seus próprios espasmos,
Makron morde a nuca da amante, desencadeando nela uma resposta igualmente
animal. Ela se oferece mais, empinando-se toda e experimentando pela primeira
vez com real prazer a penetração proibida.
— Assim... Não para... Mete
tudo... Está tão duro e vai tão longe! Ahn...
Makron semeia copiosamente
esse terreno infértil mas tão receptivo. O esperma abundante escorre e goteja
no chão do pequeno cômodo, único ruído na noite silenciosa. Aglaia, prostrada,
saboreia as últimas pulsações do seu corpo invadido, sentindo-o fechar-se aos
poucos para esconder seus tesouros até o dia seguinte. Ela já sente falta, já
deseja novamente, mas reconhece que precisa de repouso porque o dia será duro
como todos os dias da sibila. Quando os amantes se despedem, não resta mais
muito tempo de escuridão. Makron acena para a pequena porta dos fundos do
templo e desaparece nas sombras.
O Tributo
As semanas se passam em
meio à mais pura felicidade. Livres da ameaça da descoberta graças à proteção
de Príapo, os amantes vêem-se diariamente, mas decidiram limitar o encontro a
cerca de uma hora, para que Aglaia acorde bem disposta. Isso lhes basta para o
prazer e aguça o desejo. Nas noites sem lua ou de mau tempo, o astro é
substituído pela clepsidra que rege a vida de todos no templo de Perséfone. Chegado
o momento que sua intuição lhe diz estar próximo do habitual, Aglaia vai até o
belo tanque de mármore esculpido e lê o número da escala correspondente ao
nível da água. Cada encontro é vivido como se fosse o primeiro e cada orgasmo
como se fosse o último. Os dois jovens se amam e desejam como outrora Urano e
Gaia.
O sol se pôs e Aglaia acaba
de lavar-se, após um dia exaustivo de sibila. Nua em seus aposentos, ela
prepara roupas e objetos para o dia seguinte. Subitamente, o ar se aquece e ela
se sente lânguida. Tocando-se com a polpa do dedo, a umidade que brota
abundantemente entre os lábios revela o que ela mais temia.
— Príapo?
— Adivinhaste, sibila, diz
a voz máscula e envolvente que ela já conhece.
— Vieste para...?
— É hora de renderes o
tributo ao teu protetor, confirma o deus, revelando-se, belo e másculo em sua
curta túnica presa ao ombro.
— Que devo fazer? pergunta
Aglaia, temerosa.
— Bem pouca coisa. Já estás
nua e pronta, e o teu leito a dois passos. Quanto a mim, só preciso erguer a
túnica.
Ele faz o gesto e, desta
vez, Aglaia não acredita no que vê. No primeiro encontro, Príapo não lhe
parecera corresponder às representações que fazem dele, sempre pródigas quando
ao atributo sexual. Diante dela como agora, ele não se diferenciava em nada de um
homem comum, destacando-se talvez apenas pela atitude desinvolta, mas ao vê-lo
assim, de túnica erguida, ela não entende como pôde não ter percebido nada
anteriormente.
— Ha! Ha! Muda a mulher,
mas a reação nunca! exclama o deus, bem-humorado. Vocês mortais não conseguem
mesmo associar a imagem de um homem à de um touro ou de um cavalo! Por acaso
pensas que faunos, sátiros, centauros, silenos, o Minotauro, são puro mito? Pois
estou dando-te a oportunidade de te convenceres de uma vez por todas de que o mundo
está cheio de deuses — porei essa frase na boca de um sábio, no futuro — e que
os deuses são multiformes. O tamanho do meu falo evoca a prodigiosa fertilidade
da Physis e a avidez interminável de tudo aquilo que se reproduz.
— M-mas... balbucia Aglaia,
apavorada.
— Não temas, minha bela,
porque do nosso intercurso não te ficará a chaga, apenas a lembrança do prazer.
Agora vem.
Seria por demais irreal
narrar esse encontro entre o deus e a sibila. Cabe apenas deixar aqui
registrado que por um prodígio divino e contra qualquer possibilidade de
explicação humana, o corpo de Aglaia conformou-se ao membro descomunal do deus
Príapo, que a possuiu vezes sem conta, levando-a a um estado de excitação e a
um nível na hierarquia dos orgasmos que ela jamais imaginaria atingir. A
descrição mais próxima da sensação experimentada por ela é a de que o orifício
do seu sexo, tornado rígido após atingir o máximo de abertura permitido pela
sua elasticidade, esteve o tempo todo na iminência de romper-se como uma
pulseira de osso, e que por mais díspares que fossem as proporções entre o deus
e Aglaia, ele arremetia com violência e a penetrava em total profundidade,
encontrando nela um espaço inconcebível a quem quer que os visse nus lado a
lado. Essa momentânea harmonia entre corpos tão incompatíveis só pode ser
explicada pela ação divina. Além disso, o orgasmo contínuo a que Aglaia foi
submetida já desde a chegada do deus só lhe foi suportável por estar sob sua
proteção.
Quando tudo acabou, Aglaia,
prostrada em seu leito, sentindo o interior do seu corpo contrair-se como para
voltar às dimensões humanas, só teve forças para virar a cabeça e esboçar um
sorriso, que o belo deus retribuiu já fundindo-se na luz rubra que o acompanha.
— Não te laves, mulher.
Minha semente inundou-te o corpo mas não morrerá em ti como a do teu amado
Makron. Se e quando eu decidir, darás à luz, mas não penses nisso por ora. Aproveita
a tua liberdade e segurança. Até a próxima, bela sibila.
— Sim, meu Deus... balbucia
Aglaia, ainda sem forças para articular.
Assim que a luz do aposento
sibilino recuperou a luminosidade proveniente do céu estrelado, o espírito de
Aglaia foi tomado de um frescor novo e novamente preenchido pelo desejo por
Makron. Sentindo-se bem disposta e cheia de ardor, ela esperou ansiosa pelo
momento do encontro. A única ponta de apreensão devia-se à questão do eventual
filho do deus, mas como ele mesmo lhe dissera para não preocupar-se com isso
por ora, ela baniu o pensamento e voltou aos seus afazeres, elucubrando que não
deveria revelar a Makron nada do que acabara de ocorrer.
Capítulo VIII - As
Sandálias da Deusa
Os dias viraram semanas,
estas meses, e o cotidiano rotineiro de sibila só parece suportável a Aglaia
graças aos encontros com Makron. A falta do dom priva-a do prazer habitualmente
auferido das profecias e da constatação do fascínio que sua posição exerce
sobre todos, do mais humilde ao mais nobre habitante da ilha. Pouco a pouco, a
curta hora que ela passa com seu amado torna-se o momento mais importante do
seu longo dia, e isso despertará a ira da Senhora do templo. Perséfone suprime
o já deficiente poder divinatório de Aglaia, que começa a proferir oráculos nos
termos mais mirabolantes para disfarçar sua recém-descoberta incapacidade.
— Estou cega para os oráculos,
desabafa ela com Makron. Minha inteligência é a única coisa que me salva do
ridículo, mas logo há de faltar-me repertório e estarei muda diante dos que vêm
consultar a Deusa. Não sei mais o que fazer.
— Imagino que Perséfone
deixou de falar-te.
— Que isso fique entre nós,
Makron: ela jamais concedeu-me perceber o menor sinal da sua presença.
— Por Hades! Ela não te
reconhece como sibila, Aglaia!
— Essa é a verdade que só
tu, eu e talvez a grã-sacerdotisa sabemos.
— Mas a ela convém que
fiques onde estás.
— Exatamente. Não sei o que
devo fazer, Makron!
— Já te ocorreu que a Deusa
possa estar a par de nós dois... e do teu pacto com Príapo?
— Já, e deve estar mesmo,
mas como ela se mantém calada, é como se não existisse em minha vida.
— Mas vinhas acertando os
oráculos, sinal de que Perséfone te ouvia.
— Sim, sim. Estou confusa,
Makron, mas vou seguir teu conselho.
Aglaia passa então a
dedicar longos momentos de oração a essa obscura filha de Deméter, íntima dos
infernos. Ela lhe oferece frutas e cereais, prostra-se diante de sua soberana
imagem e roga-lhe que lhe seja clemente e que lhe conceda os dons sibilinos. Certo
dia em que ela se encontra assim prosternada, um súbito e estranho ranger se
faz ouvir próximo ao chão, com o do couro que se distende. Quando Aglaia ergue
a cabeça vê-se a menos de um palmo de distância das sandálias de Perséfone. A
deusa desceu do seu pedestal e espera, altiva, sem olhá-la, que ela se recupere
do choque.
— Ó Deusa, atendeste as
minhas preces. Eu...
— A quem foi erigido este
templo, sibila? pergunta a deusa.
— A ti, Perséfone, filha de
Deméter, responde Aglaia, sentindo nos lábios a dureza do mármore.
— E é com Príapo que te
comprometes?
— É que a natureza do que
peço a ele...
— Fornicar em segurança?
— Não, Altíssima. Eu
jamais...
A deusa dá um passo e chega
até a imensa porta de bronze, cujo topo ultrapassa de pouco a sua cabeça e onde
se encontram gravadas cenas da sua descida ao Hades.
— Acaso esqueceste que
exijo, de todas as que me servem, fidelidade e virgindade? Consideras-te uma
exceção?
— Não, Altíssima. Eu...
— Sucumbiste aos
imperativos da carne porque não deverias estar aqui e muito menos ser a sibila.
É isso que vais dizer-me?
— É, Altíssima, admite
humildemente a jovem, pondo-se a soluçar convulsivamente.
— Desejaste Makron e
obtiveste a proteção de Príapo - e a que preço! Vais agora pedir minha proteção
para deixares de ser sibila e saíres daqui viva? indaga a deusa, baixando
apenas os olhos.
— Não era a minha intenção,
ó Luz que ilumina as Trevas, responde Aglaia, sentindo o rubor invadir-lhe as
faces.
— Escuta com atenção. Já
sabes que foste eleita impropriamente.
— Sei, Altíssima.
— A grã-sacerdotisa sempre
soube que se havia dentre as virgens do templo uma jovem digna de tornar-se
sibila, esta era Leda, mas os notáveis do Conselho deixaram-se influenciar pela
maior notoriedade da tua família. Portanto, não é tua culpa se não cumpres com
perfeição o teu ministério e não seria justo deixar padecer aqui uma jovem cujo
lugar é ao lado do homem que ela ama e deseja. Terás portanto a minha benção
para sair daqui...
— Oh! Obrigada, Altíssima! Não
sei como...
— Silêncio! Se me
interromperes, nunca mais tornarás a ver-me sob outra forma que não a de
escultura, brada a deusa, impaciente. Eu disse que terás a minha benção, com a
condição de que rompas primeiro o pacto feito com Príapo. Se ele descobre que
voltaste ao mundo profano e que contas com a sua proteção desnecessariamente,
teus tormentos serão indizíveis, e não haverá poder de sedução capaz de
salvar-te, minha bela!
— Invocarei Príapo hoje
mesmo para rogar-lhe que rompa o pacto.
— Um pacto carnal com
Príapo! Tonta é o que foste!
— Bem sei, Altíssima, mas
eu temia pela minha vida e pela de Makron. Se nos descobrissem...
— Estariam mortos, sem
dúvida. Agora sabes que mesmo tolices de juventude podem trazer consequências
funestas. Jamais faças pactos com divindades. Roga-lhes por proteção e nada
mais. Não estás à altura dos deuses para pactuar com eles. Essas alianças são tão
desiguais que sempre precipitam a morte do que é mortal.
— Só espero ser capaz de
obter de Príapo o rompimento do pacto.
— Dirás que perdeste o dom
sibilino e que vais deixar meu templo. Embora sendo um deus, ele não está a par
dos regulamentos internos de cada culto. Mas prepara-te a pagar o preço; pelo
que conheço de Príapo, uma presa como tu vale ouro! E já sabes a que ouro
estou-me referindo.
— Sim, ó Deusa. Nada mais
distante do mais nobre dos metais. Mas algo notável acontece logo após os
nossos encontros...
A narrativa de Aglaia é
interrompida por uma luz fulgurante que a ofusca dolorosamente. Diante dos seus
olhos privados de visão, a deusa transforma-se num facho que se projeta sobre o
trono desocupado e, num instante, a imensa escultura policrômica está no lugar
habitual, imponente e estática, os olhos voltados para o imenso portal de
bronze à sua frente e para o interminável leste onde se encontra a morada de
Hélios.
— N-não sei como
agradecer-te, ó Altíssima, balbucia Aglaia, feliz, sentindo-se leve, mas
confusa como se despertasse de um sonho intenso e muito vívido.
Capítulo IX - A Ruptura do
Pacto
A Seiva da Coragem
Uma semana foi necessária
para que Aglaia saísse do estado em que o encontro com Perséfone a deixou, o
que entretanto não comprometeu seus oráculos e muito menos seus encontros com
Makron. Tudo parecia estar dando certo e Aglaia chegou adesejar voltar atrás e
não alterar em nada a sua vida. Mas ela sabe que essa súbita perfeição de cada
um dos seus atos não passa de um "efeito de interregno" explicável
pelo fato de que ela conta, por um breve tempo, com a proteção simultânea de
dois deuses. Ela espera então pelo dia de descanso concedido a cada dez
revoluções solares a todas no templo e decide invocar Príapo. Ela se lembra da
proibição que lhe fez o deus de invocá-lo enquanto estivesse sob sua proteção;
caberia a ele decidir o momento de visitá-la, e é o que ele tem feito quando
vem cobrar-lhe o tributo carnal. Para aplacar sua previsível cólera, ela decide
ir proceder ao ritual no altar da clareira do bosque, sozinha, depois do
encontro com Makron, o que lhe dará coragem.
— Estás esquisita, diz-lhe
o rapaz, olhando-a nos olhos enquanto a penetra suavemente numa posição que ela
gosta, sentada na mesa do pequeno cômodo que lhes serve de alcova.
— Esquisita como? pergunta
ela, apoiando-se com firmeza nos cotovelos para elevar um pouco mais as pernas.
— Sei lá. Estás quase muda
desde que chegamos.
— Não posso dizer-te nada,
mas está tudo bem entre mim e ti, se isso te tranquiliza.
— Bem sabes que não temo
por nós nem por mim, mas por ti, diz Makron, puxando-a para abraçá-la e
beijá-la, sentindo seus pelos pubianos contra os dela.
— Ahn... Pois está tudo bem
comigo, diz ela, gemendo. As histórias trágicas dos que consultam a sibila...
estão ecoando nos meus ouvidos mais do que de costume... só isso, sussurra ela,
agora lambendo-lhe lascivamente a orelha, excitada com o seu sexo todo dentro
dela.
— Bem que adivinhei que
estavas distante. Se é assim, perdoo-te, mas a uma condição, diz ele,
afastando-se de alguns centímetros.
— E que condição é essa,
pergunta ela, zombeteira, cutucando com a ponta dos dedos o a verga que avança
e recua entre suas coxas.
— Para redimir-te, terás de
beber a seiva do último tronco em que tocaste, ordena ele, enigmático.
— A seiva do último tronco
em que toquei? E como hei de lembrar-me qual foi esse dito tronco, meu
"sibilo"?
— Pois digo-te que o
fizeste a não mais do que duas ou três piscadelas!
— Ah! Tolo! diz ela,
empunhando o objeto da adivinhação, que agora oscila entre suas coxas, já fora
dela. Nunca terá sido tão fácil obter o perdão! diz ela, descendo da mesa para
trocar de lugar ele.
Aglaia gosta de ver Makron
sentado assim, nu e ostentando uma ereção exuberante que dá ao seu corpo todo o
esplendor do macho. Ela o contempla sem tocá-lo, depois aproxima-se, roça-lhe
as coxas com as pontas dos dedos, espalma as mãos nelas, acariciando-as,
sentindo a cócega dos pelos e a muscultaura vibrante, para por fim empunhar
esse corpo rígido que oscila bem acima do umbigo, sentindo-o grosso e vibrante
entre os dedos. Makron recua para ver melhor, apoiando-se na mesa com as mãos
atrás de si. Após perder-se em seu olhar e dar-lhe um beijo apaixonado, Aglaia
curva-se sobre o seu colo, colhendo a glande. Ela a encaixa no céu da boca e
concentra-se nos lábios que comprimem o tronco peniano, sentindo-o pulsar. A
saliva logo inunda boca e os sabores começam a fundir-se na língua que acaricia
a face inferior da verga. Aglaia suga e engole sua dose de elixir cristalino.
Makron geme e retribui beijando-a com volúpia, como se quisesse roubar de volta
esse sumo, mas só obtém resquícios, aromas, sabor longínquo.
— Estás pronta? sussurra
ele, segurando-a pelo cabelo.
— Sim, meu senhor, diz ela,
sorrindo meigamente.
— Então cumpre o que te foi
mandado, diz ele, colando-lhe a boca ao grosso membro.
Aglaia inicia então a
felação propriamente dita, percorrendo reiteradamente com a boca a verga
maciça, que lhe distende os lábios, desliza pela língua e vai tocar o fundo da
garganta, causando uma sensação que ela aprendeu a dominar. Compenetrada, ela
multiplica as arremetidas, percebendo que os gemidos de Makron se intensificam
e que seu corpo vai perdendo o controle até que, numa explosão que o faz
impelir seu membro para frente, ele começa a ejetar essa seiva da vida. Sentado,
limitado nos movimentos, Makron agita-se a cada espasmo enqanto Aglaia tenta da
melhor maneira reter na boca o conteúdo, o que ela faz contraindo firmemente os
lábios em torno da verga indócil. Quando ela percebe que Makron não tem mais
nada a dar-lhe e que o membro vai progressivamente perdendo rigidez, ela o
deixa deslizar como a serpente em fuga e, abrindo a boca, apresenta o conteúdo
sob a língua erguida.
— Vejo que a taça está
repleta até a borda. Agora engole, pede ele, excitado.
Aglaia mergulha a língua no
esperma, virando-a e revirando-a na boca para mostrá-la encharcada a Makron,
que observa embevecido. Em seguida, ela a pressiona contra o palato e,
contraíndo os lábios, engole de uma vez só, certa de que as virtudes da seiva
humana só podem tonificar o corpo e dar-lhe coragem. Makron, excitadíssimo,
atinge um novo orgasmo pela masturbação e desaba sobre a mesa, esgotado e
ofegante. Aglaia, fortalecida, torna a vestir-se concentrada no encontro
sobrenatural que ela tenciona provocar.
No Altar da Clareira
Assim que Makron vê
fechar-se a porta dos fundos do templo, o que lhe dá a certeza de que Aglaia
está em segurança, ele desaparece nas sombras e se embrenha no labirinto de
ruelas estreitas. Instantes depois, Aglaia torna a sair, oculta num manto,
dirigindo-se apressadamente para o bosque, a cerca de um quilômetro do templo. A
aventura é perigosa porque mesmo numa ilha pequena como Phtinos, há os que não
dormem, há malfeitores, há cães ferozes e, no bosque, alguns animais, como os
javalis que foram trazidos do continente e, como já foi dito antes, alguns
homens e mulheres que não foram admitidos na cidade. Aglaia dispõe de um
punhal, mas sabe que sua força seria insuficiente na maioria dos casos. Sendo
assim, ela se esgueira pelas sombras até a saída da cidade e entra no caminho
do bosque com cautela. Os ruídos amedrontam-na, mas ela caminha corajosamente
em direção à clareira onde se situa o altar público.
Ao chegar à orla da
clareira, um amplo círculo de cerca de cem metros de diâmetro, Aglaia
certifica-se de que não há ninguém e atravessa a relva fresca até chegar ao
altar de pedra. Ela tira de um bornal alguns recipientes com ervas e filtros, e
a estatueta obcena do deus Príapo, com seu imenso falo que lhe ergue a túnica e
paira no ar como uma estranha perna sem pé. Não há fogo para queimar insenso,
portanto seus esforços serão redobrados. Aglaia ajoelha-se diante do altar e
inicia a litania oficial utilizada nos ritos de invocação de Príapo. Ela recita
os versos uma, duas três vezes sem êxito, até que os joelhos doloridos
impõem-lhe um momento de descanso, recostada ao altar. É nesse momento que ela
ouve uma voz desencarnada ressoar na escuridão da noite.
— Que pensas estar fazendo,
sibila?
— Quem me dirige a palavra?
pergunta ela, assustada e sentindo o corpo tomado por uma onda de excitação
indesejada.
— Não fui claro ao
ordenar-te não me invocares?
— Príapo? Não vi os teus
sinais.
— Não terás direito à bruma
vermelha, se é a isso que te referes, e não me verás com teus olhos humanos. Mas
poupa tuas forças porque já sei a que vieste e precisarás delas para o que
terás de enfrentar para compensar o rompimento do pacto com uma divindade.
— Não te fiz mal nenhum, ó
deus do coito e da fertilidade. Apenas deixarei de ser a sibila para viver
minha vida com Makron, e vim dizer-te isso.
— Então preferes a luxúria
à proximidade com os deuses? E o que diz Perséfone da tua decisão? pergunta ele
com sarcasmo na voz.
— Não deverias ser cruel
para comigo, ó Príapo, já que darei a Phtinos muitos filhos que ajudarão a ilha
a prosperar e a louvar-te bem como a Perséfone.
— E como darás filhos a
Phtinos, jovem impudente! Não duvides disso por nem um instante!
— Que queres dizer com
isso, ó deus?
— Escuta bem, miserável
criatura. Não é um humano que escolhe desligar-se de um deus, mas o contrário,
e quando isso acontece, é a morte que sobrevém. Mas serei clemente e em vez de
matar-te e com isso aproximar-te ainda mais da tua deusa infernal vou
conceder-te hoje mesmo essa maternidade que acabas de anunciar com tanta
empáfia.
— Vais dar-me um filho de
Makron? pergunta Aglaia, o rosto já iluminando-se.
— Ha! Ha! Ha! Ha! Ha! Não
és a sibila? Pois decifra esta: jamais saberás de quem é o fruto que crescerá
em teu ventre.
— Não entendo...
— Não é dado aos humanos
entender tudo que os deuses dizem, tola mortal. Nosso pacto está rompido e
nunca mais terás minha proteção, ainda que reiteres até perderes a voz e as
forças as litanias do meu rito. Assim com não podes ver-me agora, não me verás
nem tampouco escutarás jamais. Boa sorte com a deusa que estás para abandonar!
Que os deuses que te restam te sejam propícios.
Assim que a voz de Príapo
deixa de ressoar na cabeça de Aglaia, o silêncio da noite volta, esmagador. Enfraquecida
pelo efeito da presença do deus, ela volta a sentar-se ao pé do altar e enxuga
o líquido que lhe escorreu do sexo pelas coxas, já pensando na volta e tentando
animar-se com as perspectivas futuras em vez de remoer na consciência o que
acaba de ouvir. Ela está imersa nesses pensamentos quando ouve a relva estalar.
São passos. Ela alcança o embornal e tira dele o punhal, tentando enxergar
alguma coisa. Os passos na relva não cessam e parecem vir em sua direção. "Perséfone,
se ainda existo para ti, rogo-te que me protejas!" diz ela em pensamento.
Mas é tarde: uma mão rude
ergue-a pelo cabelo e cola sua cabeça no altar de mármore cru, sendo seguida
por uma barba hirsuta que vem roçar-lhe o rosto.
— Que fazes aqui, menina?
Vieste entregar-te aos demônios da noite? Pois somos nós!
Outras vozes masculinas
ressoam e vários rostos distorcidos pela luz oscilante das chamas cercam o
altar sobre o qual o tronco de Aglaia continua imobilizado pela manopla do
chefe do bando. Intuindo o que está por vir, mas muda de terror, ela repete sem
cessar em pensamento, dirigindo-se a Perséfone: "Não permitas isso! Não
permitas isso! Não permitas isso!"
— Chega de conversa fiada,
Íon! grita um dos homens. Determina logo aquele que preparará a presa!
O chefe percorre os rostos
que cercam o altar e aponta para um rapaz de longo cabelo desgrenhado com uma
cicatriz que lhe atravessa a face esquerda.
— Tu. Sabes o que fazer.
Com toda a facilidade, o
chefe ergue Aglaia e põe-na debruçada sobre o altar enquanto dois homens a
seguram pelas maõs. O jovem da cicatriz vem por trás e rasga-lhe a túnica até o
meio das costas, dando-lhe um sonoro tapa nas nádegas e irrompendo numa
gargalhada animalesca, sendo imitado pelos demais. Em seguida, ele separa as
pernas que Aglaia vinha tentando manter juntas e afunda a cabeça entre elas,
buscando seu sexo. Ela esboça um grito, mas uma mão pesada dá-lhe uma bofetada
que quase a desacorda. O rapaz lambe-a vorazmente nos dois orifícios, afundando
o polegar em seu ânus quando passa para a vagina e penetrando-a com dois dedos
quando volta a ânus.
— Chega! diz-lhe o chefe
puxando-o para trás brutalmente pelo ombro.
— Mas...
— Nada de mas! Ja tiveste
mais do que mereces. Se queres satisfazer-te, vai caçar uma corça!
Na clareira ressoa a
gargalhada geral dos homens que se preparam para um revezamento que durará até
quase o alvorecer, durante o qual Aglaia, agora atravessada de bruços no altar,
receberá seus sexos imundos na boca e em ambos os orifícios, até que cada uma
dessas bestas humanas ejacule onde preferir. São dezesseis homens entre trinta
e cinquenta e cinco anos privados de uma atividade sexual regular. A cidade
tolera a sua existência nos bosques, mas quando um deles é capturado por ter
roubado ou violentado, a pena é a morte lenta pelas mais atrozes torturas.
— É minha vez de novo,
Brákias! Protesta um deles, arrancando outro de cima de Aglaia e atirando-o ao
chão, esmagando com as mãos asperas os seios já marcados da jovem enquanto a
penetra furiosamente até começar a urrar e ejacular dentro dela.
Aglaia já não conta mais os
homens que a esmagam com seus corpos enormes e fétidos para abocanhar seus
seios e beijá-la enquanto a possuem. Ela limita-se a tentar manter uma posição
que evite a dormência das pernas. Com as costas planas sobre o altar, ela
encontrou essa posição erguendo as pernas e mantendo-as abertas enquanto recebe
um por um. A maioria começa penetrando-a na vagina e em seguida passa
facilmente para o orifício anal no qual quase todos ejaculam. Mas isso não a
poupa, é claro, de receber no sexo as descargas de vários deles. Muitos também
querem ejacular em sua boca, que ela mantém entreaberta para evitar que seja
dilacerada pela brutalidade com que eles lhe introduzem seus membros. Eles
chegam pelos lados, alternando-se, ou por cima, posição que exige que o homem a
puxe para que ela fique com a cabeça abaixo do plano do altar. Seu horror é
então duplicado pelo pavor de cair de cabeça e morrer assim, de crânio aberto e
em pecado. Seria
a danação eterna.
A diversão final que os
três mais resistentes desses chacais encontraram, quando os demais, exaustos já
haviam há muito voltado à floresta para dormir consistiu em submeter Aglaia a
uma penosa penetraçaõ simultânea. Ainda atravessada no altar, mas agora de
bruços, um deles copula com sua boca enquanto outro, de joelhos sobre o altar,
penetra-a no ânus e o outro, de pé por trás dela, na vagina. Esses três homens
divertem-se assim durante a hora que precede a alvorada e quando o sol começa a
raiar desafiam uns aos outros a continuar, correndo o alto risco de serem
surpreendidos pela guarda que vai diariamente à clareira justamente para
verificar se não houve incidentes noturnos. Aglaia já pouco sente dos membros
que se esfregam um contra o outro separados apenas pela fina parede que separa
o seu sexo do reto. O terceiro homem copula furiosamente com sua boca,
esmagando-lhe as orelhas já ensanguentadas enquanto colide com ela fazendo seu
pênis chegar-lhe à garganta e induzi-la a uma ânsia que já não traz mais
vômito. Resta-lhe como único lubrificante um pouco de saliva espessa que desce
pelo tronco do membro e goteja dos testículos do animal para ir juntar-se à
poça de vômito já vertida.
Aglaia não sabe como
aguentou a noite toda e como ainda está viva durante essa última atividade que
parece não ter fim. Ela anseia pela chegada da guarda, aguçando os tímpanos
para tentar ouvi-los cantar ao longe. De repente, ela começa a tossir e
sufocar. Uma gargalhada ressoa diante dela. Um dos homens aliviou-se em sua
boca mas continua a copular com ela, penetrando-a até a garganta. Parte da
urina fétida lhe sai pelas narinas, outra parte vai garganta adentro e o resto
inunda-lhe o rosto e o cabelo, fazendo arder suas orelhas feridas. Ela tenta empurrar
o homem, mas ele dobra seus dedos para trás com tanta força que ela se contorce
de dor.
— Boa idéia tiveste, irmão,
brada o que a penetra ajoelhado no altar.
— Ha! Ha! Que vais fazer,
mente torpe? pergunta-lhe o primeiro.
— Ja vais ver.
Fazendo uma careta seguida
de um forte suspiro de alívio, o homem com tranças na barba começa também a rir
às gargalhadas, enquanto Aglaia arregala os olhos sem entender bem o que está
acontecendo. Suas entranhas parecem inchar, segue-se uma dor que lhe queima o
ventre por dentro e, assim que o homem tira o membro do seu ânus, pondo-se a
cavalo em suas costas sem permitir que ela se deite de bruços, ela começa a
expelir aos borbotões o conteúdo dos intestinos. Furioso, o homem que a
penetrava na vagina, que recebeu em pleno rosto e peito toda essa matéria fecal
misturada à urina do companheiro, desfere um tapa tão forte nas nádegas de
Aglaia que ela tomba para o lado, encolhendo-se toda e gemendo, sem forças para
gritar. Este terceiro homem sobe então no altar e fica de pé com ela entre as
pernas. Ela nem se arrisca a olhá-lo quando ele separa as próprias nádegas e
põe-se a defecar diretamente sobre ela, guinchando e grunhindo como um macaco. Em
seguida, ele a rega de urina, e cospe várias vezes sobre seu corpo maltratado. É
só nesse momento que o canto da guarda em formação se faz ouvir ao longe. Os
três homens pegam suas roupas e fogem nus para a floresta onde dificilmente
serão encontrados.
Aglaia, não ouve
imediatamente a voz dos soldados e portanto não entende a partida súbita dos
seus algozes. Titubeante, tomada pela dor, ela tenta erguer a cabeça para ver
alguma coisa e aí sim, escuta o canto ritmado na guarda. Mas a sibila não pode
ser encontrada nesse estado. Explicar sua ausência durante o ritual de abertura
do portal do templo já lhe será coisa quase impossível! Com muita dificuldade,
ela desce do altar, usa um farrapo da sua túnica em frangalhos para segurar o
manto sem sujá-lo, recolhe o que pode dos fragmentos da escultura
estilhaçalhada de Príapo e dos recipientes que ela trouxe para o ritual, coloca
tudo no embornal e se arrasta como pode até a floresta, sentindo fisgadas entre
as coxas, como se tivesse um enorme talho no lugar do sexo. Quando a guarda
chega à clareira, ela já atingiu o riacho que corre a poucos metros da orla. Seu
único medo é que o bando que a violentou a veja e a execute.
Um longo banho é necessário
para que Aglaia elimine os odores de seu corpo rudemente maculado. Seu cabelo
está grudado pelo sangue às orelhas e à testa. Ela usa folhas aromáticas e
pétalas maceradas para obter um resultado satisfatório, mas seus movimentos são
lentos porque cada um deles lhe causa intensa dor. Por sorte, seu manto escuro
não foi encontrado, mas ela estará completamente nua sob ele, e seu corpo está
coberto de hematomas, assim como o rosto. Quando a virem assim, será o
escândalo, pensa ela, contornando a clareira pela orla até chegar a uma pequena
trilha que leva não longe da esplanada dos templos. Em seguida, após uma longa
espera por um momento em que a ruela dos fundos do templo de Perséfone esteja
vazia, ela se precipita pela pequena porta.
Assim que ela tranca a
porta, Aglaia tem a impressão de ouvir a sua própria voz recitando as orações
para as libações matinais. Ela atribui a impressão ao seu estado debilitado e
segue em frente pelos corredores de mármore polido ornados de belos móveis,
tapetes e pedestais de bronze levemente embaçados pela fumaça das tochas
recém-extintas. Mas de repente, sem agilidade para ocultar-se, ela se vê frente
a frente com uma escrava. Ela abre a boca para ordenar-lhe que se cale, mas a
mulher passa a dois palmos dela como se não a visse. Confusa e ainda submersa
em dores, ela descura de outra escrava, a jovem Níobe, prestes passar por ela. Mas
Níobe também parece não enxergá-la. Aglaia então avança até a sala onde se
fazem as libações matinais e, para sua mais completa surpresa, vê-se a si
própria recitando as orações e dirigindo o ritual diante da grã-sacerdotisa e
das doze virgens em seus vestidos vaporosos.
— Obrigada, ó Deusa!
sussurra ela, dirigindo-se para os seus aposentos enquanto um raro e fresco
perfume de rosas invade-lhe as narinas em sinal de resposta.
O pacto com Príapo foi
rompido a um preço elevado. Aglaia sabe que da violência à qual ela acaba de
ser submetida nascerá um ser que há de confirmar a profecia do deus, cujas
palavras ressoam em seus ouvidos: "Jamais saberás de quem é o fruto que
crescerá em teu ventre." Sabendo-se momentaneamente a salvo pela ajuda de
Perséfone, que duplicou seu corpo, Aglaia deita-se para dormir e recuperar-se o
melhor e mais rápido possível. Valendo-se dos seus conhecimentos de sibila, ela
absorve um filtro que a faz mergulhar num longo e profundo sono.
Capítulo X - A Verdade Enfim
Uma semana se passou desde
que Aglaia deitou-se e fechou os olhos. Receosa, apoiando-se nos cotovelos para
erguer-se, a primeira coisa que lhe vem à mente ao despertar é o estado do seu
corpo, do seu sexo. Mas não há dor. Sentando-se na cama, seus seios lhe parecem
intactos, as coxas também e, entre elas, os lábios vaginais se apresentam
róseos e saudáveis, o orifício discreto e elástico. Erguendo as pernas para
tocar-se mais abaixo, ela também não descobre nada de anormal. O sono foi
reparador no seu sentido mais estrito. Exultante, ela prostra-se diante da
estatueta de Perséfone no pequeno altar do quarto.
— Como expressar-te a minha
gratidão, ó Deusa? Devo-te não só a saúde, mas a vida! Dispõe de mim como
quiseres!
Aglaia não tem dúvida de
que é a voz de Perséfone que ressoa em seu âmago dizendo-lhe o que fazer.
— Reúne as virgens, a
grã-sacerdotisa e comunica-lhes que eu mesma ordenarei que renuncies para que
Leda assuma o lugar de sibila que é legitimamente dela.
— Imediatamente, ó Deusa!
responde Aglaia, eufórica.
Vestida, maquiada e ornada
por quatro escravas para ocasiões solenes, Aglaia segue em pequeno cortejo até
o imenso cômodo onde trona Perséfone. A grã-sacerdotisa já está de pé à direita
do assento da sibila, e as doze virgens vestidas em véus com bordas de ouro, em
duas filas de seis à sua direita e esquerda. Aglaia dirige-se ao lado oposto,
de costas para o imenso portal fechado e de frente para a imponente estátua da
deusa.
— Estamos aqui pela mais
relevante das rezões: a Deusa vai falar.
As jovens entreolham-se pelo
canto do olho, respirações fazem-se ouvir, corações disparam e as mais imaturas
choram, assustadas. A ansiedade é tão palpável que a grã-sacerdotisa intervém.
— Compostura, senhoritas!
Isso é inaceitavel para o séquito de uma deusa!
Quando a ordem é
restabelecida, Aglaia começa a recitar a longa litania da invocação,
acompanhada pelas demais. Ela caminha até o incensório, abre-o e lança sobre os
carvões em brasa uma boa quantidade do pó que ela tira de um recipiente. A
fumaça aromática se propaga na sala e logo os corpos começam a ondular,
deixando-se levar pelo ritmo do ditirambo. As vozes se elevam e fundem num
clamor que ecoa solidamente no teto de madeira vermelha e dourada. As jovens
mais frágeis, sentindo a força esvair-se das pernas, apoiam-se nas outras,
esforçando-se para não perder o fio do poema que as faz pronunciar o nome da
deusa a cada verso: Perséfone... Perséfone... Perséfone... Elas aprenderam a
não deixar-se convulsionar pelo transe, mas já não estão neste mundo quando a
deusa começa a erguer-se do trono.
— Silêncio! ordena Aglaia.
As imensas sandalias de
couro dourado estalam como chicotes submetidas ao corpo colossal que se anima. Nas
alturas, a cabeça ornada de flores se volta severamente para baixo, na direção
da grã-sacerdotisa, que se prostra humildemente.
— Mulher, há muito que
sabes quem é a Sibila. Neste templo, isso jamais foi segredo.
— É verdade, ó Altíssima,
diz ela em voz baixa, compungida.
— Mas permitiste que o
título fosse dado a Aglaia e não a Leda. Preferiste calar diante da decisão
viciada do conselho.
— É verdade, ó filha da
amada Deméter. Eu não teria voz frente aos cidadãos mais honrados da cidade nem
força para enfrentar a poderosa família de Aglaia.
— A decisão foi política,
mas terá de ser revogada. Aglaia será deposta e caberá a ti obter que ela não
morra pelas chamas, como rege a tradição no que respeita às falsas sibilas.
— Mas como levar isso a
cabo, ó Excelsa?
— Vou inspirar-te,
removerei obstáculos do teu caminho, mas usarás tua voz e não a minha, pois
tens parte da responsabilidade por essa eleição ilegítima.
— Curvo-me à tua vontade, ó
Deusa.
— A partir de amanhã, o
ritual de abertura do portal ao sol deverá ser dirigido por Leda e os oráculos
serão proferidos também por ela, que passará a ocupar o lugar da sibila,
sentada diante do meu trono. Caso contrário abandonarei este templo e sua
estátua inerte.
— Assim será, ó Altíssima.
— Para terminar, ordeno que
Aglaia seja hospedada em segurança aqui até que toda a questão se resolva na
cidade. Ela terá o direito de ir e vir, desde que não perturbe o ritmo da casa.
Sei que todas aqui têm-na em alta estima, portanto há de ser um prazer servir-lhe
de anfitriã. Tenho dito.
No instante em que estas
duas últimas palavras ecoam, a fumaça do insenso se dissipa e a imensa
escultura reaparece imóvel no centro da sala. A grã-sacerdotisa levanta-se
ainda trêmula e sorri para Aglaia que retribui, sentindo-se livre de um peso
extremo. Em seguida, ela se volta para Leda, que parece despertar transfigurada
de um transe.
O Preço da Reparação
A grã-sacerdotisa dispõe de
uma tarde e uma noite para convencer o conselho dos notáveis da ilha a aceitar a
deposição de Aglaia e o reconhecimento de Leda como sibila legítima sem que
isso implique a pena de morte para Aglaia. Os obstáculos caem por terra um a
um, exceto o último, particularmente penoso para a rígida mas piedosa mulher. Trata-se
do irmão de Aglaia, jovem que a riqueza encheu de empáfia, e orgulhoso por ser
irmão da sibila. Ele é o último que precisa dar seu consentimento para que Leda
assuma o sibilato no lugar de Aglaia.
— Então minha irmãzinha não
é nem nunca foi a verdadeira sibila? diz ele, sarcástico.
— Foi o que acabei de
explicar, diz a grã-sacerdotisa, altiva.
— Entendi muito bem,
mulher. Mas não penses que será assim tão simples obter o que queres.
— Por que te fazes de
difícil, Tirteu? Meus argumentos não foram convincentes? Não é pelo poder de
uma família que se elege uma sibila. Leda tem os requisitos necessários para
fazer com que Phtinos prospere como nunca antes e...
— Já te disseram que ainda
és uma mulher bonita e atraente? interrompe o jovem.
— Respeito! Estás diante da
grã-sacerdotisa do templo de Perséfone.
— E acaso isso te priva dos
atrativos da mulher?
— Isso me priva do convívio
masculino, o que muito me alivia.
— Ahá! Então refugias-te no
templo para contemplar as doze raparigas em flor, é isso?
— Insolente! Como ousas
caluniar-me?
— Foste tu que o disseste:
não te agrada o convívio masculino.
— Não te faças de
desentendido. Bem sabes que fui sarcástica.
— As palavras são a voz da
verdade. Se não quiseres que toda Phtinos saiba hoje mesmo que estais no templo
porque não te agradam os homens, terás que ser boa comigo.
O desespero gela o corpo da
bela mulher de traços sóbrios, cuja respiração entrecortada eleva os seios,
revelando. Tirteu se aproxima, envolvendo-os com ambas as mãos e já empurrando
a sacerdotisa até um móvel baixo, que ele esvazia jogando vários objetos no
chão.
— Previno-te: hás-de
arrepender-te se fizeres isso, diz ela, sem revelar seu medo.
— Jamais me arrependo do
que faço. Agora vamos, despe-te porque não tenho a noite toda.
A grave mulher desata o
manto, que cai no chão, e conserva uma longa túnica branca com frisos azuis, de
muitas dobras, que cobre todo o seu corpo. Impaciente, Tirteu puxa-a pelo ombro
e desnuda-lhe o tronco, revelando dois pesados seios redondos e bem feitos. Tomando
um deles, ele esfrega lascivamente a língua na pele escura do mamilo.
— Não podes! clama a
sacerdotisa, com horror, tentando em vão libertar-se.
— E como posso! exclama o
rapaz, alternando agora entre os dois mamilos, sugando-os para intumescê-los
involuntariamente.
Vendo que a sacerdotisa
mantém as mãos afastadas dele, Tirteu pega sua mão e obriga-a empunhar seu
membro já extremamente duro por baixo da túnica curta enquanto ele lambe seu
pescoço e tenta beijá-la na boca. Como ela resiste, glacial, ele interrompe a
tentativa e abaixa-se para erguer-lhe a roupa, que ele a obriga a segurar acima
da cintura enquanto se afasta para vê-la melhor. As coxas lhe parecem bem
torneadas e na sua convergência, um belo e farto triângulo de pelos oculta o
sexo provavelmente intocado. Obrigando-a a por-se de costas e curvar-se, ele
explora fenda rósea.
— Nunca tiveste um homem
entre as pernas, mulher?
— Bem sabes que uma
grã-sacerdotisa dedica a sua vida ao seu deus, responde ela, tentando voltar-se
mas bruscamente impedida.
— Pois sinto que gostarias,
diz ele, roçando de leve os dedos entre os dois lábios que transparecem entre
as coxas firmemente apertadas.
— E aqui? faz ele,
separando-lhe as nádegas com o polegar.
— Não precisas de uma
mulher para isso, bem sabes.
— E se eu te disser que meu
escravo calipígio está doente?
A sacerdotiza cala-se,
temerosa de que suas réplicas provoquem a ira desse irmão cheio de despeito da
sibila deposta. Ele a faz virar-se de frente e ergue a sua própria túnica.
— Que te parece? diz ele,
insolente, exibindo o membro que oscila, ereto, à mesma altura que o
baixo-ventre da grã-sacerdotisa.
— És homem; é natural que
tenhas um órgão viril. Pelo menos é o que tenho visto nos batismos do templo,
retruca ela, não resistindo à tentação de fustigar o insolente com uma ironia.
Vendo que ela não se dobra
às suas provocações e não se mostra minimamente excitada, Tirteu lhe dá as
costas, dá dois passos e ergue a própria túnica, expondo as nádegas.
— E disto, o que achas?
Surpresa e menos
amedrontada, a sacerdotisa solta o longo traje que ela vinha mantendo erguido
até a cintura e observa as nádegas lisas e projetadas que Tirteu lhe mostra sem
pudor.
— Por que me mostras isso?
— Quero tua opinião. O que
vês?
— Vi um homem de frente e
agora vejo uma mulher de costas.
— E é a mulher que te
interessa, suponho, retruca ele, já largando a túnica e voltando-se para ela
com ar cínico.
— Vais insistir nisso?
Nesse momento, Tirteu dá
uma ordem ao adolescente que esteve o tempo todo postado e mudo no corredor, às
voltas para abafar a tosse e espirros incessantes. Instantes depois, este
reaparece trazendo uma escrava de cerca de vinte e cinco anos, de feições
estrangeiras e longo cabelo louro. Puxando-a pelo braço, o menino a leva ao centro
do cômodo e desata-lhe a túnica, deixando-a completamente nua.
— Que achas?
— É uma bela escrava
bárbara, responde a grã-sacerdotisa, secamente.
— Pois ela é tua se lhe
fizeres sexo com volúpia na minha frente.
— Prefiro a morte, responde
a mulher, de cabeça erguida.
— Pois quem morrerá é ela,
e aqui, diante dos teus olhos, se recusares, responde ele, acariciando o cabo
da pequena adaga em seu cinto.
A grã-sacerdotisa se cala. Tirteu
então leva ambas até outro cômodo dominado por uma ampla cama e ordena-lhes que
se dispam e deitem. Em seguida, ele se acomoda numa cadeira diante delas e, com
um gesto, dá à escrava a ordem que ela já conhece bem. A jovem então debruça-se
sobre a grã-sacerdotisa e beija-lhe carinhosamente os seios, depois lambe-os
até que os bicos escuros se destaquem da superfície curva e lisa. A mulher
evita qualquer reação, mas seu corpo freme ao toque da voluptuosa jovem de
olhos azuis que já procura os seus lábios para beijar e encaixa uma coxa entre
as suas. Tirteu, excitado, empunha o membro em riste, iniciando uma lenta
masturbação.
A grã-sacerdotisa não
resiste por muito tempo aos encantos da jovem escrava. Intimamente, ela sabe
das suas preferências, e a longa abstinência desde sua última e incendiária
aventura com uma das jovens escravas do templo multiplicou desmesuradamente o
seu desejo. Aos poucos, ignorando a presença de Tirteu, ela aceita as carícias
íntimas prodigalizadas com tanta habilidade pela estrangeira, cujos dedos e
língua vão-na arrastando para um prazer intenso e corescente que a faz
oferecer-se mais e mais, como uma meretriz, incapaz de furtar-se ao prazer
lúbrico uma vez desencadeado.
Tirteu observa o seu membro
verter sêmem pela segunda vez com intensidade não inferior à primeira. O
líquido farto envolve a glande e desce pelo tronco do falo, encharcando a base
e escorrendo pela bolsa escura e rugosa da qual ele parece brotar. Ele chama a
escrava que vem sentar-se nele e trotar até que amoleça, depois manda-a lavá-lo
com a boca. Ela já deu à luz dois filhos seus, natimortos devido à imaturidade
do seu corpo na época, mas age como se fosse um mero objeto, sem revelar na
fisionomia a menor expressão de desagrado. Tirteu a observa de costas
caminhando para fora da alcova, as nádegas salientes, alvas como o alabastro,
formando duas curvas sensuais que se alternam a cada passo.
— Deslumbrante, não é? diz
ele, voltando-se para a grã-sacerdotisa que, sentada nua na borda do leito,
tenta manter a dignidade.
— É uma linda menina, de
fato, responde a mulher, olhando a jovem ser levada pelo efebo gripado.
— Estás vendo? Salvaste-a!
— Às custas da minha vida,
talvez.
— Por que dizes isso?
— Acaso pensas que escravos
não falam? Teu valete de quarto e ela própria propagarão a nova sobre os
"gostos" da grã-sacerdotisa.
— Queres que os cale? Posso
cuidar disso agora mesmo.
— Não. Cada um tem o
destino que merece e as Parcas já teceram o meu. Até que a calúnia se propague,
terei tempo de pensar numa solução.
— A morte ou a fuga?
— Sim, mas a verdade é que
tu me mataste, Tirteu.
— No que me diz respeito,
pagaste o preço. Tens o consentimento que vieste buscar para a deposição sem
pena de morte para a minha irmã sibila. Podes ir.
Aglaia está salva, Leda já
pode ocupar o assento da sibila de Phtinos, mas a grã-sacerdotisa erra pela
cidade com o olhar vago dos mortais tristes. Ela caminha longamente, sem rumo
certo, mas como cada estrada dessa ilha leva a uma falésia, ela não tarda a
descortinar do alto os imensos domínios de Posseidon. Olhando para trás para
guardar uma última imagem da sua querida cidade, ela dá um passo a mais e
despenca, sendo tragada pelas ondas para nunca mais ser vista.
Sibila Deposta, Sibila Posta
O desaparecimento da
grã-sacerdotisa não impede o empossamento de Leda. Tirteu, ciente de que a
pobre mulher não encontraria solução alternativa ao suicídio, cuidou de tudo
para que outra — indicada por ele — assumisse a posição de grã-sacerdotisa do
templo de Perséfone. No dia seguinte, antes do alvorecer, tudo está pronto para
a grande solenidade de abertura do portal do templo pela nova sibila.
Imerso na multidão, Makron
observa cada gesto de Aglaia e de Leda no alto da escadaria do templo. Ele está
triste, mas ao mesmo tempo impaciente por começar uma vida com a mulher amada. Quando
a solenidade termina e que o povo grita louvores agitando ramos de oliveira e
de louro, ele caminha até a ruela dos fundos, a mesma que serviu tantas vezes
às escapadas de Aglaia, e vai esperá-la como combinado. Longos minutos se
passam, mas finalmente a pequena porta dos fundos do templo se abre e Aglaia
sai, vestida simplesmente como qualquer jovem da ilha e pela primeira vez em
plena luz do dia.
— E então? Correu tudo bem?
pergunta ele.
— Foi um tumulto só!
Passamos a noite toda acordadas recebendo ordens da nova grã-sacerdotisa, uma
megera. Pobres meninas!
— Ao menos estás livre
disso. Mas vamos; tenho uma surpresa para ti!
As pessoas se voltam para
olhá-los, intrigadas ao ver a ex-sibila com um companheiro. Mas Aglaia é
querida de todos, portanto o casal não desperta sentimentos hostis. Cumprimentando
gentilmente a todos, eles se afastam em direção a uma das portas da cidade.
Capítulo XI - Nova Vida
Assim que os dois jovens
ultrapassam as muralhas para subir o curto trecho que leva à colina onde Makron
mora com seu tio, eles correm, gritam, brincam, abraçando-se e beijando como se
precisassem recuperar o tempo perdido. Eles mal podem esperar por um longo
momento juntos e a sós. Ao chegarem à propriedade, o tio agricultor os recebe
afetuosamente, serve-lhes salada, pão, queijo e vinho resinado, e os assedia
com perguntas. À certa altura, ele se levanta a e Aglaia pensa que ele vai
mostrar-lhe um quarto da casa que ela poderá ocupar até o casamento.
— Então, meu sobrinho, não
achas que é tempo de revelares a surpresa?
— Posso, meu tio?
— Fica à vontade. Vou
voltar ao pasto.
Os dois saem da casa e
Makron indica a Aglaia uma trilha estreita. Eles andam um pouco e logo na
primeira curva, ela avista o telhado de palha de uma casa toda de pedra, baixa,
retangular, com duas janelas e uma porta situada num pequeno vestíbulo guarnecido
de uma coluna.
— É a nossa casa, diz
Makron, com o rosto iluminado. Meu tio e eu acabamos de construí-la.
Maravilhada, Aglaia não
sabe se pula no pescoço de Makron e o cobre de beijos ou sai em disparada até a
casa. Ela faz as duas coisas. A casa é simples, mas ampla e confortável, com
uma mesa e quatro bancos, lareira e os utensílios domésticos essenciais:
ânforas de argila, copos, pratos e panelas de cerâmica decorada com os motivos
náuticos típicos da ilha, colheres de pau e facas para a carne. Além disso,
Makron inventou um assento longo para várias pessoas com almofadas recheadas de
lã de carneiro, o que lhes permitirá comodar quatro convidados. No único cômodo
separado, uma boa cama de tijolos de argila guarnecida de um colchão repleto de
palha fresca misturada a ervas aromáticas é o móvel único e provoca o riso de
Aglaia.
— Um quarto não precisa de
mais nada, foi o que pensaste?
— Exatamente; só nós dois!
Ela se joga prontamente na
cama fofa e perfumada, abrindo os braços para acolher seu homem. Sentindo-o
imediatamente às portas para penetrá-la, ela se oferece sem se lembrar do que
já germina em suas entranhas e eles fazem amor livremente pela primeira vez. As
posições se sucedem. Como ela gosta de sentar-se com o espesso membro do seu
amado todo dentro dela e cavalgá-lo, trotando apoiada em seu peito forte
enquanto contempla seu êxtase! Ou, de quatro, recebê-lo por trás e sentir as
batidas firmes das suas coxas musculosas. Ou ainda, deitada com as pernas junto
ao peito, gemer com a sua língua ágil devorando-lhe o sexo enquanto ele
acaricia suas coxas com as duas mãos fortes. Até mesmo o ato censurado que a
deixava tão apreensiva no pequeno cômodo comercial da ruela em que eles se
encontravam poderá ser feito agora sem o menor receio, e Aglaia franqueia de
bom grado, pela primeira vez em segurança, este outro acesso que tanto prazer
proporciona ao seu homem.
— Se gostas tanto, amado,
sou toda tua, hoje.
— Posso mesmo? Juras?
— De verdade, diz ela,
debruçando-se na cama, afastando as pernas e olhando para trás para vê-lo,
jubiloso, começar a forçar.
— Ah, como isso me fez
falta! diz ele, sentindo a constrição da glande pela passagem estreita. Tinhas
tanto pavor de sermos descobertos fazendo isso.
— Bem sabes que é um ato
mal visto. Eu tinha medo.
— Eu também! Se fôssemos
surpreendidos, teríamos sido expostos na ágora com placas indicando o que
fizemos. Mas confessa que era emocionante.
— Está bem, admito, mas
agora concentra-te e tenta convencer-me a gostar também! diz Aglaia,
batendo-lhe na coxa e já contendo-se para não gritar.
Makron sorri e se cala,
observando seu grosso membro entrar e sair por entre as nádegas de Aglaia, que
se contorce e geme abaixo dele.
— Monstro! murmura ela,
grunhindo entre os dentes semicerrados. Como podes gostar tanto de uma coisa
que me faz sofrer?
— Todo homem gosta, Aglaia.
E garanto-te, acabarás pedindo para que eu te possua assim toda vez.
— Pode ser, geme ela
triturando com as mãos o colchão novo.
A incredulidade de Aglaia
se deve mais ao fato de lembrar-se das violências passadas no altar da clareira
do que de suas poucas experiências anais com Makron. Embora seu corpo não traga
marcas daquela noite de suplício, ela tem viva na lembrança a sensação das
bestas humanas que se revezaram penetrando-a simultaneamente pouco antes do
alvorecer. Mas tudo é diferente com o homem que ela ama, e senti-lo dentro dela
lhe faz bem apesar do desconforto. Ela o estimula a prosseguir, oferecendo-se e
exortando-o a possuí-la com toda a volúpia. Seu ânus acaba acomodando-se ao
diâmetro imposto pelo membro e ela se vê forçada a admitir que a dor cede aos
poucos lugar ao prazer, prazer este que ela pode ampliar acariciando-se com os
dedos, que ela esfrega vigorosamente no pequeno ponto situado no alto do seu
sexo. Quando Makron começa a ter os espasmos que o levam a descarregar nela o
seu sêmen, ela experimenta um orgasmo inédito que a faz verter líquido coxas
abaixo e a enfraquece a ponto de precisar apoiar-se na parede para suportar as
últimas estocadas.
Makron termina e sai dela,
mas Aglaia continua de bruços na cama com a mão entre as coxas, esfregando-se e
penetrando-se com os dedos, entregue a um longo orgasmo que a faz gemer sem
cessar. Prontamente, Makron volta a penetrá-la no sexo, pilando-a com força
para mantê-la no clímax. Ela geme e soluça, entregue ao êxtase da liberdade, o
que a emociona. Após um novo orgasmo que aniquila suas últimas forças, Makron
se deita por cima dela, incapaz de retirar-se e recebendo as últimas contrações
do sexo extenuado de Aglaia. Eles adormecem assim nessa primeira noite,
descurando das portas e janelas abertas a alguma vaca ou cabra indiscreta.
Os trabalhos e os dias se
sucedem na pequena fazenda. Makron e Aglaia descem à cidade regularmente para
os rituais religiosos, para vender o leite, o mel, os legumes e as verduras que
eles produzem, para comprar artigos como o azeite, o sal, o vinho forte a ser
cortado com água, e para passear. Todos sabem que eles estão juntos, mas
confiam por tradição na vigilância do tio de Makron para que o compromisso do
casamento seja respeitado. A mulher de Phtinos pode entregar-se ao homem com
quem vive desde que se case com ele.
E de fato, a cerimônia não
tarda a acontecer e os noivos se tornam marido e mulher. No único quarto da
casa, um berço, presente do tio de Makron, é posto aos pés da cama. Olhando
para ele nos momentos de solidão, Aglaia se lembra do que lhe disse Príapo,
sabe que está grávida, mas prefere obrigar-se a acreditar que a semente de
Makron há de prevalecer. Enquanto os sinais não chegam, ela faz amor com ele e
extrai-lhe o máximo possível de sêmen, como se pudesse afogar com ele a semente
já plantada no terreno violado. Quando ele não a possui, ela lhe faz sexo oral,
sugando e engolindo até a última gota tudo que ele traz no envólucro rugoso que
lhe parece sempre repleto entre as coxas dele.
— Queres mesmo engolir?
pergunta-lhe Makron, já próximo da terceira ejaculação noturna.
— Sim, sempre, pede ela,
sugando com força e recebendo um último e fraco fio de esperma sobre a língua,
que ela engole tão-logo, adormecendo em seguida sobre a barriga do amado.
Fortes e saudáveis com a
vida agrícola, os jovens esposos não se privam do amor em todos lugares e
circunstâncias. Makron está sempre pronto a oferecer-lhe o seu belo atributo à
masturbação, felação ou penetração, seja no campo, no bosque, em becos da
cidade e até mesmo nas festas dadas pelos parentes que não romperam relações
com ela depois do fim do sibilato. Eles se sentem à vontade nas orgias
promovidas pelos mais abastados, expondo-se e observando belos corpos entregues
aos mais lúbricos malabarismos. Sempre juntos, eles logo se tornam um casal
apreciado, ganhando rapidamente a afeição de todos.
Dois meses se passam sem
que Aglaia tenha o menor sintoma da temida gravidez em curso. Todavia , a
ausência das regras não lhe deixa dúvida e portanto, ela comunica o fato a
Makron como uma boa nova, e ele exulta. Mas de quem será esse filho,
pergunta-se ela na solidão da casa, quando não está ajudando o marido na
lavoura: de Príapo, dos assaltantes do bosque, de Makron... ou resultará ele de
uma mistura das sementes de todos eles? Ela ignora os segredos da geração
humana e como há um deus envolvido, a coisa lhe parece ainda mais misteriosa,
portanto, ela acaba entregando o problema aos imortais e vai vivendo seu
cotidiano ao lado do marido gentil, descontraído e bem-humorado.
Certo dia, no fim do
terceiro mês, Aglaia está arrumando a casa quando é tomada de uma excitação
súbita tão intensa que precisa ir ter com Makron, na lavoura. Eles fazem amor
entre os sulcos, diante do cão fiel que salta e brinca com eles, mordiscando e
lambendo seus corpos seminus. Enfim saciada, Aglaia olha para o seu esposo que
a fixa com ar intrigado.
— Que bicho te mordeu?
pergunta ele, dando-lhe um tapa nas nádegas.
— Ai! Não sei. Fui tomada
de um calor e de um desejo que me mataria se não me penetrasses.
— Normalmente, as gávidas
fogem dos homens.
— Bem sei, mas falta-me
explicação.
— Melhor para mim! brinca
ele, ficando por cima dela, beijando-lhe os seios e a boca.
— Sinto que vou dar-te um
filho afeito a essas coisas, diz Aglaia, franzindo as sobrancelhas.
— Às coisas da carne?
— É. Fazemos tanto!
— Que mal há nisso? Vamos
consagrá-lo a Dionísio... ou a Príapo, seu filho de membro avantajado!
— A Dionísio! precipita-se
ela em responder, sentindo o coração sair pela boca.
— Preferes atenuar a
luxúria com o vinho? Pois seja! zomba o marido, penetrando-a uma última vez
antes de retomar o trabalho.
Quando não está na lavoura
com ele, Aglaia vai ver Makron no campo uma ou duas vezes por dia, pretextando
trocar-lhe a água ou levar-lhe algo de comer. Uma vez saciada, ela volta à casa
e aos afazeres domésticos. Mas algo se altera rapidamente dentro dela,
obrigando-a a despir-se e, erotizada pela própria nudez, tocar-se várias vezes
por dia, penetrar-se com objetos e obter prazer solitário para não extenuar seu
marido que ela já solicita cerca de quatro a seis vezes, dia e noite. No
início, Makron acha divertido estar com ela tantas vezes, mas a gravidez
progride, o ventre de Aglaia ganha forma e dimensão e ele começa ficar
preocupado ao vê-la insaciável. A dois meses do parto, Aglaia continua em fogo
e parece precisar dele ainda com mais frequência.
— Makron! Makron! chama
ela, no meio da noite, sacodindo-o para que acorde, já com a mão no seu sexo.
— Que foi, mulher? É a
terceira vez esta noite!
— Preciso de ti! Vem,
monta-me, suplica ela, ardente, já pondo-se de quatro e apresentando-lhe o sexo
aberto como uma rosa desabrochada e cheia de orvalho.
— Não quero mais, Aglaia.
Terei um dia cheio e o alvorecer não tarda. Acalma-te e tenta dormir.
Frustrada, Aglaia
debruça-se sobre ele e só para de sugar-lhe o membro após vertida a semente.
— Agora dorme e não me
acordes mais se não quiseres me ver ir dormir com os animais daqui para frente,
esbraveja ele, voltando-se para o outro lado.
— Desculpa-me, pede ela,
sinceramente envergonhada. Não sei o que está me acontecendo, mas é mais forte
que eu.
— Trata de dormir.
A um mês do parto, Aglaia
decide dar um passeio para tentar tirar do espírito os pensamentos lúbricos que
a assaltam assim que Makron sai para trabalhar. Ela anda até passar pela
propriedade de Zenon, um criador de porcos. Os leitõezinhos a distraem. Ela decide
entrar e vai até a pocilga, onde ela encontra um dos filhos de Zenon varrendo
um cercado e cantando em altos brados, vestido apenas com a tanga de algodão
cru que os homens usam por baixo da túnica.
— Olá! diz ela, chegando à
porta.
— Aglaia? responde o homem
de trinta anos, surpreendido, procurando sua túnica com os olhos.
— Fica à vontade, Glauco. O
Makron também despe a túnica para trabalhar com esse calorão. Estou acostumada.
— Vieste ver os leitões?
pergunta ele, tranquilizado. Estão crescidos! Vem cá.
Aglaia se aproxima do
cercado indicado por ele, onde doze leitõezinhos rajados disputam as tetas da
mãe imensa, deitada de lado no chão de terra batida.
— Estão lindos! exclama
ela, comovida.
— Brevemente será tua vez!
exclama ele, apontando com o nariz para a majestosa gravidez de Aglaia.
— É para o mês que vem, diz
ela, acariciando a redondeza.
— Fica à vontade e não te
importes comigo. Preciso continuar a limpar isto aqui, diz o homem, voltando ao
cercado vazio.
Aglaia olha um pouco os
leitõezinhos mamando, mas logo se sente atraída pelo corpo vigoroso e seminu a
alguns metros dela. Entre suas pernas, o fogo inextinguível começa a trabalhar
e a umidade a produzir-se, não tardando a escorrer pelas coxas. O desejo a
tortura, e Makron está tão longe! Ela resolve ir até o cercado onde está Glauco
para puxar conversa.
— Que vais pôr aí? Algum
animal está para chegar? pergunta ela, olhando para o homem que já não se
importa de ser visto em sua tanga exígua.
— Exatamente. Meu pai está
na cidade negociando e deve voltar com um macho reprodutor porque o nosso está
muito velho.
— Não te casaste novamente,
após a triste perda da tua jovem mulher, não é, Glauco? pergunta ela, em
desespero de causa.
— Não. E os deuses não me
deram o dom da paternidade, Aglaia. Mil vezes tentei e mil vezes fracassei em
fazer germinar a minha semente nas entranhas de Eufrosina. Agora isso é sabido
e não há outra que me queira.
— E no entanto, és belo
homem, diz Aglaia, olhando-o de alto a baixo e sorrindo.
— Obrigado!
O sexo encharcado de Aglaia
clama por ser penetrado e sua vontade é de masturbar-se ali mesmo para aliviar
a enorme tensão erótica.
— Os homens têm sorte de
poder tirar a roupa assim. Os deuses são cruéis fazendo-nos, pobres mulheres,
sentir o mesmo calor quando sabem que não nos é permitido despir-nos!
lamenta-se ela, abanando o rosto com a mão.
— E a gravidez não ajuda em nada. Queres água
para beber e referescar-te um pouco?
— Por favor, Glauco. Estou
quase perdendo os sentidos.
O porqueiro pega então uma
enorme concha e vai até a tina d'água enchê-la. Em seguida, ele dá de beber a
Aglaia e derrama o resto em sua nuca. A água que desce pelas costas traz-lhe
alívio imediato, mas ao atingir as nádegas, escorrer pelo sulco e gotejar pelo
sexo, intensifica a excitação de Aglaia, que já não era pouca. Ela sente o
cheiro forte do homem ao seu lado, que agora bebe em grandes goles ruidosos. Uma
idéia lhe ocorre e, mesmo drástica, ela se aferra a essa única possibilidade. Dando
as costas para Glauco...
— Derrama um pouco mais na
minha nuca.
— Espera, vou encher a
concha.
Quando ele volta, Aglaia
continua na mesma posição, mas puxou o cabelo para cima e expõe seu belo
pescoço fino e alongado, e a nuca de onde desponta o farto cabelo castanho. Glauco
derrama a água ouvindo o suspiro de satisfação de Aglaia e sua coluna
empertigar-se com a passagem do líquido frio, salientando as nádegas. Isso
finalmente o desperta para o corpo de mulher à sua frente. A tática de Aglaia
começa a dar resultado. Ela agora leva as duas mãos ao cabelo e a túnica presa
num dos ombros separa-se suficientemente do corpo para que ele veja por dentro
dela a curvatura das costas e o início das belas nádegas que ela força para
trás. Ela não tem pressa em dizer-se saciada e ele não tem mais dúvida de que
pode cumprir o papel do macho. Largando a concha no chão, Glauco suspende
a longa túnica de Aglaia até acima da cintura.
— Isso vai aliviar-te ainda
mais, diz ele, decidido.
Aglaia engole em seco e, em
silêncio, sem se voltar para trás, segura sua roupa com uma mão e apoia-se com
a outra no cercado à sua frente. Enquanto isso, o homem, excitadíssimo, cola-se
a ela, sentindo o membro ereto entre suas nádegas e abraçando-a pelos seios.
- Ah, como é bom... geme
Aglaia, suspirando.
- Era o que querias? Se
tivesses sido mais clara, não teríamos perdido tanto tempo, diz ele, simplório,
agora passando o membro entre suas coxas.
Louca de desejo, Aglaia
leva a mão até a glande molhada que desliza pela fenda e afunda-a com a ponta
dos dedos, sentindo enfim o prazer tão longamente postergado.
— Fode... sussurra ela,
gemendo com a expansão inicial do seu sexo.
Glauco de fato a preenche
com um membro que nada deixa a desejar ao de Makron, muito pelo contrário! Mas
Aglaia está tão excitada que sua lubrificação lhe permitiria receber até mais
do que isso. Ao mesmo tempo que ela o sente ir e vir, expandindo suas carnes,
ela fricciona vigorosamente o ponto sensível que ela aprendeu há tanto tempo a
fazer com que se desencadeie o prazer maior. Glauco geme atrás dela, puxando-a
com as duas mãos pela cintura, mas evitando por razões óbvias desferir golpes
fortes de pélvis, contentando-se com um vaivém suave e regular. Ele sente nas
pontas dos dedos a gravidez de Aglaia, o ventre que se expande e projeta. Ele
jamais imaginou qe isso o excitasse, mas o fato se comprova e ele não consegue
privar-se do desejo de ver essa mulher grávida completamente nua. Com um gesto,
ele retira pela cabeça a túnica de Aglaia, pendura-a a um gancho da viga ao seu
lado e leva ambas as mãos aos seus seios repletos de leite.
— Ai, vais matar-me! diz
ela, gemendo alto e, mais livre, firmando-se bem no cercado de madeira e
sentindo a fricção extasiante do grosso membro que a invade.
— Quero dar-te tudo que
tenho, Aglaia. Nunca me senti assim com uma mulher grávida, mas — que me
perdoem os deuses — estás me levando ao Olimpo!
— Então não para, que vamos
chegar juntos! geme ela, sentindo as pernas fraquejarem com os prenúncios do
orgasmo.
— Vou inundar-te, posso? Ou
preferes que eu deite a semente ao chão... ou em outro lugar? pergunta o homem,
separando as nádegas de Aglaia com os polegares e olhando para o interior do
sulco.
— Pouco importa, mas faz-me
ver estrelas, diz ela, agitada com orgasmo iminente.
O homem então acelera e os
gemidos de Aglaia se tornam gritos. Masturbando-se continuamente, ela apalpa a
bolsa macia e peluda que colide contra o seu corpo enquanto ela sente as
descargas do seu sexo tomado pelos espasmos. Como lhe faz bem poder gritar
enquanto recebe as estocadas desse membro vigoroso e ágil! A resistência de
Glauco lhe permite atingir o clímax com a intensidade máxima. Ela lhe pede
ajuda para não desabar e ele a envolve em suas mãos fortes, entrando nela até o
fim. Pouco a pouco, os gritos voltam a ser gemidos, depois grunhidos,
murmúrios, suspiros, para tornarem-se pura respiração ofegante. Glauco
retira-se dela e põe a mão em seu ombro para que ela se vire e fique de
cócoras. Ela obedece e olha para ele, antecipando o seu pedido e abrindo bem a
boca. Duas ou três agitações do punho são suficientes para fazê-lo ejacular
fartamente em seu rosto, soltando o ar numa sucessão de gemidos quase
selvagens. Findo os espasmos e enquanto ele se distrai levando o esperma com a
glande à boca receptiva de Aglaia, ele ouve um ruído líquido característico e
vê correr no chão, abaixo das pernas dela, o corrego espumoso que acompanha a
inclinação natural do solo.
— Não consegui me conter,
diz ela, encabulada.
— Pois fizeste muito bem!
responde o homem, dando sonoras gargalhadas.
Saciada pelas próximas
horas, Aglaia se lava e se despede de Glauco, rogando-lhe que o encontro fique
entre eles dois, caso ele queira continuar usufruindo dessa oportunidade de
aliviar-se vez por outra. Homem bom e reto, ele lhe assegura de que não abrirá
a boca. Aglaia parte tranquila, convencida pelos seus olhos melancólicos.
Capítulo XII - O Fruto do
Pecado
Chega enfim o dia. Makron,
agitado, anda de um lado para o outro fora da casa enquanto, no interior, a
parteira emprega toda a sua arte para extrair de Aglaia o primeiro fruto dessa
união cheia de percalços. As horas se passam e a dor se instala em meio às
contrações cada vez mais frequentes. A parteira experiente sabe quando
exigir-lhe o esforço final, mas o momento tarda e o trabalho se prolonga noite
adentro. Aurora dos dedos róseos está para despontar quando a velha mulher dá a
Aglaia a ordem de prender a respiração e forçar com todo empenho, o que ela
faz, não sem apreensão pelo que está para sair de seu corpo.
— A cabeça está vindo.
Força, menina! diz a velha.
— É tudo que posso dar!
responde Aglaia, gritando e soluçando em meio às dores.
— Está vindo. Não para de
fazer força. A cabeça saiu. Os ombros. Pronto! É um menino e parece muito
saudável, diz a velha sorrindo, segurando o bebê pelos pés, ouvindo-o chorar de
boca escancarada, mas já concentrada no cordão umbilical.
— Makron... diz Aglaia com
voz fraca.
— O pai pode entrar! chama
a velha senhora, concentrada em segmentar o cordão no lugar certo, à luz dos
dois únicos lampiões da casa.
Makron entra no instante em
que a parteira secciona o cordão com uma curta faca de lâmina larga,
esterilizada a fogo.
— É um menino, sussurra
Aglaia.
— Vamos dar um primeiro
banho nesse bichinho! diz a parteira, toda bem–humorada, entregando o bebê a
Makron e vertendo sobre ele abundante água fresca.
Finda a água do jarro, a
mulher descarnada mas cheia de energia retoma o bebê, envolve-o numa toalha e
começa a enxugá-lo para entregá-lo à mãe. É nesse momento que algo chama a
atenção de Makron. Privada da visão de outrora e trabalhando na semi-escuridão,
a velha parteira avaliou o sexo da criança pelos testículos, assim que a
extraiu da mãe, mas não percebeu que o bebê não é apenas um menino, mas um
menino dotado um atributo singular. Quando ela o mostra ao pai uma vez mais,
agora banhado e seco, Makron descobre boquiaberto os dois longos apêndices, um
acima do outro, que lhe despontam do baixo-ventre.
— Nosso filho tem dois...
diz ele, sem tirar os olhos do bebê.
— Tem dois o quê? pergunta
a parteira.
— Olha, mulher! Ele tem
dois!
A velha olha calmamente
para a estranha duplicação no baixo-ventre da criança.
— Queres que lhe corte um
deles? Pergunta ela, com douta naturalidade. Faço isso agora mesmo e não te
custará muito mais.
— Não! diz Aglaia, tentando
gritar. Ninguém toca nessa criança! Tragam-no para mim.
— Muito bem, diz a
parteira. Se é assim, paguem-me que vou indo. Preciso descansar porque tenho
outro parto hoje mesmo.
Makron lhe dá as dracmas,
duas galinhas e a velha parte deixando o casal com o filho e sua estranha
característica que, diga-se de passagem, é a única coisa que causa espécie no
bebê grande e corado que logo adormece ao lado da mãe.
— Nosso filho tem dois
pênis, Aglaia. Qual será o significado disso?
Após um breve silêncio, o
casal abre a boca ao mesmo tempo para proferir a mesma palavra.
— Príapo.
Eles se entreolham, Makron
sentindo um inexprimível vazio na alma e Aglaia ciente de que acaba de dar à
luz um semideus.
— É teu filho, Makron. Ele
tem a proteção dos deuses, mas é teu filho, diz ela, apertando a mão do esposo
e olhando-o fixamente nos olhos, como para assegurar-lhe de que nada aconteceu
que ele pudesse reprovar.
— Se o dizes com tanta
certeza, não há porque nos inquietarmos. Diandro será seu nome, pois que é
duplamente homem. Ele há de crescer e tornar-se o orgulho de Phtinos, dando-lhe
muitos filhos graças ao seu duplo atributo.
Assim nascem os semideuses
e assim termina o que se sabe dessa história. Ainda não foi encontrado outro
livro que narrasse a vida de Diandro, o semideus bifálico. Sabe-se apenas que
ele é filho de Príapo e fruto do pecado da mortal Aglaia, portanto neto de
Dionísio e Afrodite. Terá ele vivido em Phtinos até abater-se sobre a ilha a
catástrofe que a varreu dos mares como outrora a rica Atlântida? Ninguém sabe,
e é provável que ninguém jamais venha a saber.
FIM
