31. Involuntariamente...
É domingo. Na república estudante, Rômulo se
preocupa com Aninha que, às 14h continua dormindo. Ele decide acordá-la e a
sente não só exausta, mas frágil e revoltada. Ele vê as marcas em seu pescoço e
seios, e infere que a festa da véspera não se limitou a uma homenagem inocente
aos novos colaboradores da agência Happy Hour. Aninha promete explicar tudo
depois de um banho. Eles vão almoçar num restaurante e ela conta em detalhes o
que aconteceu na cobertura do big boss.
— Você tem que falar
com a polícia, Ana! Eles te drogaram e violentaram, e isso é
estupro! exclama o rapaz, impressionado e assustado.
— Deixa de ser
inocente, Rômulo! Você quer ser chamado a um necrotério para
me identificar?
— Mas o que é que
você vai fazer, então? Contar tudo à Stéphanie quando ela voltar? Ela te manda
para a cadeia, e eu junto, por cumplicidade!
— É, eu sei, por
isso resolvi te contar tudo. Essa colaboração com a agência do Norberto não
pode continuar e não sei o que fazer. Tenho uma idéia, mas não sei se funciona.
— Fala.
— Você se lembra do
Kleber, não é, o cara que arrumou o primeiro apartamento para mim aqui em Cabo Frio , e que ficou
meu amigo, dono do apartamento no Peró onde a Stéphanie mora?
— Lembro, claro. Ele
já foi à loja algumas vezes.
— Pois é, acho que
eu vou falar com ele. Além de ser amigo da Stéphanie, ele gosta de mim. A gente
pode fazer uma reunião a três, sei lá… Ele não vai negar ajuda.
— Mas o que é que
ele pode fazer?
— Em último caso,
Rômulo, até comprar a Conchas e Crustáceos, nem que seja só para fechar! Ele é
rico e a butique ainda não vale tanto assim.
— E você acha que a
Stéphanie entra nessa?
— Acho, se ela
entender que corre perigo.
— Ela nunca mais vai
querer te ver nem pintada, e isso se ela não quiser te processar! Você sai de
uma roubada com criminosos e entra em outra com a justiça.
— Vamos parar com a
nuvenzinha negra, Rômulo! Não foi para isso que eu te contei.
— Está bem,
desculpa. Acho que falar com o Kleber é boa idéia. Ele está em Cabo Frio ?
— Posso descobrir.
Aninha pega o
telefone e, coincidentemente, ele toca e é Stéphanie, ligando de Arles, na
França. Ela informa que adiou mais uma vez a volta e que portanto, só chegará
dentro de dez dias. O alívio de Aninha é tamanho que lágrimas brotam dos seus
olhos. Patroa e gerente se despedem naturalmente. Aninha liga para Kleber e
descobre feliz que ele está, sim, em Cabo Frio. Eles marcam encontro na mesma noite de
domingo. Ela passa o dia com Rômulo, mas vai sozinha ao apartamento do Peró. Ela
explica detalhadamente a Kleber como funciona a colaboração da butique de
Stéphanie com a agência de encontros e conta o que houve na véspera, na festa
da cobertura do proprietário da agência. Kleber ouve atentamente e sem interrompê-la.
— E é isso, Kleber. Estou
desesperada e precisando de ajuda para sair dessa. Não sei o que fazer e acho
que você é o único que pode me ajudar, diz ela, olhando-o nos olhos com
toda a sinceridade.
— Que encrenca, Ana! Você foi ingênua de ter aceito essa colaboração com uma agência de
sexo.
— Eu sei,
mas parecia um dinheiro tão fácil! E com a Stéphanie na França… Não consegui
recusar.
Kleber se levanta,
acende um cigarro e caminha até a janela para pensar olhando na direção do mar.
Três ou quatro minutos depois, ele se volta para o sofá onde Aninha permaneceu
sentada.
— Ana, eu vou ajudar, mas você vai ter que fazer rigorosamente tudo que eu disser. Você
concorda?
— Claro!
Faço o que você quiser para sair dessa!
— Muito bem. A
primeira coisa é tirar você daqui porque você está correndo perigo depois dessa
história da festa na cobertura.
— Você acha? Mas eu
fui a vítima!
— Ana, agora você
sabe do que eles são capazes e eles sabem que você sabe. Das duas, uma: ou eles
te "compram", ou eles se livram de você.
— Nossa! Então me
diz o que é que eu faço logo!
— Vai para
casa, junta tuas coisas e me espera. Enquanto isso, diz ao Rômulo para pedir
demissão. Como você é gerente, pode assinar a carteira dele. Eu vou te levar para o Rio. Tenho um apartamento vago em Copacabana e você pode ficar lá até
arrumar outra coisa. Eu cuido de tudo por aqui, com a Stéphanie.
— Está bem. Faço
isso agora mesmo, chegando em casa?
— Chegando em casa. Pega um táxi
para não perder tempo e liga para o Rômulo porque ele pode não estar em casa.
— Está bem, então eu
fico te esperando no apartamento, diz Ana, amedrontada e já se levantando para
sair.
Desse momento em
diante, tudo vai muito rápido. Ana e Rômulo vão até a butique, onde ela preenche
e carimba sua demissão. Em seguida, eles voltam ao apartamento e ela põe tudo o
que tem em duas malas para esperar Kleber. Por volta das 23h, o telefone toca.
Ela atende e ouve sem dizer nada.
— Era o Kleber. Ele
vai se atrasar um pouco, diz ela, voltando a sentar-se. Eu sei que te fiz mal, que te prejudiquei, mas
não quero que você me odeie por isso. Tudo o que eu faço é para tentar não
recair na vidinha medíocre que eu tive até bem pouco tempo, e eu só consigo ver o
dinheiro como tábua de salvação. Você consegue entender, Rômulo?
— Mm-hm, entendo,
Ana, mas…
— Chhh... faz ela, cobrindo os lábios dele com os dedos.
Erguendo o vestido até a cintura, Aninha senta-se a cavalo no colo do namorado, beijando-o com ardor enquanto ele se livra da roupa. Eles fazem amor durante longos
minutos beijando-se lascivamente, Rômulo acariciando suas coxas, ela o seu
peito, suas costas, seu cabelo. Ela baixa as alças do vestido para oferecer-lhe
os seios, que ele contempla, encontrando as marcas da véspera. Revolvido,
angustiado, ele os suga com sofreguidão enquanto se sente pulsar dentro dela, que geme em sua orelha.
O orgasmo não tarda, quase simultâneo, e Aninha acolhe com amor o que lhe dá esse namorado, o primeiro por quem ela nutriu um carinho e respeito verdadeiros. Ela sabe que o rapaz precisará de tempo para
pensar, e que talvez jamais volte a vê-lo. Enquanto ela afaga o seu cabelo sedoso e bem tratado de menino da Zona Sul do Rio de Janeiro, olhando-o nos olhos e encontrando paixão e tristeza, Aninha toma consciência de que logo estará de volta ao Rio, mas pela primeira vez de Mercedes e sem previsão de volta para o subúrbio.

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