23. Contágio
Duas semanas inteiras se passaram e graças
ao tratamento privilegiado dispensado em noites ardentes ao seu namoradinho de
boa família, Aninha não precisou alterar sequer de um fio de cabelo o seu modo
de gerenciar a Conchas e Crustáceos. Em apenas quinze dias, o boca-a-boca fez
com que a clientela refinada fosse substituída por frequentadores ávidos de
emoções menos sutis cujo objetivo maior é ser atendidos por vendedores seminus
que eventualmente concedem favores extraordinários. Aninha se sente em seu
ambiente enquanto Rômulo faz de tudo para se abstrair da nova atmosfera
carregada de olhares, cochichos e comentários inconvenientes.
— Quero que o meu namorado
"fica" assim como você nessa sunguinha, gato! diz uma criatura de
longas unhas rubras a um Rômulo que tenta ficar invisível diante do seu olhar
devorador.
— Se ele for alto e magro, vai ficar, responde
o rapaz, lacônico.
— Nossa, ele é um filé! intervém a amiga loura
de voz imatura vestida num short branco que quer dividi-la em duas, dando um
tapinha na mão do Rômulo e aproveitando para escanear seu corpo pela décima vez
com os olhos.
— Precisando de ajuda? pergunta Aninha,
parando ao lado dele.
— Não, mas você pode terminar para mim, se
quiser. Assim eu atendo aquele cliente, ali, que está parecendo meio perdido,
responde Rômulo, feliz por desvencilhar-se.
Aninha pergunta à
interessada se é tudo e recebe uma enxurrada de perguntas, vindo a descobrir
que a compra da sunga era mero pretexto e que ela não vai levar absolutamente
nada.
— Querida, eu tenho uma proposta a fazer.
— Uma proposta? Sobre o quê?
— Olha, não leva a mal o que vou te dizer, mas
essa loja está dando o que falar por aqui e a gente está sabendo que o negócio
vai indo muito bem.
— É, mas não estou entendendo esse papo,
responde Aninha visivelmente intrigada.
— Deixa eu te falar. Eu tenho uma agência de
modelos e queria te propor de trabalhar junto com vocês.
— Usando as nossas roupas e acessórios em
desfiles?
— Não é bem isso, querida, mas você pode tirar
muito, mas muito dinheiro mesmo.
Muito curiosa e vendo
que a mulher está reticente para desenvolver mais o assunto, Aninha pergunta a
Rômulo se ele pode ficar por uns minutos sozinho e, sem que ele perceba,
sobe com a cliente até o pequeno estoque, onde há uma mesa e duas cadeiras. A
jovem mulher abre o jogo.
— Seu nome é Ana, não é?
— É.
— Ana, foi um amigo meu que me falou de você. Ele
veio aqui comprar sungas e foi você que atendeu.
— Sei...
— Você deve se lembrar dele, um moreno boinito
de cabelo preto muito brilhante, com cara de peruano.
Aninha não precisa
se esforçar para se lembrar do rapaz dotado que usava cueca fio-dental a quem
ela deu um atendimento mais que personalizado, mas nada deixa transparecer.
— Pode ser, mas não tenho certeza; é tanta
gente que entra para compar sungas!
— Pois é, querida, mas ele me disse que foi
super bem atendido, e é só olhar para você para ver que só pode ter sido mesmo!
Mas olha, eu vou ser direta para não roubar o teu tempo. Eu queria que você
fizesse propaganda da minha agência aqui, com os clientes. Nós temos um
atendimento ótimo, personalizado e na casa do cliente. Nossos modelos são todos
assim, como você e o Rômulo, e são profissionais mesmo. Sair com eles é
garantia de satisfação.
— Mas isso aqui é uma loja; não posso fazer
propaganda de agência de sexo.
— Eu sei, querida, mas você não está
entendendo. O que você faz aqui é proibido, então a gente pode se ajudar, o que
você acha?
— Você está me chantageando?
— Não é isso, meu bem, mas você sabe que pode
colaborar.
— Você sabe que a loja não é minha.
— Claro que sei. Quem não conhece a francesa? Mas
aposto que ela não sabe nada do que vocês fazem nos vestiários. Meu amigo disse
que nunca vai esquecer do que você fez nele. E — que chato, não é? -, o irmão dele trabalha
na polícia.
— Você está me deixando nervosa. Me diz o que
você quer que eu faça e eu te digo se é possível ou não.
— É facílimo, meu amor. Você só vai ter que
"caprichar" no atendimento e vai dizer para os clientes que se
quiserem muito mais, sempre e melhor, você tem a dica da hora.
— Ah, "só" isso? retruca Aninha,
sarcástica.
— Mais ou menos, querida. Só tem mais uma
coisinha. De vez em quando, eu quero que um dos nossos modelos – temos rapazes
e moças – passem um dia com vocês. A idéia é ter um outro local de divulgação,
entende, e também dar uma olhadinha para ver se está tudo indo bem por aqui.
— Para vigiar, você quer dizer?
— Não olha por esse lado, amor! É que se a
gente trabalhar junto, eu tenho que ter algum controle, não é mesmo? E eu quero
que eles atendam quando você achar que algum cliente quer um servicinho extra,
percebe? Pensa positivo, querida! Isso vai até aliviar você.
— E eu lá tenho escolha?
— É, amor, não tem, diz a outra com voz
lânguida, ajeitando o cabelo comprido.
— Olha, durante duas ou três semanas eu até
posso ter gente de vocês aqui, mas quando a dona chegar, vai ser impossível.
— Até lá a gente vê isso, querida. Vamos falar
do presente. Você sabe quanto pode ganhar se aceitar?
O número soa
astronômico aos ouvidos de Aninha, que imediatamente se imagina comprando carro
e alugando sozinha um apartamento grande. A proposta é tão sedutora que ela
toma a decisão ali mesmo.
— Eu topo, mas me dá uns dias antes de mandar
o primeiro modelo para cá, está bem? Vou precisar preparar o Rômulo e ainda não
sei como.
— Olha querida, sem querer interferir na sua
vida, nós podemos dar um jeitinho para o Rômulo não atrapalhar. Você gosta
muito dele?
— Ele é meu namorado!
— Ah tá, então a gente pensa em outra coisa. Mas
assim você já fica sabendo que o nosso esquema prevê tudo para tirar os
problemas do caminho, tá, meu bem?
O medo se apodera de
Aninha assim que ela entende que está diante da representante de uma gang
organizada. Ela não pode recuar e agora tem motivos para temer pela própria
vida.
— Olha, você me diz o que eu tenho que dizer
aos clientes e fica tudo bem, pode ficar tranquila, diz ela conformada.
— Assim é que se fala! Já vi que você é uma
menina ambiciosa que quer ir longe.
A mulher passa então
à Aninha o endereço eletrônico, links de sites e telefones da agência
exclusivamente virtual a serem transmitidos aos clientes. Ela se despede
recomendando que Aninha comece o mais rápido possível. De volta à loja, Aninha
tenta desesperadamente pensar nos ganhos para combater a tremedeira, mas ela
está lívida e Rômulo percebe assim que a vê.
— O que foi, Aninha? Está se sentindo mal?
— Foi só um enjôo, por isso fui lá para cima. Ainda
estou "meia" tonta,mas vai passar
— Quer ir embora? Falta pouco para fechar,
posso tomar conta de tudo.
— Não, não, está tudo bem.
— Não vai me dizer que está gravida! diz ele,
brincando.
— Isola! retruca ela, batendo na madeira.
Aninha está tão
ansiosa que começa imediatamente a procurar dentre os clientes da butique algum
que poderia ser a primeira "vítima". Pela primeira vez, ela constata
com pesar que a clientela mudou, reconhece sua responsabilidade, mas é isso que
lhe permitirá sobreviver. Ela não demora a encontrar um homem de cerca de
quarenta anos, robusto, que não tira os olhos do seu corpo.
— Oi, precisa de ajuda?
— Estou procurando uma camiseta para o meu
filho, mas vocês têm tantas!
Aninha o ajuda a
escolher, mas essa compra não vai levá-lo ao vestiário, então ela aproveita de
sua satisfação para propor alguns artigos. Ele acaba encontrando uma bermuda
que o agrada e ela o acompanha até o corredor das cabines fazendo-o entrar na
do fundo, fechando a cortina e ficando de fora.
— Como você não trouxe a esposa, eu posso
dizer se ficou bom, está bem?
— Claro, minha linda! É um prazer ser
atendido por uma deusa! exclama o homem, excitado com a companhia da vendedora
de biquíni.
Quando ele abre a
cortina, seu olhar se pousa lascivamente sobre o corpo de Aninha, que aprova a
peça de roupa com indiferença, aproximando-se e ajustando-a na sua cintura,
puxando-a para testar o grau de aperto.
— Ficou boa e esse é o seu número.
— Achou mesmo, minha linda? Você sairia com um
cara vestido nela?
— Claro, principalmente um cara charmoso como
você, finge ela, escondendo perfeitamente a contrariedade.
— Nossa, assim você me deixa sem jeito,
princesa! retruca ele, acariciando de cima a baixo o braço de Aninha e ficando
com sua mão na dele.
— Se a sua esposa visse isso… sussurra Aninha,
fazendo-se de conquistada.
O homem leva a mão
dela até a bermuda, fazendo-a sentir seu sexo que já pulsa forte dentro dela. Aninha
sente um alívio, começando a acreditar que talvez não tenha sido tão arriscado
assim associar-se com a mulher da agência. Ela conhece os gestos e as atitudes
a tomar diante de um homem; isso é natural nela. Bem mais alto, ele a envolve
em seus braços apanhando sua bunda com duas mãos grandes e abertas enquanto a
puxa para si e se esfrega nela, beijando seu pescoço. Aninha presta atenção aos
ruídos externos. Uma das cabines está ocupada, mas não há sinal do Rômulo. Agarrado
a ela, seu cliente parece pronto a tudo. Ela abre os botões da bermuda nova e
apalpa a cueca por fora para avaliar as possibilidades. Ela precisa agir
rápido, não há tempo para grandes preliminares e ele certamente quer tudo que
ela possa oferecer. Ela então o empurra para o fundo da cabine, fecha bem a
cortina e, chegando a calcinha para o lado cola-se nele envolvendo-o com uma
perna nas suas. Experiente, ele a penetra fundo e de uma vez só fazendo-a
fincar os dentes em seu ombro para não gritar. As estocadas se sucedem,
fortíssimas e rápidas, incessantes, até o orgasmo. Seu membro é de comprimento
normal, com cerca de dezesseis centímetros, mas é grosso, estima Aninha,
sentindo a borda da glande a cada reentrada. O homem ejacula até o fim dentro
dela, apertando um dos seus seios que escapole do sutiã e tentando em vão
beijá-la na boca. Tudo se passa no maior silêncio. Ele se veste enquanto ela se
recompõe, aplicando um lenço de papel estrategicamente entre os lábios da
vagina molhada para que o esperma não molhe a calcinha ao voltar. Para sorte
sua, Stéphanie teve a brilhante idéia de deixar sempre uma caixa de lenços de
papel para eventuais necessidades.
Quando o homem se
prepara para sair, Aninha o detém e pergunta se ele tem algo para escrever. Ele
lhe dá uma notinha de caixa e uma caneta, certamente acreditando que vai poder
manter contato com ela. No verso da nota, ela escreve um a url de um site e um
endereço eletrônico.
— Que é isso, gata?
— Qual é o seu nome mesmo? Pergunta Aninha,
sorrindo.
— Jorge.
— Jorge, você gostou do que a gente fez?
— Adorei, gata! Por mim eu…
— Então olha, entra no site deles que você vai
adorar. Tem meninas assim, como eu e você faz tão bem que elas vão brigar por
você.
— Sério, minha linda?
— Juro! Mas entra mesmo no site, viu? Promete?
— Por você eu faço tudo! Exclama o tolo,
procurando mais uma vez beijá-la na boca e recebendo o rosto, mas conseguindo
encaixar a mão uma última vez entre suas coxas.
O homem sai
carregando a bermuda seguido por Aninha, que vasculha seu próprio corpo em
busca do menor vestígio capaz denunciá-la. Antes de surgir do corredor dos
vestiários, ela inspira profundamente e sopra para acalmar-se; em seguida, vai
até o caixa concluir a venda da bermuda. O homem é todo sorrisos, falando alto
e prometendo não só voltar como fazer propaganda da loja. Aninha corre ao
banheiro para lavar-se e trocar de biquíni. Mentalmente exausta, ela passa o
resto do dia dedicada a vendas "normais", mas com a cabeça a mil por
hora, imaginando o que terá que fazer para desencumbir-se da nova tarefa, para
abordar o assunto com Rômulo e para evitar que Stéphanie descubra o
"esquema" quando voltar. À noite, no quarto, Rômulo quer tudo, mas
Aninha só é capaz de lhe dar o mínimo.
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