22. Quando o gato sai, os ratos...
Durante algum tempo, a vida de Aninha se
mantém estável, com o trabalho na butique e a relação descontraída com Rômulo. Ela
acaba propondo a Gabriel que assuma em seu lugar a co-locação do apartamento
com Soraya e passa a morar com o Rômulo, Sávio e Mateus. Com isso, seu enjôo por Gabriel se cura rapidamente,
mas ela o vê quase diariamente porque Stéphanie está de fato envolvida com ele.
"O garotinho se deu bem com a gringa", pensa ela, quando os vê
abraçados entrando e saindo da loja. Uma ponta de inveja a fustiga, acompanhada
de uma intuição que não tarda a revelar-se exata. Numa bela manhã de maio,
chegando à butique, Aninha percebe que sua patroa já está lá.
— Bom dia, Ana. Tudo Bem?
— Tudo. Resolveu madrugar hoje?
— Pois é, vou passar o dia aqui e tenho uma
coisa importante a dizer: vou ter que ir à França resolver umas coisas e vou
aproveitar para ver a família. Estou indo amanhã de manhã e só volto no mês que
vem, então você vai cuidar de tudo por aqui, está bem? E você vai ficar sem o
braço forte do Gabriel porque ele vai comigo. Sei que é um pouco cedo, a loja é
nova, mas também sei que posso confiar na minha equipe.
Aninha sente-se
pronta a cair sentada, mas se esforça para que nada transpareça e muito menos a
cor do seu rosto. Se ela empalidecer ou corar, a francesa saberá na certa que a
novidade a incomoda e, em sua formação de menina pobre de subúrbio, ela
aprendeu desde cedo a "não dar esse gostinho" às pessoas que
porventura ela invejasse.
— Por mim, tudo bem. Já sei fazer fechar o
caixa, conheço os fornecedores e os clientes... Já até paguei o aluguel da loja
algumas vezes, lembra? diz ela, um pouco alto e sorrindo forçado.
— É, eu sei que você está por dentro de tudo e
é por isso que vou viajar tranquila.
A confiança que a
patroa deposita nela funciona como contrapeso e atenua um pouco a inveja, mas o
caráter é coisa que se forma cedo e definitivamente, e já no dia seguinte, a
atmosfera da Conchas e Crustáceos se transforma; uma espécie de pressão erótica
preenche o ar morno ocupado pelos clientes ávidos de "ocultar não
ocultando" sua nudez com roupas de banho sensuais. Quando Stéphanie está
presente, ela orienta Aninha e Rômulo para que eles mantenham a distância
requerida à manutenção do decoro. O fato de atenderem a clientela vestidos em
roupa de banho exige muita habilidade para evitar não só intimidades, mas
malentendidos, e esse processo cai completamente por terra assim que Aninha se
vê gerente da loja.
— Aquela menina está olhando descaradamente para
você, Rômulo, percebeu?
— Claro, mas isso é porque ela não sabe que
estamos juntos.
— E daí? Não vai me dizer que vai continuar
santo com a Steph longe daqui!
— Haha! Espera... Você está falando sério?
— Rômulo, você é um gato, eu adoro ficar com
você, mas não sou cega nem débil! Quando é que você acha que a loja vai ser só
nossa de novo? Chega de recusar tudo! O que eu já perdi de chance de me
esbaldar aqui, é de chorar!
— É, eu também ralo para evitar o assédio do
mulherio, mas...
— Então, não tem mais "mas", Rômulo!
Relaxa e aproveita, está legal?
— Se é você que está liberando, Ana, por mim
está ótimo.
Com o tempo mais
fresco, a butique não fica mais tão cheia e a clientela é mais local, mas há um
movimento constante e regular de pessoas que vêm à cata de presentes ou
simplesmente ver o que há de novo em sua butique predileta, quando não apenas
satisfazer um desejo de ser atendido por vendedores-banhistas bonitos usando
biquínis e sungas sensuais. A maioria se comporta muito corretamente, mas
Aninha sabe reconhecer as "mentes poluídas" que entram na loja
trazendo alguma intenção inconfessável.
É sexta-feira. A
loja está nas mãos de Aninha há três dias e ela já se sente a dona do lugar,
não hesitando em receber os clientes que assim o desejem com beijinhos ou até
abraços bem colados. Rômulo faz o mesmo e as meninas literalmente penduram-se
no seu pescoço, entusiasmadas assim que o vêem. As mulheres podem experimentar
biquínis graças à tira plástica na calcinha. Os homens não estão autorizados a
fazer o mesmo, mas Stephanie admite às vezes que vistam a sunga por cima da
cueca. O primeiro episódio fora do comum acontece precisamente nesse contexto. Um
cliente alto, de feições incaicas e cerca de vinte e seis anos se dirige a
Aninha mostrando-lhe três sungas.
— Oi! Posso experimentar? pede ele, sorridente.
— Você conhece o regulamento, não é? Eu já te
vi aqui. Vou deixar, mas por fora da cueca, e só para quebrar o teu galho, ok?
— Tudo bem. Obrigado, diz ele, já dirigindo-se
ao provador.
Aninha percebe que o
tempo para experimentar três sungas está longo demais e resolve ir dar uma
espiada.
— Está tudo bem aí? pergunta ela.
— Ah, eu estava esperando por você! responde o
cliente, abrindo a cortina.
Aninha se vê de
frente para o rapaz de feições peruanas e cabelo preto liso. Ele tem nas mãos
duas sungas e usando apenas uma minúscula cueca branca cuja frente se limita ao
bojo, o qual dá ao seu sexo o aspecto de uma volumosa bola protuberante. Quando
ele se move, Aninha vê pelo espelho que se trata de uma cueca fio-dental.
— Você me ajuda a escolher? Pede ele, dando um
sorriso malicioso e sacodindo as sungas nas mãos.
Aninha olha
rapidamente para o corredor dos provadores; o movimento está calmo e Rômulo
está na loja.
— Qual delas você quer botar primeiro?
pergunta ela.
— Esta, mostra ele enquanto olha fixamente os
seus seios no sutiã "cortininha" de um biquíni vermelho.
— Então veste, diz ela, fazendo voz entediada,
pondo as mãos na cintura e trocando o apoio de um pé para o outro.
Ele veste a sunga
por cima da cueca e Aninha logo percebe que é o tamanho certo, mas não diz nada.
— E aí? diz o rapaz, esperando um julgamento.
— Esse azul fica legal em você, mas não dá
para saber se o tamanho está bom.
— E aí? Estou achando meio apertada, mas...
faz ele, olhando para baixo.
— É por causa da cueca. É melhor comprar um
número abaixo mesmo.
— Isso é mal feito, a gente deveria poder
experimentar, diz ele, cheio de más intenções.
— É, mas não dá porque nem todo mundo vem de
banho tomado. Imagina a nojeira!
— Ok, mas eu acabei de sair de casa... e de
banho tomado! retruca ele, radiante.
Aninha já decidiu há
muito tempo em sua cabeça que ia "facilitar" com esse cliente bonito
e ousado como ela gosta. Ela faz que está indecisa por um momento, mas logo
finge ter tomado uma decisão excepcional.
— Vou deixar você botar sem cueca, mas só
porque você está me dizendo isso, hein!
O rapaz não perde
tempo; tira a sunga com a cueca e fica completamente nu, separando as duas
peças para repor unicamente a sunga. Aninha conhece de cor e salteado a reação
de "menina direita" e finge um susto, dando-lhe imediatamente as
costas, mas astutamente se volta antes do tempo e o surpreende com a sunga a
meio-caminho, um longo e grosso membro pendendo diante das coxas.
— Não sei como é que isso aí cabe nessa
cuequinha que você usa! brinca ela.
— É, a sunga é bem maior, responde ele,
ajustando-a lentamente ao corpo.
— Prefiro a cuequinha fio-dental,
sinceramente, faz ela, revelando seu jogo.
— Posso trocar, quer?
Aninha dá um passo e
entra na cabine, ficando a centímetros do rapaz e já apalpando-lhe o sexo por
fora da sunga, sentindo-o enrijecer tão-logo na mão.
— Gostou tanto assim? pergunta ele,
acariciando-lhe os seios e roçando os polegares no relevo dos mamilos no tecido.
Ela só precisa
abaixar-se e puxar o elástico da sunga para liberar o avantajado membro todo
moreno. Ela o empunha e puxa o prepúcio até prendê-lo à borda da glande, que
salta como se desabrochasse, arrancando um suspiro do rapaz. Ele olha para
baixo com ar bestificado e começa a acariciar o cabelo da sua nova conquista.
Rômulo, na loja, se
ressente da ausência de Aninha. Além de atender os clientes, ele precisa tomar
conta da mercadoria. Embora satisfeito com a aura de sensualidade que agora
paira na loja, ele não se sente à vontade com a mentalidade imposta pela sua
namorada gerente e chega a perceber uma sutil modificação da clientela; homens
maduros um tanto boçais cujo ar de deboche o repugna têm vindo mais
assiduamente. Ele vai até os provadores com a intenção de chamar Aninha, mas
logo a descobre "ocupada" com o rapaz que queria experimentar sungas.
Ele volta para a loja um tanto irritado e insatisfeito. Minutos depois, ele vê
Aninha indo diretamente ao banheiro e percebe que quando ela sai, o cliente lhe
passa os pacotinhos com as sungas, indica-lhe aquela que escolheu e vai por sua
vez ao banheiro. Não foi assim que Rômulo previu que as coisas se passariam. O
menino da Zona Sul carioca vê-se pela primeira vez na vida às voltas com a
vulgaridade. No final do dia, Aninha nota a sua mudança de atitude.
— Que foi, Rômulo? Você está estranho.
— Verdade. Deve ser porque estou estranhando.
— Estranhando o quê?
— Quando você me disse para aproveitar, na
ausência da Steph, achei que fosse só para dar uma relaxada no atendimento,
tratar os clientes com mais intimidade, poder dar uns amassos se rolasse e
desse vontade, mas...
— Você acha que peguei pesado. É isso?
— É, mais ou menos. O que você está fazendo é
baixaria, Ana. Se continuar assim, isso aqui vai virar puteiro, e não foi para
ser garoto de programa que eu vim trabalhar em butique.
O sangue de Aninha
ferve nas veias, mas ela se controla diante do namoradinho que ela sabe ser
filho de "bacanas". Em outra situação, ela teria cuspido na cara
dele, mas não vale a pena por tudo a perder. Ela o cobre de beijos e promete
não fazer mais. Enquanto ela fecha o caixa, ele dá uma arrumada na loja. Eles
voltam direto para casa juntos e no banho dessa noite, ela o presenteia com uma
inesquecível sessão de sexo anal, coisa que ele fez bem poucas vezes com as
patricinhas que ele frequentou até agora. Rômulo sai do banho refeito, eles
jantam na cozinha e logo depois vão para o quarto, onde ela o castiga com mais
alguns rounds de sexo intenso e supercompetente. Ela o elogia, beija, chupa,
engole, faz que tem mil orgasmos. O menino de boa família se empolga, fica todo
prosa, perdoa, esquece. Eles dormem pesadamente, abraçadinhos até o
amanhecer.
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