Para publicar este curto relato verídico, assumo que
todos somos autorizados e penso que deveríamos até mesmo ser encorajados a escrever memórias
biográficas, desde que sejam o retrato mais sincero da experiência vivida e
não tenham qualquer intenção doentia ou perversa. Apollinaire fez isso, Maupassant fez isso e como eles muitos e muitos outros, não só na França mas pelo mundo afora. Ademais, publicar um evento
biográfico tem efeito terapêutico pois autoriza o acesso a fatos que
normalmente permaneceram trancafiados por anos no calabouço da mente, o que tira deles
uma carga imerecidamente imposta. Vou portanto relatar um desses episódios, que
julgo agora perfeitamente humano, natural e até divertido, merecedor de voltar
à luz da qual o tirei por puro escrúpulo injustificado.
M. F.
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Desde que me conheço por gente, passei as
férias, feriados prolongados e muitos fins de semana no sítio da minha família,
no interior da Região dos Lagos, no estado do Rio de Janeiro. O casal que
tomava conta da casa há anos ainda mora na mesma rua de terra batida e tem dois
filhos, que vi crescer e que hoje em dia quase não vejo mais, mas que me
trazem muitas recordações quando eventualmente nos esbarramos por lá.
Na década de 70, as férias chegavam cedo para os bons
alunos e iam até meados de março. Assim que eu era aprovado, bye bye Rio: meu
pai nos levava para o sítio numa sexta-feira, ficava até segunda e só voltava
para passar as festas e fins de semana. Nós éramos sempre os primeiros a chegar
– antes da invasão do sítio pelo resto da família e agregados – e como minha
irmã era criança e infantil demais para mim, eu ia imediatamente procurar o
Toninho e a Maria, filhos dos caseiros, para brincar e andar de bicicleta. Naquele
ano, tudo aconteceu como nos anos anteriores até aquele momento, mas o que se
seguiu seria tudo menos banal para mim.
— Severina, cadê o Toninho e a Maria? perguntei à
caseira, assim que terminei de ajudar a tirar as coisas do carro e vestir uma
sunga, única roupa que eu usava durante o dia inteiro.
— Ah, eis tá lá pro quintal brincano deusde dispois
do almoço. Deve de tá lá no barracão,
respondeu a mulher, sorrindo.
— Oba, vou lá!
— Então diz pra eles que eu vou ao supermercado com
os teus pai. E juízo, ocês três!
— Está bem, Severina, não esquenta. E lá fui eu atrás
deles.
A casa do sítio tinha um pomar enorme, principalmente
com laranjeiras e limoeiros, mas também goiabeiras, nespereiras, jabuticabeiras
e bananeiras. No fundo, havia um barracão com móveis e velharias que os meus
pais achavam "complicado" jogar fora, na verdade porque tinham valor
estimativo. O barracão acabou virando uma casinha mobiliada onde nós
brincávamos às vezes o dia todo quando ninguém nos levava à praia de carro, ou
em dias de chuva. Desembestei quintal afora até avistar, no canto direito da
propriedade, o barracão de tábuas velhas e telhado de zinco, com sua porta e uma janela frontais e outra porta, no fundo, que dava para um banheirinho externo com vaso, chuveiro e pia. A veneziana estava aberta, sinal de presença. Como eu sabia que as folhas de bananeira secas denunciavam
quem quer que se aproximasse, fui pé ante pé até a janela e, com todo cuidado,
arrisquei uma olhadela, na esperança de que ninguém estivesse olhando para fora.
O que pude ver num átimo intrigou-me, mas logo abaixei-me
para que a minha respiração ofegante não me denunciasse. Dentro do
barracão, à esquerda, Maria estava encostada no batente da porta dos fundos,
com as mãos para trás, olhando com um risinho zombeteiro para o Toninho
que, apoiado com as mãos na borda da mesa, olhava para baixo, grunhia como se
fizesse esforço para empurrá-la e parecia estar sendo ajudado por alguém por
trás dele, que eu não conseguira ver porque ficara fora do meu campo de visão. Pareceu-me
de fato que eles estivessem tentando empurrar juntos a mesa, mas para ver direito,
eu teria que avançar mais a cabeça para dentro e correr o risco de ser visto. O que me
ocorreu é que talvez estivessem aprontando alguma e que acabariam quebrando a
mesa do mobiliário colonial que a minha mãe adorava. Mas eu nunca fui
dedo-duro, estava apenas curioso e não queria ser descoberto. Sentado no
chão sob a janela, eu podia ouvir os risinhos da Maria, o insistente e incômodo
ranger da mesa e os grunhidos de esforço. Aquilo foi-me intrigando tanto que,
não suportando mais de curiosidade, decidi tentar de novo olhar para dentro.
Erguendo-me lentamente e deslizando como um lagarto
pelo canto esquerdo da janela até conseguir obter um campo de visão mais amplo,
pude enfim visualizar o lado esquerdo do cômodo, e fiquei tão estarrecido com o
que vi que cheguei a temer que o meu pensamento se tornasse audível:
"Caramba! O Toninho está dando a bunda!", berrou minha mente, à minha
revelia. Espremi os olhos, mas não havia dúvida, era verdade, e diante da
própria irmã! Por trás dele, vi um menino que eu não conhecia, mais
alto e corpulento que o meu amigo, um ou dois anos mais velho. Eu os
via quase de perfil e o contraste entre sua cor de chocolate e a
brancura láctea do Toninho chamaram-me a atenção. Os dois estavam com o short no pé, coisa que eu não reparara da primeira vez, e o que me parecera um
esforço conjunto para empurrar a mesa nada mais era do que o efeito dos
grunhidos e a visão das mãos do outro nos flancos do Toninho, como se o
empurrasse. Do meu ângulo, eu não via detalhes, mas as caretas do meu amigo me diziam que daquela vez não se tratava da brincadeira de "sarrinho"
que conhecíamos; daquela vez, era para valer. De vez em quando, a Maria fazia uma cara de nervoso
misturado com riso e perguntava se ainda estava doendo. Toninho respondia que
não, mandando-a calar a boca, irritado, alegando que isso "tirava a
concentração", como se se tratasse de coisa muito séria, e continuava
grunhindo enquanto o outro nem se abalava, apaticamente entregue a um vaivém monótono,
olhando para as paredes do barracão, como se sodomizar um colega fosse um mero
exercício físico, e dos mais leves. Eu, do lado de fora, estava mil vezes mais
excitado com a imagem do que ele parecia estar com a ação, fato que na época me
parecia absolutamente incompreensível e que hoje me soa quase como
evidência.
Embora o Toninho e eu já nos tivéssemos manipulado e esfregado
algumas vezes em momentos de tédio e dias chuvosos, eu nunca assistira a uma
cena real de sexo. O resultado foi que tive um orgasmo diluviano pelo mero
contato estreito com a parede. Assim que o senti vir, só tive tempo de baixar a
sunga para evitar a catástrofe, mas precisei pegar grama para limpar-me, uma
situação das mais desagradáveis.
Não posso dizer com precisão, mas devo ter assistido à
maior parte da coisa, que pode ter durado cerca de dez minutos, descontado o
início que perdi. Lembro-me que, no final, o desconhecido fleugmático murmurou alguma coisa rápido
demais para que eu entendesse e começou a acelerar o vaivém, desencadeando uma
chuva de protestos e ais do Toninho, que se contorcia, sempre agarrado à mesa,
grunhindo e multiplicando caretas e impropérios. Quando o outro terminou de
aliviar-se, voou para o banheiro, afugentando a Maria, que recuou com
cara de nojo sem contudo tirar os olhos dele e caindo na gargalhada ao ver o irmão ir lentamente na mesma direção, arrastando os pés com o short nos
calcanhares e a mão no traseiro. Assim que o outro saiu do
banheiro, ele entrou e ficou lá por uns bons momentos, provavelmente
atrapalhado com a higiene.
Já recomposto do meu orgasmo reptiliano,
certifiquei-me de que tudo estava terminado e fiz barulho do lado de fora como
se estivesse acabando de chegar. Foi a Maria que abriu a porta, de vassoura na mão como se fosse a dona da casa das nossas brincadeiras
inocentes. Assim que me viu, soltou um risinho e olhou para o irmão com a
expressão nítida de que ela detinha o poder da informação capaz de
desmoralizá-lo para sempre. Ele a fuzilou com o olhar enquanto o outro continuava apático, agora sentado numa das pontas do velho sofá. Perguntei
sonsamente o que estava acontecendo, mas nenhum deles abriu a boca, nem ali nem
nunca mais. Qual não seria a reação de algum deles se lesse este relato e
descobrisse que fui um espectador privilegiado do evento! Hoje lembro-me sorrindo de tudo que acontecia naqueles
bons tempos de inocência, e isso só me faz bem.

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