17. O homem da barba
por fazer
Marta foi a primeira a acordar,
precipitando-se da cama quase a uma da tarde, gritando que tinha lembrado que
precisava dar um pulo no Rio e perguntando se queríamos ir junto. Tomás
concordou, eu preferi ficar. Eles tomaram café de pé na cozinha e antes das 2h
estavam na estrada. A noitada da véspera tinha sido intensa. Ainda cansado e
com sono, continuei deitado, mas não dormi porque meu pensamento logo foi
invadido pela imagem do homem grande e mal barbeado me empurrando contra a
parede do banheiro e me perguntando "Curte o quê, garoto?" Tomei café
sentindo meu cérebro ocupado pela idéia de rever aquele homem, nem que fosse
para saber o que é que ele curtia, coisa que afinal não fiquei
sabendo porque só o vi na saída do banheiro. A região é de sítios, pouco
povoada, não me pareceu improvável reencontrar alguém. Eu estava sozinho e
tinha o dia pela frente. Resolvi me vestir e sair andando na direção da estrada
e do tal forró. Como a direção geral seria a da praia e nunca se sabe o que o
dia nos reserva, coloquei uma sunga e vesti bermuda, camiseta e sandália.
Até a estrada, devo
ter passado por cerca de vinte pessoas, algumas carroças de tração animal,
gente a cavalo, crianças brincando e mulheres conversando na porta. A estrada é
movimentada, mas sem passarelas e é preciso tomar cuidado para atravessar. Chegando
ao outro lado, tomei uma das transversais paralelas à rua do forró. Andei à
esmo por cerca de meia hora e quando estava para entrar num bar e matar a sede,
notei uma moreninha muito bonita, de menos de 25 anos e longos cabelos
castanhos, encostada num velho Jeep. Olhei sorrindo, mas logo ouvi uma voz de
homem mandando que ela entrasse no carro para irem embora. Assim que ele se
acomodou e virou a chave na ignição, deu uma olhada para a esquerda e me viu
passando ao lado dele, na calçada. O reconhecimento foi recíproco
e imediato.
— O moço está
morando por aqui? perguntou ele, segurando-me firmemente pelo braço.
— Não, estou só
passando uns dias, respondi, nervoso e titubeante, olhando para a moreninha que
observava sem entender nada.
— Mas está à toa
hoje?
— É, hoje estou.
— Então vamos lá
para casa que tem churrasco. Suba aí! comandou ele indicando o banco de trás
com os olhos.
Toneladas de livros
se detêm na justificação dessas coincidências e dessas ordens surdamente
obedecidas, portanto vou assumir que o leitor tenha lido algum deles e
simplesmente aceite as presentes como verdades. O fato é que entrei sem fazer
perguntas no Jeep do tal homem grande, de traços firmes e barba por fazer, e me
deixei levar até a casa dele, espremido entre caixas e mais caixas de latas de
cerveja. Mais uma coincidência: ele praticamente refez no sentido inverso o
caminho que eu tomara; ele morava a poucas centenas de metros da Casa Grande e
não só conhecia a Marta e o pai, mas já tinha até feito uns trabalhos para
eles. Portanto, eu estaria perto de casa e isso me tranquilizou.
Não vou me estender
sobre o churrasco. Cerca de trinta pessoas estavam distribuídas em pequenos
grupos entre a churrasqueira, uma mangueira, uma piscina Tone, algumas cadeiras
de plástico e – a maioria dos homens – uma bola de futebol. Como o homem do
forró me largou no quintal sem me apresentar a ninguém, "grudei" na
moreninha que estava com ele, que àquela altura eu já sabia ter vinte e três
anos, ter três filhos e estar casada com ele há três anos. Ela tinha o que eu
chamo de "olheiras de sexo" e parecia cansada. Três ou quatro vezes,
durante a tarde, ele veio buscá-la e a levava para dentro da casa, onde
permaneciam por cerca de vinte minutos. A cada vez que ela voltava, eu
discernia um olhar embaraçado e a sentia mais cansada. Não havia dúvida de que
a dieta do tal homem incluía várias "rapidinhas" por dia. Por volta
das 7h da noite, a maioria das pessoas tinha ido embora, estávamos conversando
sozinhos e quando ela voltou da casa pela quarta vez, ajustando a sainha curta
na cintura, resolvi jogar verde para ver se colhia alguma coisa.
— Acho que ele gosta
muito de você. Acertei?
— O homem é fogo!
— Haha! Como assim,
"fogo"? Ele é mandão?
— Ah, ele não
sossega! Eu já estou esperando o quarto e desse jeito, a gente vai ter vinte,
desabafou ela, com ar desanimado.
Entendi que o homem
era uma verdadeira máquina sexual, e como corpo dela não dava o menor indício
de gravidez, ele continuava a solicitá-la várias vezes por dia como se nada
fosse. Ela gostava dele, gostava da energia dele, mas como ele vivia inventando
jogos e novidades, ela ficava ansiosa tentando antecipar o que estava por vir,
sobretudo em dias de festa, que o deixavam muito aceso por causa da cerveja e
da presença das moças de biquíni ou roupa curta. Cassia – era o nome da jovem
esposa – era da região e sabia que o marido tinha levado para a cama a maioria
das mulheres que estiveram no churrasco. Estranhei que uma jovem casada do
interior aceitasse tão bem estar com um homem com o perfil dele.
A partir das oito da
noite, comecei a querer me despedir, mas a cada vez, o Hércules – o nome do homem
era esse, vejam só – me impedia de ir, prometendo me levar de carro. Por volta
das nove, Cassia pôs as crianças na cama e ficamos os três sentados no quintal,
tentando aproveitar um pouco da brisa noturna. O homem tinha bebido a tarde
inteira, mas não dava o menor sinal de exaltação ou agressividade. Ele tinha
apenas uma obsessão e ela estava sempre à tona. Quando ele abriu a boca, foi
para me surpreender.
— E o que é que o
moço achou da minha Cassia? disse ele, alisando lascivamente a cocha da esposa
até o alto, certamente resvalando os dedos na calcinha.
— Foi ela que me
"salvou", Hércules. Eu não conhecia ninguém, respondi, desconversando.
— Pode botar a mão,
moço, não morde não! insistiu ele, me indicando com o olhar a coxa
"desocupada" e dando um beijo na boca da mulher, totalmente passiva.
Desorientado, olhei
para Cassia e ela sorriu de volta, pegando minha mão e pondo-a espalmada sobre
a outra coxa.
— Pode botar, ele
gosta, disse ela, paciente, enquanto o marido a acariciava agora diretamente
entre as coxas e já arfando como um cachorro em época de cio.
— Estou ficando
nervoso, seu moço, disse ele. Vamos lá para dentro que é mais confortável.
Eu estava
literalmente dividido entre a empatia por aquela mulher e a excitação pela
situação. Cassia era um objeto que o marido demonstrava gostar não só de exibir
mas de compartilhar, e ela parecia assumir perfeitamente isso. Chegando à
pequena sala mobiliada com um um sofá, uma poltrona, uma velha cristaleira e a
mesinha da televisão, diante dos retratos de família pendurados aqui e ali em
cada parede, e de uma imagem de Jesus, Hercules me indicou a poltrona e ordenou
que Cassia ficasse de pé na minha frente.
— O que é que o moço
tem vontade de fazer com um mulherão desses? Pode falar!
Dois pares de coxas
nuas até o alto e uma saia extremamente curta que, devido ao ângulo, não me
ocultava a calcinha, uma camiseta justa e o rosto despojado de alguém
completamente disponível era o que eu via a centímetros à minha frente. Devo
ter feito uma expressão de total falta de jeito e Hércules, meio impaciente,
avançou-se e a abraçou por trás, colando-se todo nela e passando mais uma vez a
mão em cheio entre as coxas enquanto acariciava os seios com a outra e a
beijava no pescoço. Vendo a passividade da moça, decidi me levantar apenas para
ficar na mesma altura e mais perto dela. Hércules então cochichou algo em seu
ouvido e ela imediatamente levou as mãos à minha bermuda e começou a abri-la,
olhando-me nos olhos e sorrindo gentilmente enquanto ele continuava a esfregar-se
nela por trás. Como eu disse antes, tinha posto uma sunga, pensando na
eventualidade de ir parar no mar. Não foi o que aconteceu, mas a sunga veio a
calhar porque me senti mais à vontade do que se estivesse de cueca.
— Anda, Cassia,
acorda o boneco, ordenou o marido, empurrando-a para mim.
— Calma, Hércules!
pediu ela, já envolvendo minha sunga com a mão.
— Pode beijar, moço!
Já falei que não morde, fez ele, olhando-me meio impaciente, como se me
cobrasse a entrada em ação.
Cassia respondeu ao
toque dos meus lábios como uma namorada apaixonada, abrindo logo a boca e
solicitando a minha língua. A ereção foi imediata e, pela primeira vez naqueles
longos quase quarenta minutos desde as primeiras insinuações no quintal, me
senti embarcando às cegas, mas de cabeça, numa aventura cujo desenrolar eu
desconhecia absolutamente.
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