1. Final de
Expediente
Eu trabalho até
tarde num serviço de atendimento telefônico à clientela para várias empresas. Como
somos muitos, custei a reparar que sempre sou o último a sair, por volta da
meia-noite, ao mesmo tempo que uma das atendentes mais atraentes do meu turno,
constituído na maioria de mulheres. Tatiana exala sensualidade. Todos
reparam em suas roupas justas, curtas, transparentes, decotadas, em seu batom
vermelho e brilhante, e no fato de que ela está pouco ligando se isso incomoda
as outras mulheres e deixa os homens "acesos". Conscientemente ou não, ela chega cada dia com uma roupa diferente e mais
sexy que a da véspera, senta diante do computador, não dá a menor trela para
ninguém e vai embora tão calada quanto chegou.
Considero-me um
cara concentrado e, por experiência, aprendi a não me envolver afetivamente com
colegas de trabalho, mas, há cerca de dois meses, aquela única presença tão
brutalmente feminina no fim de cada expediente começou a me chamar a atenção. Tatiana
é uma verdadeira loura de pele muito clara, olhos azuis e – exceção à regra –
tem curvas de morena e lábios carnudos supersensuais. Durante um mês, observei
do meu cubículo, no canto oposto da enorme sala retangular, o ritual da sua
preparação para sair do trabalho: o ajuste da roupa, do cabelo, o retocar da
maquiagem, a olhadinha final para dentro da blusa... Aquilo foi me trabalhando
até o ponto de me exasperar ao vê-la passar por mim dizendo um lacônico
"tchau". É óbvio que ela tinha direito, pensava eu, de se vestir como
bem quisesse e de não dar a mínima para ninguém. Talvez ela tivesse um
namorado, um noivo ou até um marido esperando num carro ou em casa. Ela tinha
esse direito, mas eu também tinha direito de manifestar reações. E foi com essa
disposição de espírito, há precisamente um mês, um mês tão excepcional na minha
vida rotineira, que comecei a viver uma experiência digna de ser compartilhada.
Como estou de férias e com tempo para escrever, resolvi tentar reproduzir esses
episódios da maneira mais detalhada e possível, tentando inclusive reconstituir
fielmente os diálogos que os animaram e que não me saem da memória.
Há um mês atrás,
11h55
"Engraçado,
acho que a Tatiana e eu somos sempre os últimos a sair, mas só reparei isso
hoje. Como é que ela sai por aí, à meia-noite, com essas roupas?"
Eu estava imerso em
pensamentos dessa natureza enquanto arrumava minhas coisas na mochila e me
preparava para ir embora depois de mais um dia exaustivo de atendimento à
clientela chata de uma empresa de informática. De repente, vejo Tatiana sair do
seu compartimento e caminhar pelo longo corredor entre o mar de mesas, até
parar em frente à minha fileira, no canto oposto da sala, perto da porta de
saída. Imaginei que ela faria como todo dia, limitando-se a dizer um
"tchau" muito seco e desaparecer porta afora, mas para espanto meu,
ela estava sem suas coisas e, com uma voz gentilíssima, dignou-se a dirigir-me
a palavra.
— Oi Walter, você vai para onde, saindo daqui?
Em questão de milissegundos,
tirei um instantâneo da Tatiana: por cima do corpo bronzeado, um vestido
esvoaçante, estampado em tons de azul e violeta, curtíssimo, deixando expostas
as coxas mais lindas do mundo, assim como metade dos seios, dois globos,
parcialmente cobertos pelo cabelo de ouro. Uma bonita sandália conferia-lhe uma
simplicidade sensual. O rosto discretamente maquiado exceto pelo espetacular
baton perfeitamente adequado à cor da pele a tornavam naquele instante o ser
mais desejável do mundo. Pela primeira vez pude constatar de perto o quanto
Tatiana era bonita.
— Vou para
Laranjeiras, Tatiana. Por quê?
— Você vem de carro, não vem?
— Nem sempre, mas hoje estou de carro, sim. Você quer carona?
— É, eu... estou sem ter como ir para casa, hoje. O problema é que, bom... Eu moro
na Tijuca. Se ficar ruim para você, pode me deixar num ponto de ônibus. Só peço
para você esperar até o ônibus chegar.
— Que é isso, Tatiana! Eu levo você. Faço questão. Me
dê só um tempinho de guardar minhas coisas, dar um pulo no banheiro e a gente
vai embora.
— Não tem pressa nenhuma. Eu também vou passar no
banheiro.
— Então vá indo na frente e a gente se encontra no
estacionamento, ao lado da guarita do seu Jorge.
— Tudo bem. Até já.
Já no carro, tive a felicidade de constatar que o cinto
de segurança fazia com que o vestido da Tatiana subisse.
— Ups! Ficou meio indecente.
— Não ligue para isso! Você já deve ter ouvido mil
vezes que o que é bonito é para se mostrar.
Dando um risinho encabulado, ela e tentou em vão puxar um pouco o vestido pela extremidade.
— Você usa roupas sensuais. E isso é elogio,
ouviu?
— Obrigada! Nosso trabalho é tão desvalorizado que eu
tento botar uma cor para não me sentir murchando naquela sala de gente
desanimada.
— É, não é nada agradável saber que se presta um
serviço tão importante para clientes que nos tratam às vezes como lixo. Mas
você já está na empresa há um tempinho. Desde quando, mesmo?
— Digamos que foi um "presente" pelos meus
dezoito anos; estou para completar vinte. Um dia, minha mãe se virou para mim e
disse que se eu não trabalhasse, teríamos que mudar para um sala e quarto, meu
irmão menor, ela e eu. Imagine se eu podia continuar levando vida de estudante
de Zona Sul!
Concentrada no diálogo, Tatiana se desligou um pouco e
deixou os braços penderem ao lado do corpo. Pude ver do canto do olho
as suas coxas incríveis.
— É, respondi, a vida não é fácil para a maioria, mas
despertar do sonho de adolescente é uma etapa dura da vida.
— Se é! Terminei o segundo grau e estou me matando de
estudar para o vestibular antes de ir trabalhar. Tentei uma vez sem fazer
cursinho, mas não deu nem para a saída.
— Entendo... Você passa os dias em casa estudando,
então?
— Das nove às três estou enfiada nas apostilas.
— Mas tem um lugarzinho para os namorados nessa vida
ocupada?
— Pois é, tinha até ontem. Foi por isso que pedi
carona, disse ela fazendo um muxoxo e já ficando tristinha.
— Ah! Não fique assim. Você não queria arrumar marido
aos dezenove, queria? Eu só vou pensar em casamento depois dos trinta. Falta
pouco, mas quero aproveitar cada instante até lá.
Isso a fez rir e relaxar. Percebi que ela afrouxou um
pouco o cinto de segurança e se virou mais para o meu lado, ficando com uma
perna sobre a outra, o que descobriu muito a coxa direita. Senti uma ereção
discreta empurrar-me a calça.
— Então o seu namorado vinha pegar você todo dia de
carro?
— Todo dia! Ele fazia questão.
— Eu bem que me perguntava como você tinha coragem de
sair por aí sozinha, à noite, com roupas tão curtas!
— Sério? Você acha que eu me visto sexy demais?
— Você deixa os caras do trabalho indóceis, nunca
reparou?
— Não! fez ela, rindo da própria inocência fingida.
— Posso ser grosseiro uma vezinha só?
— Pode! respondeu ela, iluminada.
— Todo mundo quer levar você para a cama, naquela
empresa.
— Nossa, Walter! Chega a esse ponto? Eu sempre me
vesti assim e nunca pensei em provocar ninguém. Se eu me visto sexy é porque o
meu namorado adora.
— Bah! Você está certa. Eu só me perguntava como você
tinha coragem de sair sozinha tão tarde por aí, tomando ônibus. Mas está
explicado: você não toma ônibus.
— Não tomava! Acabou a festa, disse ela, entre o choro
e o riso.
— Você gostava muito dele?
— Ele tinha quarenta e três anos e era casado e pai de
três filhos. Nós estávamos saindo há oito meses, mas ele não aguentou a barra
de ter amante. E eu confesso que já estava enjoando de tanta complicação. Ele
mudou de turno para poder me pegar à noite, mas com isso, a gente nunca fazia
nada. Ele ia lá em casa me buscar para me levar para um motel e eu tinha que
voar para o trabalho porque ele não tinha como me dar carona. Eu ficava exausta
depois. Aí foi complicando até que ele terminou. Foi a melhor coisa. Eu fico um
pouco triste, mas não me arrependo e estou legal. Mas fala de você um pouco.
— Bom, eu tenho 28 anos optei por esse emprego porque
estou estudando alemão no Goethe para ir morar na Alemanha, que é o meu sonho. Como
você, eu passo o dia estudando.
— Que legal! A Alemanha deve ser linda!
— Estive lá como turista. Parece um país legal de se
viver e eu adoro o jeitão da Alemanha, com a Angela Merkel na cabeça.
— Xi, não entendo nada de política Walter! Ha! Ha!
"Walter". Só agora reparei que você tem um nome alemão.
— Pura coincidência! Sou brasileiro até a raiz do
cabelo.
Estávamos chegando à Pça. da Bandeira. Tatiana baixou
o para-sol para se olhar no espelhinho e empinou-se toda. Pude ver a curvatura
pronunciada das costas e os peitinhos firmes empurrando o tecido leve do
vestido.
— Eu sempre olho no espelho para ver se estou com uma
cara boa para chegar em
casa. Minha mãe me espera chegar e repara cada detalhe
em mim.
— Relaxe, você está uma delícia! exclamei.
— Walter!
— Se ofendeu?
— Não mas...
— Mas é verdade, não vou mentir que você também mexe
comigo e...
— Agora você pega a Conde de Bonfim, interrompeu ela,
ostensivamente, soltando o cinto para pegar sua bolsa de mão e uma sacola que
ela jogara no banco de trás.
— A senhora é que manda! brinquei, encabulado.
— Droga! A sacola abriu!
De joelhos e debruçada no encosto do assento, Tatiana
deu um jeito de repor na sacola as coisas que tinham saído por causa da
trepidação. A visão periférica não era suficiente; trêmulo de excitação,
direcionei o retrovisor até poder vê-la de costas. O microvestido escalava as
coxas deixando a bunda praticamente descoberta a cada vez que subia. Uma
calcinha azul, extremamente cavada cobria unicamente a separação das duas
bandas carnudas e brancas do bumbum perfeito. Meu coração disparou e minha
respiração se tornou ofegante, tive ímpetos de tirar uma mão do volante e
acariciá-la, mas achei que poria tudo a perder. Uma ereção de aço se armou em
minha calça e tentei contrabalançar a atenção à rua com a observação da cena
pelo retrovisor. Tatiana, indiferente ao suplício que seu corpo me infligia,
custou a repor tudo na sacola e poder finalmente trazer suas coisas para a
frente.
— Ufa! As coisas tinham ido dar um passeio pelo banco
de trás! disse ela, novamente bem-humorada.
— E enquanto isso, eu tive a visão mais maravilhosa do
mundo.
— Hã? Não entendi, disse ela, olhando para mim,
inocente.
— Posso dizer uma coisa que talvez você não vá gostar,
Tatiana?
— Claro! respondeu ela me olhando nos olhos, intrigada.
— Enquanto você estava de costas, eu olhei pelo
retrovisor... Eu vi até a sua calcinha.
— Nossa! Nem percebi que você estava me olhando. Mas
apareceu tanto assim?
— Você tem o corpo mais delicioso que eu já vi na vida.
— Sério? Obrigada! fez ela, tentando mais uma vez
inutilmente puxar um pouco a borda do vestido e já apontando para a rua José
Higino, onde eu teria que deixá-la.
— Chegamos? perguntei, ainda sentindo a taquicardia.
— É logo ali. Não é tão longe, mas você viu como as
ruas estão todas vazias? Só tem marginal, a essa hora.
— Deu quinze minutos. Se você quiser, posso te trazer
sempre.
Reparei que Tatiana havia notado a modificação em mim
e inferi que ela devia também ter reparado que meus olhos saltavam
violentamente de um ponto a outro do seu corpo, que eles iam deixar de
contemplar em
instantes. Ela se despediu gentilmente, com um beijinho
no rosto, porém menos caloroso do que eu esperaria, não fosse pelo incidente do
retrovisor.
— De repente, Walter. Mas vou tentar dar um jeito de
me virar sozinha. Eu tenho um amigo taxista.
— Pode contar comigo, viu, Tatiana? Eu vou direto para
casa todo dia, moro sozinho e não tenho nenhuma pressa.
— Tá legal, a gente vê. Boa noite e obrigada.
— Foi um prazer, Tatiana. Até amanhã!
— Até amanhã.
Pela última vez, vi o vestido azul flutuar pelas suas
coxas enquanto ela saltava do carro. Fiquei esperando de motor ligado até vê-la
desaparecer pela portaria de um velho prédio de pastilhas.
Meu caminho para casa seria um pouco mais longo, era
meia-noite e meia e minha excitação era incontrolável. Assim que pus o carro em
marcha, abri a calça e me masturbei lentamente, recordando
o que eu vira minutos antes pelo retrovisor. Aproveitei um sinal vermelho para
chegar ao orgasmo, acompanhado de uma ejaculação intensa e farta. Isso me
acalmou um pouco, mas não aplacou meu desejo; muito pelo contrário: se a
Tatiana tivesse podido sentir por telepatia a noite de sonhos que tive com ela,
teria fugido de mim no dia seguinte!
