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Odisseia Emergente 17


17. Pequeno mundo

No caminho de casa, Aninha vem pensando que tudo seria perfeito, nesse período de mudança de emprego, se o "bocó" do Gabriel não estivesse acampado no seu apartamento. Sua irritação só é atenuada pelo desejo de extrair dele informações sobre Stéphanie, sua futura patroa. Tendo dormido na casa dela, ele certamente sabe de alguma coisa que ela, Aninha, ignora.
 — Acorda, preguiçoso! grita ela, entrando ruidosamente no apartamento às escuras e cheirando a homem.
 — Hum? Grunhe  Gabriel, às voltas com uma tremenda ereção matinal, ainda aprisonado aos sonhos eróticos decorrentes da noite passada com Stéphanie.
 — Para quem só carregou umas caixinhas e dormiu num apartamentão de gringo, você está muito cansado! Levanta, anda! Isso não é hora de dormir.
 — Mas eu dormi pouco, juro! protesta ele, esfregando os olhos e encolhendo as pernas, constrangido.
 — Sei. Pode tratar de arrumar esse sofá, abrir a janela e botar essas roupas no quarto. Vou te dar uma gaveta do armário.

    Aninha diz isso passando como um tufão pela sala, indo diretamente ao quarto desocupar uma gaveta do guarda-roupa. Gabriel faz o que ela manda e ela vai até a sala verificar. Assim que ela se dá por satisfeita, volta ao quarto para tirar a roupa.
 — Ai, preciso de um banho! Mas vai falando, Gabriel; vou deixar a porta só encostada, hein! avisa ela, entrando no banheiro enrolada na toalha.

    Como um bom menino, Gabriel conversa com ela encostado na parede oposta à porta do banheiro.
 — E aí, pediu demissão?
 — Pedi e fui dispensada hoje mesmo.
 — Sortuda! O Tadeu me fez trabalhar um mês a mais.
 — Você foi bobo; tem que saber negociar.
 — Mulher consegue tudo mais fácil; é só jogar um charme que os caras babam e soltam tudo.
 — Não é bem assim, não, Gabriel; às vezes tem que batalhar para conseguir.
 — Vai dizer que você teve que batalhar?
 — Gabriel, dá um tempo! Não estou a fim de ficar explicando as coisas, grita ela, esquivando-se.
 — Tá bom, tá bom...
 — Gostou do apartamento da francesa? Fica aonde?
 — Sei lá, é um nome estranho, "Peroba" ou um treco assim.
 — Peró. Eu tenho um amigo que tem apartamento lá, na beirinha da praia.
 — Esse é na beira da praia e é um apartamentaço. M'or salão com uma parede de janela dando para o mar.
 — Mas parece que não é dela, não é?
 — É de um amigo dela, mas ele vem pouco aqui. Parece que o irmão dele é que fica mais tempo lá, mas ele não estava.
 — E onde é que ela te botou para dormir?
 — Ê, fiquei num quarto super legal!
 — Que mais? Ela falou alguma coisa de mim, do emprego?
 — Ela falou que gostou de você e do outro cara também...
 — Rômulo.
 — Isso, Rômulo.

    Assim que a água do chuveiro cessa de cair, Gabriel vai para a sala e Aninha sai do banheiro. De lá, ele consegue ver que ela entra no quarto já se livrando da toalha, mas não consegue vê-la nua. Fiel aos seus hábitos e indiferente ao "culto" que Gabriel lhe presta, Aninha coloca um velho biquini de duas cores e vai para a cozinha providenciar um almoço. Gabriel conversa com ela encostado na bancada da pia, as mãos no bolso da bermuda. Cada vez que ela vai até a geladeira, a visão do corpo dos seus sonhos provoca-lhe uma pulsação na roupa, à qual ele responde com um puxãozinho por dentro do bolso para pôr o membro sobre a diagonal da virilha, posição que o faz senti-lo menos e o relaxa um pouco. O fato de que um simples biquíni seja suficiente para que uma mulher não se sinta nua sempre lhe causou espécie, e no entanto, as marcas dos bicos dos seios estão lá, impressas no sutiã, assim como o sombreado da fenda na calcinha tão justa. Sem falar da bunda, completamente descoberta!

    Aninha parece sentir-se segura em tão pouca roupa, conversando e olhando para o Gabriel sem o menor constrangimento. Ele evita encará-la, olhando-a apenas quando ela se concentra numa tarefa, fingindo uma naturalidade que está longe de ser possível para ele.
 — Mas conta mais do apartamento. É legal mesmo?
 — Ah, esqueci de te contar do banheiro!
 — O que é que tem demais: torneira de ouro?
 — Não, mas o chuveiro é estranhão, sai água da parede e do teto e é um tipo de corredor que vai da porta de serviço até uma salinha que tem até poltrona e onde tem toalhas, roupão de banho, perfume e outras coisas. Ela diz que é para quem vem da praia. Você entra cheio de sal e areia e sai vestido e perfumado para entrar em casa.

    A descrição chama a atenção de Aninha.
 — Estranho, já vi um banheiro assim, lá mesmo, no Peró. Fala mais. Ela disse algum nome?
 — Não... Quer dizer, ela falou de um tal de Henrique, mas...
 — Caraca! Não pode ser! Seria muita coincidência. Ela falou de algum Kleber?
 — Não.
 — Bia? Fernando?
 — Também não.
 — Continua, fala mais do apartamento.

    E Gabriel começa a descrever o amplo salão com seus dois conjuntos estofados e os objetos da sala de estar, até que Aninha, pasma, não tem mais dúvida: trata-se do apartamento de Kleber.
 — Cara, como o mundo é pequeno! Você não vai acreditar, mas eu sou amiga do dono desse apê.
 — Fala sério!
 — Juro! Você entrou na cozinha?
 — Claro, a gente jantou na cozinha. Tomei até vinho!
 — A geladeira parece um guarda-roupa prateado e tem até torneirinha na porta para pegar água gelada?
 — Isso, ela era bem assim mesmo.
 — A mesinha da sala, na frente do sofá da esquerda é de vidro e de cima dá para ver umas conchas esquisitas?
 — Mm-hm, confirma Gabriel, ficando espantado.
 — Tem um quadro enorme que parece um rabiscado colorido no salão?
 — Tem, faz ele, decididamente convencido.
 — Caraca, é o apartamento do Kleber!

    Enquanto Aninha coloca feijão, arroz, bife  e um ovo sobre o arroz, nessa ordem, no prato que ela passa a Gabriel, ela murmura numerosos "não pode ser", sem saber o que fazer dessa informação que lhe parece colossal. Em seguida, ela se serve e os dois vão comer na sala, segurando o prato.
 — Quem é esse Kleber?
 — Ele foi o primeiro cara que eu conheci aqui em Cabo Frio. Foi ele que me arrumou esse apartamento que eu racho com a Soraya. Ele é ricão. Paulista, mas mora no Rio; na Zona Sul, é claro.
 — Claro, repete Gabriel, dando um risinho.
 — Ele falou de uma "Ichtéfani" que ficava na casa dele, mas eu nunca imaginei que a francesa, minha nova patroa, fosse ela. Você não se engraçou com ela, não é, Gabriel? Não vai me fazer passar vexame, hein!
 — Eu não! Mas por quê? Por causa desse Kleber? Está rolando alguma coisa entre vocês dois?
 — Ah, nem sei mais. A gente tem tipo um namoro, quando ele vem aqui, mas ele vem tão pouco! Olha, eu vou te dizer uma coisa, mas não conta nada à francesa, ok? Se ela souber, vai mudar comigo, na loja.
 — Fala, diz o rapaz, um tanto abalado pela notícia da relação que ele ignorava.
 — Eu fui várias vezes naquele apartamento, ja dormi lá e já transei com o Kleber até no tal banheiro de parede de esguicho.

    Gabriel está mudo, olhando para o prato. Na verdade, essa coincidência não o ajuda em nada, porque ela e ele nunca estiveram tão afastados. Ele não tem o mínimo apego a Stéphanie, enquanto Aninha já tem uma namoro. Um mal-estar profundo se apossa dele, a ponto de tirar-lhe a fome.
 — Acho que eu devia voltar para o Rio.
 — Também acho, responde Aninha, prontamente. Aliás, não sei o que você veio fazer aqui, falando sério!

A hora é essa, pensa Gabriel. E sem perder o "timing"...
 — Eu vim te ver, Ana, responde, ele, cravando-lhe os olhos nos olhos.

    Aninha se levanta muda e se dirige para a cozinha, seguida pelo olhar de Gabriel que mais uma vez percorre o seu corpo e o deseja. Ele se levanta e a segue, indo deixar o prato sobre a pia enquanto ela começa a lavar a louça.
 — Você não me conhece, Gabriel; só conhece o meu corpo e, mesmo assim, de longe. Aliás, eu nem sei por que é que eu deixei um cara que fica me espiando e tocando punheta escondido atrás da janela vir para a minha casa, diz ela num tom relaxado mas cheio de desprezo.
 — Você queria que eu subisse na janela pelado?
 — Não, cara, mas você me conhece há 18 anos e não aproveitou a chance de ter uma amiga. E você pode não ter subido na janela, mas subiu na escada pelado, que eu vi.

    Se a cor de chocolate pudesse mudar, Gabriel teria revelado a sua vergonha. Ele se limita a baixar os olhos.
 — É verdade, eu queria que você me visse.
 — Te visse ou visse o teu pau?
 — É, o pau.
 — E precisava dar show para isso?
 — Sei lá, Aninha, eu nunca consegui chegar em você. Você está sempre colada naquelas duas... piranhas.
 — De quem você está falando? pergunta ela, zangada.
 — Ah, a Leileane e a Sandra.
 — Elas são minhas amigas.
 — Duas putas, Ana; todo mundo comeu.
 — Menos você.
 — É, menos eu. Não achei meu corpo no lixo.
 — Sei, preferiu ficar retardado.

    Irritada, Aninha entrega uma panela ensaboada a Gabriel e sai da cozinha. Ele termina de lavar a louça sentindo-se tomado pelo cansaço físico e mental, em dúvida quanto a continuar hospedado lá como persona non grata. Minutos depois, ele ouve a porta de entrada bater e a chave rodar na fechadura; ela saiu. Não vai ser fácil consertar um chute que já saiu torto, pensa ele. Desanimado, ele decide voltar para o sofá e pelo menos repor o sono em dia.


"Ai, preciso de um banho.
Vou deixar a porta só encostada, hein!"



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