14. Invasor?
Domingo, 6h da manhã. Toques tímidos mas
insistentes da campainha irritante acordam as duas amigas ao mesmpo tempo.
— Quem será, a essa hora? resmunga Aninha, zonza de sono.
— Acho que eu sei, responde Soraya, visivelmente
embaraçada.
Aninha olha para ela, mas continua até a
porta. Pelo olho mágico, ela não acredita no que vê, mas não há dúvida. Ela
corre até o quarto e, pela primeira vez seriísima, fuzila sua amiga com o
olhar.
— Pode tratar de ir falando!
— Ele apareceu lá na loja ontem querendo falar
com você. Quando me chamaram, eu logo vi quem era; você falou tanto dele! Alto,
magro, cor de chocolate ao leite, uns dezoito anos...
A campainha continua
tocando e os nervos de Aninha se crispam. Ela não sabe se é melhor abrir ou
fingir que não está.
— "Alguém" me disse que ele tinha um
brinquedo lindo. Nem isso te anima? implica Soraya, vestindo uma camiseta.
— Droga, Soraya! Para que é que você foi dar o
endereço? Eu poderia encontrar com ele na rua! Ele deve ter dormido num banco
de praça, e agora vai ter que vir para cá.
— E daí? Se for por uns dias, por mim, tudo
bem. Agora vai lá, senão o coitado vai ficar perambulando por aí que nem zumbi!
Quando a campainha
parece ter tocado pela última vez, Aninha abre a porta. A corrente prateada
contra o fundo preto da camiseta e a jeans de gancho baixíssimo são a primeira
coisa que lhe salta aos olhos. O jovem alto e magro está diante da porta
segurando uma mochila por uma das alças e sorrindo com cara de bobo.
— Está fazendo o que aqui, Gabriel?
pergunta Aninha, com voz amolada.
— Calma! Fiquei sabendo que você estava aqui e
resolvi dar uma chegada.
— Quem te contou? Entra,
anda!, diz ela sem esconder a irritação, escancarando a porta e olhando
para baixo para tentar manter a ira sob controle.
Obviamente não é o
momento para manifestações afetivas, e Gabriel já percebeu isso. Aninha o
apresenta rapidamente a Soraya e lhe indica o sofá com o queixo pedindo
que ele se explique. Ele começa contando as novidades do subúrbio, fala um
pouco de coisas que Aninha não pode saber por telefone e acaba se safando
momentaneamente da explicação ao contar o episódio sinistro do dia do seu
aniversário.
— A Maracely? Tua prima Maracely? indaga
Aninha, sinceramente surpresa. Ainda ontem ela andava grudada na
saia da mãe!
— Ela mesma! Deu para uns doze, sem contar os
que entraram na fila mais de uma vez. Você precisava ver como é que eu e o Moa
levamos ela para a minha casa; não conseguia nem andar!
— Ela dormiu na tua casa?
— No sofá da sala. Se ela voltasse para casa,
meu tio sairia dando tiro!
— E por que ela fez isso?
— Parece que levou chifre num baile aí, ficou
puta e se vingou assim.
— Ficou puta e virou puta! Esse mundo está
perdido.
— É! Haha!
— Sua família sabe que você está qui, Gabriel?
— Hãhã. Eu falei que ia passar uns dias com um
amigo aqui... mas eu queria mesmo era ficar; não aguento mais aquilo lá.
— Onde é que você dormiu ontem?
— Na praia.
— Fala sério!
— Juro! Ainda estou com areia na roupa. Mas
durmi direto, super bem.
Soraya, que já
examinou Gabriel de cima a baixo, mas passou esses primeiros minutos num
intenso vaivém entre a sala e os outros cômodos para deixar Aninha à vontade
com ele, resolve enfim ir sentar-se na poltrona.
— Vocês se conhecem há muito tempo, não é?
— Desde sempre! responde Gabriel, procurando em vão um olhar cúmplice.
— Desde sempre ele me espiona da janela, isso
sim! exclama Aninha. A casa dele dá quase dentro do quintal da minha e quando
ele fica por trás da veneziana espiando. Pensa que eu não sei, é?
— Verdade, Gabriel? Que vergonha! implica
Soraya.
— Não é bem assim, diz ele, encabulando.
— É sim! É só eu botar biquíni e sentar para
tomar sol que você vai para o esconderijo me espiar, Gabriel, confessa! E a
gente mal se fala na rua, Soraya; "ela" é timida! lança Aninha,
debochada.
— Você trouxe roupa de banho, Gabriel?
pergunta Soraya, maternal. O que vocês acham de tomar café e pegar uma praia? Não
vamos perder esse solão, não é, gente! E ela desembesta a falar para distender
o clima.
Aninha aprova e
Gabriel respira um pouco. Eles tomam café conversando sobre a vinda
de Soraya para Cabo Frio. Depois do café, ele vai ao banheiro trocar a calça
por sunga e bermuda enquanto as meninas se vestem no quarto.
— Ele é gostosinho, Ana! Viu só a bundinha,
que tesão? Dá vontade de morder! sussurra Soraya, elétrica, puxando a
calcinha do biquíni para ajustá-la ao corpo.
— Não quero esse pobretão aqui, Soraya! Não
vou tirar vizinho da lama não! Eu vim aqui para cuidar de mim, da minha vida. Além
disso, não nasci para babá.
— Ele é maior e vacinado, Ana.
— Maior não quer dizer maduro; ele é um
crianção! A gente cresceu no mesmo lugar e eu via esse cara todo dia me
espionando, tocando punhetinha escondido atrás da janela!
— E quem foi que me apresentou o Mosca, tomou
sorvetinho com o Fábio no colo e transou com o Francis?
— Isso é diferente, e você não pode reclamar
porque é graças ao Mosca que você está se abrindo mais do que mala velha!
— Ah, não exagera, Ana! Mas eu acho que você
tem que dar uma chance ao menino. Curte esses dias de folga e para de pensar.
Quando a gringa te ligar, você manda ele à luta e pronto. Se ele quiser ficar em Cabo Frio , vai ter que
encarar a barra que a gente encarou para se virar sozinho; tanta gente faz
isso!
— Não estou nem um pouco preocupada com ele,
Soraya.
Aninha suspira e vai
para janela, em silêncio, durante alguns segundos. A imagem de Gabriel evocou o
passado que ela está tentando deixar para trás e isso a incomoda muito, mas ela
se lembra do que já conquistou até aqui e diz a si mesma que ninguém vai
tirar isso dela e muito menos desviá-la do seu caminho. Isso a acalma
momentaneamente.
— É, você está certa, amiga. Vou
aproveitar o domingo e a folga, que isso é coisa rara na vida da gente.
— É assim que se fala! responde a
outra, olhando o bumbum no espelho.
Pelo caminho,
Gabriel se mostra animado e não lhe falta assunto e muito menos perguntas. Chegando
ao ponto escolhido pelas meninas, ele se deslumbra com a extensão e beleza da
praia do Forte e de suas frequentadoras, cujos biquínis lhe parecem ainda
menores que no Rio. Além disso, a música alta, os vendedores e as mesinhas na
areia lhe são familiares; ele se sente num subúrbio dotado de uma praia bonita.
Num esforço de
tolerância sobre-humano, Aninha lhe pede que passe bronzeador nas suas costas. Gabriel
pode enfim realizar o sonho de tocar nesse corpo que ele conhece tão bem e há
tanto tempo, mas sempre à distância. Temeroso, ele espalha o produto com
respeito e, chegando ao final das costas, entrega o frasco a Soraya, que vai
onde ele não tem coragem de se aventurar. Ela lança olhadas maliciosas de vez
em quando e ele sorri meio encabulado, mas conivente, ela lhe restitui o frasco
para que ele prossiga. Ele pode quase tocar com os polegares a estreita faixa
de tecido elástico que emerge do fundo do rego para tapar o sexo e compor o
triângulo frontal da calcinha do biquíni. Quando ele chega aos tornozelos,
Aninha agradece sem abrir os olhos e ele entende que uma segunda mão é
desnecessária.
— Você está a fim de ficar aqui, não é,
Gabriel?
— Estava, sim.
— Bom, a gente vai quebrar o teu galho, mas só
até eu começar no novo emprego. Se quiser ficar mais, vai ter
que se virar sozinho, valeu?
— Tudo bem. De repente arrumo emprego num bar
ou numa padaria.
— Eu lembro de você trabalhando no bar do
Tadeu. Não deu em nada, né?
— Ele me achou atolado e queria pagar menos,
aí me mandei.
— É por isso que o Tadeu está rico.
— Ele tem casa aqui, sabia?
— É? Não sabia, não, diz Aninha, vagamente, já
sendo assaltada pelas imagens do seu primeiro fim de semana em Cabo Frio , totalmente
frustrado.
— O Tadeu está estranhão, fica na porta do bar
olhando para o nada.
— Vai ver que o casamento vai mal. Você tem
visto a Selminha?
— Às vezes ela está lá no bar com as crianças.
Mas todo mundo sabe que o Tadeu é o maior galinha.
— Ainda bem que eu fui embora de lá; só dá
fofoca mesmo, diz Aninha, sentindo a ira à flor da pele e se lembrando da
viagem de moto e dos seus poucos momentos íntimos com o dono do bar, do banho
interrompido pelo telefonema que pôs tudo a perder... ou nem tanto.
— Vou querer também, Gabriel! pede Soraya,
apontando para o creme de bronzear e já pondo-se de bruços.
Ajoelhado ao lado
dela, Gabriel sabe que vai poder tocá-la sem receio e começa espalhando
amplamente o creme pelas costas.
— Hum... que gostoso! ela suspira, puxando o
cabelo para cima para facilitar-lhe o acesso à nuca e ombros.
Vendo que os homens
em volta assistem a essa tarefa privilegiada, Gabriel dispensa às costas de
Soraya um verdadeiro tratamento de massagista. Em seguida, ela se vira e os
ombros, braços, a parte exposta dos seios, barriga, coxas, tornozelos, pés,
nada escapa ao trabalho minucioso das mãos de Gabriel. Enquanto passa a mão
untada perto do limite imposto pelo elástico da calcinha do biquíni, ele
distingue a marca da fenda na convexidade do monte de Vênus e nota que Soraya
está arrepiada, indício de excitação. Sua vontade é invadir a tênue fronteira
de tecido, mas ele fatalmente seria visto pelos curiosos e não se sente
preparado para gerir um show erótico em público.
Ao lado de Soraya,
Aninha continua se bronzeando de bruços e cada visão dessa mulher que ele
idolatra e se mostra mais do que nunca inatingível leva Gabriel de volta à
consciência do seu maior desejo. Por sorte, sua posição impede o relevo na
sunga, mas assim que ele termina de passar bronzeador em Soraya, o grau de
tensão baixa, ele corre para a água.
— Esse menino me deixou com um tesão, Ana! Estou
toda arrepiada, olha! murmura Soraya.
— Vai comer agora ou quer que embrulhe? Quer
que eu durma no sofá, hoje? retruca a outra cinicamente.
— Vai dizer que não está nem um pouco a fim?
— Cruz credo! Mas te dou a maior força. Você já sabe o que te espera, não é?
— Você me contou que uma vez ele estava nu, trepado numa escada.
— Pois é, consertando um treco no teto.
— E era grande mesmo, Ana? Deu para ver direito?
— "Assim", sem brincadeira!, diz ela, pondo os dedos indicadores em paralelo a cerca de vinte centímetros de
distância um do outro.
— Nossa mãe! E grosso?
— Mais ou menos isso, faz a outra, produzindo
um círculo com o indicador e o polegar.
— Caramba! Maior que o do Francis?
— Gabriel é da cor, Soraya! O que você acha?
— Já estou com água na boca. Você não
fica nem curiosa?
— Nem um pouco, responde a outra, indiferente,
virando-se de frente e ajustando as bordas do biquíni exatamente sobre as
marcas.
Caminhando mar
adentro com água até a barriga, Gabriel já fez um giro do horizonte e não perde
nenhuma cena. Dois ou três banhistas mais arrojados nadam bem mais adiante, mas
a maioria se concentra pertinho da areia. Ele pertence ao subconjunto dos que
não têm medo d'água mas nadam mal e gostam de ficar onde ainda dá pé. Aí há
pequenos grupos conversando em círculo, casais, adolescentes de máscara e pé de
pato, velhos e velhas impulsionando a água com os braços para fazer exercício,
etc.
Pouco adiante dele, com água até o meio das costas, Gabriel distingue uma
mulher firmemente agarrada ao pescoço de um homem. Ela abre a boca e arregala
os olhos regularmente, olhando ao redor a cada pausa. Não há dúvida de que
estão fazendo sexo e ela faz caretas a cada vez que recebe uma estocada,
conjetura Gabriel, achando graça mas muito excitado com a possibilidade de
transar no mar, assim, em
público. Algumas pessoas parecem ter percebido, mas ninguém
faz espalhafato. Um pouco mais perto dele, cinco amigos brincam de golfinho,
exibindo as bundas reluzentes para um grupo de meninas que, às gargalhadas,
tentam adivinhar onde eles vão emergir para dar-lhes tapas certeiros. Os tapas
ressoam e os risos redobram, chamando a atenção de todos. Aqui e ali,
Gabriel vê casaisinhos em pleno "arrocho", beijando-se e trocando
carícias submersas que ele tenta imaginar. Tudo contribui com o estado de
erotização em que ele se encontra desde que reviu Aninha de
biquíni.
Naturalmente, Gabriel se volta para o casal mais ousado e, certificando-se
de que não será visto, baixa um pouco a sunga para masturbar-se vendo as
contrações do rosto da mulher e o movimento ritmado do seu corpo. O
orgasmo chega intenso, com uma ejaculação forte e em vários jatos, mas a água
fria e espessa logo o atenua. Ele consegue ver por alguns instantes os filetes
de esperma valsando como águas-vivas em volta do seu membro duro, que ele deixa
de fora até amolecer. Em seguida, ele vai caminhando em direção à praia. De pé
na faixa de areia molhada ou caminhando ao longo dela, corpos femininos de
bunda propositalmente empinada excitam os homens, que olham sem pudor.
Gabriel
está deslumbrado com esse ambiente de lazer e descontração carregado de
sensualidade que seus congêneres mais afortunados produziram longe da feiura
suburbana e do tédio fluminense. Ele volta transfigurado ao lugar em que Aninha e Soraya
continuam a bronzear-se.
— Isso aqui é demais! exclama ele, sacudindo
os braços e provocando gritinhos a cada respingo de agua fria que toca o corpo
tépido das meninas.
— Pronto, não vai mais querer ir embora!
brinca Soraya, passando-lhe os olhos dos pés à cabeça e detendo-se
discretamente à meia altura, onde o membro recém-masturbado repousa, ainda volumoso. Soraya desejaria poder baixar a sunga dele ali mesmo e matar de uma
vez essa curiosidade que quase a sufoca.
— Para de babar e vamos para a água! sussurra
Aninha, despertando a amiga dessa hipnose fálica.
Elas correm para a
água rindo e trocando comentários sobre cada homem que passa por elas. Mas a
água está fria para o gosto de ambas e o banho não dura mais do que poucos
minutos. Já de volta, Aninha propõe saírem dali e caminharem pela areia até a
altura da butique de Stéphanie para que ela mostre seu novo local de trabalho a
Soraya. A idéia é bem acolhida e os três partem imediatamente. Eles vão como
chegaram, conversando, mas Gabriel sente que Aninha continua a mantê-lo à
distância.
Ao chegar, Aninha
logo avista sua futura patroa no interior da loja, conversando com um
eletricista encarapitado na escada. Eles entram, ela apresenta os amigos e
Stéphanie lhe pede que faça as honras da casa enquanto continua orientando o
técnico. Aninha mostra o local e os artigos que estarão à venda, que
rapidamente cativam Soraya e Gabriel. Os três acabam ficando para ajudar
Stéphanie na arrumação e limpeza, ela pede a Gabriel que vá comprar pizzas,
cerveja e sobremesa, e o dia se passa agradavelmente. Ela aproveita o momento
de ausência dele para falar discretamente com Aninha.
— Estou morando na casa de um amigo e preciso
levar umas caixas de mercadorias para a garagem dele porque aqui não cabe tudo.
Amanhã eu ia pedir ajuda a alguém para fazer isso comigo. Você se acha que o
Gabriel se importaria de ir lá comigo hoje? Seria mais uma coisa resolvida. Eu
poderia retribuir, se você achar que convém. Depois eu o deixo de carro onde
ele quiser.
— Acho que ele vai adorar. E ele está lá em
casa até eu começar a trabalhar aqui na loja; te dou o endereço. E não precisa
dar dinheiro nenhum para ele.
— Então vou falar com ele. E não se preocupe,
eu o deixo na sua casa inteirinho, prometo!
— Pode usar e abusar! Não tenho nada a ver com
ele não. Ele apareceu lá em casa, mas já, já, vai ser posto para fora.
Stéphanie acha graça
da maneira como Aninha se refere a um hóspede, mas não dá maior importância. Por
volta das sete da noite, a butique está limpa e arrumada, os spots luminosos
instalados e nada deixa perceber que ela ainda não foi inaugurada. A francesa
não tem dúvida de que poderá abrir as portas no meio da semana. Aninha e Soraya
vão embora deixando-a com Gabriel, que a ajuda a abarrotar o carro de caixas de
papelão desmontadas. Depois, eles seguem para o Peró.
Gabriel fica deslumbrado
ao descobrir que está na cidade praiana mais tradicional da região dos Lagos e
vai da loja até o prédio conversando animadamente, contando à Stéphanie que ele
é vizinho de Aninha no Rio e revelando o seu sonho de ir embora de lá. A
francesa se encanta com o jeito desse jovem que, longe de ter as mesmas
oportunidades que ela de se desenvolver, possui um entusiasmo na voz e uma
clareza no olhar que lhe parecem únicos. Ela admira a espontaneidade com
que ele responde às suas perguntas, e eles chegam rindo ao prédio moderno e
bonito com vista para o mar. Eles descarregam o carro, arrumam as caixas no
canto da garagem designado pelo anfitrião de Stéphanie e, em vez de levar
Gabriel imediatamente até em casa, ela o convida a subir para comer alguma
coisa e terminar a conversa. Gabriel concorda, se ela não se importar que ele
vá de sunga e camiseta, porque ele passou o dia na praia, etc. Muito pelo
contrário, Stéphanie está adorando vê-lo assim, menino do rio, acostumado ao
sol e ao calor, de camiseta sobre o corpo quase nu e o clássico chinelo de
dedo. Eles entram no elevador e Gabriel se sente pronto a ser teletransportado.

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