13. Escalando
Ainda está quente em Cabo Frio, mas a
massa humana que ocupa as casas de veraneio se foi com o fim das
férias. Sobraram turistas do Brasil e de fora, aposentados e a gente do lugar. Banhistas
satisfeitos podem finalmente escolher onde se instalar na imensa praia do Forte
agora semideserta, mas a animação não é a mesma e as ruas ficam mais vazias e
quietas a partir das sete da noite.
Como todo ano na mesma época, o movimento na
loja de materiais de construção aumenta porque é o momento de construir e
reformar em tempo para o longo feriado da Semana Santa. Fartas de vender
cimento, vergalhão e pregos, Aninha e Soraya decidiram mudar de emprego e,
embora ainda não tenham pedido demissão, já estão sondando novas
possibilidades. Os dias
são longos, mas elas fazem render as pausas e aproveitam para visitar
lojas que anunciam vagas para vendedoras.
Em plena quarta-feira, uma
mulher de cerca de trinta anos entra na loja e se dirige diretamente a Soraya. Loura,
bonita, de maiô e canga, mas maquiada, de óculos escuros e um amplo chapéu de
palha que a denunciam como estrangeira, ela quer os preços do material para uma
sala comercial que ela acaba de alugar. Ela "puxa nos erres" e Soraya
não entende uma palavra do que ela diz, a tal ponto que, depois de algum
esforço em vão, frustrada e irritada, ela desiste e pede a ajuda de Aninha. Mais
esperta, a menina do Rio completa as informações deformadas pelo sotaque e
fornece à moça os preços de cada item. Satisfeita, a bela estrangeira fecha a encomenda e manda entregar tudo no endereço determinado, que
fica a poucos metros da praia. Trata-se de material elétrico, hidráulico e de
acabamento, tudo de instalação rápida, nada que implique quebra de paredes. Ela
espera inaugurar a loja em menos de uma semana.
Aninha é dessas pessoas que acreditam que
nada na vida acontece por acaso. Mostrando-se interessada, ela pergunta que
tipo de comércio a nova cliente vai abrir e se pretende empregar alguém, e
quantas pessoas. Trata-se de uma loja de roupas de banho e acessórios, responde
a mulher, e, sim, ela está à procura de vendedoras, duas. Aninha não precisa de
muito esforço para despertar o interesse da estrangeira, que não tira os olhos
dela, devorando-lhe os ombros morenos que se insinuam por entre as frestas do
longo cabelo preto e brilhante. Elas trocam números de telefone e Aninha fica
de passar na loja no sábado seguinte. Ela pergunta se pode levar Soraya, ao que mulher não se opõe, mas não mostra nenhum interesse particular. Ela vai embora
despedindo-se de Aninha com dois beijinhos e um sorriso expressivo.
— A gente arrumou emprego,
Soraya! E com uma gringa!
— Sério? Não vi nada disso e estou exausta de
tentar entender essa perua, responde a jovem, despejando todo o seu provincianismo
no entusiasmo de Aninha.
— Vamos lá no sábado para conversar. Imagina,
trabalhar olhando para o mar!
— Hm... sei não. Agora cala a boca porque se o
patrão ouve, é rua, e a gente nem sabe se vai conseguir o emprego!
— Sua caipira! dispara Aninha, rindo
carinhosamente.
A semana se arrasta,
mas o sábado chega enfim e Aninha entra na loja que já parece pronta para abrir.
— Bom dia! exclama a proprietária, articulando
o eme e pronunciando o dê como em "dado".
— Oi, responde Aninha, oferecendo-lhe o rosto.
A loja está ficando bonita!
— Eu não disse que era pouca coisa? O material
chegou na quinta-feira e eles vão terminar tudo hoje à tarde. Se eu pudesse,
abriria amanhã mesmo.
— A Soraya não pôde vir, teve que trabalhar.
— "Ah bon?" responde a outra,
indiferente, puxando-a para mostrar a butique. Aninha estranha a resposta,
mas não identifica o francês e não dá maior importância.
— Qual é seu nome mesmo?
— Ana, mas pode me chamar de Aninha.
— Aninha então. Eu sou Stéphanie e você não
precisa me chamar de senhora; eu já estou acostumada no Brasil.
— "Ichtê..."
— Stéphanie.
Hm... Sté-pha-NI.
— "Ichtêfani"?,
ensaia ela, acentuando o "tê".
— Quase,
mas a sílaba tônica é a última.
— Que...
diferente!
— Eu
sou francesa, mas já estou há algum tempo no Brasil. Você logo acostuma com o
nome.
Uma sensação familiar preenche a mente de
Aninha, mas ela não sabe o que é. Ela olha para a jovem mulher, mas tem certeza
de que nunca a viu antes da quarta-feira na loja de material de construção.
Intrigada, ela continua a visita guiada e tem a nítida certeza de ter sido
eleita primeira vendedora sem qualquer processo seletivo. Finda
a visita, Stéphanie lhe pergunta se estaria disposta a deixar o emprego para vir trabalhar para ela, explicando que o começo
pode ser um pouco duro, mas que ela vende produtos tão bonitos que o sucesso é
garantido. E de fato, os maiôs e biquinis, sungas e shorts, óculos, toalhas,
cangas, chapéus, toalhas, material esportivo, tudo é bonito e de excelente
qualidade. Aninha sente-se seduzida e aceita. Mas sendo boa amiga, ela não se
esquece de perguntar...
— E a
Soraya?
— Olhe,
ela pode vir quando quiser, mas a verdade é que eu quero um casal de jovens
muito bonitos. A menina, eu já encontrei; poucas vezes na vida eu vi uma beleza
exótica como a sua!
— Nossa, obrigada!
E pode deixar que eu explico a situação à Soraya e ela vai entender.
— Ótimo.
Os vendedores vão trabalhar de roupa de banho, então preciso de duas pessoas
com corpos realmente perfeitos. Hoje mesmo, alguns rapazes vêm para
entrevistas. Aliás, eu gostaria que você pusesse uns maiôs e biquínis para eu
ver.
— Claro!
Pode ser até agora.
— Ótimo! Vou pegar alguns.
Stéphanie procura nos escaninhos já
existentes um biquíni estampado, dois lisos e um maiô cujo tom amarelo ouro ela
tem certeza que vai ficar muito bem no corpo moreno de sua primeira vendedora.
Quando ela abre a cortina de uma das três cabines contíguas
espelhadas, surpreende Aninha nua em pelo, penteando com toda a naturalidade o longo
cabelo, a cabeça inclinada para o lado e um amplo sorriso nos lábios. Seu corpo
inteiro invade as retinas da francesa.
— Você
é linda, Ana! "Ravissante!" Exclama ela, entusiasmada.
— "Ravi"
o quê? responde a menina, sem perder a simpatia.
— "Ravissante."
Se eu pudesse traduzir, teria dito em português, mas não sei, haha! Mas fique
tranquila porque é um elogio.
— Que
bom! Que biquíni eu ponho primeiro?
— Primeiro
o maiô amarelo.
— Está
bem.
Diante do olhar maravilhado da francesa, o
maiô amarelo de trama extremamente fina e sem costura aparente vai tomando
as formas do corpo de Aninha como uma segunda pele. Os decotes e o cavado das
aberturas conferem sedução com bom gosto a esse corpo de proporções perfeitas.
Os seios não ficam espremidos nem soltos demais, os mamilos marcam sutilmente o tecido e a suave elevação da pélvis não revela a fenda, mas deixa
adivinhá-la.
A generosidade maior provém de trás. Quando as nádegas são firmes e perfeitas, como é o caso dessa criatura mimada pela mãe Natureza, o
tecido amarelo surge dentre os dois gomos contornando-os por cima e deixando-os quase completamente expostos para valorizar ao máximo a saliência e a curvatura.
— Esse
biquíni é para poucas, Ana, e você o veste como um verdadeiro modelo, declara a
francesa. E é o seu corpo que vai vendê-lo porque as meninas vão
todas querer ficar como você.
— Ele
é lindo!
— É lindo e é seu. Aliás, todos serão seus, mas enquanto trabalhar para mim, você
só poderá usá-los aqui. Serão sua roupa de trabalho.
— Combinado!
exclama Aninha, toda feliz, dando voltas na cabine espelhada.
A testagem dos biquinis prossegue,
embevecendo cada vez mais Stéphanie, que enriquece a experiência pedindo à
Aninha que ponha óculos de sol, cangas coloridas, chapéus, sandálias, tops,
shorts e saias para a saída da praia. Tudo lhe cai bem e ela se sente linda
nessas roupas de bom gosto. À certa altura, três rapazes entram juntos na loja.
— Os
candidatos a vendedor estão chegando, Ana. Preciso atendê-los. Se
você preferir ir embora, pode ir. Eu ligo para você para falar da inauguração.
Aninha olha de relance para os
recém-chegados; na sua opinião são três "gatos" como só se vêem em
filme. Altos, fortes e de pele dourada, não se parecem em nada com os meninos
da região. Ela logo os escuta dizendo que são do Rio, mas estudam num centro de
oceanografia perto de Cabo Frio. São colegas de faculdade, fazem surf e
mergulho e decidiram se candidatar juntos mesmo sabendo que só um será
selecionado. Em 45 minutos, Stéphanie se dá por satisfeita, seleciona um deles
e vai apresentá-lo a Aninha, decidida a dispensar eventuais novos candidatos.
— Essa é a sua nova colega Ana.
— Pode
me chamar de Aninha, diz ela, percorrendo o novato de cima a baixo com
simpatia, mas evitando exprimir qualquer impressão.
— Oi,
Ana, responde o jovem de cerca de 22 anos, 1,80m e cara de surfista americano. Meu nome é Daniel.
— Virem-se para cá! Vocês vão fazer um sucesso! exclama a francesa vendo-os juntos.
Daniel passa pelo mesmo processo que Ana,
alternando shorts, sungas e bermudas, acessórios e sandálias diante dos olhos
atentos da empregadora. Quando Stéphanie pede aos dois candidatos que circulem
um pouco pela loja, a idéia que ela tirou de uma loja de Nova Iorque lhe parece
perfeita para a sua butique em Cabo Frio. Ela só precisa treiná-los a
atender com naturalidade os clientes eventualmente vestidos, porque a maioria
estará como eles ou quase. Uma vez satisfeita, ela pede a ambos que aguardem
seu telefonema dois ou três dias antes da inauguração da loja. Eles se
comprometem a estar lá no dia combinado e vão trocar de roupa para sair.
Os dois jovens conversam diante das cabines. Aninha está satisfeita com essa patroa reacionária que quer ver de volta a moda das sungas pequenas. Ela já fez com que Daniel vestisse uma delas e o efeito é positivo.
Alto e magro, de coxas musculosas e bundinha miúda, o rapaz exibe sem inibição uma protuberância
de volume considerável no bojo da estreita peça de tecido verde-mar.
— Você
já tinha usado uma assim? pergunta-lhe Ana.
— Nunca!
Meu pai é que fala dessas sungas. Deve ser "complicado" na praia, brinca ele,
olhando para baixo e sorrindo.
— Se
a minha tia te visse, ia adorar. Ela diz que homem se mede pela sunga e que o "sungão" apaga tudo.
— Tua tia deve ser uma comédia, haha! Mas é verdade que o sungão é mais discreto.
Dá menos medo de usar; eu tenho uns cinco.
— Eu
tenho um monte de biquínis, mas nunca usei maiô; aqui vai ser a primeira
vez. Mas ele é muito lindo, vê só.
Ela pega o maiô amarelo e mostra a Daniel,
que olha espantado para o que lhe parece ser uma roupa infantil.
— Uau!
Isso te cabe?
— Fica
justinho, mas perfeito.
— Você
vai pôr no dia da inauguração?
— É a patroa que vai decidir.
— O maiô e os biquínis são incríveis, a sunga é legal, mas acho que a gente
vai se sentir meio nu.
— É,
as roupas dela são curtas. Isso aqui vai ser uma loja bem sensual.
— Vai
atrair clientela. Aninha, o que você acha de ir tomar uma cerveja?
— Troco
de roupa num instante! responde ela, já desaparecendo no provador.
Após duas horas travando conhecimento com seu novo colega de trabalho, que se mostra simpático além de atraente, Aninha volta para casa feliz, satisfeita com o novo emprego e pronta para pedir demissão da loja de
materiais de construção. Ela encontra Soraya deitada
no sofá, lendo um gibi.
— E
aí? Conta!
— Estou
empregada, Soraya! A gringa me adorou e me contratou direto, eu e um outro
cara. E a gente vai trabalhar de roupa de banho, sabia?
— Sério?
Você de biquíni e ele de sunga?
— Sunguinha, bro! A mulherada vai pirar. O nome dele é Daniel. Mor pauzão!
— Quando
é que inaugura?
— Ainda
não sei. Ela vai ligar. Vou pedir demissão na segunda.
— Xi!
O seu Jarbas vai ficar uma fera.
— Azar!
A gente tem que evoluir. Aliás, a senhora também não vai ficar pegando cheiro
de cimento naquela loja, espero!
— Tem
vaga para mim lá?
— Por
enquanto não, mas a francesa disse que você pode ir quando quiser para uma
entrevista.
— É,
de repente eu vou qualquer dia desses.
— Com
essa animação toda, já vi que não vai.
— Adivinha quem saiu daqui ainda há pouco.
— Fala.
— O
Mosca. Veio se despedir antes de voltar para o Rio.
— E
aí?
— "E
aí" o quê?
— Rolou?
— Mm-hm.
Lá no quarto.
— Estou
gostando de ver! Aposto que ele vem de novo no fim de semana.
— Como
é que você sabe?
— Com
aquela cara de romântico... Vai dar em namoro.
— Sei
lá. Só sei que ele é gostoso, diz ela, se espreguiçando languidamente.
— Soltou
o cuzinho e tudo para ele, aposto.
— Aninha!
— Ué, que é que tem de mais? Vai, fala!
— Ah,
só uma vez, no banho. Ele pediu tanto!
— E
aí?
— Com
ele, foi bom. Mas deixa de ser indiscreta, né! Não vou te dar detalhes
não!
De banho tomado e usando apenas camiseta e calcinha, Soraya não precisa muito para convencer Aninha de estar
falando a verdade, mas seu ar vago dá à amiga a impressão de que ela não
lhe contou tudo.
— Que
foi, Soraya? Está me escondendo alguma coisa?
— Não,
por que?
— Eu
te conheço. Desembucha, anda!
— Não
é nada, Aninha! Deixa de ser desconfiada.
— Não
saio daqui enquanto você não me contar.
— Bom,
se você vai ficar assim, vou lá para o quarto dormir. Eu já disse que não foi
nada.
— Então
acho melhor você ir dormir mesmo, senão não vou te largar até você soltar a
língua.
— Pois
é isso que eu vou fazer: escovar os dentes e dormir. Não estou a fim da
companhia de amiga desconfiada.
Soraya se levanta e vai para o banheiro
deixando Aninha com a pulga atrás da orelha. Ela não tem dúvida de que alguma
coisa aconteceu; nada de grave, mas algo que sua amiga não quer contar, embora
já tenha se traído. Mas como ela não quer estragar um dia tão perfeito, procura não pensar no assunto e também se despe para tomar banho e ir dormir
logo em seguida. Durante o banho, ela rememora o corpo de Daniel e se acaricia
imaginando o que teria acontecido se eles tivessem se aproximado mais, o volume da sunguinha tornando-se uma bola
dura que, ao menor puxar do elástico, teria liberado um
maravilhoso pau grosso e cabeçudo. Ela se lembra de ter desejado fazer isso e desistido ao reconhecer que teria sido precipitado. Ela se entrega a uma profunda carícia que a
leva a um orgasmo intenso, certa do encontro dependente apenas de uma mera questão de tempo.
No quarto, Soraya já
está dormindo, deitada de bruços fora do lençõl, vestindo apenas uma diminuta calcinha de fio e agarrada ao travesseiro. Seu corpo ondula sensualmente enquanto ela suspira imersa num sonho inegavelmente carregado de volúpia. Inspirada por essa imagem, Aninha não tarda a adormecer e seus sonhos são povoados de mil
fantasias de sucesso e conquista.

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