12. Melancolia de Aniversário
— Gabriel? Que é que tá pegando?
— Gabriel? Que é que tá pegando?
— Nada,
nada...
No dia dos seus dezoito anos, Gabriel está
se sentindo esquisito sem a presença de Aninha no quintal, logo abaixo da
janela do seu quarto. Desde que ela foi embora, um vazio se instalou em sua
mente e aniquilou sua motivação para tudo. Ele sabe que ela está em Cabo Frio , poderia facilmente conseguir o
endereço exato, mas não ousa ir atrás dela para confessar-lhe uma velha paixão
jamais correspondida; ela faria aquela boca de desprezo e o mandaria de volta
com um "Vê se cresce, cara!" Não, ela abriria a porta e o deixaria
entrar um pouco para pedir notícias sobre a sua família e a vizinhança,
retifica ele em pensamento, mas por puro interesse. Uma coisa é certa: vê-lo ou
não vê-lo não lhe faria a menor diferença.
— "Prestenção", cara!
— Hm?
Moacir é o amigo de
infância que se tornou o melhor amigo só porque não desgruda nem enxotando e
porque suporta Gabriel em todas as gradações de humor. A família de Gabriel já
nem o vê mais, considera-o parte da mobília. Ele entra sem bater e sai quando
quer, fuça a geladeira e se serve do bolo coberto com pano de prato na mesa da
cozinha. Ele já perdeu a conta de quantas vezes dormiu lá e já faz quase dez
anos que a véspera do dia do aniversário de Gabriel recebe com muita
antecedência um xis, em seu calendário, lembrando-lhe de não marcar outro compromisso. Eles são vizinhos de rua, mas nada pode separá-lo do seu melhor
amigo no dia 28 de fevereiro. Deitado ao seu lado, com meio corpo fora da cama
estreita, ele lhe aplica um tremendo soco no braço.
— Ai! Isso dói, pô!
— Feliz aniversário, cara!
Moacir tira de baixo
da cama um pacotinho cúbico e o entrega sorrindo ao grande amigo, que o pega
com ar intrigado.
— Que é isso?
— Abre!
Gabriel destrói a
embalagem que une as três caixinhas coloridas e que ele reconhece imediatamente.
— Tamanho grande! exclama Moacir, radiante.
— Nove camisinhas! Se cada uma atraísse uma
mulher, eu estava feito!
— Lubrificadas! E a vermelha tem sabor!
— Legal, cara. Valeu mesmo. No ano passado,
você me deu cueca e esse ano camisinha. No ano que vêm vai ser mulher?
Gabriel pula em cima
do amigo e imobilizando-o entre suas pernas, o enche de socos fictícios fazendo
barulho com a boca, sem imaginar o efeito que isso produz em seu amigo. Moacir
guarda na memória as brincadeiras frequentes dos dois, que surgiram assim que
eles começaram a ficar mais íntimos, quando ele vinha dormir na casa do
Gabriel, e que duraram muito tempo. Do seu ponto de vista, eles descobriram o sexo juntos e
se ele hoje se orgulha do seu desempenho com as meninas, deve isso ao seu
melhor amigo que, embora tímido nas conquistas, sempre foi – talvez por ser
muito bem dotado – exibicionista e muito curioso das coisas do corpo. Do recuar
do prepúcio às primeiras masturbações, passando pelo exame dessa coisa estranha
e feia que é o buraco do cu ou a pele franzida do saco, nada passou
inexplorado durante os inúmeros banhos que tomaram juntos e durante a noite,
colados um no outro na estreita cama em que eles mais uma vez se encontram
nesse dia de aniversário. Imobilizado sob Gabriel, a única coisa que
Moacir pode fazer é mexer a cintura e fazer um ruído que lembra ao seu amigo
que ele está sentado precisamente "lá".
— Rebola, putinha! brinca ele, pondo a língua
entre os lábios, suspirando e fechando os olhos.
Vencido por esse
argumento, Gabriel sai de cima do amigo, que imediatamente baixa o elástico do
short e lhe exibe o estado em que ele supostamente o deixou. E de fato, o
membro mediano recoberto por um prepúcio de farta extremidade epidérmica
arma-se, gira e vai deitar-se ereto na barriga branca, diante do olhar
divertido e condescendente de Gabriel.
— Isso aí não cresce, hein!
— Mas bem que você gosta! retruca o outro.
— Você é que gosta do meu! pegando à força a
mão do amigo para tentar trazê-la para si.
Moacir resiste e
impede Gabriel de levar sua mão até onde ele adivinha que o amigo a levaria. Embora
ele sinta falta dessas brincadeiras, eles agora cresceram e levá-las ao ponto
em que eles as levavam até um ano ou dois atrás os deixaria encabulados, como da última vez em que aconteceu, quando ele quase se deixou
penetrar no banho e foi a dor que mostrou que era hora de pôr um ponto final
nesse tipo de jogo. Ele se lembra que do dia seguinte em diante, eles passaram
um bom tempo sem se ver e até mesmo os encontros esporádicos na rua eram dos
mais constrangedores para ambos. Seria pena estragar tudo de novo,
principalmente num dia de aniversário tão simbólico quanto o dos dezoito anos.
— E aí, tem notícias da Aninha?
— Que nada, cara. Só sei que ela está morando em Cabo Frio há quase
dois meses. Meu cinema particular fechou! diz Gabriel, apontando para a
janela.
— Por que você não vai lá, cara?
— Lá onde? Em Cabo Frio ?
— É! Descobrir o endereço é mole; é só pedir a
um irmão dela e pedir pra não dizer nada a ela.
— O problema não é esse. Se eu
aparecer lá, ela vai ficar me olhando sem entender nada.
— E aí você fala com ela!
— Não é assim, cara. Até parece que é tão
fácil. Eu estou pensando, mas ainda não sei. Mas vamos parar com esse papo. Já
tem gente tomando café lá na cozinha e daqui a pouco começa a chegar mais. A
galera vem toda para o churrasco.
— Hmm! Legal! Vou até comer bem pouco no café!
Sob um sol
escaldante e a tentativa de refrescar os convidados com uma piscina de plástico
e uma mangueira que desce diretamente da caixa d'água, o aniversário animado a
funk e pagode, com muita cerveja, carne, arroz e maionese transcorre
sem incidentes no quintal de cimento da casa de Gabriel. Meninas de biquíni
revezam-se constantemente sobre uma mesa longa, dançando funk diante dos
olhares apalermados dos mais jovens, dos mais velhos, dos mais tímidos e de
alguns vizinhos pendurados nos muros. Casais ou grupinhos dançam juntos, alguns
solitários zanzam para lá e para cá, outros correm de um grupo a outro
implicando, troçando, rindo e bebendo, mas a atitude de exibição e conquista é
a tônica e o aniversário de Gabriel é mais uma ocasião dentre tantas de
recomposição das relações sociais, seja ela afetiva, sexual ou simplesmente
diplomática, desse grupo de jovens típico de subúrbio carioca.
Quando, por volta
das seis da tarde, os adultos decidem deixar os mais jovens à vontade e
inventam desculpas para ir embora levando as crianças e os maisi velhos,
Gabriel e Moacir caem no funk oferecido pelo MC Cláudio, morador da vizinhança
e célebre por animar os bailes de sexta e sábado do clube local. Diante da
indiferença dos namorados entediados às meninas mais ousadas, os mais
inexperientes aguardam com impaciência a chance de colar-se aos corpos seminus
das mais gostosas da festa. A carne é a metáfora mais expressiva do evento,
conscientemente materializada por cada convidada que se exibe de todas as maneiras,
competindo com as demais para obter a atenção dos rapazes cujos atributos foram
previamente "provados" e aprovados por amigas. Os corpos dourados,
mulatos, negros ou brancos entregam-se à dança espasmódica que revela dobras,
curvas e reentrâncias, elevando progressivamente a temperatura da atmosfera já
tórrida.
São dez horas da
noite e ainda há brasa na churrasqueira, além de uns poucos pedaços de carne já
carbonizada. Muitos foram embora, a música se acalmou e um pagode meloso
repleto de vogais longas substituiu o funk para inspirar os casaisinhos que
ocupam toda volta da casa de tijolo exposto e os grupinhos de amigos que fumam
baseados rindo à toa. No meio do quintal, o aniversariante cambaleia, chutando
copos de cerveja, comida, guardanapos e guimbas de cigarrro, perguntando-se se
o cara de pau do seu melhor amigo teria ido embora sem se despedir, como tantos
outros.
— Moa! Moacir!, grita ele.
Nada. Ele percorre a
lateral da casa, sempre chamando, até que uma mão pesada em seu ombro o puxa
trás.
— Chiu! Para de gritar, cara. A gente está
aqui.
— Maykon? Cade o Moa?
Trata-se do mesmo
Maykon que, segundo o Gabriel, "tirou" a virgindade de Aninha,
portanto, não há simpatia entre eles e Gabriel o considera um penetra em sua
festa. A bebedeira é a única explicação para o fato de que ele o segue até uma
das casas coladas à sua, abandonada há meses pelos moradores que sobreviveram a
uma violenta batida da polícia. Tudo que havia de roubável o foi, portanto só
restam paredes sem telhado, portas e janelas vazadas e um "interior"
relativamente limpo pelos jovens da vizinhança que utilizam a ruína para várias
finalidades práticas.
Ao chegar, Gabriel
ouve gemidos femininos e uma roda de convidados seus. Ele se aproxima e não tem
dificuldade para reconhecer que o corpo com a bunda branca que se espreme entre
as pernas femininas que a envolvem é do seu amigo Moacir. Com a chegada de
Gabriel, um certo desconforto rompe a calma relativa que reinava entre os
rapazes que esperam por sua vez de estar com essa menina que parece disposta a
satisfazer um por um. Ele conhece o jogo, ainda que não tenha participado
nenhuma vez. Mas não parece ser isso que perturba a paz local e ele não dá
maior atenção ao fato, assistindo aos espasmos finais do seu melhor amigo entre
as coxas dessa convidada generosa. Quando Moacir se levanta, Gabriel
reconhece sua prima Maracely, que ele jamais poderia imaginar já ter atingido
esse grau de promiscuidade, embora ele a visse em má companhia nos últimos
tempos. Assim que ela o vê, dá um riso debochado, deixando bem claro que ela não
tem nenhuma intenção de voltar atrás e dar-lhe um presente de aniversário.
Um
rapagão magro de mais de um metro e oitenta baixa a calça, aplica a camisinha
na cabeça do membro pronto e, com um cuidado extremo de não exibir a bunda,
instala-se entre as coxas da jovem, arrancando-lhe um gemido surdo a cada
estocada, diante das gargalhadas daqueles que conhecem suas dimensões
antológicas. O rosto da jovem se desfigura, mas ela resiste para não dar
vexame; se as outras fescobrissem que ela "amarelou" numa ocasião
como essa, seria o seu fim. Por sorte, o álcool os impede de manter o vaivém
por mais de um minuto ou dois e o dotadão é sucedido por um baixinho que a faz
sorrir.
— Não vai, Gabriel? pergunta-lhe Moacir,
desfazendo-se da camisinha para fechar a calça.
— Com a Maracely? Eu não, diz ele, indiferente.
— Só porque é tua prima? Ela é gostosa, cara!
— E daí? Meu pau não sobe com gente da
família. Mas eu não sabia que ela já era tão puta.
— Dizem que ela está fazendo isso porque o
Zebu botou chifre nela num baile aí.
— E ela acha que o chifre vai cair dando para
todo mundo? Vai é virar piranha como as outras!
Eles são
interrompidos por gemidos muito fortes. No centro da roda, Maracely está de
quatro por cima de um dos rapazes que a penetra vigorosamente na frente
enquanto outro, com as pernas muito flexionadas a penetra verticalmente por
trás sem tocar os joelhos no chão. A platéia gosta, abaixando-se para ver
detalhes da cena. Após os orgasmos, outra dupla se reveza com essa e um
terceiro vem oferecer seu membro duro a Maracely que o chupa com profusão de
gemidos que vão parecendo gradativamente mais cansados aos ouvidos de Gabriel. Aparentemente,
sua prima não contava com o fato de que os rapazes voltariam para a fila para
comparecer mais de uma vez, mas é isso que está acontecendo e até Moacir se
prepara para formar dupla com algum dos que já participaram.
— Gente... não estou aguentando... choraminga
a ingênua, entre gemidos, enquanto os rapazes a manipulam e põem em todas as
posições possíveis e imagináveis.
Gabriel vai ficando ansioso, obrigando-se a
pensar em alguma solução. Ele consegue fazer com que Moacir mude de idéia, mas
com os outros será impossível. E eles continuam a alternar-se, em dupla ou não,
a penetrar sua prima em todos os orifícios disponíveis e até o orgasmo. À certa
altura, só resta à menina deitar-se de costas, estática, pernas e braços
abertos na mesma posição, como alguem pronto a abraçar, e esperar que venham.
À medida que os
cerca de doze rapazes vão se sentindo saciados, vão embora, até que restam na
casa em ruínas apenas Gabriel, Moacir e Jorginho, um bom amigo comum de ambos,
os três contemplando a imagem deprimente de Maracely soluçando nua e encolhida
sobre folhas de jornal amarfanhadas.
— Te detonaram, hein, mana! apieda-se
Jorginho, aproximando-se para tentar ver algum vestígio dessa loucura.
— Vamos nessa, Maracely. Se quiser, fica lá em
casa até amanhã. A gente liga para a tua mãe e fala que você bebeu muito para
ir para casa, oferece Gabriel, forçando uma sobriedade que normalmente só
voltaria no dia seguinte, junto com a ressaca.
Ela se levanta cambaleante, eles
tapam-lhe os seios e vestem-lhe a calcinha
deixada no chão. Seu corpo exala um forte odor de suor e sexo. Não há sangue,
mas vêem-se restos de esperma nas coxas, costas, barriga, peito, rosto e
cabelo, que começaram a secar e estão grudados. Não é sem repulsa que Gabriel e
Moacir oferecem os ombros para ajudá-la a sair dali andando como se estivesse
apenas bêbada para disfarçar. Felizmente é noite e eles conseguem rapidamente
atravessar o quintal de Gabriel e levá-la para o banheiro.
Os dois amigos voltam para o quintal e
forçam a despedida dos últimos convidados, dois ou três casais e um grupinho
que ri à toa envolto numa núvem de fumaça densa. Finalmente, eles entram em
casa, passam pela sala onde Maracely ressona, deitada diretamente sobre o curvim do sofá,
e entram juntos no chuveiro para um banho antes de dormir, um banho de amigos
bêbados e cansados depois de uma festa de dezoito anos que deixa
um travo amargo e deprimente a ser lavado da boca assim que possível. Pela
enésima vez, Moacir acomoda-se com meio corpo para fora na cama estreita do seu
melhor amigo e eles dormem pesadamente até bem depois do meio-dia. Gabriel
acordará pensando que é hora de tomar a primeira decisão séria de sua vida.

Comentários
Postar um comentário
Comente! Ajude a aprimorar o Erotexto!