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Odisseia Emergente 9


9. Perambulando

    Kleber deixa Cabo Frio prometendo voltar no fim de semana seguinte. A afilhada pedante e o namoradinho nem se dão o trabalho de sair do carro para se despedir dela. Acenando para o carro que se afasta, Aninha não sabe dizer se ela e Kleber estão namorando ou não. Ela entra pensativa pela portaria de mau gosto do prédio velho e sobe para se vestir antes de começar mais uma semana de trabalho. Ela encontra Soraya terminando de tomar café.
— Chegou a princesinha do Peró! disse ela sorrindo, feliz ao rever a amiga. Mas que cara é essa? acrescentou, vendo-a borocoxô.
— Nada. O Kleber me deixou aqui e voltou para o rio. Ele vem na sexta. Você teve um bom fim de semana?
— Nada de mais. Fui à praia com a Nora os dois dias e ontem  passei a tarde arrumando casa.
— A próxima faxina é minha, prometo. A Nora é a menina do terceiro andar, não é? Vocês estão virando amigas?
— Ela me apresentou uns amigos dela na praia e fui até convidada para o aniversário de um deles na quarta-feira.
— Que bom! Está vendo? Daqui a pouco você esquece o Marcelo. Ficou interessada em algum?
— Dois meninos eram muito bonitos, mas não deu para conversar muito com eles porque um cara grudou em mim.
— Muito "mala"? Muito feio?
— Não, não, mas ele é bem mais velho que os outros; tem bem mais de 30 anos. Ele quer um encontro.
— Assim que é bom, menina! Vai fundo!
— Sei lá, me dá um pouco de medo.
— Soraya, o máximo que pode acontecer é ele te levar para a cama e você ficar cansada no dia seguinte.
— Haha! Só você mesmo para ver as coisas desse jeito!
— Você achou ele gostoso?
— Sei lá, Ana, eu...
— O pau; olhou, pelo menos?
— Nossa, Aninha! Bom, olhei rapidinho, mas não dá pra saber assim.
— Quando é que vocês vão sair?
— Hoje! Ele disse que tem uma surpresa para mim.
— Então vê se não enrola porque você não está arrumando marido e sim um cara pra te dar prazer. Lembra do que a gente conversou?
— Lembro, lembro, mas...
— Sem "mas", Soraya! Você não largou o Marcelo pra ficar com outro bocó. Vou querer saber tudo com detalhes amanhã de manhã. Agora vou botar uma roupa e vamos para o trabalho, que já são quase 9h.

    A segunda-feira foi quase insuportável para Aninha, que não parou sequer por um instante de pensar na natureza da sua relação com Kleber e a desejar que ele a leve para a vida dele. Voltando para casa sozinha – o novo amigo de Soraya foi buscá-la no trabalho – ela se lembra das pessoas no apartamento do Peró, principalmente do súbito encontro com o primo mulherengo do Kleber, completamente nu no corredor. Pelo que ela entendeu, ele passa às vezes semanas sem voltar ao Rio e essa seria uma delas. Talvez um encontro aparentemente casual pudesse avançar as coisas, pensa ela, logo afastando a idéia porque seria injusto com o Kleber. Com calor e sem vontade de estar sozinha em casa, ela vai passear no centro abarrotado de veranistas, pensando na vida, no passado, no presente e no futuro.

    As circunstâncias que traçaram o seu caminho fizeram com que Aninha veja o mundo como um lugar onde o sexo comanda tudo. Isso é inconsciente, é claro, mas a seu ver, todas as relações são sexuais porque todo objetivo é alcançado, em última análise, através do sexo, seja esse objetivo o próprio prazer sexual, a obtenção de um emprego ou o desconto na compra de uma roupa. Ela sempre usou seus olhos para cativar e seu corpo para seduzir, e isso lhe parece a coisa mais natural do mundo. Quando ela conversa com alguém, seus olhos e boca trabalham para levar seu interlocutor a explorar discretamente o seu corpo e a despertar seu interesse sexual por ele, após o quê, ela consegue arrancar o que quiser de sua presa, ainda que isso lhe custe uma noite de sono. Foi assim que ela constituiu seu guarda-roupa, comprou maquiagem e acessórios caros, móveis bonitos para a casa da mãe e telefones celulares para toda a família.

    Isso sem contar as horas de trabalho de jovens operários das obras que se eternizam em sua casa sem nunca chegarem à fase de acabamento. Batendo perna pelo centro de Cabo Frio, ela se recorda as "negociações" com aquelo bando de tarados que não paravam de olhá-la, piscando e assoviando cada vez que a viam enquanto emboçavam, instalavam portas e janelas, tacos e ladrilhos, rede elétrica, pintavam por dentro, carregavam móveis, geladeira, etc. Ela esperava o momento psicológico para propor-lhes a substituição de parte do pagamento em dinheiro por favores seus, que eram prestados in loco, em momentos propícios.

    Para não soar mal junto à família e os conhecidos, ela incluía esses peões e técnicos na categoria dos "ficantes", mas como ela escolhia a dedo aqueles que mereceriam o gênero de escambo que ela tinha a propor, não era raro que os negócios dessem lugar ao flerte e até a namoricos, ainda que de curta duração porque ela não tinha muita paciência para relações longas, sobretudo com jovens da mesma faixa de idade que ela, provenientes do mesmo meio que ela e que ficavam cheios de si às suas custas.

    Observando os rapazes ávidos de sexo assediando as meninas nos bancos da praça, Aninha se lembra de como aqueles "seus" operários trabalhavam com afinco após ter passado quinze minutos com ela. Por vezes, bastava que ela pousasse a mão no lugar certo para que um sorriso generoso aflorasse na boca de uma vítima mais inocente ou de mais idade, mas a maioria estipulava no mínimo a masturbação ou a felação, enquanto os mais ousados – contáveis nos dedos de uma das mãos – cobravam o preço máximo, chegando a esperar pacientemente, às vezes por dias e dias, por uma oportunidade de estar com ela a sós na casa. E ela sorri sozinha diante da perfeição da natureza: estes últimos eram sempre os mais bem feitos de corpo, os mais fortes, os mais dotados, atributos que lhes outorgavam uma autoestima muito acima dos demais. Alguns lhe deram trabalho, penetrando-a com membros enormes ou fazendo-a engolir ejaculações intermináveis em troca de abatimentos substanciais na instalação da caixa de disjuntores, no transporte do reservatório d'água ou na concretagem da laje. Isso para não falar da preferência nacional, que os reunia num unânime afã de sexo anal! Um episódio agora hilariante lhe vem à mente.

    Na época em que estavam construindo o banheiro,  ela comprometeu-se com o operário que instalou um chuveirinho no vaso sanitário, o mesmo chuveirinho que lhe permitiria precisamente preparar-se para ele! O homem era um especialista nessa modalidade de sexo que não é exatamente aquela que mais entusiasmava essa jovem de corpo delicado, e quando ele pôde enfim pô-la debruçada na bancada inacabada do banheiro para obter à vontade a sua parte no trato, não só a fez ver estrelas ao fincar-lhe a ferramenta avantajada, mas engrenou num ritmo tão regular que ela chegou a pensar que eles ficariam ali para sempre. Em meio a dezenas de vaivéns, ele lhe explicou orgulhoso que tinha controle absoluto das suas ejaculações e que só gozava quando queria pôr fim ao coito. Como ela se lembra bem daquele que foi seu mais longo episódio de sexo contínuo até então! Quando por fim o homão de mais de um metro e oitenta decidiu dar vazão ao seu fluxo, ela estava tão esgotada que não se aguentava mais em pé e precisou usar os muques para não escorrer como água no chão de cimento cru. E ainda assim, lembra-se Aninha sorrindo, ela ainda teve forças para negociar uma pequena alteração da altura do chuveiro em troca de uma ejaculação facial que inundou seu rosto de um esperma denso como creme.

    O "ogro" a deixou sentada no vaso, de olhos esbugalhados, refrescando a região castigada com o chuveirinho recém-instalado e foi embora assoviando, bem disposto como se tivesse acabado de despertar de uma sesta reparadora. De cu literalmente transformado em geléia, Aninha passou dias tratando-se com pomada, dormindo de bruços e arrumando desculpas aos outros solicitantes. Se é verdade que até agora ela gastou bem pouco dinheiro com essa casa, pensa ela, seria injusto dizer  que a obra está saindo de graça!

    Passando pelos casaizinhos na praça, ela ri dos trejeitos das meninas que dizem não querendo dizer sim e observa as estratégias dos meninos: da pura verbosidade ao ataque direto aos seios e coxas, passando pelas várias formas de carícias arrepiantes e pelo beijo roubado. Ela não passou por essa fase que alguns acham encantadora e outros hipócrita. No arrastão da sua vida, ela assistiu ao defloramento da sua melhor amiga pelo dono de um posto de gasolina em troca de uma lambreta de segunda mão e dali em diante o sexo se tornou para ela uma transação comercial, a concretização de negócios que geram bens de consumo ou uma melhora da qualidade de vida no subúrbio.

    Aninha vê a busca gratuita do sexo como desperdício e é por isso que ela aprova a relação de Soraya com esse homem mais velho que a convidou a sair. Ele certamente adivinhou suas formas e a deseja para o sexo. Soraya tem que aprender a tirar vantagem disso. Essas meninas no escurinho da praça, algumas pobres, naturais dessa cidade praiana que só vive no verão, estão desperdiçando um tremendo potencial aquisitivo com garotos que vão acabar levando-as para a cama e exibindo-as aos amigos como troféus em videozinhos de celular, quando não ao mundo em sites pornográficos, arrazoa Aninha, irritada, mas inegavelmente excitada com o clima hormonal que paira na Cabo Frio noturna. Olhando para o relógio e sentindo-se completamente sem sono, ela decide por sua habilidade à prova num pequeno exercício inóquo.

    Ao passar por um grupo de jovens veranistas, ela ouve o costumeiro zunzum a seu respeito e vai sentar-se sozinha num banco próximo. Instantes depois, três deles vêm puxar conversa, abordando-a com banalidades do tipo "De onde você é?" "O que você faz?", "Você tem namorado?", etc. O mais desenvolto dos três senta-se junto dela, olhando-a nos olhos, enquanto os outros ficam de pé à sua frente, menos à vontade, meias mãos nos bolsos, com inveja do amigo atirado. Em menos de cinco minutos, ela lança:
— Ai, eu queria tanto um sorvete de chocolate! Quem vai buscar um para mim?
— Eu! precipita-se o mais jovem, um lourinho de cabelo farto e feições tão delicadas que passaria facilmente por menina.
— Então vai que a gente fica aqui esperando. Duas bolas! E pede para caprichar! comanda ela, já dona da situação.

    O menino hesita um pouco enquanto imagina que ela vai lhe passar o dinheiro, mas vendo que ela já voltou a conversar com os outros, atravessa a rua para produzir o tal sorvete. Enquanto isso, o mais esperto já brinca com a mão de Aninha, fingindo admirar seus anéis e o outro senta-se do lado oposto. Quando o menino bonito volta, cerca de quinze minutos depois, surpreende os três na maior intimidade, trocando e-mail, número de telefone e convidando-se no Facebook. Ele entrega o enorme sorvete com casquinha de biscoito à Aninha, que obriga o mais retraído dos três a recuar para dar lugar ao recém-chegado, com quem ela começa a repartir seu sorvete servindo-lhe porções na boca com a colherinha. O lourinho logo se acende todo, julgando-se o maioral por ter oferecido o sorvete à princesa e, dando-lhe um beijo gelado, arrisca uma mão diretamente em sua coxa. Mas o mais esperto não se entrega e, abraçando Aninha pelos ombros, tenta mostrar-lhe os prodigios do seu celular. E os três ficam assim, juntinhos, durante alguns momentos.

    Aninha não se abala, pensando no mais tímido que ela relegou à reclusão e que tenta disfarçar o mal-estar ouvindo música em seu próprio celular. Diante do olhar intrigado dois dois mais ousados, ela se levanta e vai sentar-se de lado em seu colo, virada para eles e conversando com toda a naturalidade com os três. Radiante, mas enrubescido e sem ter a menor ideia do que fazer numa situação dessas, o tímido premiado passa um braço duro pela cintura de Aninha, que retribui com um ruidoso beijo na bochecha. Os outros dois exigem o mesmo tratamento e recebem cada um o seu beijo com igual nível de decibéis. Aninha sabe que a partir desse momento, ela obtém deles o que quiser.

    Passados cerca de quarenta e cinco minutos, ela anuncia que vai ter que ir embora mas declara ter "amado" os três e querer uma lembrança de cada um porque não sabe quando nem se vão se rever. Depois de se despedir de cada um com um abraço bem apertado e um "estalinho", ela volta para casa com a carteira escolar do lourinho, que garante não ter a menor importância porque ele dirá que a perdeu e lhe farão uma segunda via; com o anel de prata do mais tímido, que o tirou do dedo e o entregou a ela como um hipnotizado; e com os fones de ouvido novinhos em folha que o mais esperto comprara porque os seus estouraram. Chegando em casa, Aninha toma um banho, come qualquer coisa e adormece sorrindo com esse programa tão leve e juvenil, impregnada da certeza de que sempre poderá obter o que quiser de qualquer homem. Sua última imagem, antes de pegar no sono, é a de Soraya, que não voltou para casa, sinal de que sua saída rendeu frutos.


"Ele a fez ver estrelas ao fincar-lhe
a ferramenta avantajada."


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