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Odisseia Emergente 7


7. Soraya

    O pequeno apartamento banhado pelo sol que se reflete no piso de lajotas vermelhas não fica longe do centro e está repleto das velharias trazidas da cidade para mobiliar as casas de praia. Soraya estava de olho nele há semanas, mas, recém-chegada de Macaé, não conhecia ninguém com quem dividi-lo. A jovem de vinte e um anos, quieta e trabalhadeira vive um momento de melancolia pelo fim de uma longa relação de sete anos com o único namorado que ela teve, o que motivou sua mudança para Cabo Frio. De pé na salinha de nove metros quadrados, ela se emociona diante de Aninha por ter enfim conseguido sair da casa do velho primo lascivo que a hospedava há mais de um mês e que visivelmente perdera o encanto diante da certeza de que teria uma cohabitação não promíscua com a priminha pudica e tristonha.

    Soraya trabalha numa grande loja de materiais de construção. Ela prometeu a Aninha uma entrevista com o seu chefe. Na segunda-feira da semana seguinte, ele a recebe, pede uma referência, telefona para o ex-patrão dela no Rio e na mesma tarde, Aninha está empregada como caixa de uma das lojas mais movimentadas da cidade, ganhando um pouco mais que o salário mínimo.

    As novas colegas vão e voltam todo dia juntas do trabalho, almoçam juntas e tiram as pausas juntas. À noite, elas jantam e conversam longamente, mas Aninha é mais prudente em contar sua vida, com receio de assustar a comportada menina do interior. Ela se limita a falar do Gabriel, o vizinho que ela conhece desde a infância, que ela acha tímido e jovem demais, e que ela considerava sem graça até o dia em que o viu seminu bancando o eletricista no quarto. Soraya se diverte, curiosa com os detalhes, e tenta fazer uma imagem do dote do menino. Seu único namorado fazia amor com ela e às vezes era gostoso, mas ele estava longe de satisfazê-la e muito menos levá-la ao orgasmo. Como bom representante da raça masculina brasileira, ele passava dois ou três minutos alternando posições com o único objetivo de pô-la de quatro e ter seu próprio orgasmo sem camisinha e diretamente em suas entranhas. O segundo orgasmo era invariavelmente na boca ou, "no mínimo", no rosto. Ela não gostava, mas o amor lhe ditava as regras e ela jamais disse não; só uma única vez, e foi o fim. Fazia dois meses que ela só pegava no sono quando estava exausta de tanto chorar. Só Aninha foi capaz de quebrar essa triste rotina e Soraya mal cabia em si de felicidade por voltar a ver o brilho do sol em sua vida.

    Três semanas se passaram e, como sempre, não faltam solicitações de homens de todas as idades à Aninha em seu posto de caixa de loja de materiais de construção. Seu rosto bonito, o longo cabelo preto sempre muito brilhante e bem tratado e o corpo moreno nas roupas curtas agem como um imã sobre os machos locais e não locais. Soraya logo percebe isso e tem uma ponta de inveja; não dessa inveja má que corrói e gera destruição, mas dessa invejinha que é mais uma vontade de ter a mesma coisa que o outro sem prejudicá-lo. E no entanto, a única coisa que falta à Soraya é um "trato",  porque do ponto de vista anatômico, ela não perde em nada para as meninas gostosas que se exibem em pouca roupa na cidade praiana. Um belo dia, ela se arma de coragem e vai até Aninha que está na cozinha, lavando louça.
O que é que está faltando em mim, Ana?

    Quando ela se vira, topa com Soraya completamente nua à sua frente.
Como assim, "faltando"? pergunta ela, intrigada.
É! No meu corpo! O que é que está faltando no meu corpo para os caras olharem para mim?

    A reação de Aninha é sincera, ela não entende a que a amiga está se referindo porque não falta nada em seu corpo. Pelo contrário, além do rosto agradável de menina gentil enquadrado por um belo cabelo castanho claro ondulado, Soraya tem um corpo todo proporcional, seios cônicos mas cheios, muito sensuais, coxas grossas, cintura definida e uma camada rasinha de pelos pubianos castanhos que combina perfeitamente com a sua tez morena clara.

    Disposta a ajudar, Aninha enxuga as mãos e olha amiga de cima a baixo, de frente e de costas. As nádegas, mais amplas que a sua, portanto mais pesadas, formam duas dobras bem definidas no encontro com as coxas, mas a forma é bonita e a pele é fina, sem sinal de celulite ou de estrias.
Você tem um corpo lindo, Soraya. Posso dizer a única coisa que eu mudaria?
Claro!
Eu clarearia ou rasparia essa carreirinha de pelos que desce do umbigo. Parece coisa de mulher grávida que não se trata.
Haha! Só isso?
Só. Você queria mudar mais o quê?
Sei lá, eu queria atrair mais os caras. Às vezes me sinto uma velha. Eu só vivia para o Marcelo, nunca olhei para nenhum outro homem.
Então vou dizer outra coisa: você tem que mudar o jeito de se vestir e fazer esse corpo aparecer.
Como assim, fazer o corpo aparecer? Usar roupa curta?
Também, mas eu estou falando de... Bom, não vai ficar chocada comigo hein? Estou falando de empinar a bunda, o peito, conhecer umas poses... Essas coisas.
Nossa, Ana, sei lá...
Soraya, uma pergunta: você quer viver um pouco ou já quer arrumar outro Marcelo?
Eu queria que os caras me olhassem mais.
Só te olhassem? Você não quer pegar no pau deles, chupar o pau deles, dar pra eles e ver estrelas de tanto gozar?
Acho que quero, mas...
Não tem "mas", Soraya. Você quer ou não ser bem fodida e gozar muito?
É que você fala de um jeito!
Soraya, vamos sentar um pouco...

    E pela primeira vez em quase um mês, Aninha abre completamente a história da sua vida no subúrbio para a nova amiga. Ela vive, sim, na fronteira entre o ser puta e o não ser puta e já teve experiências suficientes para dispensar garotos a fim de transar como coelhos e passar a querer homens com agá maiúscula que a façam mulher. No fim da conversa, Soraya está muda, de cabeça baixa, brincando com as mãos sobre as pernas.
— Xi, já vi que sou mal exemplo!, exclama Aninha.
Não, Ana, não é isso...
Eu sei, você não conhece o meu mundo, é menina certinha, de família, e se o Marcelo tivesse pedido, você estaria casada com ele.
Mais ou menos.
E aí? Vou ter que ir embora ou você não tem medo do contágio?
Para com isso, Ana! Eu gosto de você, mesmo que eu não saiba fazer como você.

    Ela diz isso passando as mãos para a mesa, debruçando-se e dando um beijo carinhoso em Aninha, que chega  a apertar o canto do olho com a ponta do dedo, com medo de se emocionar.
— Olha, acho que eu posso ter prazer sem oferecer o meu corpo a qualquer um, ou vender. Você me ensina a me soltar só um pouquinho mais? Me ensina?
Claro que ensino! Só de mudar o jeito de vestir, você já vai sentir a diferença. Amanhã mesmo, já não te deixo mais ir para a loja com essa roupa velha e toda frouxa que você põe todo dia para ir trabalhar!

    Elas se levantam e riem por estar nuas, uma e outra sentindo o prazer do convívio com alguém de belo aspecto e belo corpo. Antes de se separarem, elas se abraçam e cada uma sente na pele a pele da outra. Os pelinhos curtos de Soraya roçam de leve a coxa de Aninha e isso a excita. Ela suspira enquanto beija a amiga no rosto sentindo o perfume esmaecido do pescoço, mas o despertar de Soraya só vem pelo toque involuntário dos seios. Olhando-se nos olhos, sérias, só lhes vêm à mente o desejo do beijo, e quando os lábios se tocam é apenas para dar acesso ao encontro das línguas.

    Soraya envolve um seio de Aninha com a mão enquanto, com a outra, tateia o tapete sedoso entre as coxas. Ela está molhada, pronta. Aninha leva-a até a mesa da cozinha, abre espaço e a faz deitar-se. Em seguida, abrindo-lhe as pernas, mergulha a língua entre os lábios, colhendo o sumo adocicado. Ofegante, Soraya ora acaricia os bicos intumescidos dos próprios seios, ora puxa a cabeça da amiga, forçando-a contra o seu sexo em chamas que Aninha devora avidamente. Suas pernas rebatidas sobre o corpo dão toda liberdade à Ana, que trabalha firmemente o clitóris com o propósito de levar Soraya ao orgasmo, que aliás não tarda, forçando a garota a chutar o ar, sem controle das pernas. Aninha insere dois dedos no orifício encharcado, depois três, sem cessar de esfregar o pequeno órgão ereto. Soraya morde a mão para sufocar um grito enquanto é tomada por um orgasmo avassalador. Ela goza abundantemente, gemendo e chorando de prazer e emoção, sentindo-se pela primeira vez bem fodida, abandonando-se ao vaivém incessante dos dedos da amiga, pressionando os seios e torcendo os mamilos.

    Quando Aninha ergue o rosto para olhá-la, Soraya, com lágrimas nos olhos, puxa-a para dar-lhe um beijo ardente e cheio de grata emoção. Envolvendo a amiga com as pernas, de rosto colado no seu, ela declara que quer, sim, ter muito prazer, gozar muito, com muitos homens diferentes, e que não quer outro Marcelo em sua vida, pelo menos tão cedo, mas que ela não sabe se será capaz de mudar tanto e precisa que Aninha a compreenda. Nessa noite, as amigas juntam as camas e dormem abraçadas.


"...ela mergulha a língua entre os lábios
colhendo o sumo adocicado."



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