4. Tadeu
Faz anos que o dono
do bar da esquina a deixa sem jeito e é por isso que há algum tempo Aninha tem
preferido comprar cigarro na padaria do seu Américo. Ela já nem se lembra que
idade tinha quando o Tadeu começou a olhar diferente para ela e exclamar para
os clientes, num tom para lá de safado, coisas como "Essa menina vai dar
um trabalho!" cada vez que ela entrava no boteco para comprar cerveja ou
cigarro para as tias, ou chiclete para ela. Mais tarde, ele passou para
"Está ficando um filezinho, mesmo, hein!" e mais recentemente, o
sem-vergonha não se acanha de chamar a atenção para ela, gritando para todos
ouvirem, assim que ela põe um pé no bar, "Chegou a novinha mais gostosa do
bairro!" e dando uma sonora gargalhada. Não é que isso a ofenda; o Tadeu é
gente boa e ela reconhece que o bom-humor dele descontrai. Mas sem saber, ele
faz aumentar a pressão dos homens sobre ela porque, estimulados por ele, eles
se sentem no direito de olhá-la e fazer comentários seja onde for: calçada,
praça pública, ônibus, lojas... Até o inspetor da escola se engraçou com ela,
um dia, depois das aulas, propondo irem para algum lugar onde pudessem
"ficar mais à vontade"! Portanto, Aninha passou a evitar ao máximo
ir ao bar do Tadeu.
Mas há coisas que o
Tadeu vende mais barato que qualquer um e o cortador de unhas é uma
delas. Certo dia em que Aninha não consegue encontrar o seu, já sabe que não
terá escapatória senão fazer uma visita ao boteco do chato. Ela se curva à
necessidade e, evidentemente, assim que o Tadeu a vê, ainda na calçada, dispara
um "Lá vem a novinha mais gostosa do bairro!" que leva todas as
cabeças, sem exceção das mais brancas, a girar em direção à porta. E, segundo
os parâmetros de Aninha, ela está vestida "como uma freira", nesse
dia, de saia e uma blusa que nem deixa aparecer a barriga! Pouco importa; eles
a desnudam com o olhar, esquadrinham centímetro por centímetro de suas pernas,
sofrem a cada curva e tentam adivinhar se ela se depila ou não, se os seios são
redondinhos ou cônicos, de bicos claros ou escuros, se a bundinha é mais para larga ou estreita, se ela
gosta disso ou daquilo, se já terá feito isso ou aquilo, etc. Quando ela entra,
já sabe que foi mais do que radiografada e escaneada pela platéia ávida de
carne fresca.
Desta vez, porém, e
pela primeira vez, ela se sente dona das suas emoções e não se zanga nem se
tranca. Pelo contrário, sorridente e segura, ela se dirige ao lugar onde está a
cartela com os cortadores de unha, pega um e mostra ao Tadeu, já com a quantia
certa na mão. Ele vem atendê-la por fora do balcão e, muito discretamente, para
total espanto seu, lhe faz uma proposta inaudita: ele vai de moto para Cabo
Frio no fim de semana e gostaria de saber se ela iria com ele. Ele está
construindo uma casa lá e precisa falar com o mestre de obras. A esposa e a cunhada
vão cuidar do bar e, claro, não vão ficar sabendo de nada. Embora o tumulto do
bar e da rua impeçam a qualquer um de ouvir uma conversa de perto, Aninha se
sente incapaz de dar uma resposta ali, agora. Ela se limita a dizer que liga
para o Tadeu mais tarde. Todos têm o telefone do bar porque ele manda entregar
cerveja, refrigerantes e salgadinhos em casa, dependendo da quantidade. Ela já
sabe a resposta, mas vai ser complicado arrumar uma desculpa em casa para
passar duas noites fora.
Chega a sexta-feira.
Aninha combinou de encontrar Tadeu num cruzamento da rua Dias da Cruz. O Méier
é outro bairro e essa rua é tão movimentada que tudo nela acontece no
anonimato. De short, camiseta e tênis baixinho de marca – presente de um
admirador –, ela vai discretamente tomar o ônibus em outra rua do bairro, para
não chamar atenção pela mochila embora pequena. Por sorte, ela encontra lugar
sentado e vai até o Méier divagando sobre mais essa loucura para encontrar o
seu primeiro homem com agá maiúscula. Se ela aceitou, é porque topa ir para
cama com ele, e ele sabe disso. Agora é esperar que não a decepcione e,
sobretudo, que ele seja realmente o cara gente boa que ele parece ser no bar.
Tadeu chega de moto
ligeiramente atrasado ao local combinado; discussão com a esposa que não
entende por que não pôde vir, diz ele. Como não demorou, Aninha não se importa
e monta na moto. Tadeu é grande e, embora magro, ela sente a sua largura
ao segurar-se nele por trás. Esse homem de trinta e nove anos, filho de colonos
alemães, destoa completamente do tipo humano local. Muito alto, quase louro, de
olhos claros, ele só se denuncia quando abre a boca para falar com
exatamente a mesma entonação e os mesmos hábitos linguísticos que
qualquer carioca da Zona Norte. Aninha simpatiza com ele e se aperta contra o
seu corpo, animada com a viagem e a perspectiva do que virá.
Para descansar o
corpo das duas horas e meia de percurso, Tadeu faz algumas paradas pela
estrada. Eles conversam enquanto comem salgadinhos e dividem uma cerveja em
lata. Aninha percebe o quanto ela o excita e arrisca a pergunta: desde quando?
Desde o momento em que ela começou a ir ao bar com a tia ou os irmãos, sempre
de roupa curta, mostrando as coxas mais bonitas do bairro, responde o homem,
dando risada. Satisfeita porque ele soube esperar, ela se sente pela primeira
vez como uma verdadeira conquista e chega a lamentar que ele seja casado e
tenha filhos; ela não tem vontade de ser amante, crê merecer mais que isso. Mas
Tadeu não leva a conversa para esse lado; ele parece mais querer
"prová-la", como uma iguaria cara que se contemplou na vitrine por
muito tempo e que um belo dia, quase que por milagre, se torna acessível.
Frente a frente nas mesinhas das lanchonetes da estrada, ele elogia seu lindo
rosto, seus lábios, seus dentes perfeitos, sua cor morena tão uniforme, seu
cabelo preto e longo tão bem tratado. O corpo dela lhe dá água na boca e ele
quer prová-lo.
No último trecho de
estrada, Tadeu já se sente bem à vontade para de vez em quando acariciar
a perna da sua convidada na garupa. Ela responde passando uma mão no seu peito
por dentro da camisa e pousando discretamente uma mão na convergência das coxas
do motociclista, deixando-a lá, embora a dobra dura da jeans nessa região a
impeça de sentir a anatomia. A moto voa sob o sol escaldante até chegar a um
loteamento situado antes da cidade propriamente dita e bem distante da praia,
onde se vêem muitas casas em construção e lotes ainda por comprar. São quase
oito horas da noite e eles vão diretamente para casa.
Ao chegar diante da
casa em fim de construção, Tadeu se decepciona; ele não nota progressos desde
sua última visita, duas semanas atrás. Ele abre a porta descontente, reclamando
que fez a viagem à toa porque veio para pagar, mas não vai dar um centavo ao
mestre de obras. Aninha, que já encontrou cervejas na geladeira e descobriu que
não falta comida, serve dois copos e leva um para ele prometendo que eles vão
ter um fim de semana ótimo.
— Como é que tem
tanta comida nessa casa, Tadeu?
— Ah, desde que
terminaram a laje, minha mulher vem aqui toda hora com as crianças, minha
sogra, sobrinhos, cachorro, papagaio... a galera toda!
— Tem comida
para um batalhão e dá para fazer um banquete!
— Boa idéia; estou com uma fome daquelas!
Eles comem e vão
dar um passeio pelo loteamento. Cansasdo, Tadeu não quer pegar novamente a moto
para ir até o centro ou uma praia. Por volta das dez horas da noite, eles
voltam para casa e, de longe, vêem dois homens na entrada coberta. Chegando
mais perto, descobrem que são o mestre de obras e o filho de cerca de dezenove
anos. Tadeu que já tinha relaxado, volta a se crispar. Todos entram, Aninha
serve cervejas para evitar que o clima esquente, mas os dois homens engrenam
numa longa discussão na cozinha enquanto ela fica na sala vendo televisão com o
rapaz, um tanquilão pardo, meio calado, que se sente intimidado diante da menina
carioca bonita e sensual. Ele arrisca umas olhadelas muito bem disfarçada para
as coxas que ela faz questão de cruzar e mostrar na integralidade, o que o
deixa visivelmente desconfortável. Aninha tem controle absoluto desse tipo de
situação com os jovem de sua idade; ela sabe o que e quanto mostrar para
deixá-los sexualmente tensos e fazer com que os mais ousados se revelem, o que visivelmente
não é o caso do filho do construtor. Ela já o imagina se masturbando no banho
em homenagem a ela, recordando os momentos em que ele esteve tão perto de uma
mulher que poderia ter realizado todas as suas fantasias mais inconfessas. Mas
os homens continuam conversando na cozinha, os programas se sucedem na tevê e
nada. A certa altura, Aninha se despede soment dele e vai se preparar para dormir.
Ela veste um shortinho fino e uma camiseta, escova os dentes e vai se deitar num quarto pequeno e atravancado, dotado de uma cama beliche em cada parede. O sono vem imediatamente.
É dia claro quando
Aninha abre os olhos. Não vendo Tadeu, ela se levanta e dá uma volta pela casa
para descobrir onde ele está dormindo. A casa de cerca de setenta metros
quadrados tem quatro quartos do mesmo tamanho e dois banheiros. Há colchonetes
por todo lado, de pé, contra as paredes, prova de que se prevê a visita de
muita gente ao mesmo tempo, nas férias. No único quarto em que há uma cama de
casal, Tadeu ressona deitado de costas e completamente nu. Suas roupas estão no
chão, sinal de que a conversa com o construtor foi até altas horas e que ele
veio se deitar exausto. A porta está entreaberta, mas Aninha pode vê-lo muito
bem e é o que ela faz, sem pressa.
O corpo do homem não a desagrada, muito pelo
contrário, Tadeu é grande, tem coxas bem feitas e proporcionais ao resto, com
belos pelos claros e bem distribuídos. Seu sexo está tão adormecido quanto ele,
então não há como avaliá-lo corretamente, mas a glande é exposta – deve ser "operado", conjetura a menina – e o membro que jaz sobre a coxa direita não se reduz a uma forma contraída e infantil, mas exibe um comprimento e um
diâmetro bastante, que, pela primeira vez depois da bela visão do
Gabriel eletricista, deixam Aninha otimista a ponto de empurrar a porta.
As dobradiças
empoeiradas guincham e Tadeu reage murmurando algo indiscernível,
espreguiçando-se e bocejando escandalosamente, topando com Aninha ao lado da
cama assim que abre um olho e depois outro.
— Acorda, preguiçoso! diz ela, toda sorridente.
— Não aguentou em pé, hein! brinca ele, já se
levantando, abraçando-a e curvando-se para lhe dar um estalinho gentil.
— E você ainda me deixou com aquele pateta!
— Não gostou do filho do Zé? Ha! Ha! Ha!
— Ficou lá, mudo. Eu perguntava e ele só
respondia "hãhã". Não tenho paciência não!
— Isso mesmo, menina! Já pensou se você
tivesse se interessado pelo garoto? Como é que eu ia ficar?
— Se eu quisesse desmamar alguém, não teria
vindo tão longe com você, né!
— Vou tomar um banho, depois a gente podia
tomar um bom café e ir de moto até alguma praia, o que você acha?
— Gostei de tudo, até do banho!
— Sério?
— Sério. Anda! Pro banho!
Tadeu se mostra
muito tranquilo em relação à nudez, e Aninha gosta disso porque não está
acostumada. Até no chuveiro, ele se comporta com ela como se estar nu fosse a
coisa mais natural do mundo. Ele lhe explica que a mulher e os filhos ficam nus
em casa nos dias de calor e que eles sempre tomaram banho com os filhos. Isso a
deixa à vontade e as coisas fluem de modo muito mais gostoso. É só quando eles
se vêem muito próximos, no box, que o clima se torna suavemente erótico e o
belo membro maciço e bem feito, grande e perfeitamente proporcional ao corpo de
Tadeu dança livre sob o jato copioso da ducha. Aninha olha para baixo e pede
para lavá-lo, já empunhando-o sem cerimônia, sentindo-o pulsar, grosso, entre
seus dedos enquanto o homem a observa, bonita e concentrada na tarefa, os seios
perfeitos agitando-se levemente com o movimento dos braços. Ela
ensaboa saco, depois o tronco do pau e, com a almofada do dedo indicador,
a borda da cabeça, tomando o cuidado de evitar que a espuma penetre no
orifício. Tadeu se admira com o seu conhecimento.
— Com quem você aprendeu isso tudo, menina?
— Não vai dizer que achava que eu "era" virgem, né, Tadeu!
— Não, nem tanto, mas...
Nesse momento, o
celular de Tadeu toca na sala e ele sai do banheiro em disparada para atender.
Ao voltar, ele está com outra expressão no rosto.
— Que foi?
— Você não vai acreditar.
— Fala!
— Minha mulher queria me fazer uma surpresa e
está vindo para cá de carro com os meus filhos.
— Caraca! Como é que a gente vai fazer?
— Só vou ter tempo para levar você até a
rodoviária de Cabo Frio.
— Que azar!
— É, o fim de semana ia ser ótimo, mas não vejo outro jeito, e você?
— É, não conheço nada aqui e, mesmo que eu
tivesse aonde ficar, não quero dar de cara com a Selma.
— Ainda bem que você entende, princesa.
— E adiantaria não entender? Vou me arrumar.
Na rodoviária,
Tadeu espera até que Aninha confirme a existência de um ônibus para o Rio no
mesmo dia e assim que ela volta com a resposta afirmativa, voa de moto para o
loteamento, esperar a mulher e os filhos. Mas Aninha só encontrou um lugar no
ônibus das sete da noite e tem que fazer hora uma tarde inteira. Ela decide ir
passear no centro de Cabo Frio, comer alguma coisa – eles nem chegaram a tomar
café da manhã – e, se possível, ir até a praia. O dia está radiante, sem
uma nuvem no céu. Otimista de nascença, ela se considera sortuda por só ter
conseguido ônibus para mais tarde.

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