16. Lucidez em noite iluminada
Depois de alguma deliberação e propostas não
muito empolgantes, decidimos pegar a estrada e voltar para a fazenda, descansar
um pouco e ir procurar um lugar para dançar. Marta gostava e descobrir coisas
bem típicas da região e conhecia uma espécie de clube onde os locais iam
relaxar, tomar umas e outras e dançar forró às sextas à noite. Tomás e eu, dois
urbanóides da classe média Zona Sul carioca, nunca havíamos posto os pés num
forró. Guiado apenas pelo pressuposto de que seria um lugar de machões
inveterados dispostos a quebrar garrafas para encarar forasteiros, tive receio,
mas não me manifestei para não ser estraga-prazeres. Uma vez acolhida a idéia
por consenso, rumamos para a fazenda, tomamos banho, nos vestimos e, por volta
das 10h estávamos prontos.
Quando digo prontos, me refiro a uma
camiseta limpa e bermuda, porque como eu disse no início, Tomás e eu não íamos
à Região dos Lagos para repetir nossos programas do Rio. Mas Marta apareceu com
uma calça jeans justa e baixa que deixava de fora quase todo o V que convergia
em direção à virilha, e um top curto e sem sutiã. O piercing de esmeralda se
destacava no pequeno e perfeito orifício da barriga plana e bem desenhada. Tomás
não pode deixar de assoviar quando ela desceu a escada e deu uma voltinha.
— Você vai deixar a
peãozada indócil, Marta!
— Já estou acostumada. Na adolescência eu
ficava com os garotos daqui, sabiam? Beijei muito nesse lugar onde a gente está
indo! Quando cresci um pouco mais, cheguei a ter pretendentes que brigavam por
mim e que queriam casar a todo custo! Acabei preferindo parar de ir para não
fazer alguma bobagem; já bastavam as minhas loucuras no Rio!
— Já pensou, você
casada com um peão Cabo-friense, Marta, cheia de filhos acordando às quatro da
madruga para administrar o trabalho da roça? Ha! Ha!
— Se eu não desse um
basta, meu futuro teria sido esse mesmo. Mas faz tanto tempo que não
vou lá que já esqueceram de mim. Bom, se você estiverem prontos, podemos ir.
O forró, situado a cerca de 2km numa
transversal da estrada, não passava de uma casa caiada de branco com mesas na
varanda e, para espanto da Marta, não era mais o lugar exclusivamente
frequentado por peões que ela conhecera; havia carros não só das redondezas,
mas do Rio, de toda a região fluminense de até de São Paulo. Animadíssimo,
estava cheio no interior e cerca de 50 pessoas ainda se amontoavam na rua, em
frente, para tomar cerveja, papear e fumar.
— Não estou
reconhecendo isso aqui! exclamou ela, rindo.
— Alguma coisa me
diz que vamos ter uma super noite, profetizou Tomás, todo animado.
— Gente bonita!
murmurei, observando os da minha idade, reunidos em grupinhos animados.
Estacionamos um pouco mais longe, mas ainda
à vista e tentamos entrar. A música não parecia ter mudado porque era de fato
forró e música brasileira do interior. Mas Marta observou que ampliaram o
lugar, agora uma sala retangular de uns 300 metros quadrados com mesas à toda
volta exceto diante do balcão do bar e do pequeno palco onde músicos de verdade
tocavam instrumentos elétricos e uma sanfona. No centro, uma multidão se
comprimia, entre conhecedores vestidos com "roupa de sair" e leigos
urbanóides apenas se divertindo, desajeitados mas felizes.
Marta, Tomás e eu fomos dançar juntos, o que
já chamou atenção de alguns porque não só nos revezávamos com ela nos braços,
esfregando-nos sem pudor, mas dançávamos com ela entre nós dois enquanto ela
dava golpes de pélvis que sugeriam uma dupla penetração. As mulheres locais,
fiéis e ciumentas, nos lançavam olhares um tanto indignados, como se
estivéssemos inspirando más ideias aos seus cavalheiros. Mas havia outros
grupos de jovens com menos mulheres que homens fazendo como nós, evidentemente
vindos de fora. O forró é uma dança sensual porque o contato é constante e
total. Isso além do suor dá um resultado um tanto incendiário e as meninas não
locais acabam se soltando, dando às vezes a impressão de que um mínimo de
liberdade ou álcool a mais as faria cometer algo mais explícito ali mesmo,
diante de todos. Tomás foi ficando exaltado, me indicando casais em atitude
extremamente excitante na pista de dança, mas principalmente nas mesas onde,
por falta de lugar sentado, muitas meninas estavam instaladas nos colos dos
namorados, algumas literalmente a cavalo, beijando-os e movendo-se lascivamente
ao ritmo das mãos deles por dentro das blusas. Com a noite avançando e a
cerveja rolando, o clima só podia esquentar.
Por falta de lugar sentado, nós comprávamos
cerveja no bar e íamos tomar dançando. A certa altura, começamos a ir ao banheiro
e Tomás me alertou para o fato de que aquele clubinho de província não perdia
em nada para uma boate de capital. Assim que cheguei, percebi que os banheiros
eram tão frequentados quanto a pista de dança. O banheiro masculino era uma
área ladrilhada de uns 30m quadrados com uns 5 compartimentos e 5 mictórios. Uma
única lâmpada fluorescente em extinção havia virado pisca-pisca e o lugar estava
quase às escuras, o cheiro forte no ar. Dois grupos logo me saltaram aos olhos:
gays e junkies. O silêncio das pessoas contrastava com o barulho da música ao
fundo. Parecia que ali, todos conheciam de cor os códigos e procedimentos para
alcançar o resultado almejado. Alguns vinham só se aliviar, outros cheirar uma
carreirinha e outros dar um mínimo de vazão ao desejo sexual que inegavelmente
pairava denso no ar daquele inferninho.
Havia pessoas esperando não só fora como
dentro do banheiro, entre as cabines e os mictórios. Quando pude enfim abrir o
zíper e suspirar aliviado vendo o fio caudaloso e rápido colidir contra a
cerâmica branca, ouvi gemidos atrás de mim. A porta entreaberta da última
cabine deixava ver dois corpos em plena atividade, mas os caras de fora
pareciam indiferentes, certamente habituados, apenas aguardando sua vez de
entrar. Me senti numa espécie de feira com mercadorias variadas sendo
abertamente oferecidos.
As pessoas se sucediam rapidamente nos
mictórios e não fui exceção. Me afastei ainda fechando o zíper, lavei as mãos,
saí da área ladrilhada e quando ia me preparando para emergir do sombrio
corredor dos banheiros, uma mão espalmada no meu peito empurrou-me até uma
parede livre enquanto outra me pressionava a calça, diretamente entre as
pernas. Mal pude focalizar o rosto, de tão próximo, mas ouvi uma voz mais velha
que a minha e um hálito forte de cachaça. "Curte o quê, garoto?"
sussurrou ele, o corpo rígido colado ao meu e a boca no meu ouvido, procurando
apalpar os resquícios de excitação que perduravam na minha calça.
Ainda me vejo empurrando-o com as duas mãos
e voltando desabalado para o salão, as retinas carregadas da imagem do homem de
cerca de trinta e cinco anos, mal barbeado e rude, certamente alguém do lugar. Não
contei nada, na hora, aos meus amigos, mas Marta passou a mão no meu rosto e
ajeitou minha franja, perguntando se eu tinha visto assombração. Desconversei e
continuamos nos divertindo, mas no tumulto da pista de dança, olhando toda
aquela gente e, sobretudo, aquele mesmo homem, que eu via agora agarrado a
uma mulher, meu cérebro desembestou. Que fascínio é esse que o jovem exerce no
homem, independentemente da sua opção sexual, esse encanto que o hipnotiza e
leva às vezes a agir por puro instinto animal? Pela primeira vez e,
ironicamente, fora do Rio de Janeiro, senti-me como presa potencial de animais
à caça, animais que buscam apenas saciar um apetite, sem paixão e, muito menos,
amor. Isso abriu mais uma porta do meu complexo labirinto perceptual. E sei que
a partir daquele exato momento de reflexão, talvez ainda precocemente, passei a
enxergar na multidão bem mais do que homens e mulheres se divertindo numa pista
de dança.
Marta, Tomás e eu devemos ter dançado sem
parar das onze da noite às três da manhã seguinte. Ela dirigiu bêbada de volta
à fazenda pela estrada deserta. Na enorme cama de baldaquim, já passava
largamente do meio-dia quando o primeiro de nós abriu os olhos e saudou os
raios de sol que penetravam em planos feixes dourados pelas fendas da veneziana.
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