15. Elefantes,
Cogumelos, Cerejas e Flechas
Marta começou a falar, entre uma garfada e
outra da deliciosa goiabada com queijo que nos serviram.
"Já que vocês estão com essa disposição
toda, vou contar como tudo começou. Eu tenho uma grande amiga, a Val – vocês
vão acabar conhecendo –, que mora num prédio antigo da Atlântica. Naquela
época, há uns sete ou oito anos, ela tinha um vizinho com quem ela transava
regularmente, até quando estava namorando. O nome dele era Tulio. Como a Val e
eu éramos unha e carne, ela me contava sempre que rolava alguma coisa, e parece
que saía faísca porque ele era muito bem dotado.
Um dia, fui à casa dela e o Tulio estava lá.
Quando entrei na sala, ele estava sentado no sofá com os braços apoiados nas
coxas e brincando com um objeto da mesinha de centro. Ele devia ter um metro e
oitenta, era muito claro, mas estava bronzeado porque era verão; estava de
cabelo curto, um cabelo castanho claro que ficava espetadinho no alto. O rosto
dele me passou personalidade, talvez pelo nariz reto e bem feito e pela atitude
da cabeça. Mas os olhos claros, meio verde-acinzentados, logo me chamaram a
atenção pela doçura e falta de malícia. Apesar dos vinte anos, Tulio tinha
apenas uma fina penugem alourada no rosto. Me senti atraída de saída e acho que foi recíproco, mas não passamos
daquelas olhadas rápidas, só para descobrir o exterior um do outro. Nesse dia,
fomos ao cinema e ele até levou um amigo, então não rolou nada de mais."
— Mas você percebeu
se ele ficou atraído? perguntei.
— Percebi que ele me
olhou várias vezes com certa curiosidade.
— Ele estava certo!
Não dá para não ficar curioso com você, Marta! brincou Tomás.
— Eu me vestia de um
jeito bem estranho mesmo, naquele época. Um dia eu conto, mas me deixem
continuar.
E ela voltou ao
cigarro, desta vez com o cafezinho na chícara de cerâmica espessa que o tornava
ainda mais saboroso.
"Como eu disse,
meu pai largou minha mãe e isso me deixou com a impressão de que quem estava em
queda livre era eu. Passei a me agarrar às pessoas que me enviassem o menor
sinal de simpatia e a fazer de tudo para não perdê-las; tudo mesmo, a tal ponto
que algumas se aproveitaram disso. Ansiosa e frustrada, passei a usar a menor
oportunidade de tentar fazer novos amigos à força. Para vocês terem uma idéia,
quando tinha um grupo maior lá em casa, cheguei a levar algum cara para o
quarto pra uma rapidinha!"
— Uau! interrompeu
Tomás. Conta isso, Marta!
— Por exemplo, eu
interceptava o menino na saída do banheiro, arrastava para o quarto e lascava
um beijo já com a mão na calça dele! Eu dava um jeito de sempre estar de saia e
de ter camisinha à mão numa gaveta do meu quarto, então não demorava mais do
que uns três minutos, o tempo dele botar a camisinha, grudar comigo na parede
ou me jogar na cama, mexer um pouco e gozar. Quando a gente voltava para a
sala, os outros davam um risinho achando que eu tinha ido mostrar alguma coisa —
um CD, um livro ou um desenho meu — porque estivesse interessada no cara.
— Eles eram feras!
exclamei admirado!
— Haha! Eu só
escolhia os descolados, Marcos.
— Tá, mas continua!
instou Tomás, impaciente.
"Isso foi só
para dar um exemplo de como eu estava carente e perdida. A verdade é que eu
escolhia as pessoas que eu sentisse como menos apegadas a mim, principalmente
as que estavam namorando e pareciam não precisar de mim afetivamente; eu
oferecia o meu corpo para prendê-la, mesmo que eu não estivesse realmente
interessada por ela.
E o que aconteceu
foi que cada vez que eu ia à casa da Val, ela dava um jeito de chamar o Tulio. Acabamos
saíndo juntos várias vezes e fui me apegando a ele de um jeito diferente, que
tinha mais a ver com presença física do que com amizade verdadeira; eu gostava
de encontrar o Tulio lá, de saber que ele estaria conosco, sem mais. Ele
continuava me olhando, curioso com o meu jeito de ser, talvez excitado com o
meu jeito de vestir — e é verdade, eu usava roupas provocantes —, mas não me
parecia nem um pouco empolgado ou realmente interessado. Eu o sentia muito mais
próximo e íntimo da Val, o que fazia sentido, é claro.
Até que um dia, numa
ida à praia, achei que o Tulio não tinha conversado o suficiente comigo e
resolvi que era sinal de indiferença. Ele tinha levado uns amigos e deu muito
mais atenção a uma tal de Andrea de pernas finas do que a mim. Eu simplesmente
não consegui me sentir tão desimportante para esse novo amigo. Eu olhava para
ele e o via alheio ao meu mundo, contando suas proezas desportivas aos amigos,
sentado na areia ou se secando de pé com aquela sunguinha sexy no corpo
fortinho e gostoso de braços fortes, coxas musculosas e bundinha linda ."
— Conta mais! interrompi,
empolgado.
— Mais sobre o quê?
indagou Marta.
— Sobre o corpo
dele, haha!
— Viadinho! disparou
Tomás.
— Tomás, Tomás...
interveio Marta. Acho que eu já mostrei bem claramente que sou a favor da
bissexualidade. Não vamos regredir!
— Está bem, está bem...
Desculpe, Marcos, foi mal, pediu ele, visivelmente encabulado. Pode continuar,
Marta.
"Então, naquele
dia, a Val, o Tulio e eu voltamos juntos da praia para a casa dela. Me lembro
que era um dia de semana e só as empregadas estavam. Dona Maria atendeu a porta
e fomos os três para o quarto da Val. Eu só pensava em chamar a atenção do
Tulio e ali, fechado no quarto conosco, os três só de roupa de banho, ele
estava se sentindo o garanhão. Val ligou o computador para nos mostrar fotos da
sua última viagem; ela tinha acabado de voltar da China com o pai, que tinha
ido lá a negócios. Eu estava do lado esquerdo dela, sentada de frente para o
monitor e o Tulio do lado direito, bem junto dela, com a mão no encosto da
cadeira. De repente, vejo a Val empurrá-lo bruscamente e exclamar com intonação
de riso: "Desgruda esse treco de mim, pô!" A gargalhada foi geral.
Tulio se afastou rindo e se jogou na cama fingindo vergonha. Val se virou para
mim e com poucas palavras explicou que ele estava se esfregando nela enquanto
via as fotos.
A curiosidade
instalou-se imediatamente em mim e devo ter feito alguma expressão que me
denunciou porque a Val percebeu. Ela levou um dedo aos lábios e, fazendo um
olhar mais que maroto e uma vozinha misteriosa, pediu ao Tulio para vir até
ela. Ele se levantou da cama, atravessou o quarto e parou ao lado da mesa do
computador, mas de frente para ela. 'Eu contei uma coisa para a Marta', disse
ela, olhando-o bem nos olhos. Se fazendo de desentendido, ele esperou que ela
prosseguisse, impaciente, enquanto ela fazia charme fingindo que não ia mais
falar.
'Eu contei que você tem pau grande',
completou ela, por fim, sem desgrudar os olhos dos dele. Tulio arriscou uma
olhadela na minha direção e lançou um 'Tá, e daí?' que aparentava indiferença. Marta
deu um sorrisinho. 'Daí que ela está curiosa, deu para entender?' explicou ela,
didaticamente. 'Não precisa me tratar como um debilóide!' retrucou ele, e
entraram numa discussão de vizinhos-amantes engraçada mas que não me dizia
respeito.
Aproveitei o momento de exclusão para fingir
que via o diaporama no computador, mas, de canto de olho, eu tentava
disfarçadamente explorar a sunga do Tulio que transparecia sob a camiseta
larga. Eu nunca estivera tão perto dele. Na praia, a gente perde a noção de
escala, e tem tanta coisa para ver... Aquela era a minha melhor chance de
comprovar discretamente o que a Val dissera sobre o dote do Tulio. E de fato,
entre uma subida e outra da barra da camiseta, fui percebendo que a sunga
revelava uma forma grande. Não parecia duro, mas estava armado, virado para o
lado, colado à virilha; estava resistindo bravamente à discussãozinha brochante
que me entrava por um ouvido e saía pelo outro.
Tulio estava sozinho conosco, não tiha nada
a perder. Recuperando o sangue-frio e valendo-se da inabalável auto-estima dos
bonitos e dotados, ele cortou o papo com a Val, deu a volta às nossas cadeiras
e veio parar entre elas, atrás de nós. Naturalmente, nos viramos para ele. Eu
não sabia exatamente o que ele faria, mas imaginava que naquelas
circunstâncias, um cara descolado não perderia a chance de matar a minha
curiosidade da maneira mais explícita.
Mas Tulio precisou de um empurrãozinho da
Val, que começou baixinho a dizer: 'Tira! Tira! Tira!' Aderi sem hesitar:
'Tira! Tira! Tira!' pedimos em
coro. Tulio acabou abrindo um sorriso amplo e entrou no jogo;
com movimentos de dançarino de boate erótica, tirou a camiseta expondo o peito
bem desenhado e o 'tanquinho' sedutor. Em seguida, baixando lentamente o elástico da sunga verde, deixou de
fora apenas o ponto em que o pau e o saco despontavam de uma área recoberta de
pelinhos recém-nascidos que denunciavam a depilação recente. O elástico foi
descendo, revelando pouco a pouco todo o corpo roliço e inchado, de mesmo
diâmetro até o ponto em que brotava a cabeça rosa-arroxeada, grande e muito bem
desenhada. Avaliei mentalmente o comprimento daquele estranho cogumelo
pendente; devia medir um palmo dos meus, bem esticado, da ponta do polegar à
ponta do mínimo. Val me olhou rindo: "Eu não te disse?"
Eu estava de olhos
esbugalhados olhando para aquele arco de carne que surgia do final da barriga e
ultrapassava de bastante o saco, entre as coxas grossas do Tulio. E estava sem
ação também, sem saber que atitude tomar, que cara fazer e muito menos o que
dizer. Uma certa tensão pairou no ar. Foi a Val que aliviou o clima, passando a
mão nele, de alto a baixo, como se acariciasse um elefante, convidando-me a
imitá-la mas deixando-me à vontade para não fazê-lo, tudo isso sob o olhar
extasiado do Tulio. Quando a incrível tromba começou a erguer-se, ela ainda
sopesou a cabeça, que me pareceu uma gorda e suculenta cereja inchando e
desprendendo-se da palma da mão até começar a levitar, oscilando de cima a
baixo levada pelo duro tronco que, completamente rígido apontava agora para o
teto como uma flecha de forma exótica. Entendi definitivamente a metáfora de
Cupido.
Juro que tive todas
essas imagens de elefantes, cogumelos, cerejas e flechas! Acho que foi a minha
maneira de tomar a coisa pelo lado fantástico em vez de mergulhar de cabeça num
sexo a três com a minha melhor amiga e o vizinho dela. O que eu havia esquecido
é que o Tulio não fazia apenas parte do cenário, mas era ator desse show, e
esse ator estava para se tornar o protagonista de um episódio que me marcaria
para sempre porque representaria, por assim dizer, o nascimento dessa segunda
Marta que sou hoje."
Mas isso vai ficar
para outra vez, meninos, porque sou detalhista para contar e a gente não pode
passar o resto do dia aqui! interrompeu ela, já amassando a guimba de cigarro
no cinzeiro e procurando um garçon.
— Você não pode
interromper agora!
— É, isso foi
maldade, acrescentei, apoiando o Tomás.
— Estou de bumbum
quadrado nessa cadeira. Prometo que conto o resto outra hora e que
vocês vão adorar. Tomás, cadê o menino que serviu a gente? Quero pagar e vamos
pensar num passeio para a tarde.
Voltamos para o LTD branco meio calados,
minha cabeça invadida de imagens de um erotismo surrealista. Tomás chutou
pedras até chegar ao carro enquanto Marta, muito prática, rememorava murmurando
os lugares onde poderia haver uma boate perto da fazenda. O alvo retângulo metálico
deslizou mais uma vez pelo asfalto tépido do fim de tarde.
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