14. Uma Revelação
É preciso conhecer muito bem a região para
saber aonde ir comer, e Marta conhecia. Embora afortunada, ela adorava lugares
que caracterizassem bem a cultura presente e obviamente, onde se preparassem
saborosas iguarias típicas. Àquela altura, Tomás e eu já sabíamos que não seria
fácil voltar às nossas famílias depois de ter conhecido aquela mulher ainda tão
jovem, mas tão dona do seu nariz.
Esse segundo restaurante de beira de estrada
da nossa jornada era ainda mais "regional" que o primeiro, com apenas
2 mesas guarnecidas de toalhas de plástico xadrez vermelho e branco, azeite e
vinagre, sal e pimenta, paliteiro, porta-guardanapos de madeira e farinheira de
plástico, sem esquecer o cinzeiro de cerâmica. Pedimos salada de alface e
tomate, bife com ovo e feijão com arroz. Famintos com a nossa atividade
balneária tão eclética, comemos com muito gosto e tomamos cerveja estupidamente
gelada. Fui eu que quebrei o silêncio.
— Marta, ainda estou
intrigado com o que você disse no carro depois...
— Depois que transamos? Eu não dei certeza
de que ia falar, lembra? Eu disse "de repente".
— É, mas você ficou
tão misteriosa! E ao mesmo tempo, parecia que estava com
alguma coisa na ponta da língua para falar.
— Nua e muda, mas
misteriosa?
— Pois é! Não quer contar para nós?
— É Marta, estamos
curiosos, reforçou Tomás.
Ela largou os talheres, deu um bom gole de
cerveja e pegou um cigarro no maço ao lado dela, acendendo-o imediatamente e
olhando para nós dois após a primeira baforada para o alto.
— Eu sou sexoólica.
— Nós tam... ia
dizendo Tomás, cômico.
— Espera, Tomás,
interrompeu ela, brusca mas gentilmente. Eu sou mesmo sexoólica,
daquelas que precisam de sexo o tempo todo senão piram... ou para não pirar.
Tomás e eu nos entreolhamos e fiz-lhe um
sinal sutil para que se aquietasse, enquanto Marta expelia a fumaça em direção
ao teto, como num grande suspiro. O silêncio foi o mais longo que
experimentamos até então.
— Sou dependente de
sexo desde que meu pai deixou minha mãe por outra mulher, há cerca de sete
anos. A infelicidade da minha mãe me deixou tão insegura que se eu
não fizesse sexo de algma forma três ou quatro vezes por semana, eu me sentia
explodindo.
— Masturbação não
resolvia?
— Atenuava, mas eu
precisava principalmente estar com alguém.
— Homem ou mulher?
— Homem ou mulher.
— Mas foi tão
horrível assim? perguntou Tomás. Você deve ter transado com um monte de
gente, e isso aos dezoito anos, nossa idade!
— Tomás! exclamei,
furioso.
— Não tem problema,
Marcos. Se eu contei é porque estava disposta a
falar no assunto. A verdade é que está ficando, digamos, menos interessante,
agora que não faço mais com os amigos do bairro, da escola, da faculdade, do
clube. Depois que me formei, busco satisfação com quem estiver mais perto, como
sempre, mas nessa brincadeira, já transei até com caras completamente
desconhecidos que encontrei em boates, barzinhos ou até na praia. Já transei
até com caras daqui da região, em períodos que passo sozinha na fazenda, como
este.
— Então nós somos
suas "vítimas"? disparou Tomás, sempre sem tato.
— Tomáaaas!
exasperei-me pela segunda vez.
— De certa forma,
sim, respondeu Marta, bem-humorada. Estou adorando ser a primeira
mulher de vocês e estou achando sensacional vocês não serem como esses
machinhos héteros que pensam que o pau deles é o eixo do mundo. Adoro as
histórias do Marcos e quero saber tudo sobre você também, Tomás.
— Isso sem falar que
ainda temos muito a aprender com você! acrescentei.
— Se depender de
mim, passo tudo que sei. Mas é isso, então, que eu tinha para contar.
Foi uma sorte eu ter ido até o estábulo quando vocês estavam lá, senão eu teria
provavelmente ido à caça à noite e voltado para casa depois de transar com um
estranho.
— Pode usar e
abusar! brincou Tomás.
— Deixa para lá, Marta. O Tomás não leva
nada a sério. Mas já que você resolveu falar, eu estou curioso praa saber como
foi o início. Você tinha uns dezoito anos e de repente começou a forçar a barra
para ter sexo?
— Foi mais ou menos
isso. Assim que comecei a ter medo de ficar – ou acabar – sem
ninguém, eu passei a me tornar disponível, acessível, e até "fácil"
aos caras. Demorou um tempo até eu ter a primeira experiência com mulher. Meu
corpo sempre foi assim...
— Espetacular!
interrompeu Tomás.
— Nem tanto, nem
tanto, mas sempre fui cantada, na escola, na minha rua, no meu prédio, na
universidade, etc. No final do segundo grau, então, aos dezoito
para dezenove, o assédio era grande porque – vocês estão vivendo isso – os
garotos ficam doidos seja para colecionar "troféus", seja para ter
sua primeira transa enquanto estão cercados de colegas que os intimidam menos
que as meninas de fora do círculo escolar.
— Você ainda se
lembra da primeira? perguntei.
— Muito bem. Mas não estou falando da
primeira transa, ouviu? Isso, eu tive a sorte de viver bem mais cedo, com um
garoto que eu amava a ponto de ser capaz de dizer sim se ele tivesse me pedido
em casamento naquela época. Essa é uma história que faz parte da vida da
primeira Marta. O que eu vou contar é o nascimento da segunda.
— Por mim, passo o
dia todo aqui ouvindo! declarei.
— E se puder ter
exemplos na prática, vai se melhor ainda! disparou Tomás, esvaziando meio copo
de cerveja e pondo os pés na cadeira vaga.
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