9. Migrando para a
casa-grande: indagações
Assim que nos recompusemos, veio a fome. Marta
conhecia um bom lugar para irmos comer, mas Tomás e eu precisávamos de um banho
e de roupas. Quando explicamos onde havíamos montado a barraca, Marta caiu na
risada.
— Que foi? perguntei.
— Vocês estão lá em
casa!
— Sério? Não vimos ninguém por lá e parecia
que ninguém entrava na casa há séculos!
— É que minha
família não tem vindo e quando estamos só meu pai ou eu, ficamos numa outra
casa, menor, ali perto; vocês devem ter passado por ela. Aquela
onde vocês montaram a barraca é a antiga sede do que já foi uma fazenda enorme,
com engenho, escravos e tudo mais. Meu pai comprou a casa e alguns lotes. Desta
vez, eu vim sozinha e posso me mudar para lá para ficar com vocês, se vocês
quiserem. Deve estar tudo empoeirado, mas tem luz, água e de repente, macarrão
e comida enlatada. Que tal? Mais confortável, não?
Concordamos sem hesistar. Ajudamos Marta com
algumas tarefas no estábulo e, já à noitinha, fomos os três no superconfortável
LTD para a sede da fazenda. Chegando lá, desmontamos a barraca, pegamos nossas
mochilas e fomos para dentro. Ficaríamos os três no quarto principal, onde
havia uma imensa cama de casal, toda de jacarandá, com baldaquim e tudo! Estávamos
cheirando a suor, sexo e curral. Precisávamos urgentemente de banho e foi a
primeira coisa que fizemos. Notei que Tomás queria tomar banho com Marta e
decidi ser o último. Ouvi beijos através da porta do banheiro, e alguns gemidos
reveladores. Fiquei satisfeito por Tomás, cuja obsessão pela Letícia parecia
ter-se esvaído graças à presença marcante e o não menos desejável corpo da
Marta. Assim que eles saíram, entrei no imenso banheiro colonial. Embora
modernizado, ele conservava o aspecto antigo, com banheira, vaso, bidê e pia em
cerâmica branca trabalhada. Sem destoar do conjunto, havia um box moderno no
fundo, com chuveiro e chuveirinho que me pareceram ter mais pressão do que o
velho chuveiro sobre a banheira. Notei que Marta e Tomás haviam tomado banho
nele e isso me convenceu.
Foi quando a água começou a cair sobre meu
corpo que voltei a senti-lo e conscientizei-me de que fora penetrado por Tomás
ao mesmo tempo que vivera minha primeira experiência sexual com uma mulher. Meu
órgão parecia mais grosso e a glande, mais vermelha e entumescida, latejava um
pouco. Tive a sensação de que meu dedo penetrava mais facilmente atrás e senti
uma espécie de irritação, como uma assadura na parede interna. Diante do enorme
espelho de parede do banheiro, indaguei pela primeira vez seriamente qual seria
a minha verdadeira tendência. Não que eu estivesse em conflito ou transtornado,
mas pela primeira vez me perguntei se eu estava preparado para seguir um
caminho que, em última análise, é a síntese das duas modalidades mais correntes,
um caminho ainda não muito bem definido e muito menos bem estudado. Eu já sabia
perfeitamente que na época, o bissexual era taxado de homossexual dissimulado. Saí
do banheiro dizendo a mim mesmo que eu precisaria ser forte.
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