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Uma Incursão Proustiana


Meu dentista contrata um assistente unicamente para fazer a higiene preventiva dos clientes. Vou lá duas vezes por ano para isso e só tive uma cárie até hoje. Os assistentes não ficam muito tempo porque geralmente são estudantes de odontologia e partem antes de se formar. Mas um deles deixou saudades, pelo menos para mim. Vou contar por quê.

Tudo aconteceu num dia em que eu reparei que o Wagner estava muito próximo durante a limpeza. Talvez por causa da altura da cadeira completamente reclinada, eu podia sentir a "cintura" dele em contato com o meu ombro. Não é que ele estivesse procurando esse contato, acho que não estava, mas a sensação logo chamou minha atenção.

Não tenho nada contra o sexo entre homens, sou bissexual como a maioria das pessoas, neste finalzinho de século vinte e um, mas como eu não associava a cadeira do dentista ao erotismo, estranhei quando comecei a imaginar coisas. E se ele tivesse uma ereção? E se "usasse" o meu braço para se excitar? E se ele chegasse ao orgasmo? Em meio aos roncos do pressurizador, chiados do sugador e zumbidos da sonda de limpeza, entreguei-me à fantasia em plena sessão de higiene dentária.

Ocorre que, à certa altura, a minha própria ereção começou a ficar incômoda e, pior, difícil de ocultar. Olhando-me de cima para baixo, o Wagner poderia facilmente ver as manobras que eu fazia com as mãos para impedir que ele visse o volume na minha bermuda. Fui ficando tenso.

Os minutos se passaram e não senti a menor reação da parte do Wagner. Isso me tranquilizou, imaginei que ele estivesse trabalhando num ângulo tão concentrado que o impedia de ver o que quer que fosse além dos meus dentes. Aos poucos, fui abrindo a guarda, sem contudo cessar de dar vazão à fantasia suscitadas pelo nosso contato tão estreito. De olhos fechados e inspirado pelas novas sensações, saí do mundo.

— Vira bem para cá, ordenou o Wagner com voz suave.

— Mm-mm, grunhi.

Mover a cabeça é coisa normal tanto no cabeleireiro quanto no dentista, então fiz o que ele disse num gesto reflexo. Mas o fato de estar agora com a cabeça virada para ele despertou-me a curiosidade. Eu quis ver aquela parte do corpo dele que se esfregava tão insistentemente no meu ombro. Quando abri os olhos, tive a maior surpresa de toda a minha vida até então.

Lá estava ele, emergindo da calça aberta, majestosamente ereto a meio palmo do meu rosto. Era um membro claro, grande e grosso segundo os meus critérios, curvado para cima, encimado por uma ampla cabeça moldada pelo o prepúcio que a cobria quase integralmente. O compressor se calara e Wagner me olhava diretamente nos olhos.

— Eu sei que você está pensando "naquilo", Max.

— Hã? Eu? Não entendi.

— Você está de pau duro enquanto eu trabalho, cara!

— Mas... Mas é que voc..., respondi, sem conseguir expor meu motivo.

— Eu o quê, Max? Assume o teu desejo; é menos hipócrita e mais saudável.

Ele se aproximou ao máximo de mim e praticamente colou o sexo em meu rosto. Eu podia sentir o calor do órgão pulsante ao meu lado. Meu desejo disparou e a primeira coisa que fiz foi empunhar a verga pelo meio, já puxando a pele para descobrir a cabeça. Wagner retribuiu com um gemido e deu-me toda a liberdade para explorar antes de dar uma nova ordem.

— Chupa.

— Hã?

— Eu disse "chupa". Ele está tão limpo quanto a tua boca e você não pode negar que está salivando de vontade.

Eu continuava virado para a direita e a cabeça arroxeada estava agora apontada para a minha boca, a um ou dois centímetros do meu nariz. O cheiro da baba que envolvia a glande me pareceu inebriante. Olhei para cima e quando nossos olhares se cruzaram, o Wagner inseriu o pau na minha boca ao mesmo tempo que puxava a minha cabeça para si.

— Aproveita bem, Max, salivando ao máximo e sem medo de engolir.

— Mm-hm, fiz, pondo-me totalmente de lado.

Chupar um pau é uma das coisas mais instintivas do sexo. Quando novo, até os homens da família mexiam comigo porque eu chupava picolé fazendo vaivém na boca. Os vizinhos e colegas da minha idade não me poupavam das mais cruas observações diretas: "Chupando gostoso, hein Max!" "Está gostando de mamar, Max?" "Eu também tenho um picolé pra você, Max!" E assim por diante, sempre muito irritante e constrangedor, mas durante muito tempo sem qualquer consequência. Até o dia em que meu primo Robson e eu estávamos chupando picolé no fundo do quintal da casa dele. Ele me disse que eu estava chupando "igualzinho" à mulher que ele vira chupando num filme pornô ao qual ele assistira na casa de um amigo.

Era a primeira vez que esse tipo de observação acontecia na intimidade e sem mais ninguém por perto. Lembro-me da minha reação. Em vez de ficar furioso, olhei para ele e ri como quem diz: "Nem ligo!" E a reação dele foi imediata e surpreendente. Ele baixou o short e exibiu o pau já duro, dizendo: "Então chupa o meu!". E assim se deu a minha primeira vez.

Provar o pau do Wagner deslizando para dentro da minha boca foi como provar uma madeleine proustiana que me levou de volta ao quintal da casa da minha tia, mãe do Robson, fazendo-me reviver todas as sensações do ambiente e do evento passado. Lembro-me de ter tornado a fechar os olhos e viajado numa cápsula temporal perfeita. O vaivém lento e profundo, o deslizar da glande lisa em minha língua, o aroma e o sabor morno do líquido abundante, tudo, salvo, talvez, pelas dimensões, remetia-me identicamente ao que eu vivenciara outrora. Confortavelmente instalado na poltrona-cama do dentista, deixei-me levar pela doce confusão das semelhanças e entrei numa espécie de transe.

— Max... Max..., susurrou o Wagner, acariciando o meu cabelo.

Abri languidamente os olhos sem dizer palavra enquanto ele me olhava fixamente dando-me a entender que eu precisava estar desperto para o desfecho. Vendo-me de volta à realidade, ele pegou minha mão, pousou em seu membro duríssimo e me disse para concluir se quisesse. Muito excitado, ele estava na iminência do orgasmo, então não precisei de muito esforço para levá-lo a esvair-se integralmente em minha boca. Seu esperma foi farto e na consistência ideal. Fui engolindo em pequenos goles sem perder nenhuma gota para o papel imaculado que servia de lençol descartável. Quando terminei, Wagner passou o esguicho dente por dente, depois encheu-me a boca d'água e mandou-me bochechar.

— Desta vez você não vai sair daqui com gostinho de flúor, Max, mas acho que valeu a pena, e você? Espero não te perder!

— Não vai me perder, mas eu deveria sair daqui sem pagar, isso sim!

Rimos a valer e, de fato, ele não me cobrou por aquela consulta, mas muitas outras se sucederam e a gratuidade da primeira perdeu-se no delicioso lucro das subsequentes.




  

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