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Caro Visitante,

Erotexto é um blogue dedicado ao erotismo que tem por característica uma rica diversidade de estruturas narrativas. Seu objetivo é triplo: entreter, desenvolver o interesse pela escritura e - o principal - motivar a reflexão sobre a libido e a busca do prazer, cujo fundamento biológico acredito ser de caráter essencial e universalmente bissexual.

Erotexto tem formato fixo. A primeira página comporta a última narrativa proposta (não necessariamente a última criação). O material arquivado consiste de contos e relatos classificados por categoria sob a rubrica "EroStock" (coluna à direita), bem como séries, novelas e folhetins. Para conhecer a acepção em que cada estrutura narrativa foi tomada, convido o leitor a clicar em "Pequena Teoria da Narrativa", aqui acima.

Uma comunicação contínua com o leitor faz-se através da rubrica "EroNovas", a primeira da coluna à direita. Meu e-mail está à sua disposição. Para reagir a uma publicação, clique na palavra "comentário", abaixo de cada texto.

Os botões "Índice" e "Resumos" propiciam acesso fácil aos textos e uma visão global do conteúdo do blogue.

Que Erotexto possa excitar de modo agradável, são e prazeroso, inspirar o leitor a escrever suas próprias histórias e principalmente, motivar a reflexão.

Marc Fauwel

Pequena Teoria da Narrativa

Introdução

Desde que comecei a publicar narrativas eróticas, interessei-me pelo processo de elaboração do texto e logo desejei também escrever sobre isso, quando mais não fosse para ajudar-me a aprofundar a compreensão sobre a escritura. Há milhares de obras escritas sobre teoria literária – esse é o nome da matéria no sentido amplo, assim como se fala de teoria musical –, mas creio que cada autor tem peculiaridades que podem interessar seus leitores aficcionados pelo processo de escritura. Sendo assim, decidi criar minha pequena teoria da narrativa erótica e publicá-la no Erotexto, apenas para o pequeno círculo dos que o frequentam mais assiduamente.

Se isso puder servir de motivação aos que se sentem desencorajados pela baixa qualificação desse nosso gênero literário, lembro que as penas dos maiores escritores de todos os tempos e nacionalidades verteram litros e mais litros de tinta cobrindo páginas com as fantasias eróticas de seus célebres possessores, muitos dos quais deveram essa celebridade à hipocrisia de obras inteiras repletas de infantil candidez ou de circunspecta intelectualidade. É triste descobrir, por vezes décadas depois, que seus textos eróticos, na maioria publicados sob pseudônimos ou criptônimos, superavam de muito as obras que os imortalizaram.

1. O Criador

Se há um deus do texto, este é seu criador, que cria até mesmo autores para a sua obra. O criador é um ser humano de carne e osso sujeito como qualquer outro às restrições de sua vida pública e privada, que podem levá-lo a decidir ocultar-se ou não quando da publicação de algo seu. Mesmo que opte por não revelar-se, o criador é aquele que responderá juridicamente por aquilo que escreveu, caso, por exemplo, alguém se sinta ofendido por seu conteúdo e haja por bem processá-lo. O criador é portanto um deus sujeito à justiça dos homens, o que há de real por trás da ficção, e deve levar isso em conta com a maior seriedade.

2. O Autor

O autor é a primeira criatura do criador e pode ou não receber o nome deste, o que determina três categorias mais usuais de autor.

2.1 Autônimo

É o autor cujo nome corresponde ao do criador. Os criadores da literatura não marginal em sua maioria o adotam porque em caso de sucesso, julgam triste não poderem colher os louros em se próprio nome. Mas um autônimo do mundo do erotismo sempre revela um criador extremamente corajoso e pronto a assumir seus escritos malgrado a crítica do meio.

2.2 Pseudônimo

É o autor cujo nome foi inventado pelo criador e não corresponde a uma pessoa real. O pseudônimo é muitas vezes um nome inexistente ou um apelido. Do ponto de vista do criador de textos eróticos, é uma maneira prática e rápida de dissimular-se.

2.3 Heterônimo

É o autor cujo nome, mas não só o nome como também os hábitos, diferem do nome e dos hábitos do criador. O heterônimo convém em particular ao criador de narrativas eróticas, muitas vezes um pacato quarentão, bonachão, casado, sociável e pai de três filhos receoso de expor ao crivo da opinião alheia as suas excentricidades sexuais.

2.4 Criptônimo

É o autor cujo nome foi codificado pelo criador tendo em vista a previsão de que algum dia ele seja decodificado e revele o nome de um autor, que pode ser o autônimo ou um pseudônimo. O criptônimo é a maneira mais segura que um criador possa encontrar para ocultar-se, já que depois do processo trabalhoso da decodificação, ainda resta saber se o nome revelado corresponde ao seu, o que geralmente não é o caso.

Do ponto de vista teórico, o aspecto mais interessante a considerar-se quando da apreciação dos conceitos de criador e de autor, em particular o heterônimo ou criptônimo, é que à cisão entre eles corresponde a separação entre a obra e o homem: o criador delega seus poderes a um ser fictício, o autor, que o tirará de cena porque, por definição, aquele que escreve ficção, um "fingidor" - para retomar a expressão de um célebre usuário de heterônimos - não pode identificar-se à pessoa física do criador. Não é de espantar que tantos escritores sejam jornalistas, advogados, juristas, magistrados, políticos, filósofos, investigadores, etc. O processo da autoria e da publicação de um texto suscita questões muito caras a todo aquele que se interessa pelas questões identitárias.

Feitas essas considerações que antecedem a criação da obra, passemos à figura seguinte, a do narrador, porta-voz mais imediato do autor.

3. O Narrador

O narrador pode não equivaler ao autor, e com muito mais razão ainda, ao criador. O narrador é simplesmente aquele que conta, podendo ser, muitas vezes, um personagem da narrativa. Há várias modalidades de narrador, segundo a ótica através da qual ele percebe os eventos. Por razões óbvias, a narrativa erótica privilegia o narrador em primeira pessoa, mas o narrador onisciente também é muito utilizado e há bons textos com outras óticas narrativas, algumas até mesmo heteróclitas.

3.1 O Narrador em Primeira Pessoa

Quando se lê um texto cuja narração se faz em primeira pessoa, descobre-se logo que as percepções serão próximas e intensas, o que torna essa abordagem muito propícia à narrativa erótica. O narrador em primeira pessoa é um personagem, normalmente um protagonista. Se é verdade que como participante da ação ele transmitirá uma carga erótica muito intensa, é inegável que, por outro lado, seu ponto de vista será pessoal, portanto parcial. Por exemplo, um narrador em primeira pessoa que participe de uma orgia jamais poderá ser convincente para explicar as sensações de cada participante. Ele será incapaz de reproduzir diálogos cochichados ou de dizer o que se passa entre parceiros no cômodo vizinho. Ele jamais poderá referir-se ao pensamento alheio. A ótica da primeira pessoa é análoga ao ângulo agudo, penetrante mas limitada.

3.2 O Narrador Onisciente

Quem nunca leu um texto com narrador onisciente? A maior parte das histórias infanto-juvenis é contada por essa "voz" que tudo sabe e que a tudo se refere em 3a pessoa, vagando pelos tempos e lugares como um deus. Essa perspectiva é cômoda para o texto erótico, mas à medida que o leitor vai tornando-se mais exigente, passa a desejar um narrador que seja possível, e é aí que a narração se complexifica deliciosamente para o criador.

É muito simples sair contando uma história a partir dos pontos de vista de cada personagem e criar diálogos que dêem voz a qualquer um deles. Basta escrever o que vem à imaginação. O resultado será eficaz porque o leitor será capaz de reconstituir cada cena sem dificuldade alguma e ter as reações fisiológicas almejadas pelo criador. Um conto erótico escrito para consumo imediato fica ótimo narrado dessa maneira; nada melhor para uma leitura em celular ou tablete (sim, "tablete"; não dizemos tablete de chocolate?). Para o leitor exigente, porém, o caráter irreal do narrador onisciente é uma contradição às sensações tão reais e verdadeiras que o criador deseja provocar. O leitor exigente chega a experimentar revolta ao constatar que seu corpo - e mente, produto deste - foi logrado e respondeu a uma invenção tão óbvia e simplista. A ótica onisciente é análoga ao ângulo obtuso, superficial e por demais abrangente.

3.3 O Narrador Informado

O leitor inteligente exigirá um narrador possível, e este, a meu ver, é o narrador cujo ponto de vista justifique que ele seja capaz de se referir realisticamente aos eventos que ele narra. Vimos que o narrador em primeira pessoa assume necessariamente um ponto de vista parcial e que o narrador onisciente foge a qualquer justificativa coerente pelo fato de que ninguém pode estar na pele de mais de uma pessoa simultaneamente. É preciso portanto encontrar um meio de justificar que o narrador esteja falando pertinentemente sobre tal ou tal outro evento.

Para obter esse efeito, há várias possibilidades. A mais frequente é criar um narrador que tenha acesso a dados sobre os personagens da história: um filme, um livro, um diário, cartas, conversas com amigos, recados em secretária eletrônica, informações na Internet, etc. Esse narrador será credível na medida em que ele esteja autorizado pelas fontes a se aprofundar na reprodução dos fatos que ele quer expor. Por exemplo, uma vasta coleção de cartas poderia permitir ao narrador até mesmo a construção de diálogos hipotéticos muito ricos entre os interlocutores, mas três ou quatro recados de interfone tornariam ridícula uma construção análoga. É preciso portanto fornecer ao leitor os meios de justificar a riqueza narrativa. A adoção do ponto de vista do narrador informado é a melhor maneira que conheço de tornar o texto erótico digno de leitores exigentes. Como eu disse, um narrador onisciente banal pode suscitar emoções e sensações num leitor, mas esse tipo de leitor jamais bastará ao autor que almeje um público de alto nível.

Ao fazer o elogio do narrador informado, não quero dizer que o Erotexto só admita esse foco narrativo em suas publicações. Pelo contrário, elas serão minoria porque exigem muito mais elaboração! O narrador informado é posto aqui como ideal a alcançar sempre que se almeja o máximo de convicção. Ademais, o criador que agrupa seus textos num blogue tem uma dificuldade a mais em relação àquele que os publica aqui e ali: ele é obrigado a diversificar muito mais para evitar que após ler dois ou três de seus textos, o leitor descubra uma "regra" e perca totalmente o interesse. Por essa razão e pela razão aventada anteriormente - a da complexidade -, Erotexto comporta narrativas criadas a partir de todos os focos narrativos possíveis e imagináveis.

4. Estruturas narrativas no Erotexto

O blogue Erotexto foi criado tendo em vista a publicação de relatos baseados na experiência real e de contos puramente ficcionais, mas logo passei a desejar explorar novas formas, e daí surgiram as séries, os folhetins e, mais recentemente, a novela. É dessas estruturas que vou tratar a seguir.

4.1 O Relato

Todo ser humano vive experiências de natureza sexual, pouco importa se consumadas em ato ou não. Algumas delas perduram na mente até que as exprimamos de alguma forma, normalmente repetindo-as ulteriormente com parceiros e também, como é o caso de muitos, reproduzindo-a através da arte, notadamente o desenho e a pintura, a escultura, a música, a dança, a escritura. Os relatos do Erotexto partem em geral de uma imagem deixada na mente de uma pessoa bem real por alguma experiência marcante. Trata-se de um momento num evento de duração determinada, de uma imagem que será o núcleo a partir do qual se propaga a narrativa.

Os relatos são portanto reais na essência, mas são, por assim dizer, "recheados" para crescer até adquirirem corpo. Em A Menina do Ônibus, por exemplo, o narrador e protagonista conta de que modo, jovem universitário, ele foi surpreendido pelo estonteante poder de sedução de uma estudante sentada no banco situado atrás do motorista. O que marcou para sempre esse jovem foi o fato de ter-se masturbado através do bolso e chegado ao orgasmo a poucos centímetros dessa menina-mulher que tanto o excitou. Mas isso é material para uma frase ou duas, se tanto! E é aí que entra o "recheio", o trabalho de tentar reproduzir um pouco do contexto para torná-lo o mais carregado possível da atmosfera que contribuiu para a explosão erótica vivenciada pelo protagonista. Isso se faz através da lembrança, vaga ou não, do que acontecia simultaneamente em volta, caso o narrador seja a voz de um autor que vivenciou o fato; ou de conversas, no caso de alguém que relata a sua experiência ao autor porque deseja vê-la publicada no blogue.

Do ponto de vista estrutural, um relato do Erotexto procura ser um retrato fiel de um aspecto da realidade; é articulado em princípio, meio e fim; é subdividido em parágrafos e é fechado, isto é, salvo correções, não admite acréscimos posteriores à publicação.

4.2 O Conto

Não há muito a dizer sobre o conto, mil vezes discutido pelos mais diversos autores de renome. À diferença do relato, o conto no Erotexto surge da pura fantasia e responde a um anseio de potencializar uma idéia inicial de modo a manter no autor - sim, no autor, enquanto escreve - a tensão sexual ao longo de sua produção. Sabe-se que todo ícone religioso ortodoxo autêntico é elaborado em meio a orações. Pois bem, todo conto digno de publicação no Erotexto deve ser elaborado em meio a ereções. O desejo de escrever provém precisamente desse clima que se forma e que só se dilui após a primeira releitura do texto completo já publicado.

Quanto à estrutura, um conto do Erotexto se articula em princípio, meio e fim, é subdividido em parágrafos e é fechado como o relato.

4.3 A Série

A série surgiu da necessidade de escrever vários episódios com o mesmo conjunto de personagens pertencentes ao que seria originariamente um conto; logo depois de colocar o "ponto final", o autor é tomado pelo desejo de continuar em companhia daqueles personagens. Contudo, simplesmente prosseguir poderia diluir a força do conto inicial e muitas vezes o autor sente que tem imaginação para mais do que uma mera segunda parte. Foi daí que surgiu a idéia da série, que permitiria ir acrescentando episódios sempre que houvesse o desejo de voltar a utilizar aqueles personagens naquele contexto. Contos que se tornam por demais extensos e incompletos também se adequam a essa estrutura porque podem eventualmente ser completados.

A estrutura da série é a de um conjunto não necessariamente articulado em início, meio e fim. Ela é subdividida em episódios que posso publicar ocasionalmente ou em bloco. É uma estrutura aberta, que admite livremente acréscimos ou modificações.

4.4 O Folhetim

Como todo frequentador assíduo já pôde concluir, o folhetim do Erotexto se inspira em parte no folhetim de jornal do fim do século XIX e início do século XX. A idéia era ir escrevendo longas narrativas sem final planejado. Outra parte, porém, se deve ao próprio "formato blogue", que impõe a ordem cronológica dos escritos; me parecia intuitivo publicar uma página de texto que ficasse exposta na primeira página enquanto eu não publicasse uma nova. E assim foram surgindo histórias que iam sendo escritas sem o compromisso do prazo de publicação, o que me pareceu interessante... e relaxante. O único senão, que eu viria a descobrir mais tarde, é que, salvo exceções, nenhum autor de textos eróticos tem vontade de dedicar-se diariamente a uma mesma história, então a página mais recente do folhetim fica por vezes exposta durante semanas a fio na primeira página do blogue. Mas acredito que isso não chega a constituir um aspecto negativo.

A estrutura de um folhetim do Erotexto é a de uma longa narrativa com uma ou mais tramas, articulada em princípio, meio e fim, ainda que o meio seja tão longo quanto o desejado. O folhetim é subdividido em episódios e é publicado gradativamente. Trata-se de uma estrutura fechada, na medida em que não se admitem acréscimos após a publicação do episódio final. A desvantagem desse formato é seu arquivamento de trás para frente. A que encontrei foi de invertê-lo quando do armazenamento, uma vez terminado.

4.5 A Novela

A mais recente estrutura narrativa adotada no Erotexto surgiu há cerca de dois meses (setembro de 2014), quando me vi diante de um verdadeiro livro em 14 capítulos, um escrito de juventude arquivado há anos. O todo resultava em muito mais que um conto e muito menos que um romance, o que me fez decidir pela novela, no sentido utilizado em literatura do século XIX, notadamente a inglesa. A novela é um romance curto que parte da imaginação e põe em cena vários personagens vivendo várias tramas.

Do ponto de vista estrutural, a novela do Erotexto se articula em princípio meio e fim, é subdividida em capítulos, é publicada na integralidade quando de sua gravação no blogue. Sendo completamente planejada antes da redação, a novela é fechada; acréscimos trariam prejuízo à sua coesão e coerência.

5. Da Construção


Embora a maioria das narrativas do Erotexto tenham sido diretamente redigidas na "folha em branco", algumas foram planejadas, e estou autorizado a dizer que se trata de uma experiência das mais interessantes. É sobre o plano que quero discutir mais detidamente.

A intuição poderia sugerir que o plano serve à construção de narrativas mais longas ou estruturalmente mais complexas, mas a prática da publicação no Erotexto me provou que o critério essencial é a natureza aberta ou fechada da narrativa. Até hoje, só tive conhecimento de planos para relatos, contos e novelas, que são estruturas fechadas.

O interesse do planejamento reside obviamente no fato de que ele permite estabelecer previamente o conjunto dos eventos que constituirão as situações da narrativa de maneira a fazer com que, uma vez em seu suporte definitivo, esta fique equilibrada tanto na forma quanto no fundo. 
A construção planejada responde igualmente a uma exigência mnemônica - detalhes se esquecem facilmente - e ajuda a combater o "enjoo" que todo autor sente quando em contato prolongado com uma história. E não só isso; o planejamento atende também a um ideal estético, que pode ou não ser regido pela simetria, mas que segue uma determinada antevisão global do autor e atende às suas próprias preferências ou àquilo que ele imagina convir a um leitor hipotético.

5.1 O Plano

Sem pretender fazer publicidade, nada mais intuitivo, simples e imediato, para quem deseja planejar um texto, do que a aparência "Plano" que se encontra no menu "Edição" do programa MS Word. O primeiro nível de títulos permite estabelecer em linhas separadas uma introdução seguida de um número determinado de parágrafos e uma conclusão. Vou discutir cada item dessa estrutura básica de planejamento.

5.1.1 Planejando a Introdução

A introdução prepara o leitor, fornece o contexto espaciotemporal e apresenta os personagens. É nela que se define o tipo de narrador (de 1a pessoa, onisciente, "informado"...), o que dá ao leitor habituado a imediata intuição do grau de tensão erótica que a narrativa vai transmitir. A introdução deve ser proporcional à extensão do conto; de nada serve um longo preâmbulo para uma narrativa de três parágrafos de 10 linhas cada!

Em geral, a introdução é redigida quando o autor tem uma percepção global bem detalhada da narrativa. Na prática, portanto, ela é redigida depois de elaborado e redigido um plano bem concebido, quando não depois da redação final do texto propriamente dito. Isso parece contradizer a idéia transmitida pela palavra "introdução", mas aquele que escreve logo aprende que o absurdo é aparente e que essa inversão é perfeitamente lógica. É óbvio que um relato relâmpago em cem linhas "cabe" por inteiro na mente do autor que, nesse caso, poderá redigir uma breve introdução antes de escrever sua história, mas para narrativas mais complexas, isso se torna improdutivo pois força o autor a voltar constantemente à introdução para modificá-la.

5.1.2. Planejando as Situações

Um conto é um escrito curto, em comparação às demais estruturas narrativas. Em se tratando de blogues, tornou-se difícil basear-se no número de páginas porque os tipos (fontes) diferem de forma e tamanho, mas um bom indicador é o tamanho do arquivo em quilo-octetos. Salvo exceções bem raras, os contos do Erotexto variam entre 40ko e 60ko. Tendo-se em vista esses limites, o número de parágrafos pode variar, mas as situações vividas pelos personagens de um conto costumam ser reduzidas e relativamente simples, portanto não é difícil concebê-las mentalmente e determinar um número de parágrafos ao longo dos quais expô-las.

Atingido esse ponto, a prática que sugiro é a de materializar cada parágrafo através da segunda hierarquia de títulos do planejador do Word, seja numerando-o ou atribuindo-lhe um título provisório. Em seguida, utilizando o grau "corpo de texto" da hierarquia do planejador do Word, é possível inserir abaixo de cada título de parágrafo uma série de itens sob forma de frases curtas que exprimam as ações concretas de cada situação. Imaginemos um conto ou um relato hipotético.

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0. Introdução (redigida no final)

1. Situação 1: Encontro no museu
Parágrafo 1: Mulher linda à vista
- A multidão se comprime para ver a Mona Lisa;
- Noto a linda mulher entediada atrás de todos;
- Me aproximo.
Parágrafo 2: Abordagem e sentimento de reciprocidade
- Puxo conversa e ela parece gostar;
- Saímos da sala de exposição;
- Eletricidade entre nós.
Parágrafo 3: Beijos e excitação incontrolável
- Primeiro beijo no terraço;
- Excitação, apalpadelas.
Parágrafo 4: Banheiro do museu: beijos ardentes, felação
- Entramos no banheiro masculino;
- Na cabine, ela se senta no vaso, eu fico de pé;
- Felação.
Parágrafo 5: Ida de carro para um hotel
- Impossível ficar no museu;
- Eu conheço um hotel;
- Nos inscrevemos como noivos.

2. Situação 2: Sexo
Parágrafo 1: Calcinha fio-dental e preliminares
Parágrafo 2: Sexo na poltrona
Parágrafo 3: Sexo na cama
Parágrafo 4: Sexo anal no chuveiro

3. Situação 3: De volta
Parágrafo 1: Levando Maria em casa
Parágrafo 2: Nova felação no carro
Parágrafo 3: Despedida após 4 horas de sexo
Parágrafo 4: Chegada em casa
Parágrafo 5: Esposa esperando sedenta de sexo

4. Conclusão
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Com esse breve esquema, a história já passou da imaginação para um suporte fixo, ainda que em suas grandes linhas. De posse dessa estrutura, o autor pode fazer outras coisas sem se preocupar de esquecer as idéias e as imagens que o motivaram a escrever e que ele deseja transmitir. Além disso, ele tem toda a "linha de universo" do seu conto, ou seja, ele acaba de se tornar o Deus que o contempla de cima em sua totalidade, ao contrário do leitor que precisará da flecha do tempo para lê-lo e entendê-lo. Essa visão global dos eventos é, a meu ver, a grande vantagem do planejamento, isso sem falar do enorme prazer proporcionado pela sua execução e pela etapa posterior de "inchá-lo" preenchendo-o com a narrativa literária propriamente dita.


Os itens constituintes dos parágrafos que compõem as situações podem ser aumentados no próprio plano, não precisam limitar-se a uma linha, mas o ideal é que correspondam a uma idéia simples que pode ser uma imagem mental bem nítida como, por exemplo, "felação no banheiro masculino". É importante não perder de vista que o texto propriamente dito, costurado em frases bem articuladas, será feito posteriormente, em outro arquivo. O editor pode ser dividido em duas janelas, uma mais estreita, para o arquivo do plano e a outra para o arquivo do texto.

De posse das idéias centrais escritas no plano, a etapa da criação propriamente dita está encerrada e é hora de "rechear" o plano de maneira a transmitir as idéias com estilo próprio para provocar no leitor o resultado almejado (excitação, masturbação, nostalgia, reflexão, inspiração, revolta, etc.) Com a prática, é possível manusear-se a língua escrita como um escultor que molda a argila, um coreógrafo que dá forma ao movimento ou um compositor que agrupa sons. Ainda que abstrata, a palavra não deixa de ser um material. Alguns autores possuirão estilos diretos, outros mais metafóricos, outros apenas alusivos. Alguns dão nomes aos bois, valendo-se de toda uma gama de palavras do "baixo calão", outros não. Lembre-se que um criador pode criar vários autores e que, por exemplo, o autônimo pode ser completamente diferente do(s) heterônimo(s). Cada autor terá a sua maneira própria de veicular as imagens que, no mundo do erotismo e, mais especificamente, do sexo, não variam tanto assim em si mesmas.

5.1.3. Planejando a Conclusão

É simpático terminar uma narrativa erótica com um desfecho; o leitor fecha o livro ou sai do blogue satisfeito por ter lido uma história completa. Na maioria das vezes, um conto bem escrito é um conto que, sobretudo nos homens, provoca um certo "efeito" antes do final, mas que, se for mesmo bom, forçará o leitor a retomar a leitura, ainda que tenha tido que se ausentar por alguns momentos pelo motivos que todos sabemos. No Erotexto, as conclusões dos contos e relatos costumam deixar uma idéia de que o narrador ou o protagonista viveu algo de inesquecível ou de insólito. Isso gera no autor o desejo de reler e no leitor um desejo de viver a mesma experiência ou uma convicção de que o erotismo pode levar as pessoas a situações de exceção ou ainda uma reflexão sobre o próprio erotismo, sobre as chamadas "opções" sexuais ou sobre uma determinada experiência pessoal.

Há toda uma literatura consagrada ao planejamento de narrativas em geral, e o nível de precisão e completude proposto pode chegar à sofisticação, mas eu quis mostrar aqui que o plano de um conto erótico pode ser coisa extremamente simples que funciona como um "lembrete estruturado", em poucas linhas, apenas para que as boas idéias não fujam da memória do autor e para que o texto tenha uma forma organizada de modo a tornar a leitura fácil e prazerosa.

5.2 A Redação

Construir o plano é como começar a comer pela salada ou pelos legumes, quando se é criança, sabendo que logo depois virá um delicioso bife com batatas fritas e, de sobremesa, um magnífico sorvete de flocos. O plano é a fase estóica que precede o deleite no jardim de Epicuro. Mas como todo jardim das delícias, a redação tem suas tentações e armadilhas, e é para não cair nelas que convém ter consciência do seu funcionamento. Como não quero perder de vista o que escrevi sobre o plano, o critério que vou adotar aqui é o da existência ou não do efeito de "retroalimentação" (o famoso feed-back) do plano durante a redação, e meu terceiro ítem tratará do que chamei de "harmonização final" e que definirei no momento devido.

Há três tipos de autor: aquele que admite deixar-se levar pela aparente autonomia que os personagens e narrativa vão tomando no decorrer da redação, aquele que nega essa autonomia e aquele que, no fim da redação, constata que certos ajustes são necessários. O bom senso e a inteligência do autor são portanto os únicos responsáveis pelo tipo de redação segundo o critério adotado aqui.

5.2.1 Redação sem Retroalimentação

Muitos autores defendem a opinião de que o escritor ideal é aquele que planeja minuciosamente a sua narrativa e que, uma vez terminado o plano, não lhe traz mais a mínima alteração. Do ponto de vista estético, este parece ser o auge da perfeição e exige do autor, além de uma bela imaginação, uma capacidade de antecipação análoga à do enxadrista. Mas mais do que tudo, isso requer um autor de mente saudável, sem ansiedades nem obsessõe, que saiba que após cada narrativa publicada outras virão, e que tudo é temporário. A ausência de retroalimentação simplifica grandemente o trabalho de redação e permite ao autor concentrar-se em outros fatores importantes, como a linguagem a ser utilizada, o estilo, etc. No Erotexto, é raríssimo que um plano não tenha sofrido retroalimentação pela e ao longo a redação, mas as poucas experiências foram de uma agradável sensação de onipotência!

5.2.2 Redação com Retroalimentação

Muitos autores julgam que a retroalimentação do plano ao longo redação é prova de flexibilidade e de criatividade. Tudo se passa como se os personagens criassem vida e tomassem parte nas decisões sobre os rumos da narrativa. Isso pode ser divertido, mas o risco é diretamente proporcional à extensão e complexidade do texto. O plano tem por objetivo guiar o escritor na redação; se acontecer o inverso, o plano perde a razão de ser e se torna supérfluo. É preciso portanto saber dosar o grau de retroalimentação do plano pelo texto. Modificar o caráter de um personagem a certa altura implica consequências ao longo de tudo que foi planejado para ele, e não convém passar muito tempo reajustando o plano em função de cada modificação. Por outro lado, o mero acréscimo de situações pode ser benéfico para o teor erótico da narrativa. Os planos do Erotexto geralmente admitem um certo grau de retroalimentação durante a redação. Com a prática, aliás, vai sendo possível construir-se o plano deixando "lacunas", de modo a torná-lo apto a receber essa retroalimentação.

5.2.3 Redação com harmonização final

É muito comum descobrir-se, durante a leitura integral de uma narrativa erótica recém terminada, que certos personagens sofreram modificações ao longo da história. Por exemplo, uma mulher pode ser de caráter irascível no início e terminar completamete submissa. Num texto longo, isso é perfeitamente aceitável; para tomar o exemplo de um clássico não erótico, cito a Carolina de A Megera Domada). Mas num conto de três páginas que trata de um ou dois breves episódios, isso gera estranheza no leitor. Essa falha é muito frequente em contos eróticos porque o processo de sedução não é algo necessariamente fácil de narrar, mas muitos autores não atentam a isso e nem se dão conta de que seus personagens se tornaram absurdos. O pouco apreço dado ao nosso gênero literário não autoriza a descurar dos detalhes! A harmonização final permite portanto restabelecer a coerência e a coesão que eventualmente se esmaecem ao longo do texto, e é por isso que uma boa leitura final se faz necessária antes da publicação.



A exemplo de algumas das estruturas do Erotexto, esta pequena teoria da narrativa erótica é aberta. Na verdade, ela foi concebida para receber modificações e acréscimos, e meu maior desejo seria que estas surgissem do intercâmbio com leitores que também escrevem. Espero que ela seja de agradável leitura e, quem sabe, útil aos que desejam se iniciar nessa nossa modalidade tão procurada e contudo tão marginalizada da literatura.

15 de novembro de 2014



Marc Fauwel

3 comentários:

  1. Respostas
    1. Obrigado, Peristilo. É sempre um prazer receber sua visita.
      Um abaraço,
      Marc

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  2. Muito interessante. Vou aproveitá-lo em meus textos.

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