Seja bem-vindo!

Caro Visitante,

Erotexto é um blogue dedicado ao erotismo que tem por característica uma rica diversidade de estruturas narrativas. Seu objetivo é triplo: entreter, desenvolver o interesse pela escritura e - o principal - motivar a reflexão sobre a libido e a busca do prazer, cujo fundamento biológico acredito ser de caráter essencial e universalmente bissexual.

Erotexto tem formato fixo. A primeira página comporta a última narrativa proposta (não necessariamente a última criação). O material arquivado consiste de contos e relatos classificados por categoria sob a rubrica "EroStock" (coluna à direita), bem como séries, novelas e folhetins. Para conhecer a acepção em que cada estrutura narrativa foi tomada, convido o leitor a clicar em "Pequena Teoria da Narrativa", aqui acima.

Uma comunicação contínua com o leitor faz-se através da rubrica "EroNovas", a primeira da coluna à direita. Meu e-mail está à sua disposição. Para reagir a uma publicação, clique na palavra "comentário", abaixo de cada texto.

Os botões "Índice" e "Resumos" propiciam acesso fácil aos textos e uma visão global do conteúdo do blogue.

Que Erotexto possa excitar de modo agradável, são e prazeroso, inspirar o leitor a escrever suas próprias histórias e principalmente, motivar a reflexão.

Marc Fauwel

ABC do Português Carioca

Caro leitor de Portugal, de Angola, Moçambique, dos Açores, de Cabo Verde, de Goa e demais lusófones não brasileiros... e demais brasileiros não cariocas*,

Para evitar "sustos" que podem ser desanimadores quando se trata de ler um texto em português pretensamente bem escrito, convém ter-se em mente que o Brasil integrou outrora o império português, tem por idioma oficial uma língua que ainda se chama português e que, similarmente ao que ocorre com toda ex-colônia, a língua seguiu seu próprio curso a partir do modo como era falada na época da ruptura com a "metrópole", provavelmente porque depois da independência, os falantes que iam e vinham não tinham mais o compromisso de ensinar e corrigir o modo de falar de um povo que deixara de ser o seu.


É natural, portanto, que um português compare o português do Brasil ao português europeu e o julgue como sendo uma língua de contato, um falar crioulo, um pidgin e até um "português mal falado". É perfeitamente compreensível. Quanto aos leitores originários das demais ex-colônias, tenho certeza de que para a maioria, a comparação será de efeito menos ingrato porque sua própria variedade de português têm características próprias que também a distinguem do português europeu. Por último, para o brasileiro não carioca, o português falado no Rio pode parecer "largado", desleixado, descuidado, mas tenho certeza de que ele o conquista pela entonação enfática e repleta de convivialidade.


Essencial, antes de abordar textos escritos numa das variedades derivadas de uma língua de origem, é que se tente vencer a antipatia gerada pela sensação de repulsa ao que destoa da "fonte", sensação, repito, comum e perfeitamente natural, e se assuma a atitude do descobridor de boa índole, do investigador de temperamento verdadeiramente científico ou, melhor ainda, a atitude daquele que descobre e se aprofunda porque simpatiza e porque gosta. Só assim é possível experimentar "de dentro" esse novo objeto de conhecimento e ter a surpresa de vê-lo um dia transformado em objeto de amor.

Aí vão portanto, algumas características de um dos muitos falares do imenso Brasil, o falar carioca, cuja força reside na sociabilidade, na intimidade, na proximidade, e num toque "malandro" que o torna extremamenten propício à literatura erótica.

(1) O pronome "você" no seu uso carioca é o pronome de 2a pessoa por excelência. Ele substituiu o "tu" e se estende a pessoas não necessariamente conhecidas daquele que fala, mas cuja idade ou grau de relacionamento não requeira o tratamento "senhor(a)". O carioca trata de "você" o pai, a mãe, os filhos, seus professores, seu médico, os vendedores que o atendem, etc. Ele pode inclusive combinar "você" e "senhor(a)", como em: "Doutor, você não vai arrancar esse dente, vai?". Num registro frouxo e brincalhão ou nas camadas sociais menos instruídas, o "tu" é usado, mas não se conjuga na 2a pessoa e sim na 3a: "tu vai, tu quer, tu fala". Um linguista diria que a fala carioca neutralizou a oposição anteriormente existente entre "tu" e "você".

(2) O carioca pode incluir numa mesma frase pronomes oblíquos de 2a pessoa com o pronome de tratamento "você", gramaticalmente de 3a. Não é raro ouvirem-se, por exemplo frases do tipo: "Eu te avisei que se você fizesse isso, ia quebrar o brinquedo!" É aliás esse emprego do "te" que faz todo o charme do falar carioca porque esse híbrido de 2a e 3a pessoa acrescenta uma pitada de sutil intimidade ao respeito.

(3) O carioca não faz mais a distinção de desinências entre os imperativos afirmativo e negativo. Dizemos, portanto: Faz!/Não faz!, Pega!/Não pega!, Vai!/Não Vai!, etc. Sob este aspecto, o "carioquês" se assemelha ao francês.

(3.1) No registro coloquial, o carioca utiliza preferencialmente o imperativo na 2a pessoa do singular. Na fala carioca de todos os dias, diremos raramente "venha, veja, faça, diga, compre, pague, etc." Porquê? Porque soa "velho" (mais de 50 anos) ou "nordestino". À guisa de esclarecimento, cabe aqui dizer que o carioca médio é um ignorante absoluto no que diz respeito ao sul do país, mas nutre a crença de que o que lhe vem "de São Paulo para baixo" tem mais qualidade do que o que lhe chega "de Minas para cima", daí a antológica zombaria do carioca para com o mineiro, o nordestino e o nortista. Mas saibam que o carioca não alienado está perfeitamente consciente da situação calamitosa em que se encontra o seu Estado e admite humildemente que essa zombaria é injustificada. O uso do imperativo na 3a pessoa, no registro coloquial, apenas lhe soa mais conservador, nada mais.

(3.2) O uso que o carioca faz do imperativo mostra bem como o pronome "você" tem valor de 2a pessoa e não de 3a: "Você já ficou um tempão aí, Maria; agora vem para casa, anda!"

(4) Embora seja perfeitamente correto dizer-se "pegá-lo, espremê-la, parti-los", é cada vez mais frequente o carioca "acusativar" esses pronomes e dizer "pegar ele", "espremer ela", "chamar eles".

(5) O carioca usa o gerúndio no lugar do infinitivo para ações contínuas. Dizemos "Estou tomando um cafezinho", "Ela está esperando o namorado", "Estou lendo um conto erótico" em vez de "...a esperar, ...a tomar, ...a ler".

(6) O carioca usa a forma "a gente" como "nós". Quando ele quer se referir a um grupo, o carioca dirá preferencialmente "essa gente", "as pessoas", "a turma". Por exemplo: "Essa gente não sabe o que é um bom conto erótico!"

(7) Um item dirigido ao lusófone não brasileiro.

"Tenho comido", "tenho feito", "tenho escrito", "tenho ido". O carioca usa essa forma como presente contínuo e não como um passado realizado e acabado. Nós usamos a forma "tenho dito" no sentido de "está falado", mas é arcaizante e pertence ao discurso formal. O uso brasileiro do presente seguido do particípio passado é produtivo. No francês, por exemplo, esta mesma forma está "ocupada" pelo passé composé, o tempo passado de uso coloquial. Um francófone dirá: "Ces derniers temps, j'écris des contes érotiques" para significar o que nós dizemos simplesmente com "Tenho escrito contos eróticos".

(8) O carioca raramente faz a concordância canônica em frases como: "Vendem-se apetrechos", "organizam-se encontros", "não se admitem menores"; ele dirá "vende-se", "organiza-se", "não se admite". Muitos interpretam isso como puro erro, coisa de falantes de pidgin ou de falar crioulo. Penso contudo que a disciplina da Análise do discurso poderia sugerir alguma interpretação das mais interessantes para o fenômeno.

Que bastem por ora os itens acima.

-------------------
(*) "Carioca" é o gentílico para as pessoas nascidas na cidade do Rio de Janeiro, frequentemente (e impropriamente) reinvindicado por fluminenses de outras cidades do Estado do Rio.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Eu gostaria de receber um parecer seu. Obrigado!