40. Círculo Onírico?
São dez em ponto. Com um
suspiro e tomando coragem para iniciar um segundo programa que certamente
terminará em sexo, Aninha está prestes a enfiar um vestido de noite quando o
telefone toca. A foto de Maximiliano não deixa dúvida e ela atende com um alô
tímido. Ele começa a falar com uma voz desanimada e após desculpar-se
declarando-se profundamente desapontado e envergonhado, desmarca o encontro
alegando razões que fogem ao seu controle. Aninha se ilumina toda e um enorme
alívio se instala em seu ser. Mesmo assim, ela faz uma voz compungida que
emerge do "biquinho" comovente que não passa despercebido ao chefe.
— Não fica assim, Ana. Vamos recuperar isso
o mais rápido possível, está bem?
— Fiquei tristinha,
mas se você está prometendo, eu acredito.
— Essa é a boa
atitude, Ana. Boa noite, então.
— Boa noite.
Quando Maximiliano desliga, Aninha deixa-se
cair no sofá, achando graça da sorte que deu. O longo banho que ela acaba de
tomar fez bem, mas ela sente-se mentalmente cansada após o primeiro dia de
trabalho somado à intensidade da sessão de sexo no loteamento com Ricardo e
toda e expectativa que acaba de dissipar-se. Ela faz um lanche frugal na
cozinha e, contrariando seus hábitos, mete-se na cama antes mesmo das dez e
meia, fechando os olhos quase instantaneamente.
— Aninha! Aninha! Acorda! sussurra uma voz
masculina.
— Hã? Que foi? Quem é que...
— Está maluca? Foi dormir e nem me viu aqui!
— Gabriel?! indaga
ela, apoiando-se nos cotovelos para olhar na direção da voz.
— Acertou!
— Como é que você
entrou?
— Liguei para o
Kleber e ele me deixou aqui. O dono do apartamento sempre tem a chave, lembra?
— Mas... Como assim?
Não estou entendendo nada!
— Relaxa! Não gostou
de me ver?
— Não é isso, é
que... D'aonde você saiu, cara?
— Cansei de Cabo
Frio e voltei para o Rio, mas não volto para casa não, vou morar é contigo!
Aninha afasta o
lençol e senta-se na cama esfregando os olhos, ainda incrédula, vendo uma
silhueta baça em meio ao que lhe parece ser uma bruma confusa que a impede de
saber com precisão onde se encontra a origem da voz. Aos poucos, a bruma se
dissipa e uma misteriosa luz ilumina o quarto, permitindo-a ver o reflexo da
porta através do longo espelho do guarda-roupa em frente à cama. O intruso
avança. É mesmo o Gabriel que ela conhece desde sempre, alto, magro e bonito, a
pele cor de chocolate ao leite que ela tanto gosta, o Gabriel que a olhava da
janela tomar sol de biquíni no quintal de cimento da casa de subúrbio. Ela se
levanta correndo e vai pendurar-se em seu pescoço, cobrindo-o de beijos, toda
emocionada.
— Eu achei que a
gente nunca mais ia sever, cachorro!
— Foi você que me
largou lá em Cabo Frio ,
esqueceu?
— A francesa não
desgrudava mais de você!
— É, mas confessa
que você queria ir embora, vai.
— Você nem sabe o
que eu sofri. Apanhei da vida, cara.
— Esquece isso, diz
ele, desinteressado. Sabia que você está muito gostosa?
Gabriel sai do
quarto puxando Aninha pela mão. Ainda confusa, ela tateia na sala difusamente
iluminada pela claridade dos prédios vizinhos que se infiltra através da
cortina translúcida. Gabriel a solta no meio do cômodo e contempla seus seios
nus.
— Você não pode
ficar aqui, Gabriel, diz ela, olhando-o.
— Por que não? Você
não quer?
— Isso aqui não é
meu. O Kleber não vai aceitar alguém morando aqui comigo.
— Porquê? Ele é teu
macho? Ah não, eu tinha esquecido que ele era viado!
— Ah, deixa de ser
ignorante, cara!
— O quê? Só pode ser
viado para te deixar morar aqui sem pagar e não querer nada em troca!
— O Kleber é meu
amigo e está me dando uma chance. Eu arrumei emprego, comecei ontem. Agora vou
poder pagar aluguel.
— Então! Se você vai
pagar aluguel, eu posso ficar! dispara o rapaz, querendo parecer inteligente.
— Não é bem assim,
Gabriel, diz ela, impaciente. Quer uma cerveja?
— Quero.
Aninha vai até a
cozinha sabendo-se observada. Siderado com sua semi-nudez, Gabriel acompanha
extasiado o caminhar provocante que destaca o movimento das nádegas. Ela olha
para trás e dá um risinho. Ele a segue e agarra-a por trás, colando-se a ela e
premendo-lhe os seios.
— Saudade desse
corpo tesudo!
— Ai, Gabriel, para!
Me deixa pegar a cerveja, vai.
Ele a solta rindo,
vendo-a curvar-se diante da geladeira para pegar as latinhas. O fio da calcinha
surge, bem ajustado ao fundo do sulco.
— Você fica sempre
assim em casa? Deve ter vizinho tocando punheta todo dia
— Não estou nem aí,
Gabriel! diz ela, passando-lhe a cerveja.
A temperatura na
cozinha está mais agradável. Eles decidem ficar.
— E aí, trepando
muito no Rio? pergunta ele, de chofre.
— Não prefere saber
se eu estou namorando ou gostando de alguém? pergunta ela, fazendo-se de
ofendida.
— Não. Você está?
— Não, mas já fiquei
com alguns caras. E você?
— Não, larguei a
francesa e estou solteiro.
— A Stéphanie era
boa para você, não era?
— Era, mas ela
queria mandar na minha vida. O lance dela era ter um novinho para trepar, só
isso.
— Ela é uns vinte
anos mais velha que você!
— Por aí, diz ele,
sorrindo orgulhoso.
Aninha gosta desse
último sorriso que lhe parece desarmado e franco. Ela se aproxima de Gabriel
que está encostado na mesa da cozinha sorvendo um gole de cerveja. Ela tira-lhe
a latinha das mãos, aninha-se entre suas pernas e lhe dá um beijo cheio de
ternura.
— Você queria tanto
isso quando me espiava da janela, lembra?
— Se lembro! Minhas
punhetas eram todas para você, responde ele, enquanto pousa ambas as mãos nas
nádegas do seu primeiro objeto de desejo.
— Uma vez eu te vi
nu trocando a lâmpada, sabia?
— Claro que eu
sabia; foi de propósito!
— Ah é, safado?!,
quase colando a boca na dele e socando-lhe o peito de brincadeira.
— Vai dizer que não
gostou?
— Eu lembro que
achei grande porque deu pra ver lá do quintal.
— Agora está maior
retruca ele, todo prosa, puxando-a.
— Será? indaga ela,
apalpando-o através da calça.
— Hãhã, cresceu mais.
Aninha sabe que é
incapaz de resistir. Ela vai vai abrindo a calça de Gabriel como quem não quer
nada. O membro de mais de dezoito centímetros por cinco de diâmetro está
rebatido para um lado e mantido junto ao corpo pelo tecido elástico da cueca. Aninha
agarra e aperta a protuberância roliça, excitada com as sensações da textura,
rigidez e temperatura. Gabriel lhe dá toda a liberdade, deixando-a
redescobri-lo ao seu ritmo. Pretensioso, ele pensa que despertou nela uma
avidez de adolescente, mas está enganado. Aninha o solta, afasta-se e vai para
a sala propondo-lhe que fique de cueca se quiser. Ele a segue e despe-se,
deixando a roupa pelo chão, assanhado. Ela o chama até a janela e mostra-lhe os
prédios em frente, apontando para os apartamentos onde ela ja viu gente nua e
cenas íntimas.
— Hum! Você vê muita
putaria, é? faz ele, passando para trás dela, excitado.
— Já vi até de dia,
casais trepando na volta da praia, responde ela, oferecendo-se e sentindo os
bicos dos seios entumecerem-se ao contato das mãos quentes do invasor.
— Aposto que alguém
já te viu, diz ele, aninhando o membro entre as coxas que ela abre e fecha em
seguida.
— Pode ser, responde
ela, dispersiva.
— Estou doidinho
para te dar prazer, gata, murmura ele com a boca colada à sua nuca enquanto seu
pênis roça gentilmente a vagina num vaivém suave.
— Você quer é trepar
comigo, Gabriel! Você sempre quis trepar comigo. Pensa que eu nasci ontem?
— Está legal, eu
confesso! E você não acha que a hora é essa? retruca ele, já tentando abrir
espaço ao lado do fio da calcinha para penetrá-la por trás.
— Para, menino!
Daqui a pouco a gente vai dar show, aqui!
— Você disse que não
estava nem aí, lembra? provoca ele, pincelando a fenda com o sexo molhado.
— Lembro, Gabriel!
exclama ela, pondo-se na ponta dos pés e debruçando-se na janela para
dificultá-lo.
— Você não vai me
negar isso, vai, gata? diz ele, puxando-a gentilmente para baixo e desistindo
momentaneamente de penetrá-la, observando a glande reluzente que agora desliza
entre as nádegas.
— Faz quanto tempo
que você me quer, Gabriel? pergunta ela, virando-se e empunhando o membro para
olhá-lo.
— Sei lá. Um montão
de tempo. Anos. Eu tocava punheta te vendo tomar sol de biquíni ou lavando
roupa de shortinho.
— Você contou as
punhetas?
— Eu não, mas foi
muita coisa.
— E aí eu saí de lá.
— Pois é, e eu fui
atrás, mas cada um foi pra um lado.
— Eu queria largar
aquela vida, Gabriel, melhorar, explica ela com sinceridade, enquanto percore o
tronco do pênis dele com a mão, espalhando o líquido.
— E não melhorou?
Você foi até gerente da loja da francesa!
— É, mas o preço foi
alto, cara, diz ela, reflexiva.
— Eu sei que a barra
pesou, mas não pensa mais nisso. Vem, faz ele, puxando-a até o sofá.
Pela primeira vez, o
eterno admirador e sua deusa inacessível vêem-se juntos sem qualquer
animosidade. Gabriel senta-se recostado num braço do sofá e Aninha ao seu lado
com as pernas por cima das dele. Fragilizada pelas reminiscências desse
reencontro, ela retoma-lhe o membro e fica brincando com ele como se fosse um
João bobo, enquanto o rapaz olha sorrindo para o seu rosto bonito e para os
seios perfeitos. Aninha se inclina na direção dele e um primeiro beijo
apaixonado inaugura um tipo completamente diferente de relação entre os dois
velhos conhecidos, um longo beijo profundo e molhado que causa a ambos arrepio
e emoção, um beijo de longos minutos que os leva a um grau de excitação
intenso. Aninha só deixa os lábios de Gabriel quando as pulsações em sua mão
lhe ditam o próximo passo. Ela se curva e colhe o orvalho da fruta rubra,
proporcionando ao rapaz o prazer tão desejado. Ela percebe na língua o efeito
do seu gesto; o pênis verte fluido abundante que ela não hesita em engolir. Em seguida,
ela se apropria integralmente do que tem na boca, arrancando gemidos de Gabriel
até forçá-lo a fazê-la gentilmente parar, e eles se beijam novamente.
— Pensei que fosse
ter nojo de me beijar, brinca ela.
— Por quê? É o meu
gosto! retruca ele, beijando-a com mais volúpia ainda.
Gabriel levanta-se
e, sem que ele diga nada, Aninha ergue as pernas abrindo-as ao máximo e
puxando-as para trás, oferecendo-se. Ele então se ajoelha no chão e põe-se a
lambê-la, concentrado, disposto a proporcionar-lhe o maior prazer do mundo. Sua
língua percorre os lábios, brinca com o clitóris e desce até o ânus, sentindo-o
pulsar intensamente.
— Assim.... Está
delicioso com a língua, sussurra ela, abrindo-se toda para este que ela agora
sabe ser o único que a merece realmente.
Um primeiro orgasmo
faz Aninha experimentar um prazer novo; de sua vagina, um jato quente colide
contra o rosto de Gabriel, que recua assustado.
— Não é nada, bobo!
Eu também não sabia. Isso nunca me aconteceu.
— Você mijou?
— Não! Eu gozei, mas
isso é outra coisa. Eu já vi num vídeo, mas não prestei atenção no nome. Vem,
ordena ela.
Gabriel ajoelha-se
na beira do amplo assento do sofá, dá tapinhas na vagina encharcada com o pênis
e prepara-se. Aninha olha-o fixamente nos olhos quando ele se afunda nela com a
intenção de penetrá-la até a base do seu longo e grosso membro.
— Aaaah! Vai me
rasgar, geme ela, detendo-o um pouco com as mãos.
— Está doendo?
— Eu não sabia que
era tão grosso. Mas não para, vai.
O pênis de Gabriel a
preenche tão completamente que a cada arremetida, ela morde os lábios com os
dentes, mas isso não o impede de iniciar um vaivém profundo e ritmado que
revela uma bela resistência.
— Estou realizando o
meu maior sonho, gata, geme ele.
— É, meu lindo? Teu
sonho era comer essa bucetinha, era? faz ela, toda manhosa. Então come. Fode
gostoso, fode.
— Com você falando
desse jeito, então, eu endoido de tesão! diz ele, dando inúmeros golpes de
bacia para fazê-la saborear cada sonoro impacto do seu corpo contra o dela.
— Vem me beijar,
ordena ela, agarrando-lhe as nádegas e puxando-o para ficar dentro dela.
— Hum... Isso,
agarra com força a minha bunda, gata!
— Você gosta disso?
indaga ela.
— Com você, eu
gosto, defende-se ele.
Aninha então
arrisca-se a percorrer o sulco com os dedos, roçando intencionalmente o orifício.
— Aí não, gata!
protesta ele, afastando-se sem sair dela.
— Por que não?
— Não curto. A
francesa chegou a fazer, mas não é a minha.
— Vem de
papai-e-mamãe que você vai adorar.
— Ah não...
— Vem que eu estou
mandando! brinca ela.
Aninha deita-se no
sentido do comprimento do sofá, abre as pernas e Gabriel vem por cima,
penetrando-a à maneira tradicional. Agora, ela alcança facilmente as nádegas e
continua a explorá-las.
— Não vai meter!
pede ele.
— Psiu! Eu é que
mando.
Induzindo-o a
retomar o vaivém, ela inicia lentos movimentos circulares diretamente no ânus,
interrompidos por curtas tentativas de penetração da extremidade do dedo. Gabriel
é forçado a admitir intimamente que a sensação não o desagrada e intensifica
seus movimentos para encorajá-la. Instantes depois, Aninha consegue introduzir
um dedo e logo sente as vigorosas pulsações que o comprimem.
— Até que com você
não é ruim, diz ele, gemendo.
— Eu sabia que você
ia gostar. Todo homem gosta!
— Mas parece coisa
de viado, brinca ele.
— É, mas não é,
reforça ela, movendo o dedo dentro dele. Agora soca forte para você gozar.
— Vou poder gozar
dentro, é?
— Não. Quando chegar
a hora, vou querer na boca.
— Aí falou bem!
A aceleração dos
movimentos e o acréscimo de excitação trazido por Aninha leva Gabriel
rapidamente ao ápice do prazer. Assim que ele sente a primeira fisgada no
períneo, retira-se dela e vem montá-la para descarregar em sua boca todo o
conteúdo que ele destinou-lhe há tanto tempo. Empunhando firmemente o pênis,
ele o aponta diretamente para a língua e assiste extático à sucessão de jatos
certeiros. Aninha mantém a boca aberta num largo sorriso de satisfação enquanto
prova nas papilas os diversos sabores desse sêmen, o primeiro que ela acolhe
sem qualquer repugnância. Quando Gabriel termina, ela suga-lhe a glande e o
grosso membro até limpá-los de todo resíduo. Em seguida, dando tapinhas na coxa
do rapaz para que ele a olhe com atenção, ela brinca com o esperma na boca e o
deglute num so gole, estalando a língua bem-humorada. Gabriel contempla
maravilhado cada detalhe e antevê as delícias de sua nova relação com a paixão
de sua vida. Subitamente, uma bruma os envolve e os transporta para o
quarto, para a cama. Aninha descobre seus dedos mergulhados em seu próprio sexo,
e isso a intriga. Ela olha para um lado, para outro, mas só consegue ver a
bruma luminosa dissipar-se e dar lugar aos primeiros raios de sol que conseguem
penetram pelos orifícios da velha persiana.
E assim se termina
essa Odisseia que, se não levou Aninha aos cumes da emergência, permitiu-lhe
certamente comprovar que não só a vida não é fácil, como deve ser vivida sem a
falsa convicção tão comum de que o que temos ao alcance da mão é precisamente o
que devemos desprezar. Onírico ou não, o círculo se fecha na origem.

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