Um grupo de amigos de infância se reúne regularmente
para botar o papo em dia e trocar experiências de vida. Afim de sentirem-se mais à vontade, foi
decido que o anfitrião seria sempre aquele cuja família estivesse ausente. Neste
mês de julho de 2016, é Benjamin que pode oferecer seu apartamento para o
evento; sua esposa e os dois filhos estão passando quinze dias em uma pousada
em Parati e ele só vai juntar-se a eles na segunda semana. Ele está
um tanto inquieto porque cabe ao anfitrião narrar uma experiência marcante e
neste encontro ficou decidido que o tema versará sobre a presença de elementos
homossexuais na primeira juventude. Ele está consciente de que a maioria dos
meninos tem algum tipo de contato dessa natureza, por mínimo que seja, com
amigos, vizinhos e até parentes, mas ele tem algo de particularmente
extraordinário a contar. Nada o obriga a revelar aspectos de sua vida íntima
que ele tem mantido a sete chaves, mas conhecendo como ele conhece os seus
amigos, ele sabe que vai ser difícil esquivar-se nessa ocasião. Ao longo de
tantos anos de amizade, foi impossível não confidenciar-lhes, aqui e ali,
fragmentos de sua adolescência, e portanto, eles sabem que há coisas não ditas
e estarão curiosos para ouvi-las.
Tudo está pronto, os comes e bebes em lugares
estratégicos para serem renovados constantemente, as janelas bem abertas com
vista para o Jardim Botânico. Mal Benjamin coloca o último copo sobre o
descanso, a maçaneta gira e seus quatro amigos despontam ruidosos pela porta de
entrada. Sílvio, gordinho e bonachão, esmaga-o contra o peito dando-lhe um
beijo ruidoso no rosto. Eduardo, mais tímido e reservado, limita-se ao aperto
de mão e um tapinha no flanco. Otávio, o amigo expansivo, inteligente e
criativo, abre os braços e solta um grande "Ahhh! Isso é que é vida!"
dando um giro para ver a bela decoração do apartamento de família tradicional
carioca. Por fim Jaime, o mais equilibrado e terra-a-terra dos quatro,
cumprimenta Benjamin olhando-o nos olhos e perguntando-lhe como vão Anaís e as
crianças. Depois dos cumprimentos, idas ao banheiro para refrescarem-se e a
conversa inicial sobre os últimos acontecimentos da vida de cada um, já por
volta das dez da noite, Otávio convoca a atenção do grupo.
— Senhores! Senhores! É hora de irmos ao que interessa.
O tema do dia é a presença de fatores homossexuais na formação da nossa
sexualidade. Lembro que como nenhum de nós é gay, já que nenhum de nós jamais
ressentiu qualquer tendência a desenvolver por homens o tipo de afetividade
espontaneamente despertada em nós pelas mulheres, decidimos de concenso adotar
a palavra "homossexual" em seu sentido mais estrito para o tipo de
relação que vamos abordar, isto é, a pura relação sexual despida de qualquer
afetividade. Como de praxe, cabe ao anfitrião narrar um fato marcante de sua
própria experiência. Passo portanto a palavra ao nosso amigo Benjamin,
esperando que ele se atenha a esse critério tal como previamente o definimos.
De sua poltrona obliquamente posicionada diante de
Silvio, Eduardo e Jaime, instalados no sofá, e oposto pela mesinha de centro a
Otávio na outra poltrona, Benjamin pigarreia e começa ligeiramente embaraçado.
— Euh... Bem, o que eu preparei exigiu muita coragem
de minha parte, e talvez deixe algum de vocês de cabelo em pé. Mas como somos amigos
há muito anos e nossa intenção, nesses encontros, é narrar com sinceridade e em
detalhe fatos marcantes, achei por bem revelar um episódio que provavelmente
uma única pessoa no mundo além de mim tenha integralmente na memória.
E Benjamin inicia a sua narrativa.
"Como vocês sabem, minha família é numerosa e eu
nasci e cresci aqui no Jardim Botânico, numa casa grande e agitada. Com três
irmãs mais velhas e um irmão mais novo, vocês podem imaginar a quantidade de
amigos, namorados e namoradas que passaram por aquela casa assim que o primeiro
de nós tornou-se um pouco mais autônomo. Não havia uma semana sem que um ou
mais de nós recebesse um amigo ou amiga para dormir. Aos namorados e namoradas,
era vedado passar a noite em nossos quartos, mas nada impedia que, por exemplo,
o namorado de uma das minhas irmãs ficasse no quarto que eu dividia com meu
irmão e uma namorada minha ou do meu irmão ficasse com uma das minhas irmãs. Isso
acontecia regularmente."
— Interessante, observa Eduardo com ar cético.
— De fato, diz Jaime. As famílias grandes funcionam de
outro modo.
— Eu que o diga! lança Otávio. Éramos doze lá em casa!
— Pois é, a vida em família numerosa tem suas
peculiaridades, reforça Benjamin. Mas vamos adiante, pois quero poder narrar
minha aventura inteira.
"Julia, minha irmã mais velha, era a mais
espevitada. Na maioria das vezes, ela namorava mais de um rapaz ao mesmo tempo.
Cheguei a vê-la driblar com quatro encontros diferentes, e ela fazia isso muito
bem. Isso tornava seus namoros cada vez mais superficiais, porque os rapazes
deviam perceber que seu apego não era dos maiores e isso os selecionava segundo
um critério de humor e leveza; eram mero passatempo. Essa ausência de
possessividade dava a maior liberdade aos namorados, que muitas vezes iam lá em
casa para desfrutar da piscina e jogar sinuca até mesmo quando minha irmã não
estava. Fui bom amigo de alguns deles e foi muito provavelmente isso que
propiciou o caso específico que vou contar.
Eu tinha por volta de dezessete anos e Julia vinte e
um. Como de costume, ela jogava com seus romances, tramando encontros em
horários diferentes e evitando habilmente que os rapazes suspeitassem disso. Ela
era muito bonita e bem-humorada, e sabia inventar programas perfeitamente
adequados ao temperamento de cada um deles. Lembro-me como se fosse hoje
daqueles três incautos indo lá em casa em horários alternados, às vezes no
mesmo dia. Um deles, chamado Vicente, já tinha cerca de vinte e três anos e se
apaixonou perdidamente, não pela minha irmã, mas pela minha família inteira e
pela nossa casa. Quantas vezes minha irmã saía para encontrar outro namorado
deixando-o lá em casa conosco! Quantas vezes ele jogou videogames até altas
horas da noite comigo e meu irmão e dormiu no nosso quarto sem sequer ter visto
a minha irmã! Vicente era seis anos mais velho que eu, oito mais que meu irmão,
mas tinha a jovialidade de um adolescente.
Naquele ano, fui isento das provas de junho e entrei
de férias uma semana antes dos demais. As aulas de natação terminaram, mas eu
continuei indo ao Flamengo diariamente para nadar e jogar tênis. Eu namorava
uma colega da escola que, ao contrário de mim, ficara "presa" em
todas as disciplinas e estava vivendo os horrores da preparação para as provas
de fim de semestre. Nos víamos rapidamente depois das aulas dela, no Anglo,
comíamos alguma coisa no McDonalds, às vezes pegávamos um cinema e ela voltava
para casa e para o estudo. Eu ia para casa e ficava à toa, esperando que todos
entrassem de férias para viajarmos. Meu pai, que eu via raramente, gostava do
calor do Nordeste e reservava invariavelmente quinze dias em julho no hotel
Tambaú.
Certo dia, muito quente embora fosse junho, cheguei em
casa, vesti uma sunga e fui direto para a piscina. Dei umas braçadas e quando
me preparava para tomar sol, avistei o Vicente no salão de jogos, de sunga como
eu, mas vendo televisão. Resolvi ir cumprimentá-lo e acabei ficando. Era um DVD
de um desses filmes de férias, do gênero A Vingança dos Nerds, desses
em que tudo é pretexto para que as meninas mostrem os seios. De saída, Vicente
me pareceu um pouco incomodado com a minha chegada, mas logo empolgou-se por
uma lourinha fácil, de olhos azuis e corpo realmente exuberante que o distraiu.
Sentado ao seu lado, fiquei com vergonha de deixar transparecer na sunga algo
que pudesse dar a ele o ensejo de zombar de mim, mas como por sua vez ele
fizesse comentários aqui e ali, acabei ficando curioso para saber se aquilo
estava gerando também nele algum efeito "anatômico". E de fato, volta
e meia ele levava discretamente a mão à sunga, que parecia pronta a ser rompida
pela barra roliça que eu via atravessada nela. Eu limitava-me a sorrir, sentado
com os cotovelos nas coxas e queixo entre as mãos, tentando esconder o meu
próprio volume e principalmente a minha curiosidade. Mas à certa altura, a
pressão erótica exercida pela visão da tal lourinha sempre de biquíni deve ter
sido insuportável para o Vicente.
— Essa menina é gostosa demais, cara! Olha só de que
jeito ela está me deixando!
Imaginem vocês que ele disse isso baixando a sunga e
liberando o membro que girou de noventa graus até pairar acima da barriga em
total ereção! Embaraçado, eu não sabia o que fazer, simplesmente porque não
fora programado para reagir a isso. Por mais jovem e moderna que fosse a minha
família, havia certos limites que eu jamais ultrapassara, limites aos quais
Vicente parecia não ver a menor necessidade de dobrar-se. Ele se recostou no
sofá e pôs-se a manipular lentamente o pênis muito duro enquanto se deleitava
com a visão da lourinha de seios expostos.
— Vai ficar aí de pau duro sem fazer nada, cara?
indagou ele, dando-me um safanão no ombro.
Eu não sabia o que responder e muito menos o que
fazer. Vicente precisou literalmente ordenar que eu fizesse como ele. Obedeci
timidamente e pouco depois, fato inédito até então, lá estáva eu,
masturbando-me diante da tevê, e com o namorado da minha irmã! Ele olhava com
toda naturalidade para o meu colo, mas eu só conseguia olhá-lo do canto do
olho, e quando ele me parecia estar distraído. Uma boa porção do seu membro
ultrapassa o punho fechado, indicando que era mais longo que o meu. Nas cenas
mais banais do filme, ele o largava para retomá-lo quando as meninas ressurgiam
na tela. Pude então notar que ele se raspava completamente, ao contrário de mim
que só aparava para evitar que os pelos ficassem retorcidos. Eu já tinha uma
certa atividade sexual e minha namorada tinha um pouco de nojo de pelos, mas eu
não queria parecer criança, então me negava a raspar tudo como ela fazia.
À medida que o filme avançava — já passava da metade
quando cheguei –, fui ficando à vontade com o nosso exibicionismo e os momentos
de ereção e semi-ereção, e acabei assistindo ao resto do filme como se
estivesse sozinho ou com meu irmão. Quando foi chegando ao final, e que as
meninas apareciam ainda mais nuas, acreditei que o Vicente fosse provocar o
orgasmo, mas não, ele masturbou-se mais intensamente, mas nada aconteceu. Assim
que os créditos começam a escalar a tela e toquei no elástico da sunga para
repô-la no lugar, senti a mão do Vicente vir instalar-se no alto da minha coxa
e, para total surpresa minha, ouvi o pedido, numa voz mansa, meio amalandrada,
que eu ainda não conhecia.
— Pega aí, cara, na boa!"
— Caramba! Exclama Silvio, interrompendo bruscamente a
narrativa!
— E você caiu, comenta o sombrio Eduardo.
— É tudo que ele mais queria! solta Otávio com uma
gargalhada.
— Que é isso, Otávio! intervém Jaime em defesa do
anfitrião.
— Querem que eu continue ou não? interrompeu Benjamin,
vendo uma dicussão armar-se.
— Vai em frente, pede Jaime, acalmando os demais.
Aplacados os ânimos, Benjamin retoma com voz pausada.
"Ponham-se no meu lugar. Dezessete anos,
hormônios transbordando, erotismo no ar, sozinho com um amigo mais velho não só
digno de confiança, mas capaz de banalizar um tabu como a manipulação de um
pênis alheio. Isso, para um adolescente, é tirar a sorte grande! É óbvio que eu
não queria ser o único a satisfazer o outro; a primeira coisa que fiz depois
que decidi para mim mesmo entrar no jogo foi estabelecer a condição de
reciprocidade, e Vicente acatou sem discutir. Instantes depois, estavamos lado
a lado recostados no sofá, empunhando o pênis um do outro e rindo a valer.
Foi o Vicente que cessou com as gracinhas e,
mostrando-se realmente excitado, tomou a iniciativa de masturbar-me, certamente
para indicar o caminho, mas principalmente evitar que eu entrasse em
questionamentos sobre a nossa masculinidade e começasse a hesitar. Ele fora
escolhido pela minha irmã dotada do faro mais agudo para rapazes habituados a
namorar. Eu não tinha, portanto, nenhuma razão para duvidar da masculinidade
dele. Sendo assim, eu o imitei, mas estava disposto a levá-lo rapidamente ao
orgasmo, ter meu próprio orgasmo e dar a coisa por encerrada. Entretanto,
à certa altura, ele interrompeu-me, e dessa vez, sua voz não saiu tão fluida,
mas grave e ligeiramente rouca, talvez por um certo nervosismo.
— Estou com tanto tesão, cara! Não está a fim de fazer
outra coisa?
Não nego que entendi o que ele queria dizer por
"outra coisa". Longe de querer parar para evitar excessos, ele queria
ir além da simples masturbação. Mas eu era incapaz de adivinhar o quê, e talvez
nem ele soubesse exatamente, naquele momento. Estávamos sozinhos ali e o
Vicente muito mais excitado que eu. Ele pôs-se a olhar para todo lado, como
quem procura uma saída. Perguntei o que era e ele me disse que estava com medo
que alguém entrasse. Fiquei um pouco apreensivo; se teríamos que nos esconder,
é que íamos para um terreno proibido. Mas àquela altura, a máquina engrenara e
não havia mais volta.
— Ninguém vai vir aqui, cara, respondi, aceitando a
cumplicidade.
Ele olhou mais uma vez para os três acessos ao salão
de jogos e foi então que "descobriu" o bar como se o visse pela
primeira vez.
— Vem! disse ele, puxando-me pelo braço e já
levantando-se.
Chegando ao bar, assisti à cena mais bizarra de toda a
minha vida até então. Depois de alguns momentos de hesitação, Vicente tirou
rapidamente a sunga e deitou-se nu no chão do bar, entre os frigoríficos,
ficando com a cabeça quase entre minhas pernas e olhando para cima. Continuei
de pé, olhando intrigado enquanto ele gesticulava para que eu me abaixasse.
— Vai me dizer que nunca fez um sessenta-e-nove, cara!
exclamou ele."
— Essa é a maior! Grita Otávio, irrompendo Benjamin
com outra sonora gargalhada.
— Cala a boca, Otávio! O Benjamin está perfeitamente
dentro do tema. O que você queria que ele fizesse nessas circunstâncias?
— Estou admirado, meu amigo, lamenta o tassiturno
Eduardo.
— Bah! Tanta gente passou por isso e não conta,
retorque Jaime.
— Jaiminho deu umas chupadinhas também? faz Otávio com
voz zombeteira.
— Isso parece incomodar mais você, meu caro!
— Assim não vou conseguir terminar, diz calmamente o
narrador.
— Está bem, está bem, estou quieto, conforma-se
Otávio, calando-se.
Benjamin franze o sobrolho, concentrado, e prossegue.
"A meu ver, a questão toda se resume na velha
máxima: com a pessoa certa, no lugar certo e na hora certa". Aquele
momento e lugar eram propícios à realização de coisas que só passam pela mente
de um jovem educado para ser exclusivamente heterossexual na solidão do quarto
ou do banho. Vicente namorava a minha irmã, era um cara legal e não me forçou a
nada, apenas propôs. Eu estava ali, olhando para baixo e vendo alguém com quem
eu já tinha intimidade suficiente para chegar a uma masturbação mútua. Mas
vocês bem sabem o que é masturbação sem orgasmo; é como um coito interrompido! A
verdade é que estávamos ambos ainda muito excitados e procurando um meio de
extravasar toda essa energia sexual agora ativada. Ademais, eu não situava a
posição sexual que ele propunha no mais alto grau da escala das atitudes
homossexuais, já que eu praticava regularmente o sessenta-e-nove com a minha
namorada. A diferença é que eu teria diante dos olhos um pênis e não uma
vagina. Mas estávamos sozinhos e eu teria todo o direito de recusar-me a pô-lo
na boca; eu poderia perfeitamente voltar a masturbar o Vicente em vez de
embarcar numa felação.
Enquanto durou o meu longo momento de indecisão,
lembro-me de ter olhado para as três portas francesas do salão tentando
certificar-me de que ninguém viria, depois novamente para o Vicente. Acho que
disse alguma coisa a ele, não me lembro mais o quê, mas acabei aceitando mais
esse desafio e abaixando-me conforme suas instruções, para ficar de quatro por
cima dele, que puxou imediatamente o meu pênis para trás e pos-se a chupá-lo. Demorei
alguns instantes até acostumar-me à idéia de pôr o dele na boca, mas o que eu
sentia no baixo-ventre era tão intenso que não tardei muito a corresponder."
— Um viadinho, murmura Eduardo, descontente.
— Se você não está disposto a tratar o tema com mente
aberta e espírito investigador, é melhor ir embora, Eduardo, diz Jaime. Pelo
visto, você foi invulnerável a essas experiências tão comuns na juventude.
— É! Passou entre os pingos, meu filho? larga Otávio,
sarcástico.
— Está tudo bem, interrompe Benjamin, eu esperava por
isso.
Depois de um bate-boca de alguns minutos, Eduardo
resolve ir embora. Os restantes discutem um pouco sobre as causas possíveis da
atitude do amigo e cerca de vinte minutos depois, Benjamin pôde retomar seu
relato.
"Eu chupei, e digo a vocês que não foi tão
desagradável assim. Depois que enxuguei a glande, a ação em si foi instintiva
como a dos filhotes que descobrem as tetas da mãe. Eu estava por cima do
Vicente, tinha bastante liberdade de movimentos e me agradaram as sensações
auferidas da felação masculina, todas mais intensas, talvez por causa dos gestos
firmes e decididos daquele que lida com algo que lhe é intimamente familiar. Mais
uma vez, eu estava preparado para ir até o fim, embora não quisesse de modo
algum que ele ejaculasse em minha boca! Quando mencionei isso, ele respondeu
que era extremamente resistente, em se tratando de sexo oral. Isso
tranquilizou-me e permitiu-me dar vazão a uma curiosidade que me parece
perfeitamente natural e justificável."
— Concordo com o Benjamin, interrompe Jaime, e admito
que passei por uma fase de grande interesse pelo meu pênis, quando ele atingiu
suas dimensões quase definitivas e permitiu-me descobrir o poder e a força de
atração que o sexo masculino exerce não só sobre as meninas, mas igualmente
sobre amigos mais jovens, irmãos, primos, vizinhos com quem se tem contato
diário e mais íntimo.
— É verdade, confirma Silvio. E no meu caso, como eu
sempre tive um problema de obesidade, minha curiosidade em relação aos que
tinham corpos magros era redobrada e quase flagrante. O vestiário da escola,
onde nos trocávamos para a ginástica, judô e natação, era o lugar dos meus
tormentos porque eu olhava com inveja para os colegas que só precisavam olhar
para baixo para ver seu sexo. Os mais exibicionistas me causavam um verdadeiro
sofrimento porque eu imaginava o ridículo que seria desfilar pelo vestiário,
como eles faziam, por vezes em plena ereção, sem ser eu mesmo capaz de ver a
minha própria. Mas continue, Benjamin.
— Sim, vou continuar, mas esse tipo de aparte é
importante e só contribui para o debate, diz Benjamin, satisfeito.
"Enquanto a minha ação circunscrevia-se
estritamente ao pênis, Vicente expandia-se. Fazendo-me baixar mais sobre seu
corpo, ele passou a explorar-me os testículos, lambendo-os e sugando-os,
enquanto suas mãos passeavam pelas minhas coxas e nádegas. Estranhei quando sua
língua percorreu o períneo, mas essa sensação tão nova agradou-me sobremaneira.
Subitamente, senti um calor úmido diretamente na região anal; ele estava
lambendo-me ali, coisa que aos dezessete anos eu nem imaginava fazer parte do
repertório sexual. Talvez algum de vocês saiba que a sensação é de fazer subir
pelas paredes. Todo arrepiado e crendo ser oportuno retribuir, pus-me a chupar
e sugar com força o pênis que eu tinha na mão, como se desafiasse o Vicente a
continuar resistindo ao orgasmo. Eu podia ouvir seus ruídos salivares, bem como
pequenas cuspidas que atingiam o alvo bem no centro. A pressão dos dedos
agarrando-me as nádegas para separá-las provocava em mim sentimentos
contraditórios e, claro, apreensão, mas a excitação era crescente e o prazer
inegável.
Todo esse feixe de sensações novas associado à fricção
do meu membro contra o peito do Vicente ia levar-me ao orgasmo. Quando fiz que
ia erguer-me um pouco para postergá-lo senti, em pleno orifício, um toque
seguido de uma pressão. Tive um sobressalto, cada músculo do meu corpo
retesou-se, mas logo ouvi um "Relaxa isso!" e uma nova pressão
exerceu-se no mesmo lugar. Meu cérebro disparou: relaxar como? Ato contínuo, o
que eu viria a saber tratar-se do polegar do Vicente começou a deslizar
lentamente para o interior, arrancando-me um gemido à força. Paralizado como um
animal em choque, preocupei-me; eu jamais avançara mais de um ou dois
milímetros em meu próprio ânus com o dedo, sempre tivera medo de que algo se
rasgasse ou soltasse lá por dentro. Por mais que eu explorasse as pranchas de
anatomia nas enciclopédias, os intestinos eram um total mistério para mim. Aliás,
excetuando-se a boca, eu simplesmente não acreditava que houvesse cavidades por
trás dos orifícios do corpo; este me parecia integralmente preenchido, e
penetrá-lo resultaria em feri-lo e estragar alguma coisa em seu interior. Eu
tinha pela penetração anal o mesmo tipo de apreensão que se tem ao
aprofundar-se um cotonete no ouvido, onde o tímpano parece jazer à espera de
ser perfurado ao mais leve empurrão. Embora tenso com tudo isso, acabei
estatelado como uma rã sobre o corpo do Vicente, em estado de alerta e mais que
apreensivo. Mas ele foi massageando o perímetro anal com movimentos tão suaves
dos polegares e aprofundandos-o nele tão lentamente, sem jamais deixar de
acariciar-me as nádegas e as coxas, que o que senti não pode ser definido como
dor, mas apenas a reação elástica à dilatação e à fricção, perfeitamente
suportáveis. Um pouco mais distendido, voltei a chupar com saliva abundante,
deixando-me pouco a pouco levar pelo prazer dessa inédita preliminar digital."
— Portanto, nesse momento preciso, você começou a
sentir prazer, sugere Otávio, desta vez seriamente.
— Não vou mentir, senti prazer, sim.
— Interessante. E?
— Você já vai saber.
Acalorado e parecendo estar sofrendo as agruras de uma
batalha interna, Benjamin toma um farto gole de sangria e retoma a narrativa.
"Na minha mão, o pênis do Vicente, que atingira
suas dimensões definitivas e uma rigidez que parecia indefectível, pulsava
furiosamente. Hoje, posso estimá-lo em cerca de dezessete centímetros de
comprimento por uns quatro de diâmetro ou pouco menos. Diante do membro reto e
bem feito que a rigidez curvava ligeiramente para cima, e mais receptivo às
sensações causadas ininterruptamente pela língua e mãos do Vicente, vi-me
diante de uma evidência: a penetração era iminente. E de fato, não me espantou
quando senti duas mãos empurrarem-me para que eu voltasse a ficar de quatro e
avançasse um pouco. Obedeci e em segundos, Vicente pôs-se de joelhos e veio
colar-se a mim. Embora ciente, reagi, provavelmente exclamando um
"Ei!", mas ele esfregou-se em mim com tanto ardor que não precisou de
muito para que eu me convencesse de que aquele era o rumo natural do percurso e
que seria terrivelmente frustrante para ambos interromper ali. Olhando para
trás, vi-o ensalivar um polegar e tocar-me novamente o ânus, pedindo novamente
que o relaxasse bem. Em seguida, ele o penetrou fundo e o deixou là. Ainda
que apreensivo, eu estava pronto, reconhecia que o processo se desenvolvera de
maneira impecável e o desfecho me parecia lógico."
Benjamin sinaliza estar disponível a intervenções, mas
o silêncio absoluto dos seus ouvintes encoraja-o a prosseguir sem pausas.
"Ao primeiro contato do pênis e à medida que meu
ânus foi cedendo à pressão da glande lisa, macia, mas resistente, pareceu-me
que o meu corpo abria-se a uma nova dimensão de prazer. Aquela região que até
então me parecia inacessível, inexpugnável, inexplorável e sobretudo interdita
revelava-se agora como outro espaço aberto à expansão da minha sexualidade. Lembro-me
que ao fim da penetração gradativa, quando o corpo do Vicente voltou a colar-se
ao meu, soltei um "Ahhh!" de estranho alívio. Ele perguntou-me se
estava tudo bem, respondi que sim e ele quis saber se o meu pênis estava duro
ou mole. Respondi que nunca estivera tão duro. Ele então empunhou-o com mão
firme e pôs-se a masturbar-me como fazemos para ir até o orgasmo. Meu corpo
pôs-se a oscilar instintivamente para frente e para trás, e pude enfim sentir o
que os filmes mostravam provocar intenso prazer em quem realiza o sexo anal na
posição daquele que se deixa penetrar. O silêncio era cortado apenas pela nossa
respiração cada vez mais ofegante. Vicente sincronizou seus movimentos aos
meus, intensificou-os e passou bons momentos entregue a um vaivém regular,
extasiado e dizendo coisas agradáveis, até o momento de previnir-me de que o
seu orgasmo estava próximo. Ele então agarrou-me com força pela cintura e
manteve-se profundamente enterrado em mim enquanto duraram os espasmos. Firmando-me
bem nos braços, recebi os jatos de uma ejaculação que adivinhei abundante mas
que mal se sente no interior do corpo. Lubrificado pelo esperma, o membro do
Vicente pôde deslizar mais livre enquanto sua mão levava-me a um orgasmo quase
simultâneo ao seu. À medida que meu próprio esperma era emitido, Vicente
envolvia-me a glande e masturbava-me com vigor. Era a primeira vez que eu
resistia tão bem a essa fricção da glande, coisa que atribuo ao puro efeito da
excitação."
— Mas você não sentiu a menor dor, Benjamin? pergunta
Silvio. Pelo que você disse, o Vicente era razoavelmente bem dotado.
— A pergunta é oportuna, Silvio, responde o anfitrião.
A dor precisa, sim, ser levada em conta. Ocorre que como a penetração é uma ação
progressiva e a apreensão é grande, ao menor sinal de dor, aquele que penetra
para, recua, espera e recomeça. A primeira penetração é resultado de uma
sucessão de pequenas tentativas de ultrapassar o ânus. Lembro-me bem do quanto
essa etapa foi demorada em relação à duração total. Portanto, a resposta é que
a dor está virtualmente presente, mas pode ser praticamente eliminada e
tornar-se apenas a sensação de repuxamento causada pela reação do ânus à força
de expansão causada pelo pênis. Preferi poupar vocês do excesso de detalhes.
— Foi o que pensei.
— Minha pergunta vai par o lado oposto, anuncia Jaime.
Você não teve vontade de penetrar o Vicente?
— Não, mas unicamente porque ele era muito magro.
— Se ele tivesse um traseiro "apetitoso",
você teria pedido?
— Certamente, e teria sido mais proveitoso. Lembro-me
de ter lamentado um pouco isso, mas...
— Prossiga, prossiga! Interrompe Otávio, impaciente.
— Não há mais muito a dizer, Otávio. Terminamos
exaustos e saciados. Foram os momentos mais intensos que tive até então, em
termos de sexo. Naqueles minutos — porque foram minutos — experimentei
sensações que, pela mera força das circunstâncias, jamais se reproduziriam até
hoje, mas que me marcaram para sempre. Garanto-lhes, foi uma experiência única
e determinante para a minha sexualidade futura."
— Uau! exclama Silvio, as gordas bochechas vermelhas
de excitação.
— Você foi às últimas consequências! exclama Jaime. Estou
curioso para saber qual foi a parte mais difícil para você, nisso tudo.
— Certamente a posição "de quatro", que é um
tanto constrangedora porque traz uma conotação de submissão daquele que a toma
para deixar-se penetrar.
— Ao contrário da mulher, que se exibe com orgulho
nessa posição porque o seu corpo foi modelado pela mãe Natureza para seduzir o
homem assim, induzindo-o à cópula e levando-o a procriar.
— Entre homens, as posições sexuais estabelecem uma
hierarquia entre eles. No meu
caso, esse aspecto ficou atenuado devido à nossa diferença de idade, mas se o
Vicente tivesse, digamos, a mesma idade que eu ou um ano a mais, eu teria tido
muito mais dificuldade. Talvez a penetração tivesse acontecido de outro modo, talvez
de pé, ou nem mesmo acontecido.
— Quanto a mim, continuo convencido de que era o que
você queria desde o início, declara Otávio. Quando um não quer, dois não
brigam. Mas digo isso com todo o respeito pela sua decisão de deixar-se
penetrar.
— Permita-me discordar, Otávio, responde
Bejamin, levantando-se para encher um último copo sangria para acompanhar
o epílogo.
"O que concluí dessa experiência unica foi que a
ocasião é tudo. Um jovem com os hormônios em efervescência, ávido de novidade e
repleto de dúvidas sobre o alcance autorizado para a prática sexual só precisa
de um contexto propício e alguém em quem confiar para dar vazão a temas de sua
curiosidade que ele julga inconfessáveis. Vicente era a própria incarnação
dessa pessoa amiga e confiável, um pouco mais madura mas não tanto, e o nosso
encontro casual no momento preciso em que um filme preenchia de erotismo a
atmosfera da sala de jogos completou o quadro e permitiu que as coisas
acontecessem."
— E como ficou sua cabeça depois desse dia? pergunta
Silvio. Afinal, você teve prazer sexual com alguém do mesmo sexo, e isso não é
pouca coisa na cabeça de um adolescente que se considera heterossexual.
— Eu ia chegar a esse ponto.
Benjamin concentra-se por um momento e recomeça.
"Imediatamente depois e nos dias subsequentes,
fiquei atônito, confuso, perguntando-me por que cargas d'água eu fizera aquilo
e se uma experiência como aquela era suficiente para definir-me como
homossexual. Eu me tocava no banho e olhava-me no espelho à procura de vestígios
locais que caracterizassem uma mudança de ordem física. Além disso, uma
preocupação assaltou-me a mente: como comportar-me com o Vicente daquele dia em
diante? Eu estava preparado para sentir vergonha e insegurança assim que o
revisse. Eu era mais jovem, não conhecia as manhas do disfarce e da hipocrisia,
tudo me parecia mais intenso e vívido porque sincero. Contudo, talvez por ser
inteligente e provir de uma família esclarecida como a minha, Vicente continuou
frequentando a casa e tratando-me exatamente como antes. Passamos a trocar um
olhar cúmplice, como se tivéssemos assaltado um banco juntos, mas sem mais. Ele
continuou namorando a minha irmã Julia até que ela se cansasse dele, mas não
deixou por isso de aparecer para ir à piscina, jogar vôlei ou sinuca e
conversar com a minha mãe. Além disso, e para satisfação minha, a paixão que eu
sentia pela minha namorada Elisabeth não se alterou, nem tampouco a minha
atração sexual por mulheres. Isso tudo associado à boa mentalidade da minha
família contribuiu para reequilibrar-me em pouco tempo. Longe de passar a
considerar-me homossexual e condenar-me para sempre ao estrito relacionamento
com pessoas do mesmo sexo, desejei desfrutar de uma sexualidade ampla que mais
tarde eu viria inclusive a dividir com minha esposa e que só tem feito
aprimorar o nosso relacionamento e aprofundar a nossa intimidade."
— Então tudo é questão de contexto? indaga Jaime. Você
não vê no episódio homossexual juvenil de natureza "passiva" qualquer
efeito necessariamente revelador de uma sexualidade específica virtualmente
presente naquele que o vivencia?
— Trata-se de uma mera variante de "a ocasião faz
o ladrão"? acrescenta Silvio.
— Eu obviamente não posso falar por todos; longe de
mim pretender generalizar uma experiência individual! Mas acredito que na
grande maioria dos casos, não seja um episódio como este que vá determinar ou
revelar a personalidade sexual de alguém. O sexo é coisa extremamente
misteriosa, atraente, cativante para o adolescente que está fisiologicamente
pronto a praticá-lo. E como, além disso, os preconceitos e recalques ainda não
estão sedimentados nele, parece-me muito natural que a curiosidade o leve a
admitir experiências como a minha quando o contexto é propício.
— E não só isso, senhores, mas também uma questão de
tutano, intervém inesperadamente Otávio, na certa tentando resgatar-se. É
preciso ser inteligente para viver a experiência que o Benjamin viveu e tirar
dela uma lição de abertura e não de restrição. A maioria dos mortais tomaria
isso como indício de homossexualidade e "sairia do armário" para
fechar-se na saleta dos que crêem só ser capazes de amar seus congêneres. Parabéns
e "vive la différence", meu caro! Você me surpreendeu e tenho certeza
de que, com essa mentalidade, sua vida sexual explodiu como fogos de artifício.
— O Otávio não podia deixar de ter a última palavra!
exclama Jaime, rindo para os demais.
Os quatro amigos discutem sobre o tema enquanto
degustam os tapas variados encomendados para a ocasião. Passa das
três da manhã quando Otávio levanta-se bruscamente convocando os demais a
partir com ele e dar enfim sossego ao anfitrião. Benjamin ainda fica por uns
bons momentos sentado em sua velha poltrona de couro, matutando sobre a
sensatez ou não de ter feito essas confidências e indagando se, não tendo os
seus amigos a cabeça de um Vicente, não seria agora, tantos anos depois, que
esse episódio viria a mudar algo na sua relação com eles. Um copo inacabado de
sangria permanece sobre a mesa como única testemunha dos dizeres eventualmente
suicidas proferidos no decorrer desse jogo de alto risco.

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