6. À Guisa de Distração
Os dias se passaram sem que Isabel desse qualquer notícia ou pista de que precisava rever-me, o que foi me convencendo de que ela era apenas mais uma jovem européia educada. O homem brasileiro é condicionado pela própria cultura feminina do país a associar a atenção de uma mulher para com ele a algum tipo de interesse por assim dizer "sensual", inclua este ou não o caráter sexual propriamente dito, o que é lamentável porque isso o priva do convívio espontâneo com pessoas do sexo oposto. Devo confessar com tristeza que até conhecer Isabel, eu me incluía na categoria dos homens que padecem dessa visão deturpada da mulher. Fui incapaz de imaginar Isabel como uma mulher educada e atenciosa para com um homem estrangeiro muito mais velho que ela, e sua ausência nos dias subsequentes me causou estranheza; como era possível que uma mulher tão atraente e desejável pudesse se aproximar tanto de um homem sem qualquer intenção sexual ou, "ao menos", afetiva? Eu não tirava da cabeça o episódio da escadaria, em que ela me parecera tão explícita ao mostrar seu corpo, e em seguida a ida ao forte onde ela fora iniciada e onde vimos jovens em situações sexuais reais! Tudo aquilo, no meu entender, só podia significar algum interesse por mim. Mas pelo visto, eu me enganara redondamente.
Resultado: levei cerca de uma semana me acostumando à idéia de continuar minha viagem sozinho e foi só então que voltei a procurar o imóvel que eu queria transformar em pequeno bed and breakfast. Acabei encontrando um duplex encantador, praticamente pronto para ser decorado e ter, no primeiro andar, uma sala de estar aconchegante, com lareira e uma bela estante abarrotada de ótimos livros, um pequeno refeitório , a cozinha e um banheiro; no segundo andar, quatro ótimos quartos e outro banheiro; e no sótão, um pequeno apartamento completo onde eu poderia ficar instalado quando de minhas visitas à Espanha. Isso sem esquecer o porão excelente para uma adega e o pequeno jardim dos fundos, perfeitamente adaptável para quem quisesse estar no exterior sem ter que sair do hotel. Através do meu corretor, fiz uma proposta de cinco mil euros acima do preço estipulado. Agora, era preciso esperar até a data acertada para saber qual das várias propostas já feitas seria aceita pelos proprietários. Eu estava aliviado por ter enfim desencadeado o processo, mas a espera certamente me deixaria estressado, e eu sabia disso. Ora, o que mais me relaxa é o sexo e, na falta de um contato mais íntimo com Isabel, eu precisava ir em busca de descompressão da maneira mais objetiva possível.
Todos sabem que os bares atraem mulheres interessadas em homens feitos e estabilizados. Ocorreu-me várias vezes na vida oferecer coquetéis a mulheres com essa intenção, portanto não me falta prática. Depois de um dia de praia, bem bronzeado e me sentindo bem comigo mesmo, tomei um banho, me arrumei e saí por volta das onze e meia da noite. Fui a um bar cujo nome eu anotara por indicação de um amigo, antes de viajar. Chegando lá, notei que era o lugar certo: ambiente à meia luz, pessoas falando baixinho, garçonetes supersexy com vestidos curtíssimos moldados ao corpo e seios praticamente de fora, alguns homens bem vestidos tomando coquetéis no longo balcão de madeira e casais conversando em mesas para dois. Uma linda moreninha me acompanhou da porta até o balcão, dando-me um sorriso tão amistoso que – mais uma vez – minha brasilidade interpretou como: "Se você não estiver esperando por ninguém, eu me candidato!" Mas logo vi que ela fazia isso com cada um que chegava e me acalmei. Pedi um long drink e tentei esquecer que eu estava lá com um propósito bem determinado: encontrar alguém para passar a noite.
A primeira meia-hora se passou sem nada que me chamasse a atenção; talvez fosse cedo. Mas a partir da meia-noite e meia, notei que algumas mulheres começavam a chegar desacompanhadas, indo sentar-se no bar e pedindo um Martini. Elas passavam no máximo dez minutos sozinhas, até que um homem as abordava e o casal passava para uma mesa ou saía do bar. Cheguei a ensaiar fazer o mesmo, ofereci um coquetel a uma bela e sedutora mulher de cerca de 35 anos, mas acabei recuando, curvando-me à minha inexplicavel e persistente preferência por jovens dez anos mais novas. Conversamos um pouco e me despedi gentilmente agradecendo pela companhia. E na verdade, não a senti profundamente frustrada por isso, eventualmente porque eu não fosse do lugar.
Foi no final da segunda bebida que o álcool me deu coragem para ser eu mesmo e comecei a olhar para o que mais me interessara até então: as garçonetes. Uma delas, de rostinho lindo e corpo deslumbrante em seu vestido super justo, me pareceu ter simpatizado comigo porque sorria e, a cada vez que passava, me perguntava se tudo estava ao meu gosto. Acabei pedindo a ela para me trazer um sortimento de "tapas" e uma cava. Ela me disse que eu devia me dirigir ao garçom do bar, mas insisti dizendo que gostaria de ser servido por ela, e só por ela, até o fim da noite. Lisongeada, mas visivelmente habituada a agrados dessa natureza, ela riu, informando-me que então meu fim de noite teria que ser às duas e meia da manhã porque era o fim do seu expediente. Isso me permitiu puxar conversa e acabei descobrindo não só que ela era livre, mas que ela morava longe, que o transporte era dos mais complicados e que ela chegava em casa cerca de uma hora depois. Pedi outra cava, outros tapas, sempre conversando com ela, até que, chegada a hora, ofereci-me para levá-la de taxi, pretextando (era mentira) que eu ia na mesma direção. Ela não respondeu de pronto, mas minutos depois voltou dizendo que iria comigo se o convite ainda estivesse de pé. Respirei aliviado; a noite estava salva.
A linda moreninha saiu do bar vestida num curtíssimo short que deixava suas coxas completamente de fora. Um top decotado e justo destacava seus seios e botinhas pretas tornavam suas pernas ainda mais sexy, forçando o bumbum a empinar-se. Vestida assim, tive a certeza de que ela não tinha mais de vinte anos. Sempre sorridente, ela juntou-se a mim na calçada, fez um "Ufa!" de fim de expediente e me agradeceu por ter oferecido a carona. Um taxi surgiu quase imediatamente e lá fomos nós para os confins da cidade. Eu estava preparado para deixar uma polpuda quantia ao motorista, que riu satisfeito quando ela lhe disse para onde íamos.
Quando o taxi partiu e que começamos a conversar, percebi que havia bastante reciprocidade na atitude da minha eleita. Ela se chamava Silvia e me pareceu muito à vontade para uma jovem que sai com um homem vinte anos mais velho. Conversamos sobre banalidades: estudos, trabalho, salário, família, a cidade, o país. Ela estava feliz com o que arrecadara em gorjetas: cerca de duzentos euros, que ela me mostrou toda prosa! Demorei a entrar no assunto "relacionamentos", mas assim que perguntei se ela tinha alguém, ela fez questão de me dizer que seus poucos namoros não tinham dado em nada, que ela era impaciente e não os mantinha por mais de três meses e que ela preferia se sentir livre. Talvez por um ato falho, ela me deixou também perceber que prezava muito não só a sua independência, mas o seu conforto. Logo entendi que ela dava valor aos seus pertences, a tudo que ela tinha adquirido em termos de bens materiais, com seu salário de garçonete, sobretudo constituído de gorjetas. Ela só não tinha carro, mas por opção porque ela desenvolvera um medo inexplicável de dirigir, mas se orgulhava de ter um apartamento lindamente decorado e de viajar sempre para o exterior nas férias. Ela conhecia muitas cidades, em vários países europeus e sonhava ir a Nova Iorque, sonho que estava longe de lhe parecer inatingível. Ela era muito segura de si no que dizia respeito à realização de sonhos. Mostrei-me admirado, encorajei-a e ela gostou disso. Perguntei-lhe se ela tinha alguma curiosidade pela América espanhola, mas a resposta foi não. Perguntei-lhe por quê, e ela me explicou que se em algum momento ressentisse o desejo de ver de perto a pobreza e o sub-desenvolvimento, atravessaria o estreito de Gibraltar, passaria duas semanas entre o Marrocos e a Tunísia e se daria por satisfeita. Sentado ao seu lado e fazendo que prestava toda a atenção do mundo, eu olhava de relance para baixo e via suas lindas coxas desnudas, bem como boa parte dos seios praticamente soltos dentro do top. Olhando-me nos olhos, Silvia parecia perfeitamente consciente do efeito que seu corpo exercia sobre um homem e em momento algum fez-se de menina indefesa ou propensa ao não-me-toques.
Meia-hora depois, o momento delicado enfim chegou quando chegamos ao endereço dado ao motorista. Ele parou o carro exatamente diante do imóvel de cinco andares, todo de tijolinhos e completamente apagado. Não cabia a mim tomar a iniciativa, então limitei-me a pagar o taxi e a dizer a Silvia que eu continuaria a pé porque meu hotel não era longe. O taxi partiu deixando-nos na calçada, um diante do outro. Quando eu me preparava para prosseguir em minha encenação com dois beijinhos de despedida, Silvia, me perguntou se eu não queria tomar um último chá ou café na casa dela, explicando que chegava do trabalho agitada e só ia para a cama por volta das quatro da manhã. Olhei para o relógio, passava das três da manhã.
– Não quero prejudicar seu sono, Silvia. Se começarmos agora, vamos virar a noite conversando.

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