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Erotexto é um blogue dedicado ao erotismo que tem por característica uma rica diversidade de estruturas narrativas. Seu objetivo é triplo: entreter, desenvolver o interesse pela escritura e - o principal - motivar a reflexão sobre a libido e a busca do prazer, cujo fundamento biológico acredito ser de caráter essencial e universalmente bissexual.

Erotexto tem formato fixo. A primeira página comporta a última narrativa proposta (não necessariamente a última criação). O material arquivado consiste de contos e relatos classificados por categoria sob a rubrica "EroStock" (coluna à direita), bem como séries, novelas e folhetins. Para conhecer a acepção em que cada estrutura narrativa foi tomada, convido o leitor a clicar em "Pequena Teoria da Narrativa", aqui acima.

Uma comunicação contínua com o leitor faz-se através da rubrica "EroNovas", a primeira da coluna à direita. Meu e-mail está à sua disposição. Para reagir a uma publicação, clique na palavra "comentário", abaixo de cada texto.

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Marc Fauwel

A Odisséia de Aninha (folhetim, episódio XXXII)

32. Terceira Vida

Foi de Mercedes sport que Aninha deixou Cabo Frio rumo à Zona Sul do Rio de Janeiro, mas estava tão cansada que dormiu a viagem inteira e, ao chegar, foi carregada por Kleber até a cama do pequeno sala-e-quarto de um edifício típico da Av. N. S. de Copacabana. Ele a pôs na cama e deixou um bilhete na mesa da sala com o celular dela servindo de peso.

"Ana, você não vai encontrar nada na geladeira, mas o apartamento está limpo e você não terá dificuldade de descobrir o comércio do bairro. Pergunte ao porteiro onde é o supermercado. Fique à vontade e não se preocupe, o apartamento está vago e é seu até que você consiga se organizar por aqui. Não sei se você conhece bem a Zona Sul, então dê tempo ao tempo.

Tomei a liberdade de desligar seu telefone para que você durma. Me ligue assim que estiver descansada.
Um beijo,

Kleber"

E Aninha dorme por quarenta e oito horas sem interrupção e sem sonhos, sendo despertada por uma lâmina de raios de sol que se insinua pela fresta na cortina e vai incidir obliquamente sobre seu rosto. Ela sorri ao constatar sob o lençol que o gentil Kleber a despiu para o seu conforto. O longo espelho que recobre o armário inteiro reflete a cama. Aninha se levanta e caminha até ele. Pequenas marcas ainda presentes em seu corpo lembram o episódio recente e um frio úmido açoita-lhe a espinha. Ela caminha até a sala, encontra o bilhete, religa seu telefone e sem se importar com a nudez dos seios, vai ler o bilhete à janela que dá para uma das avenidas mais célebres da Cidade Maravilhosa. Ela está a quilômetros do seu bairro de subúrbio, mas jura nunca mais pôr os pés num ônibus que leve a ele. Observando o tráfego intenso e a muralha de edifícios do lado oposto, ela pensa na vida tentando não se deprimir com o passado nem se angustiar com o futuro.

Tomando o primeiro banho de sua nova vida, Aninha se pergunta quantas vidas ainda lhe restarão. Apesar das marcas passageiras, exteriormente o seu corpo é o mesmo que a orgulha desde de que se tornou corpo de mulher. Sob a água tépida, ela ensaboa o pescoço e os braços, percorre os seios com as mãos, encontrando-os firmes e bem feitos. Impaciente, ela desliza pela barriga e chega ao sexo, percorrendo a fenda com um dedo, depois curvando-se para explorar detidamente o entrelábios e a vulva, até certificar-se de aquela noite de violência, ainda tão recente, não lhe trouxe algum prejuízo irreparável. Em seguida, ela ensaboa o interior das nádegas, um pouco ansiosa com um certo incômodo. Tudo lhe parece em ordem, exceto por uma pequena intumescência globular que já lhe brotou em outras ocasiões e que ela sabe não ser duradoura. Por sorte, o orifício apresenta um diâmetro e elasticidade normais e obedece às contrações voluntárias. Aninha não tem ilusões: seu corpo ainda há de ser-lhe de muita utilidade. Ela se enxuga, penteia e sai do banheiro nua pensando em desfazer a bagagem e arrumar as roupas no armário antes de descer para tomar café e fazer compras. Ao entrar no quarto, seu telefone toca, na sala. Ela corre atender.
- Kleber!
– Oi, Ana! Dois dias, hein! Deu para descansar?
– Desmaiei, menino! Dormi dois dias seguidos. Nem sei como cheguei aqui!
– É, você "apagou" no carro. Te levei para cima e botei na cama. Mas não fiz nada, juro!
– Haha! Vou fingir que acredito! Brincadeira.
– Eu sei, eu sei. Estou telefonando para saber se está tudo bem e se você precisa de alguma coisa. Estou muito ocupado, sem tempo de dar um pulo aí nesta semana.
– Está tudo bem. Vou arrumar umas coisas e sair para tomar café e descobrir onde é o supermercado. O dia está bonito; talvez eu dê um pulo até a praia.
– Isso. E relaxa porque eu acho que tenho alguma coisa a propor quando você quiser voltar a trabalhar.
– Sério? Você é o meu anjo da guarda! Te amo, Kleber!
– Mas primeiro descanse. A gente fala nisso daqui a uns dias. Agora deixa eu ir para a minha reunião. Beijo.
– Outro. E obrigada!

Sentindo-se leve, Aninha arruma suas roupas no armário vazio, onde ela encontra dezenas de cabides. Em seguida, ela vai enchendo as cinco gavetas de cima para baixo, com milhares de calcinhas, sutiãs, meias, biquínis, acessórios. Ao chegar à última, sente-a emperrada. Ela puxa, mas nada. Ela então retira a penúltima gaveta e, enfiando o braço pela abertura, vai tatear o exterior da gaveta emperrada até chegar ao fundo, onde parece estar a fonte do problema. O que a bloqueia parece ser um pacote embrulhado em plástico, que deve ter estado dentro da gaveta e certamente escorregou por trás dela. Com certo esforço, Aninha consegue extrair o objeto e liberar a gaveta. Ela sorri de satisfção ao ver a gaveta deslizar normalmente nos trilhos. Mas o tal embrulho a deixa tão curiosa que em vez de voltar à arrumação, ela vai sentar-se na cama para examinar seu conteúdo.

São fotos cuja primeira o invólucro de plástico deixa entrever. Ela o retira e fica com um maço de ampliações na mão, todas em tamanho 9cm x 13cm, antigas, certamente feitas a partir de negativo. Essa primeira foto mostra uma mulher jovem de costas, tomando banho num banheiro que se parece muito com o do apartamento em que ela, Aninha, se encontra. Da foto seguinte em diante, são fotos de sexo da mesma mulher com homens variados, e não há dúvida, todas foram tiradas ali, naquele apartamento.

Aninha está intrigada. Hoje em dia é fácil fotografar tudo, até mesmo em segredo, mas com as máquinas antigas, tendo que revelar os negativos, tudo era muito mais complicado. Em se tratando de fotos eróticas, então, nem se fala! Ela não vê bem como uma mulher se fotografaria fazendo sexo com seus parceiros e iria em seguida tranquilamente mandar revelá-las na ótica da esquina! Além disso, as fotos estão todas em foco e muito bem enquadradas, como se fossem tiradas por um profissional.

Aninha olha uma por uma da coleção de cerca de quarenta fotos. A mulher aparece de frente em quase todas e nas mais variadas posições e situações. É uma lourinha de uns dezenove ou vinte anos que lhe parece sem graça de rosto mas de corpo muito bem feito. "Está na cara que é gringa", pensa Aninha, sentindo-se escolada em fisionomias estrangeiras depois do seu contato com a sua ex-patroa francesa. "A putinha veio trepar no Brasil!", decide ela cinicamente. A jovem da foto não parece ter preferências no que respeita os seus parceiros: negros e não negros, velhos e não velhos, feios e não feios, gordos e não gordos, dotados dos mais variados atributos, cerca de vinte e cinco homens (alguns aparecem em mais de uma foto) são exibidos em posições sexuais nos quatro cômodos do apartamento, em companhia da mesma moça, que mostra disposição e bom-humor em cada uma delas. Aninha é forçada a reconhecer que não há qualquer peso na atmosfera revelada pelas fotos, o que demonstra pleno consentimento mútuo e prazer. O mistério é o fotógrafo: quem terá fotografado essa gente em ação? Que uma pessoa ou duas concordassem em ser fotografadas, até se entende, mas cerca de vinte e cinco?! Aninha é levada a crer que se trate de uma atriz pornô de "antigamente" (entenda-se: dos anos 80) que teria vindo filmar com cariocas num apartamento alugado de Copacabana. "É, só pode ser isso." diz ela, achando graça de ter falado sozinha.

Relaxada e de bom humor, Aninha termina de arrumar as gavetas, coloca um short e uma camiseta da Conchas e Crustáceos, e sai para tomar café e fazer as primeiras compras do início de sua terceira vida.

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