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Erotexto é um blogue dedicado ao erotismo que tem por característica uma rica diversidade de estruturas narrativas. Seu objetivo é triplo: entreter, desenvolver o interesse pela escritura e - o principal - motivar a reflexão sobre a libido e a busca do prazer, cujo fundamento biológico acredito ser de caráter essencial e universalmente bissexual.

Erotexto tem formato fixo. A primeira página comporta a última narrativa proposta (não necessariamente a última criação). O material arquivado consiste de contos e relatos classificados por categoria sob a rubrica "EroStock" (coluna à direita), bem como séries, novelas e folhetins. Para conhecer a acepção em que cada estrutura narrativa foi tomada, convido o leitor a clicar em "Pequena Teoria da Narrativa", aqui acima.

Uma comunicação contínua com o leitor faz-se através da rubrica "EroNovas", a primeira da coluna à direita. Meu e-mail está à sua disposição. Para reagir a uma publicação, clique na palavra "comentário", abaixo de cada texto.

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Que Erotexto possa excitar de modo agradável, são e prazeroso, inspirar o leitor a escrever suas próprias histórias e principalmente, motivar a reflexão.

Marc Fauwel

Sonho Espanhol (folhetim, episódio III)

3. Labirinto

Conhecendo como a palma da mão o emaranhado de ruelas da cidade antiga, Isabel propôs mostrar-me o que poucos turistas solitários aventuram-se a ir ver por medo de embrenhar-se naquele labirinto e correr o risco de ser atacado por um sinistro mouro de sabre e turbante emboscado nas sombras. Uma brecha entre dois prédios dava acesso a uma longa escadaria de degraus muito longos e baixos. Começamos a subir, achando graça dos homens que olhavam para jovens de minissaia alguns degraus adiante.
– Essa escadaria é famosa por isso! disse Isabel.
– Pelos voyeurs?
– Pelas mulheres exibicionistas!
– Sério?
– É. Elas se sentem seguras porque o local é turístico, então usam e abusam das saias curtas e nem olham para trás para saber quem está observando. De dia, obviamente! À noite é arriscado.
– Você já fez isso?
– Quantas vezes!
– Qual é o efeito?
– Da primeira vezes, vim com amigas que já tinham feito, mas assim que me dei conta de que os homens realmente me olhavam, me senti invadida e tão encabulada que não consegui continuar subindo; tive que me encostar no muro, esperei que todos passassem e voltei para baixo.
– Foi tão difícil assim?
– Odioso! Me senti nua em público e detestei a sensação.
– Mas hoje você parece gostar. Como foi a evolução?
– Bem, isso aqui é como um ritual de passagem para as meninas. Assim que as amigas dizem que você está pronta, é hora de enfrentar a escadaria.
– E quando é que uma menina é julgada estar "pronta"?
– Assim que as amigas descobrem que os meninos começaram a notar e falar do seu corpo – coisa que a gente nunca descobre sozinha –, elas marcam a data e você é obrigada a ir.
– Privilégio das mais bonitas de corpo e de rosto?
– De corpo. Nesse caso, o rosto nem conta.
– Entendi. As amigas convencem a neófita de que ela merece passar pela iniciação e trabalham para que a experiência acabe sendo agradável, mesmo que isso não aconteça da primeira vez.
– Exatamente. Eu precisei de umas dez vezes para me acostumar e querer voltar. Se você for desajeitada, os homens notam e riem; não há nada mais humilhante.
– E qual é o efeito quando você enfim "se solta"?
– Ah, é ótimo. A gente esquece que eles estão lá e sobe a escada com toda a naturalidade, sem olhar para trás nem tentar prender a saia com as mãos. Fora de estação, quando só tem gente daqui, os caras gritam, gemem, assoviam, aplaudem, fingem que vão rolar a escada, em sinal de aprovação. Essas reações dão autoconfiança e fazem querer voltar. Com o tempo, a gente sente até prazer.
– Sexual?
– Sim, já me senti exitada subindo.
– Uau! E nunca há assédio de algum mais engraçadinho que tenta chegar mais perto ou tocar em vocês?
– Claro, mas como a gente vem aqui em grupo e durante o dia, é fácil dissuadi-los.
– Devo deduzir que você ia subir essa escada mesmo sem mim, hoje?
– Ha! Ha! Bobo!
– Não me diga que vai perder este espectador! Pode tratar de subir na minha frente!

E comecei a retardar o passo para mostrar que não estava brincando. Isabel não se fez de rogada. Dando um risinho, foi galgando os degraus sem tocar na curtíssima saia de tecido fino como seda, deixando-me segui-la à distância e apreciar as duas dobrinhas sensuais que se formavam a cada passo, e o trecho de calcinha entre as coxas, abaulada como um fundo de colher, perfeitamente ajustada ao sexo. Pude ouvir os comentários de dois rapazes logo abaixo de mim, que não hesitaram em dar-me uma piscadela cúmplice quando olhei, indicando-me Isabel com o queixo, ignorando que nos conhecíamos. Como é interessante esse culto civilizado do erotismo, pensei uma vez mais com meus botões, imaginando o quanto deve ser agradável à mulher poder mostrar sem medo de ser agredida aquilo que ela sabe ser bonito em seu corpo.

À certa altura, Isabel parou para esperar-me com um sorriso maroto e franco nos lábios, como se perguntasse: "E então, aproveitou o espetáculo?" Eu estava excitado. A longa escadaria chegara ao fim e penetramos no labirinto de ruas por uma estreita ruela calçada de pedras e ladeada das paredes caiadas de casinhas de dois andares. Os grupos de pessoas se diluíram na rede capilar que se multiplicava geometricamente, e logo nos vimos sozinhos. Isabel puxou-me pelo braço e andei ao seu lado sentindo vez por outra as costas da mão roçarem-lhe a coxa. A solidão, o silêncio, o céu azul e o sol aliavam à sensualidade do momento uma alegria renovada para mim. Caminhamos assim por alguns minutos, embrenhando-nos mais e mais no intricado novelo de ruelas.
– Para onde você está me arrastando? Não vá me soltar aqui e  sair correndo, hein! exclamei brincando.
– Você já vai ver, disse ela, dando uma paradinha.

Sua mão foi repousar na cintura. A respiração ligeiramente ofegante me permitia ver uma boa porção dos seios soltos na blusa fina. Eu não me cansava de admirar o corpo da espanholinha que, a cada atitude, a cada gesto, me surpreendia pela sensualidade. Por um instante, Isabel me pareceu uma personagem saída de um episódio de hentai, uma menina que mal desconfiasse do seu potencial erótico. Mas eu sabia que isso era pura impressão minha e que a última coisa a fazer seria tratar minha jovem guia como se sua única intenção fosse mostar a cidade a um estrangeiro quarentão bem-apessoado. Ela me seduzira pelas coxas e continuava a se servir do corpo para atrair-me. Não que houvesse algo a suspeitar em sua conduta, não se tratava disso, era uma jovem de boa família sem o menor traço de desonestidade ou de vulgaridade, mas ela estava possivelmente testando seu "poder de fogo", sua capacidade de seduzir um homem maduro exclusivamente através de atributos físicos que ela já sabia serem extremamente cativantes, para dizer o mínimo. Autoconfiante por natureza, Isabel devia sentir-se capaz de levar o jogo adiante, mas talvez não soubesse até que ponto e quisesse precisamente descobrir se havia limite e onde estaria esse limite.


Durante o passeio, nos sentamos por duas ou três vezes no meio-fio, à sombra, para descansar, e pude notar que ela abria negligentemente as pernas, ainda que houvesse pessoas do lado oposto. Alguns homens olhavam-na franca e demoradamente e isso parecia agradá-la porque ela redobrava de animação na conversa comigo, vez por outra procurando observadores com o canto dos olhos. Tudo nela parecia muito consciente de que havia poder em seu corpo, algo de que ela devia absolutamente ser capaz de usar em seu proveito. Conjeturei que se um passeio análogo àquele acontecesse no Brasil, uma jovem com a educação de Isabel já teria sido grosseiramente sinalizada de que se sua atitude não significasse sedução aberta a todo e qualquer homem, e uma disponibilidade até as últimas consequências, então seria melhor que ela mudasse de atitude e se mantivesse discreta. Concluí que a diferença entre nós do terceiro mundo e eles do mundo civilizado estava ali, no grau de liberdade concedido a cada um e no respeito a essa liberdade, seja qual for o grau que cada um consiga atingir por si próprio. Isabel sentia-se livre para pôr à prova o poder de sedução do seu corpo, estava certamente fazendo isso e estava coletando os dados provenientes das reações dos homens para conhecer-se a fundo e ser capaz de usar suas qualidades com proveito. Quando entendi isso, maravilhei-me uma vez mais com a natureza humana e passei a ser o espectador privilegiado das experiências da minha jovem cicerone que se banhava aos olhares ávidos dos homens de todas as idades, arrastando-me no turbilhão dessa sua euforia narcísica no melhor sentido. Como ela, devia haver várias ali fazendo o mesmo, testando o fulgor da sua luz própria, mas afirmo sem falta modéstia que o astro de brilho mais intenso estava em minha companhia. À medida que subíamos, eu tinha a impressão de que todos os olhares convergiam para Isabel, para as lindas coxas de Isabel, e que isso a carregava de uma força erótica que só eu, caminhando ao seu lado, era capaz de perceber e da qual eu tinha alguma chance de ser o mais provável destinatário.


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